domingo, 12 de novembro de 2017

Uma breve história do amanhã

Quando, o ano passado por altura do natal estive em Londres, este livro do historiador israelita Yuval Noah Harari fazia montra nas principais livrarias. Isso não atesta por si da qualidade do livro. Mas é prova da ampla curiosidade que o livro desperta. E ainda bem, pois é um livro muito bem escrito e extraordinariamente estimulante. Pese embora o pendor especulativo não é, no entanto, um livro de filosofia. Antes pelo contrário, a preocupação não é defender ou refutar argumentos, mas perspetivar um futuro não muito longínquo. Se em Homo Sapiens a história era contada até ao presente, em Homo Deus, a história conta-se a partir do momento presente. Lúcido e de fácil leitura é, como me dizia um amigo, um livro que qualquer pessoa culta hoje em dia deve ler. 

sábado, 11 de novembro de 2017

Há uma nova secção no blogue, a Biblioteca do Educador. Mais uma vez os livros nela referenciados são o reflexo do meu itinerário bibliográfico pessoal. Para já apenas refiro as capas dos livros. Mais tarde consoante a vontade e o tempo disponível, incluirei um breve comentário de cada um deles. Como será de notar, os livros não seguem uma "escola" da educação. Mas quase todos são sugestivos para a discussão do que deve ser a escola e a profissão de professor assim como o lugar dos alunos e das suas aprendizagens. A secção pode ser apreciada Aqui, ou na aba acima na barra de abas. 


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Ano letivo 2017/18 - mudanças e filosofia


Em Portugal Setembro é o mês do regresso às aulas. Nos últimos anos tem sido marcado negativamente em várias frentes: os pais e o custo financeiro com os manuais e material escolar, os professores com a enorme instabilidade profissional, a rede escolar com problemas de equilíbrio, etc… de uma forma resumida o que mais marca o início de cada ano letivo são as alterações das “regras do jogo”. Mas ao mesmo tempo que alguns aspetos no ensino mudam de ano para ano (por vezes menos), outros há que não mudam há mais de uma década. O programa de filosofia vigente data de 2001 (ver aqui). Muitas mudanças no ensino acontecem porque cada ministro que sucede o anterior, assim como as novas equipas, têm ideias diferentes e querem assim imprimir a sua marca, não se dando conta que desse modo estão a estragar mais do que o que arranjam. Neste sentido, ainda bem que o programa de filosofia não tem sofrido alterações. Alterar apenas porque sim, não me parece uma boa ideia. E alterar apenas porque se discorda totalmente também não me parece razoável. Há um trabalho de base meritório que vale a pena retocar. Afinal de contas, nós, professores, andamos há tantos anos nisto, a trabalhar um programa que parece insensato querer alterar tudo de uma só vez. Felizmente as propostas que entretanto se vão falando não seguem esse sentido, o de tudo alterar. A proposta, oficial de revisão curricular para a disciplina no 10º ano já circula livremente (ver aqui). E ela inclui alguns aspetos muito interessantes, embora, claro, discutíveis. A inclusão da lógica elementar logo a abrir o 10º ano parece-me uma opção correta como método de trabalho. Mas é igualmente importante que os tempos letivos para cada unidade sejam pensados não de modo a explorar os conteúdos teóricos sem considerar o trabalho e tempo necessário em sala de aula para trabalhar textos, interpretação aplicando os métodos aprendidos, gerir comportamento adequado ao trabalho, etc. Claro que começar a disciplina pela apresentação do método não é, em muitos sentidos, uma opção feliz. Se o que anima a disciplina, por que não começar logo por debater os problemas? Haveria algum prejuízo em começar a ensinar astronomia olhando para as estrelas?
É sobretudo importante que as mudanças não impliquem transformações de fundo constantes, muitas vezes quase ao sabor do vento ideológico ou de preferências grupais sem atender os muitos e diversos contextos em que a disciplina se ensina. As mudanças permanentes atrapalham o trabalho nas escolas e em regra acabam sempre por desmotivar.
Por fim, uma palavra aos professores de filosofia. Segundo percebo são muitos os professores de filosofia que não ensinam filosofia. Isto acontece porque os horários têm vindo a diminuir e, entretanto, os disponíveis acabam todos ocupados por professores de quadro de escola e com mais tempo de serviço. Por isso mesmo em muitas escolas os professores de filosofia estão a ensinar disciplinas que não a filosofia. Não considero a filosofia mais essencial que muitas outras disciplinas que podem ser ensinadas. Afinal, poderíamos ter um currículo diferente e até melhor com ou sem a filosofia. O ponto aqui é outro. Os professores de filosofia estudaram filosofia e prepararam-se durante alguns anos para o domínio científico da filosofia. Por isso mesmo e enquanto cá andamos e é tempo, esta parece ser uma boa razão para assegurar a disciplina no ensino geral e obrigatório. Como disse, um bom sistema de ensino pode dispensar uma outra disciplina ou substituindo-a por outra igualmente importante. Daí não se segue que a disciplina de filosofia seja dispensável. Acontece que, uma vez existindo, isso é por si mesmo uma boa oportunidade para fazer um bom trabalho na sua apresentação.
E ainda antes de terminar. Costumo usar uma hipótese quando pessoas não ligadas ao ensino criticam de forma geral o trabalho dos professores: “- Vamos imaginar que é verdade que os professores são todos mesmo maus. Sendo isso verdade e sabendo disso mesmo, o que é que devemos fazer, substituir todos os professores por carpinteiros nas escolas?” Invariavelmente a resposta é não. Isto é, temos de trabalhar com o que somos e temos, saber contar apenas com o nosso trabalho. Tudo o que vier a mais de positivo será bom. Mas não podemos esperar que sejam os de fora, mesmo os das universidades, a fazer o nosso trabalho. Não podemos nem devemos esperar que nos preparem os programas, as aulas, os materiais que usamos. Dependemos apenas de nós mesmos.  

