terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O melhor da filosofia em 2015 (Edições de Portugal)

O mercado de edição em filosofia em língua portuguesa é sempre modesto, principalmente no que respeita a obras de caráter introdutório às mais diversas áreas da filosofia. Por outro lado as exigências profissionais tornam o tempo para ler cada vez mais reduzido, sendo necessário muitas vezes roubar tempo à vida para concretizar algumas leituras. De seguida apresento a minha colheita do melhor que se publicou em Portugal durante 2015. É uma lista pessoal que, espero, possua alguma objetividade quanto ao seu interesse e relevância. 


João Carlos Silva, Por amor à sabedoria, Chiado Ed.


Pedro Galvão, Ética com razões, FFMS


Nigel Warburton, Liberdade de Expressão, Uma breve introdução, Gradiva


Paul Boghossian, O medo do conhecimento, Contra o relativismo e o construtivismo, Gradiva


Stewart Shapiro, Filosofia da matemática, Ed 70


Sofia Miguens e Susana Cadilha, John McDowell, Uma análise a partir da filosofia moral, Colibri


Simon Blackburn, Vaidade e ganância no século xxi, Os usos e abusos do amor próprio, Temas e Debates


Michael Sandel, O que o dinheiro não pode comprar, Os limites dos mercados, Ed. Presença


Amedeo Balbi, Rossano Piccioni, Cosmicomix, A descoberta do big bang, Gradiva

sábado, 12 de dezembro de 2015

Livre-arbítrio, determinismo e responsabilidade moral

O problema do livre-arbítrio versus determinismo surge devido a uma aparente contradição entre duas ideias plausíveis. A primeira é a ideia de que os seres humanos têm liberdade para fazer ou não fazer o que queiram (obviamente, dentro de certos limites — ninguém acredita que possamos voar apenas por querermos fazê-lo). Esta é a ideia de que os seres humanos têm vontade livre — ou livre-arbítrio. A segunda é a ideia (...) de que tudo o que acontece neste universo é causado, ou determinado, por acontecimentos ou circunstâncias anteriores. Diz-se daqueles que aceitam esta ideia que acreditam no princípio do determinismo e chama-se-lhes deterministas. (Daqueles que negam esta segunda ideia diz-se que são indeterministas.)
Pensa-se frequentemente que estas duas ideias entram em conflito porque parece que não podemos ter livre-arbítrio — as nossas escolhas não podem ser livres — se são determinadas por acontecimentos ou circunstâncias anteriores.

2. Os deterministas radicais resolvem o problema negando que tenhamos livre-arbítrio, concluindo que, de facto, não somos moralmente responsáveis pelas nossas acções ou escolhas. Eles tendem a defender o seu ponto de vista a partir da teoria determinista segundo a qual tudo é causado. Assim, chamam a atenção para experiências e crenças comuns que parecem implicar que as coisas se comportam de uma forma regular (o açúcar não faz as coisas saberem doces num dia e amargas no dia seguinte), para o comportamento humano diário (nem mesmo pilotos de carros de corrida podem escolher conduzir bem estando bêbados), e também para o enorme sucesso da ciência moderna na descoberta de relações causais (não podemos escolher bater os braços e voar para a Lua).
Embora muitas pessoas argumentem contra o determinismo radical defendendo que o determinismo em geral está errado, as provas a favor do determinismo são muito fortes, razão pela qual se quisermos rejeitar o determinismo radical teremos de o fazer com base na ideia de que a liberdade de acção e de escolha não contradiz o determinismo, pelo que temos efectivamente justificação para considerar as pessoas moralmente responsáveis mesmo que as suas acções e escolhas sejam causadas ou determinadas.
3. Os libertários ou libertaristas defendem que o livre-arbítrio é possível apenas se o determinismo for falso e que, pelo menos nas situações morais típicas, temos de facto livre-arbítrio. Por este motivo, temos justificação para considerar as pessoas moralmente responsáveis pelo que escolhem e fazem.
Os libertários defendem o seu ponto de vista com base em que, primeiro, apenas o seu ponto de vista permite considerar as pessoas moralmente responsáveis pelas suas acções (eles não têm nenhuma vontade em acreditar que não tem sentido fazê-lo), e, em segundo lugar, sentimo-nos livres quando fazemos escolhas morais.
Os adversários tendem a opor-se ao libertarismo por três razões. Primeiro, acreditam que o determinismo é verdadeiro e não temos vontades sem causas ou auto-causadas. Em segundo lugar, eles defendem que não nos sentimos livres de forças causais (porque as causas não são o tipo de coisas que possamos sentir), mas antes de compulsão ou coerção. E, em terceiro lugar, defendem que se tivéssemos efectivamente vontades não causadas, não faria qualquer sentido considerarmo-nos responsáveis pelas nossas acções, porque não resultariam do nosso carácter e, assim, não seriam uma indicação de quem realmente somos.
4. Os deterministas moderados defendem que os deterministas radicais e os libertaristas estão errados, em parte porque usam uma concepção errada de liberdade da vontade. A concepção pertinente é que somos livres quando escolhemos e fazemos o que queremos fazer e não somos forçados ou compelidos contra a nossa vontade. Eles distinguem frequentemente entre dois tipos de compulsão ― interna e externa ― consoante a força compulsória é interior ou exterior aos nossos corpos.
Os deterministas moderados defendem a sua posição apelando a todas as provas que favorecem o determinismo em geral e salientando que o seu ponto de vista se conforma com a prática diária. Quando temos de decidir na vida diária se as pessoas devem ser consideradas responsáveis pelo que fazem, não perguntamos se as nossas acções são causadas mas antes se são ou não compelidas ou forçadas. Quando as pessoas fazem o que querem fazer, sentimos (com algumas excepções devido a razões precisas) que são moralmente responsáveis pelo que fazem.
Algumas pessoas rejeitam o determinismo moderado porque rejeitam o determinismo em geral. Outras rejeitam-no devido a acreditarem que até agora os deterministas moderados não foram capazes de lidar com certos tipos de casos e porque não explicaram adequadamente o seu critério de compulsão. Além disso, após terem ouvido a teoria dos deterministas moderados, especialmente os libertarianos ainda consideram totalmente implausível considerar as pessoas responsáveis pelas suas acções se essas acções são determinadas por acontecimentos ou circunstâncias passados. Se o determinismo é verdadeiro, afirmam eles, então os seres humanos são exactamente como robots ou computadores complexos e ninguém se sente justificado em repreender ou punir um computador quando ele avaria.
Finalmente, foi sugerido que talvez seja este o ponto principal. Tratamos os seres humanos, de forma diferente dos robots ou computadores porque nós de alguma forma sentimos de forma diferente a seu respeito.

