sexta-feira, 27 de julho de 2012

Leituras filosóficas de verão


A primeira vez que vi este livro na livraria não me despertou o interesse, provavelmente levado pelo efeito do título. Pensei tratar-se de mais um livro que usa os filósofos num contexto não filosófico, espremendo a filosofia até que ela deixe de ser filosofia e passe a ser outra coisa qualquer. Esperava um mau livro de auto ajuda. Hoje, com algum tempo peguei no livro – à falta de mais novidades com interesse – e li alguns dos seus 43 curtos capítulos e fiquei surpreendido. Não tendo o mesmo interesse de um Sabedoria sem respostas, é no entanto um útil livro de introdução à filosofia e a alguns dos seus problemas centrais. O autor tem uma forma interessante de comunicar pois os títulos à partida nada sugerem de filosofia, mas assim que entramos neles, estamos a estudar e conhecer os argumentos dos filósofos. É uma boa leitura e fica a aqui a sugestão para este verão. O blog do autor pode ser visto e lido AQUI. Como um leitor muito bem viu a advertiu, convém não esquecer que o título deste livro é "You Kant Make it Up!" e o tradutor ou editor resolveu fazer o que lhe apeteceu para a tradução portuguesa, apesar que percebe-se que a tradução do título não resultaria para português. 
Gary Hayden, Não descartes estas ideias, estranhas teorias dos grandes filósofos, Trad. João Quina, Texto Editora, 2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Será que a Arte nos proporciona conhecimento?


Tive um longo período da minha vida em que só ouvi músicas experimentais, jazz cruzado com improvisações de dj`s, electrónicas lo-fi, músicas feitas com instrumentos pouco convencionais, aquilo que eu chamava na altura de pop desconstrucionista, etc… Fui muitas vezes confrontado com a estranheza de amigos e pessoas próximas que defendiam que tais músicas eram desagradáveis e mesmo horrorosas. Recordo que um colega de rádio chamava ao meu programa da altura, o Hipnótico, “o programa de discos riscados”. Havia lugar para quase todo o tipo de músicas que constituíssem um desafio intelectual às convenções. Confesso que hoje em dia tenho uma relação mais pacífica com as convenções e até muita da música que ouvia nessa altura é mais convencional do que eu pensava. E também me dei conta de muita charlatanice pelo meio. Mas a justificação que eu sempre dei é que tinha duas razões principais para ouvir aqueles discos tão atentamente:

1)      Proporcionam prazer estético.
2)      Acrescentam valor cognitivo.

Mais tarde rasguei mais alguns horizontes e cheguei mesmo a ficar somente com a razão 2). O que eu nunca soube durante esses anos todos é que existe muita bibliografia filosófica a defender estas mesmas teses.
Quem se interessa por estas razões temos disponível em língua portuguesa, de um autor português, um livro que nos coloca a par de uma forma muito clara com os principais argumentos a favor destas teses, em especial da segunda, sempre conjugada com a primeira. O livro em causa, O valor cognitivo da Arte, resulta do melhoramento de uma tese de mestrado. Mas o leitor mais distante da filosofia não precisa de se assustar pois esta não é uma tese de mestrado escrita no tom que estamos habituados. Ela está escrita como hoje em dia melhor se escreve filosofia, de forma muito clara, mas muito rigorosa, desmontando uns argumentos e montando outros. E estão lá os argumentos desenvolvidos de forma robusta que muitas vezes ocorrem nas nossas conversas, desde a emoção que a arte muitas vezes proporciona, até às questões epistémicas do mundo da arte. O livro tem um suporte bibliográfico actual e fiável.

Aires Almeida, O valor cognitivo da arte, Centro de Filosofia da Univ. de Lisboa, 2010

terça-feira, 3 de julho de 2012