segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Como é que ensino filosofia? Parte 5



As dificuldades


Como docente de filosofia assumo muitas dificuldades inerentes à profissão. Nem todas são explícitas para poder aqui postar no blog, mas entre as principais que deveriam ser incluídas em qualquer boa reforma do sistema educativo, destaco:


- Falta de actualização de conhecimentos em ciências da educação. A investigação que temos disponível em ciências da educação parece-me demasiado carregada pela ideologia, em sentido fraco. Trata-se de um estudo fortemente marcado pelo construtivismo. Não estou a defender que não se estude as teorias construtivistas aplicadas às ciências da educação, mas não faz qualquer sentido estudá-las como se fossem o supra sumo da teoria educativa ou fosse a única corrente pensada até aos dias de hoje. Há falta de discussão e diversificação de conhecimentos a este nível. As formações disponíveis relacionadas com as ciências da educação são, em regra, muito pobres e pouco dadas à discussão e aplicação de técnicas que possam ajudar o professor a ultrapassar as dificuldades. Mesmo não sendo a minha maior área de especialização é verdade que muitas das vezes sinto que os professores não sabem como dar respostas a muitas situações por ausência de conhecimentos que constituiriam a ferramenta essencial para ajudar a responder a situações mais complexas. São inúmeras as vezes em que as respostas não saem muito do senso comum.


- A quase total ausência de formação em filosofia em ensino é, do meu ponto de vista, trágico para o ensino da disciplina. E aqui creio que a culpa está directamente no ensino superior. Quem melhor está preparado para formar professores do secundário senão os “especialistas” do superior? Para além do mais seria essa uma forma de ir ao secundário recrutar alunos interessados nos cursos de filosofia. Não faz qualquer sentido que o ensino superior se desligue da realidade do mundo. O nosso ensino superior ainda anda de costas voltadas para os jovens e para o ensino secundário, com as consequências que se sabe. E neste ponto creio que não há responsabilidades políticas, parte das pessoas o interesse em construir a sua disciplina, trabalhar para o seu sucesso e interesse. Há todo um trabalho de divulgação junto das pessoas e das escolas a ser feito. Este descer à terra poderia ser decisivo e não implica tantos recursos quanto se possa pensar à partida. Em Portugal ainda se olha para o trabalho intelectual como se este fosse uma entidade sagrada, disponível só para alguns. O trabalho intelectual deve ser divulgado e estar disponível para os que menos acesso a ele têm.

2 comentários:

Luís disse...

Rolando,
Parabéns pela iniciativa de publicar estes textos reflexivos (de índole fortemente prática, imagine-se!) sobre a prática docente, em particular no grupo 410.
Revejo-me na atitude, nas dificuldades e nos diagnósticos. Mas sinto algumas dificuldades de modo mais intenso, dado que será o sétimo ano lectivo em que não sei nem quando, nem onde, nem a quem, nem o que vou leccionar. Se juntarmos às disciplinas que já mencionaste, as "novas" disciplinas disfarçadas de novas oportunidades... adiante, tristezas não pagam...
Gostava de sublinhar o modo como - através da minha experiência - os alunos reconhecem a importância de aulas simples, claras e exigentes. Mesmo as turmas mais difíceis acabam por reconhecer a importância das regras e das aulas que se "despem" dos novos meios para se concentrar no essencial da aprendizagem. Sem rodeios, frases bonitas (mesmo se incompreensíveis!) ou cedências "amiguistas". Pena é que em todos esses casos não tenha podido prosseguir o trabalho com esses alunos no ano seguinte, aprofundando, corrigindo, melhorando o nosso (alunos e professor) trabalho.
Quanto aos meios (projectores, pc´s ou vídeos) a minha experiência é a da escassez desses meios, por um lado, e de meios adequados e a funcionar convenientemente, por outro. Se juntarmos o meu cepticismo à aplicação de filmes na exploração de argumentação filosófica, estamos falados. Seria algo a que poderia dar alguma atenção (estudando, experimentando) caso tivesse alguma estabilidade e os meios estivessem facilmente disponíveis.
A terminar aproveito para sublinhar a importância de fazer sempre referências bibliográficas (filosofia e não só, claro). Na esperança que até possam ler alguma coisa na internet, por exemplo.
Um abraço e parabéns, mais uma vez.
Pelo trabalho claro, livre e partilhado.
Luís Vilela.

Rolando Almeida disse...

Olá Luís,
Que bom teres respondido. Tenho consciência que estes apontamentos deixam muita coisa de fora. Um dos pontos que ainda não abordei é a dispersão de disciplinas que nos cabe ensinar. Mas nesse ponto acho que há que aproveitar. Se os professores de filosofia refilarem, isso significa que as disciplinas são atribuídas a outros grupos, nomeadamente os de geografia e história.
A questão da instabilidade não a esqueci num momento ou outro dos meus apontamentos já que eu próprio a vivi durante uns 8 anos. Saltei de escola para escola sem saber o que esperar. Como referi a determinado momento num dos posts, entrei numa escola e passada meia hora estava já a leccionar dentro da sala de aula. É certo que já não vivo os dias da instabilidade profissional, mas não tenho qualquer poder sobre o que vou leccionar em cada ano. Estou dependente dos colegas que estão à minha frente e que, em regra, organizam as suas preferências em função dos horários dos filhos, das mães e dos avós. Não tenho essa atitude. Já cedi turmas minhas porque havia alguém mais interessado nelas e nos horários das mesmas. O trabalho de continuidade numa escola é muito importante já que só dessa maneira um professor se consegue organizar pessoal e profissionalmente. Mas o nosso ministério da educação sempre se esteve nas tintas para isso e esta história dos concursos de 3 e 4 em 4 anos só veio baralhar ainda mais, já que a maioria dos professores continua, efectivamente, afastado da sua área de residência. Na minha altura (agora é mais difícil) tive de optar entre a instabilidade no continente e a estabilidade na ilha da Madeira, onde resido há quase uma década. Estabeleci-me por cá pois aqui pelo menos ganhei em estabilidade. E a verdade é que com a estabilidade comecei a preocupar-me mais com a escola e com o ensino. Isto deve-se à disponibilidade e ao compromisso que acabamos por estabelecer quando sabemos que é na escola X que podemos desenvolver os nossos projectos e colocar as nossas ideias em prática. As minhas lutas agora são essas, a de progressivamente convencer os colegas que devemos e temos muito trabalho a realizar dentro do grupo e da disciplina. Muitas vezes esse trabalho leva anos. È como trabalhar com os alunos 
Em relação às referências bibliográficas. Já escrevi sobre isso no blog em tempos. Todos os anos, em diversas ocasiões, levo livros de filosofia adequados aos alunos e falo-lhes dos livros. Sem ser vendedor de livros, todos os anos, em 4 turmas que tenha de filosofia, consigo “vender” 4 a 5 livros. Imagina lá Luís que todos os professores fizessem o que fazemos? Isso significaria mais vendas, mais traduções, mais interesse, mais divulgação. Sou muito sensível a esta coisa de divulgar a filosofia. Aqui na Madeira, até à RTP Madeira já fui falar de filosofia, imagina. Aqui há uns anos, quando tinha a mania de intelectual, abominava estas coisas. Mas comecei a ver o mundo a avançar e eu a ficar para trás 
Obrigado pelo teu comentário e palavras e votos de um bom trabalho
Aparece sempre
abraço