Howard Kahane, Thinking About Basic Beliefs, Wadsworth, Belmont, 1983, pp. 43-64.
Tradução de Álvaro Nunes (versão síntese neste blogue)

Livre arbítrio

‘Livre arbítrio’ é o nome convencional de um tópico que é mais adequadamente discutido sem referência ao arbítrio (vontade). As suas questões centrais são ‘O que é agir (ou escolher) livremente?’, e ‘O que é ser responsável pelas nossas acções (ou escolhas)?’ Estas duas questões estão ligadas intimamente, pois a liberdade de acção é necessária, embora não suficiente, para a responsabilidade moral.

Os filósofos dão respostas muito diferentes a estas questões e, portanto, também a duas questões mais específicas acerca de nós: (1) Somos agentes livres? e (2) Podemos ser responsáveis por aquilo que fazemos? As respostas a (1) e (2) vão de ‘sim, sim’ a ‘não, não’ – passando por ‘sim, não’ e vários graus de ‘talvez’, ‘possivelmente’ e ‘num certo sentido’. (O quarto par das respostas directas, ‘não, sim’, é raro, mas parece ser aceite por alguns protestantes). Entre os que respondem ‘sim, sim’ são proeminentes os compatibilistas, que sustentam que o livre arbítrio é compatível com o determinismo. Sucintamente, o determinismo é a teoria que diz que tudo o que ocorre é exigido pelo que já aconteceu anteriormente de um modo tal que nada pode acontecer de um modo diferente daquele que acontece. Segundo os compatibilistas, a liberdade é compatível com o determinismo, porque a liberdade é fundamentalmente apenas uma questão de não ser constrangido ou impedido em certos sentidos quando agimos ou escolhemos. Assim seres humanos adultos normais em circunstâncias normais são capazes de agir e escolher livremente. Ninguém lhes aponta uma arma à cabeça. Não estão drogados, agrilhoados ou sujeitos a compulsão psicológica. São, portanto, completamente livres para escolher e agir mesmo que toda a sua estrutura física e psicológica seja inteiramente determinada por coisas pelas quais não são de maneira nenhuma responsáveis – começando pela herança genética e pela educação inicial.

Os incompatibilistas sustentam que a liberdade não é compatível com o determinismo. Salientam que se o determinismo é verdade, então cada uma das nossas acções foi determinada para acontecer tal como aconteceu antes de nós termos nascido. Sustentam que não podemos ser, neste caso, considerados verdadeiramente livres e, consequentemente, moralmente responsáveis pelas nossas acções. Pensam que o compatibilismo é um ‘miserável subterfúgio…, um insignificante malabarismo de palavras.’, como diz Kant na sua Crítica da Razão Prática (1788). O compatibilismo não consegue de modo nenhum satisfazer as nossas convicções espontâneas acerca da natureza da responsabilidade moral.

O argumento dos incompatibilistas é um bom argumento. Os incompatibilistas podem ser dividos em dois grupos. Os libertários respondem ‘sim, sim’ às perguntas (1) e (2). Sustentam que somos de facto livres e agentes moralmente responsáveis e que, portanto, o determinismo tem de ser falso. A sua grande dificuldade é explicar de que vale afirmar que o determinismo é falso quando se trata de estabelecer o nosso livre agir e a nossa responsabilidade moral. Suponhamos que nem todo o acontecimento é determinado, e que alguns acontecimentos ocorrem aleatória ou fortuitamente. Como é que a nossa pretensão à responsabilidade moral pode ser reforçada pela suposição de que o que nós somos e o que são as nossas acções é da ordem do fortuito ou do aleatório?

