sábado, 20 de julho de 2019

Democracia, conhecimento, liberdade e humanidades

Ao longo da minha carreira já conheci muitos estudantes brilhantes que me disseram não poder seguir filosofia pois filosofia não lhes garante emprego futuro. Esses estudantes fogem para medicina, economia ou áreas tecnológicas ligadas às engenharias. Sem estes talentos nos cursos de filosofia, história ou música dificilmente teremos no país uma cultura forte nestas áreas. Os melhores estudantes que me chegam às mãos com 15 anos já estão formatados para os cursos que devem seguir. Podem-me falar em exceções. Claro que as há. Mas são isso mesmo, exceções. Uma estatística claramente ad hoc diz-me que em cada 10 bons estudantes apenas 2 ou 3 seguem humanidades. Na escola onde trabalho há todos os anos cerca de 30 turmas novas do 10º ano. E basta espreitar as pautas no final do primeiro período para perceber o que aqui refiro. Um aluno de humanidades em regra teve já uma experiência de fracasso, nem que seja a matemática, da qual foge. Há umas semanas estava à conversa com uma colega de trabalho formada em ciências e discutíamos o que seria melhor para um aluno com rendimento fraco. E ela propôs esta solução: se calhar é melhor para ele seguir humanidades. De imediato apontei para a melhor aluna da turma e questionei por que razão não deveria essa seguir humanidades? Os professores sabem que os melhores alunos são os das turmas de ciências e por isso é uma luta nas escolas para ver quem fica com essas turmas. O professor que chega por último à escola fica com o que ninguém quer, no qual se inclui, claro, turmas de humanidades. Em regra dizem-me sempre: “Mas há turmas de humanidades boas”. Só que quem me diz isto quer apenas perpetuar os seus interesses privados. Por essa razão acho bastante pertinente o argumento a favor de uma educação liberal defendido por Martha Nussbaum neste livro. Não, não acho que nele se esteja apenas a fazer um lamento. O que se está a fazer é a argumentar em favor da tese de que sem um sério retorno às humanidades, todo o conhecimento e debate racional fica ameaçado. E eu gostei do livro. É de fácil leitura e promove o debate. Mas há o risco de em Portugal ser pouco lido e , mais grave, nunca ser lido por quem o deverá ler, as pessoas formadas em ciências e não as de humanidades. Para além disso é um livro estimulante para professores em geral, numa altura em que tanto se fala em escola inclusiva ao mesmo tempo que pautamos o ensino a partir de grelhas comparativas de resultados. 

sábado, 29 de junho de 2019

Leituras de verão

É já um cliché afirmar que o verão é uma boa altura do ano para deixar algumas leituras em dia ou começar a ler sem ter de ser por obrigação. Nesse sentido deixo aqui algumas sugestões de leitura para miúdos e graúdos que, claro, também refletem um pouco as minhas opções. 

 O último livro de Ian McEwan. Uma ótima referência para pensar a relação que estabelecemos com as tecnologias e até que ponto se pode definir o humano. 
 Numa altura em que as relações com o poder político são postas em causa devido aos populistas e a política espetáculo, este livro de Jack London faz-nos pensar em todas essas relações e os perigos que espreitam a nossa liberdade. 
 Extraordinariamente bem escrito e muito bem pensado. Um dos melhores livros de filosofia sem ser técnico que li nos últimos tempos. 
O próprio Baggini indica no livro anterior que conhecer a vida dos filósofos é muitas vezes um bom caminho para compreender os seus argumentos. Se tal for plausível, então que tal começar pela vida de Stuart Mill? 
Mais um livro que retrata o percurso que podemos fazer desde a curiosidade espontânea até ao pensamento consequente e logicamente organizado. 
É talvez o livro mais acessível da lista, mas também o menos interessante. Apesar disso não deixa de ser estimulante principalmente pela justificação que dá acerca da necessidade de filosofar sobre problemas morais. 

terça-feira, 18 de junho de 2019

Exame nacional, é preciso?

(Imagem captada em Castelo de Paiva, minha terra natal)


I – Exame

Antes de tudo um ponto que me parece essencial: podemos dispor do máximo de tempo possível e não é fácil fazer um bom teste quanto muito um exame. O exame nacional de filosofia ainda me parece muito centrado nos conteúdos e não tanto nas competências. E eu defendo que o ensino da filosofia deverá ser centrado em competências. O aluno é capaz de pensar sobre um problema? Desenvolve alguns argumentos pertinentes? Compreende o alcance de um problema filosófico? Sabe refutar teorias? Domina a lógica de modo instrumental?Mas o exame faz cedência à cultura de ensino que a escola portuguesa ainda cultiva. Claro que este exame de 2019 não o fez de modo direto. Nota-se a preocupação em confrontar o aluno não só com aquilo que sabe, mas também com o modo como pensa aquilo que sabe. Mas existem alguns problemas. E antes de ser eu mesmo a apontá-los fui fazendo uma recolha com colegas (principalmente nas redes sociais), li o que disseram e resumo aqui alguns deles:

1º a escolha múltipla teve um peso inadequado ao treino que nos é pedido nas competências filosóficas
2º questões de escolha múltipla que são mais ratoeiras de interpretação do que um testar adequado de conhecimentos.
3º Algumas questões de desenvolvimento não reúnem de todo consenso nas possíveis respostas a dar. Por exemplo, na questão 2 do Grupo IV, os critérios de correção obrigam a que o professor corretor assuma que seja corrigida a resposta SIM a um aluno que refira que Descartes contribuiu para a crescente desconfiança a respeito da possibilidade de através do pensamento puro descobrirmos algo acerca do mundo. Ou seja, os critérios de correção indicam que a resposta SIM está errada. Na verdade, não podemos colocar de lado a ideia de que o projeto de Descartes faz esse contributo. Percebe-se a ideia, que é a da refutação ao ceticismo radical, mas creio que o aluno pode esboçar uma resposta interessante que, no entanto, pode estar incorreta. Ainda no grupo IVnão se percebe a questão 1, pois, creio (e isto é já a minha pessoa a falar) que tal conteúdo não estaria à partida contemplado nas orientações para exame. Além disso, os critérios de correção apontam como resposta à questão o NÃO quando, sob muitas teorias filosóficas, a resposta pode ser sim. Deviam os critérios ser mais sensatos pois, mais uma vez, pode-se estar a cortar numa resposta interessante e informada e a cotar uma menos informada, isto é, o exame a não cumprir com um dos objetivos principais que é avaliar competências filosóficas, mas apenas a testar conteúdos. Há mais questões com problemas desta natureza. A última questão, do grupo Vnão me parece má, mas fiquei com a sensação que é uma questão sobre Kant e Mill sem referir Kant e Mill para dar a sensação que se está apenas a tratar de um problema. Mas os critérios remetem para conteúdos das éticas deontológicas e consequencialistas, precisamente para Kant e Mill e não será de todo difícil de perceber que é com estas teorias que os alunos vão responder e que os corretores vão esperar que respondam. Vem daí algum mal ao mundo? Sim e não. Não porque a questão até é interessante. Mas sim porque o documento de referência para exame implica o conhecimento de conceitos e relações entre conceitos destas duas teorias. Ora, mas nesse caso, talvez fosse mais adequado perguntar como Kant responderia ao problema e como Mill o faria também.

II – E a vida sem exame?

O ensino não é impossível sem exames. Aliás, num sistema ideal, as pessoas não precisam de exames. Precisam apenas de competência e interesse. Com efeito a ideia deste meu texto não é tanto avaliar o exame. Os exames são quase sempre foco de alguma polémica. E eu já ensino há 25 anos. O exame de filosofia tem sido ao longo dos tempos aquele que mais tem sofrido. É o primeiro a ser retirado quando um governo resolve minimizar o peso dos exames na avaliação dos alunos. Portanto, tem sofrido um vai e vem ao longo dos tempos. Mais complicado ainda quando o programa não tem conteúdos, o que em parte o torna aparentemente incompatível com exames. Isto acontece porque o programa não foi pensado para ser avaliado por exames (digo eu). Nestes meus 25 anos de ensino recordo pelo menos por duas vezes que o ensino da filosofia como obrigatório esteve em risco de acabar de vez.E recordo que foi exatamente nas alturas em que não havendo exame, a filosofia e o seu ensino era uma total descoordenação. É claro que no meio desta barafunda há sempre o fator tolice política. Mas pelo que sabemos até hoje em termos de políticas educativas e sucesso, os sistemas mais coesos têm programas bem organizados perfeitamente compatíveis com avaliações bem feitas. Há certamente outros fatores aqui em jogo. E muitas mais coisas devem entrar neste debate. Mas um exame e um bom programa não menorizam a disciplina, ao contrário do que uma ideia mais radical possa sugerir.As divisões e resistências tem sido muitas, mas, na minha opinião, um programa bem definido e um exame simples, mas coerente tem melhores e mais argumentos a seu favor do que a sua não existência. No meio, o dogmatismo pelo exame ou programa, assim como o dogmatismo pela liberdade total é que me parece não trazerem saúde à disciplina de filosofia.  
Espero que estes apontamentos sirvam a discussão racional, organizada e disciplinada que todos devemos ter quando pensamos no ensino com alguma seriedade. Penso que o que ainda falta ajustar tanto no programa como no exame é também fruto das divisões e afastamentos internos que, diz a experiência, não beneficiou uma vez mais a disciplina. Hoje parece existir maior serenidade, principalmente no que respeita às maiores associações que têm defendido o ensino da filosofia e às quais devemos em parte a responsabilidade de muita coisa mal feita, mas também a subsistência da disciplina de filosofia como obrigatória nos cursos de formação geral. Falo da APF (Associação Portuguesa de Filosofia) e SPF (Sociedade Portuguesa de Filosofia). 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Formação em lógica proposicional - Escola secundária Jaime Moniz




