sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mais um TPC

Recentemente leste na aula o texto sobre o caso da tortura. Resumidamente o caso colocava-se nestes termos: ou o Matos torturava o filho inocente de um terrorista para que o terrorista desse informações sobre uma bomba que iria matar centenas de pessoas, ou então não torturava o filho inocente e deixava que a bomba rebentasse matando centenas de vidas inocentes. Nas aulas tiramos duas conclusões: alguns alunos defenderam que o Matos não devia torturar (posição A) e outros que o Matos devia torturar (Posição B). Quando questionamos uns e outros concluímos que os que defendiam a posição A, invocavam como critério para a sua opção os princípios, ao passo que os que invocaram a posição B invocaram as consequências.
O que te proponho é que realizes um pequeno trabalho em que mostres por que razão não optaste por A ou B, isto é, que reveles quais as objecções que podem ser feitas a cada uma das posições morais.

Como começas já a ver esta é a oposição entre éticas deontológicas e éticas consequencialistas, duas respostas ao problema da fundamentação da moralidade, duas respostas objectivistas, claro. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Entrevistamos Harry Gensler

O meu colega de projeto, Domingos Faria, entrevistou o filósofo Harry Gensler sobre o ensino da lógica e a sua importância para o ensino da filosofia. A entrevista pode ser lida AQUI.




Harry Gensler é um filósofo contemporâneo especialista sobretudo em lógica, ética e filosofia da religião. Ensina lógica há mais de três décadas, tendo inventado um método muito simples para testar a validade silogística (o teste estrela), bem como concebeu um método bastante acessível para se fazerem derivações que funciona em lógica proposicional, de predicados, modal, deôntica, epistémica, etc. Além disso, desenvolveu um programa de computador muito popular para se aprender lógica chamado LogiCola

Entre os seus principais livros, podemos encontrar:
The A to Z of Logic (2010)
Introduction to Logic (2010)
Ethics: A Contemporary Introduction (2011)
Ethics and the Golden Rule (2013)


Devido à sua experiência em lógica, decidimos falar com este filósofo para nos esclarecer sobre alguns pormenores no ensino da lógica no Ensino Secundário.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Aula de Filosofia na Semana da Filosofia da Escola Jaime Moniz

No próximo dia 3 de Fevereiro, por ocasião da Semana da Filosofia da Escola Jaime Moniz, darei uma aula de Filosofia Política no Auditório 1 da Escola, pelas 13:15h. O conteúdo da aula será o do programa do 10º ano, mas o que esta aula tem de especial é que os pais dos alunos podem-nos acompanhar para verem como funciona uma aula de filosofia. Estão assim todos convidados a aparecer. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Relativismo Cultural