O segundo grupo de incompatibilistas é menos optimista. Responde ‘não, não’ às questões (1) e (2). Concorda com os libertários que a verdade do determinismo inviabiliza a genuína responsbilidade moral, mas argumentam que a falsidade do determinisno de nada adianta. Assim, concluem que não somos genuinamente agentes livres ou moralmente responsáveis seja o determinismo falso ou verdadeiro. Um dos seus argumentos pode ser sumariado da seguinte maneira: quando agimos, agimos como agimos devido ao que somos. Portanto, para sermos responsáveis moralmente pelas próprias acções teríamos de ser verdadeiramente responsáveis pelo que somos: teríamos de ser causa sui, ou causa de nós mesmos, pelo menos no que respeita a certos aspectos mentais cruciais. Mas nada pode ser causa sui – nada pode ser a nenhum respeito a última causa de si mesmo. Logo, nada pode ser na verdade moralmente responsável.

Desenvolvido apropriadamente, este argumento contra a responsabilidade moral parece ser muito forte. Porém, em muitos seres humanos a experiência da escolha dá lugar a uma convicção de responsabilidade absoluta que não é abalada pela reflexão filosófica. Esta convicção é a mais profunda e inesgotável fonte do problema do livre arbítrio: aparecem continuamente poderosos argumentos que parecem mostrar que não podemos ser moralmente responsáveis naquele sentido fundamental que habitualmente adoptamos; mas contra estes persistem razões de ordem psicológica igualmente poderosas que nos fazem crer que em última análise somos moralmente responsáveis.



Edward Craig (ed.) The Shorter Routledge Encyclopedia of Philosophy (London and New York, 2005). Tradução de Carlos Marques.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Consitência e Inconsistência

Duas proposições são logicamente inconsistentes se não podem ser ambas verdadeiras ou falsas ao mesmo tempo. E são logicamente consistentes se podem ser ambas verdadeiras ou falsas ao mesmo tempo. Esta explicação capta-se bem com alguns exemplos. A proposição “Todos os alunos madeirenses são portistas” é logicamente consistente com a afirmação “Nenhum aluno madeirense é portista”, pois são ambas falsas. Assim como as proposições “alguns alunos madeirenses são portistas” e “alguns alunos madeirenses não são portistas” são consistentes pois são ambas verdadeiras. Mas a proposição “Todos os alunos madeirenses são portistas” é inconsistente com a proposição “alguns alunos madeirenses não são portistas”, pois se a primeira for verdadeira, a segunda é falsa e se a segunda for verdadeira, a primeira é necessariamente falsa. Quando a verdade de uma proposição exclui a verdade da sua oponente, então são inconsistentes. Se tal não acontecer então são consistentes. A consistência é um conceito lógico.
Mas o que pensar de proposições como “há livre arbítrio” e “há determinismo”? Para um compatibilista estas afirmações são consistentes, mas para um incompatibilistas a verdade de uma exclui a verdade da outra.
Claro que o conceito, como qualquer conceito, envolve algumas subtilezas. Vale a pena a esse propósito ler a entrada do DEF, Dicionário Escolar de Filosofia:

consistência/inconsistência
Duas ou mais proposições são consistentes se, e só se, podem ser simultaneamente verdadeiras; e são inconsistentes se, e só se, não podem ser simultaneamente verdadeiras. Por exemplo, as afirmações "Deus existe" e "Sócrates era um filósofo" são consistentes; e as afirmações "Deus existe" e "Deus não existe" são inconsistentes. Nem sempre é fácil saber quando duas proposições são consistentes ou inconsistentes. A mais leve complexidade lógica pode provocar enganos. Por exemplo, há razões para pensar que as afirmações "Todos os lobisomens são peludos" e "Nenhum lobisomem é peludo" não são inconsistentes; mas, intuitivamente, estas afirmações parecem inconsistentes. Note-se que aLÓGICA ARISTOTÉLICA não se aplica a proposições que contenham classes vazias, como "lobisomens"; se excluirmos as classes vazias, quaisquer duas proposições com a forma "Todo o A é B" e "Nenhum A é B" serão efectivamente inconsistentes (ver QUADRADO DE OPOSIÇÃO).
Outras vezes, é muito difícil saber se duas proposições são consistentes ou não. Por exemplo, em filosofia discute-se o chamado PROBLEMA DO MAL, que consiste em saber se as duas afirmações seguintes são consistentes: "Deus existe e é omnipotente, omnisciente e sumamente bom" e "Há mal no mundo".
Não se deve confundir inconsistência com CONTRADIÇÃO; todas as contradições são inconsistências, mas nem todas as inconsistências são contradições. Por exemplo, uma vez que há seres humanos, as afirmações "Todos os seres humanos são mortais" e "Nenhum ser humano é mortal" são inconsistentes, mas não são contraditórias entre si. Não se deve igualmente dizer que uma teoria ou proposição "é consistente com o mundo"; as teorias ou proposições só podem ser consistentes entre si e não com o mundo. Relativamente ao mundo, as teorias e proposições são verdadeiras ou falsas, consoante descrevem fielmente ou não o modo como as coisas são. DM


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Novos textos na nova secção

Recentemente abri uma nova secção no blogue, "Textos Por Unidade". Nesta secção reunem-se textos organizados por unidade dos programas de ensino em Portugal da filosofia. Torna-se, assim, mais simples procurar materiais úteis ao estudo dos alunos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Argumentos cogentes

Algumas vezes surgem confusões ligadas a esta noção da argumentação filosófica. Um argumento é cogente quando, além de válido e com premissas verdadeiras, persuade racionalmente, ou seja, é convincente.