Um bom ano a todos

domingo, 25 de junho de 2017

Ética na imprensa

Um dos filósofos mais populares e, talvez por isso, mais incómodos da atualidade para os mais conservadores, numa entrevista à revista semanal Sábado, nº 686, de 21 a 28 de Junho de 2017. Por Vanda Marques. Nesta pequena entrevista, Singer aborda alguns dos problemas reunidos no livro Ética no Mundo Real - 82 breves ensaios sobre coisas realmente importantes , publicado entre nós pelas Ed. 70 e traduzido por Desidério Murcho.  Um facto curioso que vale a pena mencionar: Peter Singer é atualmente o filósofo que mais ódios suscita. Quando refiro "ódio" é em sentido literal. Claro que no mundo da filosofia existem filósofos que procuram objetar as posições de Singer, como o seu conterrâneo David Oderberg. Numa versão menos racional, abundam as tiradas anti Peter Singer. Curioso é que as posições de Singer nem sequer são as mais radicais em relação a alguns dos problemas éticos que aborda. E mais curioso ainda é que muitos filósofos do passado, hoje unanimemente idolatrados, foram mais radicais que Singer. Neste como muitos outros casos, Singer paga o preço da fama. 


Pensamento Crítico na Imprensa

Em Novembro de 2016 promovi, com o Sindicato de Professores da Madeira, uma ação de formação sobre pensamento crítico e como o usar na sala de aula. Sugeri que parte de trabalhos de formandos fossem publicados. E aqui está o resultado na edição xxxviii i nº100 do jornal Prof, do SPM, Diretor Francisco Silva.
Esta ação irá repetir-se no Porto Santo nos próximos dias 10 e 11 de Julho. Uma segunda parte desta ação está a ser preparada.

Sobre a verdade e Contra a democracia

Duas novidades muito interessantes da Gradiva e que são certamente dois relevantes acontecimentos editoriais em língua portuguesa.



Sinopse
Nenhum modelo político deve ser sacralizado, por nenhum ser perfeito e não serem imutáveis as circunstâncias em que algum deles se tenha revelado como o menos mau.

A edição deste livro é um contributo para as pessoas livres, que o queiram continuar a ser, debaterem as disfunções crescentes que cada vez mais visivelmente estão a impedir a democracia de realizar alguns dos seus mais importantes ideais. É também um desafio para os que visam aperfeiçoar o seu funcionamento de modo a realizar os seus objectivos essenciais: a liberdade, o progresso social, a dignidade, o desenvolvimento humano.

A maioria das pessoas acredita que a democracia é a única forma justa de governo. Crê que todos temos direito a uma quota igual de poder político. E também que a solução de participação política "um homem um voto" é boa para nós – dá-nos poder, ajuda-nos a conseguir o que queremos e tende a tornar-nos mais inteligentes, virtuosos e atentos uns aos outros.

Mas Brennan, considera que estão erradas, argumentando que a democracia deveria ser julgada pelos seus resultados,apresentando abundantes dados empíricos de que não são bons o suficiente.
Tal como os acusados têm direito a um julgamento justo, os cidadãos têm direito a um governo competente. Mas a democracia é com frequência o domínio do ignorante e do irracional, ficando demasiadas vezes aquém do que se espera. Além disso, uma enorme diversidade de pesquisa em ciências sociais mostra que a participação política e a deliberação democrática parecem tender cada vez mais frequentemente a tornar as pessoas piores – mais irracionais, tendenciosas e más. Considerando esse quadro sombrio, Brennan argumenta que um diferente sistema de governo – a epistocracia, ou governo dos sábios – pode ser melhor do que a democracia, e que é tempo de reflectir seriamente sobre isso.

Longe de se tratar de uma diatribe panfletária, esta é uma relevante obra de filosofia política em que se discute, de forma intelectualmente honesta, cada um dos melhores argumentos a favor da democracia. O resultado é uma crítica séria e uma defesa contemporânea do governo de quem mais sabe, com a resposta aos problemas práticos que tal solução possa levantar.


Uma leitura essencial não apenas para os estudiosos de filosofia e de ciência política, mas também para todos os que consideram que a democracia merece ser discutida, independentemente do que se possa pensar dela, incluindo os que visam aprofundá-la.»