Entre os dias 8 e 10 de Julho de 2019, irei dinamizar o trabalho cooperativo de aplicação da lógica proposicional aos conteúdos das Aprendizagens Essenciais. 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Ceticismo, crenças e conhecimento, Julian Baggini

David Hume é uma das maiores influências de toda a filosofia, em especial da filosofia praticada nas escolas inglesas, de onde nasce um autor como Julian Baggini. É dele que se apresenta pela primeira vez em língua portuguesa (Gradiva, 2018) um dos seus livros mais capazes. Bagginni é tanto autor de manuais como de livros de filosofia mais generalizada e um pouco (ele próprio acha bastante) fora dos cânones académicos. E este volume de Baggini tem certamente a mão de Hume. O ceticismo pode muitas das vezes parecer a melhor fuga à discussão racional, uma fuga para uma qualquer expressão de subjetivismo. Mas, tal como o mestre escocês, também Baggini assume um ceticismo bastante distante desse ceticismo subjetivista. Por isso também Baggini assume logo na capa do livro que é um cético racional num mundo irracional. Este livro é um potente exame crítico das variadas maneiras como, no mundo atual, formamos as nossas crenças. É um livro de filosofia para ser lido por quem se interessa no debate racional e não gosta de acreditar apenas por que sim, para seguir a moda ou então porque se leu um qualquer texto de um fazedor de opiniões. Espero que este livro seja a porta aberta para traduzir mais outros tantos deste autor. Escreve muito bem, pensa muito bem e é dos mais estimulantes que tenho lido nos últimos anos. 

segunda-feira, 18 de março de 2019

Às vezes perguntam-me em que filósofo trabalho, como se isso fosse o que qualquer filósofo tem de fazer. Respondo ao estilo de Oxford: trabalho em problemas filosóficos, não em filósofos.

Timothy Williamson, Filosofar, da curiosidade comum ao raciocínio lógico, Gradiva, 2019, Trad. Vitor Guerreiro, p. 109

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Filosofia com Visão

A divulgação pública da filosofia é tão importante quanto a sua criação. Ocorrem-me dois motivos principais:

1º os problemas filosóficos são (devem ser) quase todos de domínio público
2º sem boa divulgação o interesse pela filosofia acaba por ser reduzida a caricaturas da mesma.

Estas razões são igualmente relevantes para qualquer outra área do saber. Por isso é com graciosidade que recebo cada pedacinho de divulgação da filosofia em espaços públicos e que, de uma assentada, consiga juntar a qualidade, a atualidade e acessibilidade com que problemas difíceis são divulgados e apresentados ao público não especialista. 
Pedro Galvão está a fazer esse trabalho na revista visão. Chama-se Terceiro Excluído e espera-se que venha a publicar com alguma regularidade. Pode ser acessado de forma livre AQUI.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Fazer filosofia

Como modelo para a filosofia, a matemática básica é muito mais útil que o dicionário. Aquilo de que precisamos para raciocinar claramente não são ‹‹verdades por definição››, triviais, mas uma teoria forte, explicitamente articulada. A clareza não aspira a um padrão mítico de indubitabilidade. Ao invés, o propósito é tornar claramente visíveis os erros do nosso raciocínio, como o são na matemática. Se o leitor ouvir alguém negar o valor da clareza, pergunte-se por que razão poderá não desejar que os erros de raciocínio sobressaiam claramente. 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Dica para estudar filosofia

(foto minha)
Quando recebo alunos para apoio ao exame nacional, começo sempre por criar alguns atalhos que evitam desperdiçar tempo e poupam, assim, esforços desnecessários. Um deles é mostrar que, à parte a lógica, em todas as unidades a estudar, a filosofia anda sempre em volta de Problemas, Teorias e Argumentos. Assim, em questões de exame que nos surpreendam, devemos sempre começar por questionar: Que problema se está aqui a discutir? E que teorias conheço que o tentam resolver? Quais os principais argumentos de cada teoria?Quais as objeções possíveis a esses argumentos? 
Não resolve, mas ajuda. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O problema do livre-arbitrío, a resposta compatibilista

Este vídeo é excelente a explicar a resposta compatibilista ao problema do livre arbítrio, incluindo a experiência mental criada por Harry Frankfurt, com a qual pretende argumentar que podemos não ter possibilidades alternativas de escolha e ainda assim sermos livres, ao contrário do que pensavam os compatibilistas "clássicos".