A objeção mais habitual é que não faz sentido falar em tal coisa, pois em filosofia não há argumentos cogentes.

Claro que há! Um argumento é filosoficamente cogente se as premissas forem mais plausíveis do que a conclusão, isto é, se nos levarem a aceitar uma conclusão que desconhecíamos.   

Diz-nos a noção de validade que um argumento é dedutivamente válido se em nenhuma das circunstâncias de verdade possíveis as premissas do argumento não possam ser verdadeiras e a conclusão falsa.                                          
                                                                                                        

Eis um exemplo de dedução válida:
A neve é branca e a relva verde
A relva é verde
Logo, a neve é branca
Este é um argumento válido e com premissas verdadeiras. Significa isto que é sólido. Mas facilmente percebemos que a solidez não parece ser uma noção suficiente, apesar de necessária, para persuadir alguém com um argumento. Isto porque em filosofia temos premissas muito discutíveis. E, apesar de serem muito discutíveis, tal não significa que não nos possam fazer aceitar uma conclusão que, à partida, não estaríamos dispostos a aceitar, não fossem aquelas premissas. Se as premissas forem mais plausíveis que a conclusão, acabamos por aceitar uma conclusão que à partida não defenderíamos. Isto é a cogência.

O exemplo dado não é um exemplo de cogência, pois na cogência o que queremos mostrar é que alguém não pode defender uma tese partindo de determinadas premissas, ou seja, que aquilo que já aceita  as premissas  implica necessariamente a conclusão que não quer aceitar e que nós defendemos.

Assim, a definição de cogência é operacional para nos permitir compreender que não desejamos somente argumentos sólidos, mas, além disso, que convençam.

Podemos ter argumentos sólidos, mas que não são persuasivamente fortes, necessitando de explicações adicionais para que se tornem convincentes. E daí a cogência.

A cogência é igualmente aplicável a argumentos quer dedutivos quer indutivos. Nestes últimos, um argumento cogente não aponta necessariamente para uma conclusão verdadeira, mas é muitíssimo provável que o seja.

A cogência vai mais além da mera sintaxe do argumento e é uma noção interessante precisamente quando não sabemos determinar a verdade das proposições. Claro que não precisamos de saber se as premissas de um argumento são verdadeiras ou falsas para saber se é válido. Precisamos apenas de saber que, se as premissas forem verdadeiras em alguma simulação de verdade, a conclusão não poderá ser falsa nessa mesma circunstância. Para saber isso, podemos aplicar um inspetor de circunstâncias.
Mas, ainda assim, temos muitos argumentos perfeitamente válidos que não são persuasivos. Daí a importância da solidez. O problema é que nem sempre é fácil determinar a solidez de um argumento, pois nem sempre sabemos da verdade das premissas. Assim, falamos de cogência do argumento, isto é, da plausibilidade das premissas para apoiar determinada conclusão. 

Publicado originalmente AQUI

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Como usar Inspetores de circunstâncias

Ao longo da história da filosofia, a lógica tem sido usada como ferramenta fundamental que nos auxilia a distinguir argumentos válidos de inválidos. 

Referem-me com frequência que reduzir a filosofia à lógica retira àquela parte essencial do seu papel.
Acontece que não se reduz em momento algum a filosofia à lógica, mas analisa-se logicamente os argumentos, o que deve ser natural em grande parte do trabalho filosófico.

Como já foi explicado em posts anteriores, a lógica não capta, por si só, todas as subtilezas da argumentação, mas é uma ferramenta preciosa quando bem aplicada à argumentação.

É o caso dos inspetores de circunstâncias. Como o nome sugere, um inspetor de circunstâncias vai inspecionar as condições de verdade de um dado argumento dedutivo. A regra da validade dedutiva indica que um argumento é válido se for impossível uma circunstância em que a ou as premissas seja(m) verdadeira(s) e a conclusão falsa.

Tomemos um exemplo prático de um argumento:

Exemplo 1
A relva é amarela e as nuvens cor-de-rosa
Logo, a relva é amarela

Este argumento tem uma premissa apenas e uma conclusão. Sabemos que a premissa é falsa, a conclusão também e o argumento é válido. Intuitivamente sem recurso a um inspetor compreendemos a validade do argumento.