Jason Brennan é uma maravilha: um filósofo brilhante que estuda escrupulosamente os factos antes de moralizar. Em Contra a Democracia, o seu método elegante leva à conclusão inesperada de que a participação democrática impele os seres humanos a esquecer o senso comum e a decência comum. Votar não nos enobrece; testa a virtude dos melhores, e apresenta o pior nos restantes.


Bryan Caplan, autor de The Myth of the Rational Voter

A grande tentação da filosofia política é sacralizar a política, e precisamos urgentemente de um trabalho que nos ensine a não sucumbir. Neste livro valioso e revigorante, Jason Brennan desafia devoções confortáveis e desacredita mitos familiares sobre a vida política em geral e o regime democrático em particular. Prevejo que a maioria dos leitores encontre muita coisa com que discordar – eu certamente encontro –, mas também que a maioria considere os argumentos de Brennan inquietantemente difíceis de resistir com certeza.

Jacob T. Levy, Universidade McGill 

Contra a Democracia apresenta um conjunto útil de desafios tanto para a sabedoria convencional como para as tendências dominantes na filosofia política e na teoria política, particularmente na teoria democrática. Escrito de forma cativante, incentiva uma leitura activa e divertida.

Alexander Guerrero, Universidade da Pensilvânia
Autor(es)
Jason Brennan doutorou-se em filosofia pela Universidade do Arizona, ensinou na Universidade de Brown e é actualmente professor associado de Estratégia, Economia, Ética e Políticas Públicas na Universidade de Georgetown. É autor de Compulsory Voting: For and Against, com Lisa Hill, Libertarianism: What Everyone Needs to Know, The Ethics of Voting e A Brief History of Liberty, com David Schmidtz. A filosofia política e a ética aplicada são as suas duas principais áreas de investigação.



Qual é o problema em desprezar a verdade? A verdade é algo assim tão importante
e valioso porquê?

Estas são algumas das perguntas que Frankfurt procura esclarecer e às quais dá resposta em Sobre a Verdade.

A resposta de Frankfurt, exposta numa linguagem despojada de jargão filosófico e centrada na noção mais comum de verdade, é que a nossa vida seria impossível sem ela, tanto na prática como intelectual e psicologicamente. Na prática, porque a distinção entre verdadeiro e falso é pressuposta nas situações mais banais da vida mesmo por aqueles que dizem recusá-la. Intelectual e psicologicamente, por ser necessária para a compreensão de nós mesmos como indivíduos diferentes dos outros, para a nossa relação com eles, e para a mais elementar compreensão da realidade, seja ela qual for.

Autor(es)
Harry G. Frankfurt é Professor Emérito de Filosofia na Princeton University. A sua importante obra filosófica reparte-se principalmente pelas áreas da filosofia moral, da filosofia da mente e da filosofia da acção. Os seus contributos para a discussão do problema do livre-arbítrio fazem dele uma referência nesse domínio. Da sua obra, destacam-se ainda os sucessos de vendas On Bullshit (Da Treta) e The Reasons of Love.




quinta-feira, 27 de abril de 2017

Filósofos emigrantes


Vale a pena ler esta entrevista a Teresa Marques, filósofa portuguesa da Universidade de Barcelona. 

Novos Ensaios de Peter Singer

Peter Singer é o filósofo da atualidade que suscita maiores hostilidades em relação às suas ideias, ou pelo menos à caricatura que habitualmente delas se faz. Isto acontece não pela radicalidade dos seus argumentos (há filósofos mais radicais, mas que raramente são mencionados nas frentes mais hostis), mas antes pela sua popularidade. A que se deve a popularidade de Singer? À forma pouco comum como expõe os argumentos que os torna acessíveis mesmo aos leitores filosoficamente menos informados. Juntando isso aos temas e problemas que aborda (moralidade do aborto, eutanásia, etc…) temos os ingredientes necessários para conservadores hostis destilarem os mais variados insultos. O irónico é que Singer aceita o aborto ou a eutanásia com muitas restrições, o que até faz dele, em certo sentido, algo conservador. Mais conservador talvez é ainda em relação à defesa dos direitos morais dos animais não humanos, uma das mais radicais teses de Singer. Curiosamente os hostis costumam estar-se nas tintas para os animais e não pegam neste ponto com Singer. Do meu ponto de vista a popularidade de Singer passa por uma certa injustiça, provavelmente própria de toda e qualquer popularidade, a de ser superficial. Por essa razão os ataques dos hostis são todos sem exceção vagos e absurdos, para além de revelarem manifesta ignorância em relação aos argumentos do filósofo australiano, professor nos EUA. A melhor forma de conhecer os ataques a Singer que estão para além dos insultos gratuitos é conhecer a obra de filósofos como David S. Oderberg, tendo duas obras publicadas em português. Uma delas, Ética Aplicada, Uma abordagem não utilitarista (Principia, 2009, Trad. M José Figueiredo), é um ataque ao utilitarismo de Singer. Espero que esta nova tradução em português, do qual se apresenta aqui a capa, motive mais a discussão racional que o orgulho irracional. De resto como se espera de toda a atividade filosófica. A edição é das Ed.70.