Ouço frequentemente dizer que filosofia é pensar. Mesmo uma máexperiência de ensino da filosofia transmite esta definição de filosofia. Acontece que se trata de uma definição insuficiente. Se pensar é uma condição necessária para a filosofia, ela não é, com efeito, suficiente já que não é exclusiva da filosofia. Por exemplo, se estou a fazer palavras cruzadas estou a pensar e não estou a fazer filosofia. Se observar atentamente a maioria das pessoas, na maior parte do tempo em que estão acordadas, estão a pensar e não estão a fazer filosofia. Se a definição é insuficiente para uma pessoa com alguma formação, para jovens ela tem efeitos muito nefastos já que se trata de uma definição incompleta e induz o jovem em confusões elementares.
talvez uma das boas formas de transmitir uma boa definição de filosofia, principalmente a jovens, é dar a ideia de que para se fazer filosofia é necessária informação. A informação necessária é o estudo dos textos principais dos filósofos. Para além disso fazer filosofia implica uma intenção deliberada e um método próprio. A forma mais eficaz que temos para mostrar a definição da filosofia e o que se faz e como se faz filosofia a jovens, é por comparação. Assim, num minuto apenas, mostramos que fazer filosofia não é o mesmo que fazer ciência, já que a natureza dos problemas da filosofia não é empírica e não possui o recurso à experiência para prova de hipóteses teóricas. Pelo contrário, são problemas filosóficos aqueles que se pensam sem recurso à experiência. Por exemplo, se queremos saber da moralidade do aborto, de que nos vale pedir a 10 mulheres grávidas que abortem para saber se o aborto é ou não moral? Ainda que elas o fizessem, não chegaríamos a conclusão alguma, não adiantávamos nada ao conhecimento que temos da moralidade do aborto. A Filosofia faz-se na discussão activa dos problemas. Se não temos recurso à experiência, temos ferramentas lógicas que nos permitem avaliar argumentos e objectá-los, se for caso disso. Ainda que não seja perfeita, esta é uma forma eficaz de principiar um estudo em filosofia.
Mas é verdade que quando estudamos filosofia temos um resultado prático. Nas nossas sociedades somos detentores da maior parte das decisões sobre a nossa vida e somos impelidos a um esforço muito grande para pensar nas nossas decisões. A prática do exercício filosófico tem um resultado nessas decisões já que aprendemos o método para pensar com maior rigor e de forma consequente. Claro que podemos fazer isso mesmo sem estudar filosofia, mas parece pacífica a ideia de que sem estudos e informação tal tarefa é muito mais inacessível.
A definição de que a filosofia é pensar é assim insuficiente, gerando confusões iniciais desnecessárias. Quem se inicia ao estudo da filosofia espera um pouco mais da definição. O manual do 10º ano, A Arte de Pensar, apresenta uma comparação muito intuitiva que aqui resumo: se queremos saber se há vida em Marte não nos vale de muito ficar a pensar no assunto. A partir de uma sonda é possível apurar dados empíricos que nos dê a informação desejada. Os problemas filosóficos não possuem esta estratégia de recurso que se chama “experiência”. Mas os problemas filosóficos não são menos problemas porque não podemos fazer experiências e apurar resultados. Os problemas da filosofia são problemas que se tentam resolver sem recurso à experiência, mas com recurso á capacidade racional de discussão argumentativa. Se não podemos provar pela experiência, temos a saída de resolver pela discussão racional. É certo que fazemos isso para a maior parte dos problemas, mesmo os mais triviais. Se queremos saber, por exemplo, se determinada acção política é boa ou má, justa ou injusto, é uma enorme vantagem saber pensar criticamente, já que conseguimos avaliar melhor cada argumento em causa.
Talvez a melhor proposta para dar início a um curso de filosofia seja não perder muito tempo com a definição da filosofia e partir logo para a sua prática, isto é, a discussão activa dos problemas.
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