Exemplo 2
Se Deus existe, a vida faz sentido
A vida faz sentido
Logo, Deus existe

Que dizer deste argumento? Em princípio um crente aceitará a primeira premissa, mesmo que não seja estritamente necessário que a aceite para justificar a sua crença. Será o argumento dedutivamente válido? Tudo o que há a fazer é inspecionar as circunstâncias em que ocorre verdade e falsidade nas premissas do argumento. Temos de testar pelo inspetor todas as circunstâncias possíveis.

Utilizando o dicionário, obtemos:
Deus existe – p
A vida faz sentido – q
(O dicionário consiste em traduzir cada uma das diferentes proposições que compõem o argumento em variáveis proposicionais, normalmente expressas em
p, q, r.)

De seguida, formalizamos o argumento:
Se p então q
q
Logo, p

O argumento na tabela, se usarmos corretamente simbologia lógica convencionada, deverá constar assim:
p → q, q ╞ p

(O símbolo   significa “logo”, é indicador de conclusão e designa-se martelo semântico.)

Para p e q existem quatro variações de verdade. Ou ambos são falsos, ou ambos são verdadeiros. Ou p é verdadeiro e qfalso, ou o contrário. Existem mais? Não.

Fazemos então uma tabela onde dispomos estas variações:
Verdade para p e verdade para q
1.ª premissa
2.ª premissa
Conclusão



p q
Se p então q
q
Logo, p
1.ª circunstância
2.ª circunstância
3.ª circunstância
4.ª circunstância
V V
V F
F V
F F
V
F
V
V
V
F
V
F
V
V
F
F

O que é que observamos no inspetor? Chama-se inspetor de circunstâncias, já que a tarefa é mesmo a de inspecionar no argumento o que acontece no caso de verdade ou no caso de falsidade. Assim, na primeira circunstância, em que p é verdadeiro e q é verdadeiro, a primeira premissa é verdadeira, a segunda também e a conclusão também. Ou seja, passa o teste da validade. Lemos então assim: se for verdade que Deus existe e se for verdade que a vida faz sentido, então também é verdade que Deus existe na conclusão e o argumento é dedutivamente válido.

Se olharmos para a 3.ª circunstância, o que é que acontece? Se for falso que Deus existe (p) mas verdadeiro que a vida tem sentido (q); e se afirmarmos na premissa a consequente (q) e na conclusão a antecedente (p), então, as premissas do argumento são ambas verdadeiras e a conclusão falsa.

Ora, se atendermos à regra da validade dedutiva, verificamos que esta é violada.

Falta ainda explicar um passo. Como é que sabemos os valores de verdade nas colunas das premissas e conclusão? Pelas regras simples da lógica proposicional. P e q isoladamente são proposições simples (melhor, são classes vazias que representam simbolicamente classes vazias de coisas ou estados do mundo). P e podem ser conectados logicamente. Há quatro modos principais de conectar proposições simples, tornando-as compostas: a condicional, a bicondicional, a conjunção e a disjunção. E também podemos negar as proposições (simples ou compostas), mas isso não irei adiantar para já, uma vez que o que pretendo mostrar é a utilidade dos inspetores.

Exemplos de proposições compostas:
Condicional
Bicondicional
Conjunção
Disjunção
Se Deus existe, a vida faz sentido
Deus existe se e somente se a vida faz sentido
Deus existe e a vida faz sentido
Deus existe ou a vida faz sentido

As frases apresentadas nesta grelha são modelos, pois depende muito de como falamos ou como escrevemos quando filosofamos. Tudo o que há a fazer é estudar pacientemente modelos mais típicos de apresentação das proposições na linguagem natural.

Conclusão: os inspetores são uma boa ferramenta para avaliar muitos argumentos. E se for ensinada de início, pode-se recorrer a esta ferramenta todo o ano. Isto se o manual que usamos a aplicar também.
Escreverei mais adiante um post a explicar modos eficazes de trabalhar com proposições. 



domingo, 22 de novembro de 2015

Refutação do compatibilismo

Os compatibilistas defendem que um agente é livre se desejar escolher B em vez de A ,o pode fazer. Mas acontece que muitas vezes podemos estar impedidos de escolher B e ainda assim continuar a ser livres. Por exemplo: João decide ficar fechado no quarto. Sem que o saiba o seu pai fechou o quarto à chave. Ora ele está impedido de escolher B, mas ainda assim não podemos afirmar que a sua ação não foi livre. Isto é, há um constrangimento (condição compatibilista para justificar quando não há livre arbítrio) e mesmo assim a sua ação foi livre. O que significa que a tese compatibilista está errada ao afirmar que se há constrangimentos, então não somos livres. Que acham desta objeção?

Roteiro de posições acerca do livre arbítrio

Um excelente roteiro das posições incompatibilistas e compatibilistas. Para aprofundar o estudo. Aceder clicando AQUI

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Filosofia e WC



Hoje, determinado pela Unesco, comemora-se o dia mundial da filosofia. Mas também se comemora (determinado pela ONU) o dia mundial da casade banho. Esta associação pode conduzir a boas doses de humor e algumas verdades, como a de que muitas vezes a filosofia conduz a ideias da caca. A casa de banho é algo tão trivial na nossa vida. Mas o mesmo não acontece na vida de milhares de pessoas, que vivem condicionadas à extrema pobreza sem as mínimas condições sanitárias. Não sabemos se um dia mundial ajuda muito a melhorar a condição dessas pessoas. Mas se juntarmos um pouco do que sabemos da filosofia ao dia mundial da casa de banho, podemos levantar um problema moral para pensar: será que temos a obrigação moral de ajudar os mais pobres? Peter Singer pensa que sim, que não existe diferença moral entre ajudar o meu vizinho e o pobre de um país distante que eu nunca conhecerei. A melhor forma de organizar os argumentos e os discutir é analisar o livro de Peter Singer, A vida que podemos salvar, Agir para pôr fim à pobreza no mundo, (Gradiva)


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Dia da Filosofia na Escola Secundária Jaime Moniz


Libertismo


Libertismo é a perspetiva de que pelo menos algumas das nossas ações são livres porque, na verdade, não estão causalmente determinadas. Segundo esta teoria, as escolhas humanas não estão constrangidas da mesma forma que outros acontecimentos do mundo. Uma bola de bilhar, quando é atingida por outra bola de bilhar, tem de se mover numa certa direção a uma certa velocidade. Não tem escolha. As leis causais determinam rigorosamente o que irá acontecer. Contudo, uma decisão humana não é assim.
Neste preciso momento, o leitor pode decidir continuar a ler ou parar de ler. Pode fazer qualquer uma destas coisas e nada o faz escolher uma delas. As leis causais não têm poder sobre si. Isto não é muito plausível. Ainda assim, esta forma de pensar foi defendida por diversos filósofos e propuseram-se vários argumentos a seu favor.
O argumento da experiência.Podemos começar com a ideia de que sabemos que somos livres porque cada um de nós apercebe-se imediatamente de ser livre cada vez que faz uma escolha consciente. Pense novamente no que está a fazer neste momento: ler uma página que está diante de si. Pode continuar a ler ou parar de ler. O que irá fazer? Pense na sensação que tem agora, enquanto pondera estas opções. Não sente constrangimentos. Nada o impede de seguir numa direção nem o força a fazê-lo. A decisão é sua. A experiência de liberdade, poder-se-á dizer, é a melhor prova que podemos ter. (…).
 O argumento da responsabilidadeO pressuposto de que temos livre-arbítrio está profundamente enraizado nas nossas formas habituais de pensar. Ao reagir a outras pessoas, não conseguimos deixar de as ver como autoras das suas ações. Consideramo-las responsáveis, censurando-as caso se tenham comportado mal e admirando-as caso se tenham comportado bem. Para que estas reações estejam justificadas, parece necessário que as pessoas tenham livre-arbítrio.
 Outros sentimentos humanos importantes, como o orgulho e a vergonha, também pressupõem o livre-arbítrio. Alguém que conquista uma vitória ou tem um sucesso num exame pode sentir-se orgulhoso, enquanto alguém que desiste ou faz batota pode sentir-se envergonhado. Porém, se as nossas ações se devem sempre a fatores que não controlamos, os sentimentos de orgulho e de vergonha são infundados. Estes sentimentos são uma parte inescapável da vida humana. Assim, uma vez mais, parece inescapável que nos concebamos livres.
 

                                                 J. Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Estudar filosofia e ciência é útil

Muitas vezes sou confrontado com a pergunta, “Para que serve a filosofia?”, “Para que preciso de ter conhecimentos de ciência?”. Há muitas respostas diferentes para estas questões. Hoje em dia vivemos na abundância da informação. Temos imensa dificuldade em saber distinguir uma boa teoria de uma intrujice, um produto da ciência de um produto da pseudociência. Tanto a filosofia como a ciência trabalham com método rigoroso. Aprender filosofia ou ciência dá-nos habilidades para saber selecionar a informação, ajudam a descodificar a boa teoria da mera intrujice. Entre muitas, mas mesmo muitas, outras, esta é uma boa razão para estudarmos filosofia e ciência.

O vídeo abaixo é um bom exemplo de intrujice científica. Temos como exemplos de intrujice filosófica a associação de filósofos como Peter Singer ou Nietzche ao nazismo. O último capítulo do livro Ética Prática (Gradiva) de Peter Singer, intitulado "Ser silenciado na Alemanha" revela como a intrujice é o resultado da distorção intencional das teorias. A ignorância científica e filosófica é proporcional à aceitação passiva da intrujice. Karl Popper, um dos filósofos estudados no 11º ano na unidade referente à filosofia da ciência apresenta uma boa teoria esclarecedora desta necessidade de saber distinguir ciência de ciência disfarçada. 


O que é o dilema de Hume?


O dilema de Hume é assim conhecido porque foi apresentado pelo filósofo David Hume. Antes disso vamos tentar perceber o que é uma teoria compatível. Por um lado temos a afirmação “há livre arbítrio”. Por outro, a afirmação “somos livres”. Estas duas afirmações são consistentes se podem ser as duas verdadeiras (ou as duas falsas, mas para já consideraremos apenas a verdade). Por isso se diz que são compatíveis. Dito de outro modo, pode ser verdade que exista livre arbítrio, ao mesmo tempo que é verdade que existe determinismo. São inconsistentes se a verdade de uma condiciona (implica) a falsidade da outra. Assim, se for verdade que o livre arbítrio existe, então o determinismo é falso. Mas se o livre arbítrio for uma ilusão, isto é, falso, então segue-se que o determinismo é verdadeiro. Em resumo, duas teorias são compatíveis se a verdade de uma não exclui a verdade da outra. Se exclui, então são incompatíveis.
Em relação ao problema do livre arbítrio, David Hume apresenta um dilema que pressupõe que qualquer teoria incompatibilista não é adequada para resolver o problema. O dilema é apresentado nestes termos:
Se o determinismo for verdadeiro, então aceitamos a causalidade natural e nesse caso o livre arbítrio é uma ilusão. Mas se o determinismo for falso, como explicar então as nossas escolhas? De onde resultam? Parece que sem pressupor uma causalidade que possa explicar as razões de uma escolha, essa escolha só pode resultar por mero acaso, isto é, só compreendemos a liberdade se compreendemos as causas que a produz.
Em conclusão, segundo este dilema, quer o determinismo seja verdadeiro, quer seja falso, parece que o livre arbítrio não existe. Como resolver então este problema? Hume parece sugerir uma teoria compatibilista. Que te parece?

Vamos então estudar uma teoria compatibilista, o determinismo moderado. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Filosofia para os mais pequenos

De todos os livros de divulgação da filosofia a tenra idade, destaco dois, um deles, publicado este ano pela Edicare. O livro da Edicare é da responsabilidade de Carme MartinVíctor Escandell. Não é propriamente um livro que incita a filosofar, mas uma pequena enciclopédia da história da filosofia contada de modo divertido. Destaque para as ilustrações, pois o livro resulta muito bem para os mais novos.



O segundo livro é um pouco diferente, já que é escrito por um filósofo profissional e com muita experiência na divulgação da filosofia, o inglês Stephen Law. Já tinha feito referência a este livro, publicado em 2010, pela Leya. 


Será o determinismo radical uma teoria verdadeira?

Estava a navegar na internet e encontrei uma notícia na Super Interessante, edição brasileira, de Setembro de 2008 e que pode ser acedida AQUI . Resumindo, segundo o artigo, o que um grupo de cientistas defendem é que o livre arbítrio não passa de uma ilusão. Lê parte da notícia que aqui transcrevo e depois responde às questões:


Você se interessou pelo tema desta reportagem e, por isso, resolveu dar uma lida. Certo? Errado! Muito antes de você tomar essa decisão, a sua mente já havia resolvido tudo sozinha – e sem lhe avisar. Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, colocou em xeque o que costumamos chamar de livre-arbítrio: a capacidade que o homem tem de tomar decisões por conta própria. As escolhas que fazemos na vida são mesmo nossas. Mas não são conscientes. Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma seqüência aleatória de letras. Eles deveriam escolher uma letra e apertar um botão quando ela aparecesse. Simples, não? Acontece que, monitorando o cérebro dos voluntários via ressonância magnética, os cientistas chegaram a uma descoberta impressionante. Dez segundos antes de os voluntários resolverem apertar o botão, sinais elétricos correspondentes a essa decisão apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro que controlam a tomada de decisões. “Nos casos em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece decidir antes da consciência”, afirma o cientista John Dylan-Haynes. Isso porque a consciência é apenas uma “parte” do cérebro – e, como a experiência provou, outros processos cerebrais que tomam decisões antes dela. Agora os cientistas querem aumentar a complexidade do teste, para saber se, em situações mais complexas, o cérebro também manda nas pessoas. “Não se sabe em que grau isso se mantém para todos os tipos de escolha e de ação”, diz Haynes. “Ainda temos muito mais pesquisas para fazer.” Se o cérebro deles deixar, é claro.

1.      Estudaste uma teoria filosófica que defende precisamente o que defendem os cientistas. Como se chama essa teoria?

2.      Quais as principais objeções que se pode levantar em relação à teoria?

sábado, 7 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015

A deliberação racional – Filosofia da ação


Nas aulas aprendemos esta semana um conceito novo e, já agora, uma palavra nova: deliberação. A esta juntamos outra não tanto nova quanto a primeira, racionalidade. O que é que se entende por deliberação racional? As nossas ações envolvem crenças e desejos. Por exemplo, o Luís pode decidir estudar filosofia porque acredita (crença) que isso é importante para passar de ano e sente o desejo de o concretizar (desejo). Esta crença e desejo explica qual o motivo da sua ação. Mas o Luís também acredita que estar com os amigos fomenta relações sólidas e sente o desejo de ir ter com os amigos. No final o Luís decide ficar a estudar filosofia. A isto é o que se chama escolher, isto é, deliberar racionalmente. Estar a tarde x no dia x a estudar ou ir ter com os amigos são desejos incompatíveis, razão pela qual o Luís teve de decidir. Deliberar racionalmente consiste em avaliar bem os desejos e crenças e estabelecer prioridades na ação.
A ação envolve os conceitos de crença, desejo, acontecimentos, intenção.

O estudo da ação é o primeiro passo para o que se segue. Vamos estudar as condicionantes da ação e algumas delas parecem fazer desaparecer este desejo e consequente escolha quando agimos. Estaremos, pois, nessa altura, a discutir o problema do livre arbítrio

Na foto, o filósofo norte americano John Searle, ainda vivo e que escreveu sobre alguns problemas da filosofia da ação. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Egoísmo psicológico

Na secção de textos deste mesmo blogue disponibilizo um texto sobre o Egoísmo Psicológico, o que nos ajuda a começar a compreender o problema da Filosofia da Ação, o do livre arbítrio que estudaremos ao longo da próxima semana. Atenção que o egoísmo psicológico é diferente do egoísmo ético. Ao passo que o egoísmo ético é uma teoria normativa, o psicológico é uma teoria descritiva. Uma teoria é normativa se é sobre o que é certo e errado, ao passo que uma teoria descritiva não se debruça sobre o certo e errado. Isso significa que o egoísmo psicológico não é uma teoria ética. Para os alunos basta lerem este excerto de todo o texto.

“O egoísmo psicológico é uma teoria da motivação que afirma que todos os nossos desejos últimos são auto-dirigidos. Sempre que queremos que os outros se saiam bem (ou mal), temos esses desejos dirigidos para os outros apenas instrumentalmente; preocupamo-nos com os outros apenas porque pensamos que o seu bem-estar influenciará o nosso próprio bem-estar. Como afirmei, o egoísmo é uma teoria descritiva, não é normativa. Procura caracterizar o que de facto motiva os seres humanos, mas nada diz sobre se essa motivação é certa ou errada.
O egoísmo tem exercido uma enorme influência nas ciências sociais e tem penetrado de forma ampla no pensamento das pessoas comuns. Os economistas pensam tipicamente que os seres humanos são movidos por “um interesse próprio racional”, o que excluí qualquer preocupação redutível ao bem-estar dos outros. Qualquer pessoa comum afirma frequentemente que as pessoas ajudam os outros, porque isso fá-las sentir bem com elas próprias ou porque procuram a aprovação de terceiros.
É fácil inventar explicações egoístas mesmo para os actos de auto-sacríficio mais horrendos. O soldado na trincheira que se faz rebentar junto com uma granada para salvar a vida dos seus camaradas, é um lugar-comum na literatura sobre o egoísmo. Como pode esse acto resultar do interesse próprio se o soldado sabe que acabará com a sua vida? O egoísta pode responder que o soldado percebe nesse instante que prefere morrer a sofrer a culpa que o perseguiria para sempre se se salvasse a si próprio e deixasse que os seus amigos morressem. O soldado prefere morrer e nada mais sentir, a viver e sofrer os tormentos dos condenados. Esta resposta pode parecer forçada, mas ainda está por determinar a razão por que a devemos considerar falsa.
As críticas que têm surgido contra o egoísmo podem ser divididas em três categorias. Primeiro, existe a tese de que não é genuinamente uma teoria. Segundo, há a alegação de que se trata de uma teoria que é refutada pelo que observamos no comportamento humano. Terceiro, existe a ideia de que, embora o egoísmo seja uma teoria consistente com o que observamos, existem outras considerações que não são evidentes que sugerem que deve ser rejeitada em favor de uma teoria alternativa, o pluralismo motivacional, segundo a qual os seres humanos possuem desejos últimos egoístas e altruístas.”


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Elídia, uma homenagem




Eu não sei como será o mundo da filosofia sem a Elídia. Mas sei que o mundo da filosofia na Jaime Moniz será mais pobre. Muito mais pobre. Até sempre colega. E obrigado à vida por um dia te ter conhecido. Por aqui, temos a memória da tua dedicação que nos ajuda todos os dias a ser melhores. Obrigado colega. Tive a felicidade de por duas vezes te ter dito que estarás sempre entre nós. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Filosofia da Ação e Problema do Livre Arbítrio



Vamos começar a estudar Filosofia da Ação. Na filosofia da ação vamos primeiro analisar o problema de saber se todas as nossas ações se traduzem ou não no interesse egoísta pessoal. De seguida analisaremos o que é o determinismo causal, fazendo a distinção entre mero fatalismo. Isto conduzir-nos-á ao problema do livre arbítrio que nos ocupará algumas aulas, dependendo também da vossa reação às discussões propostas.
Para começar a vislumbrar um pouco do problema nada melhor que fazer uma breve pesquisa nestes links.

Link 1 (O que vamos estudar? Filosofia da ação e livre arbítrio)

Link 2 (Dilema do determinismo)

Link 3 (Argumentos a favor do libertismo)

Link 4 (2º teste de Filosofia 2014/15 - Organização)

Link 5 (Dicas para estudar para o teste de Filosofia da Acção)

Link 5 (Somos responsáveis pelo que fazemos?)

Link 6 (Libertismo)

 Podes também iniciar o teu estudo sobre o problema do livre arbítrio visualizando este vídeo (legendado)