          “Culturas diferentes têm códigos morais diferentes”- pareceu a muitos pensadores ser a chave para compreender a moralidade. A ideia de verdade universal em ética, afirmam, é um mito. Tudo quanto existe são os costumes de sociedades diferentes. Não se pode dizer que estes costumes estão “correctos” ou “incorrectos”, pois isso implicaria ter um padrão independente decerto e errado pelo qual poderíamos julgá-los. Mas tal padrão não existe; todos os padrões são determinados por uma cultura. (…) O relativismo cultural, como tem sido chamado, desafia nossa crença habitual na objectividade e universalidade da verdade moral. Afirma, com efeito, que não existe verdade universal em ética; existem apenas os vários códigos morais e nada mais.
            (…) À primeira vista (o relativismo moral) parece bastante plausível No entanto, como todas as teorias do género, pode ser avaliado mediante análise racional; e quando analisamos o relativismo cultural, descobrimos que não é tão plausível como inicialmente parecia ser.
            (…)”A noção de certo está nos hábitos da população. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Suponha que tomávamos isto a sério. Quais seriam algumas das consequências?
            1.Deixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos. Isto é claro, é um dos principais aspectos sublinhados pelo relativismo cultural. (…) O relativismo cultural iria impedir-nos de dizer que qualquer destas práticas estava errada. (Nem sequer poderíamos dizer que uma sociedade tolerante em ralação aos judeus é melhor que uma sociedade anti-semita, pois isso implicaria um tipo qualquer de padrão transcultural de comparação).
            2. Poderíamos decidir se as acções são certas ou erradas pela simples consulta dos padrões da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural não se limita a impedir-nos de criticar os códigos de outras sociedades; não nos permite igualmente criticar a nossa. Afinal de contas, se certo e errado são relativos à cultura, isto tem de ser verdade tanto relativamente à nossa própria cultura como relativamente às outras.
            3. A ideia de progresso moral é posta em dúvida. Pensamos habitualmente que pelo menos algumas das mudanças sociais são melhorias. (…) Ao longo da maior parte da história ocidental o lugar das mulheres na sociedade esteve severamente circunscrito. (…) Recentemente, muitas destas coisas mudaram, e a maioria das pessoas pensa que isto é um progresso. Mas se o relativismo cultural estiver correcto, poderemos legitimamente pensar que é um progresso? Progresso significa substituir uma maneira de fazer as coisas por uma maneira melhor. Mas qual é o padrão pelo qual avaliamos estas novas maneiras como melhores? Se as velhas maneiras estavam de acordo com os padrões culturais do seu tempo, então o relativismo cultural diria que é um erro julgá-las pelos padrões de uma época diferente.
            (…) Estas três consequências do relativismo cultural levaram muitos pensadores a rejeitá-lo frontalmente como implausível. Faz realmente sentido, afirmam, condenar certas práticas, como a escravatura, onde quer que ocorram. Faz sentido pensar que a nossa própria sociedade fez algum progresso cultural, embora deva admitir-se, simultaneamente, que é ainda imperfeita e necessita de reformas. Uma vez que o relativismo cultural supõe que estes juízos não fazem sentido, não pode estar correcto.
            (…) O ímpeto original do relativismo cultural resulta da observação de que as culturas diferem de forma dramática nas suas perspectivas do que é certo ou errado. Mas até que ponto diferem realmente? É evidente que há diferenças (…) mas quando examinamos o que parece ser uma diferença drástica, descobrimos com frequência que as culturas não diferem tanto quanto parece.
           


Imagine-se uma cultura na qual as pessoas acreditam ser errado comer vacas. Pode até ser uma cultura pobre, na qual não há comida suficiente; mesmo assim, as vacas são intocáveis. Tal sociedade pareceria ter valores muito diferentes dos nossos. Mas será que tem? Ainda não perguntámos a razão pela qual estas pessoas se recusam a comer vacas. Suponha-se que é por acreditarem que depois da morte as almas dos seres humanos habitam os carpos dos animais, especialmente das vacas, podendo uma vaca ser a alma da avó de alguém. Vamos continuar a dizer que os valores deles são diferentes dos nossos? Não; a diferença está noutro lado. A diferença reside nos nossos sistemas de crenças, e não nos nossos valores. Concordamos que não devemos comer a nossa avó; limitamo-nos a discordar sobre se a vaca é (ou poderia ser) a nossa avó. (…) Não podemos, portanto, concluir que há um desacordo quanto aos valores, só porque os costumes diferem. Pode, pois, haver, menos desacordo quanto aos valores do que parece.
            (…) Há valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria de uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de quês estaria a dizer a verdade, pois poderia facialmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (…) A comunicação seria então extremamente difícil, se não mesmo impossível. (…) Pode, naturalmente, haver excepções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão excepções a uma regra que está em vigor na sociedade.
            (…) Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas as sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. (…) É um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.
            (…) Tudo isto constitui, na verdade, uma completa rejeição da teoria. No entanto, continua a ser uma ideia muito sedutora (…), a teoria deve ter alguma coisa a seu favor, pois a não ser assim porque razão se tornaria tão influente? Penso que, na verdade há alguma coisa correcta no relativismo cultural, e quero agora passar a dizer o que é. Há duas lições que devemos aprender com a teoria, ainda que acabemos por rejeitá-la.
            Primeiro, o relativismo cultural alerta-nos, de maneira correcta, para os perigos de pressupor que todas as nossas preferências estão fundadas numa espécie de padrão racional absoluto. Não estão. Muitas das nossas práticas (mas não todas) são particularidades exclusivas da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural começa com a preciosa observação de que muitas das nossas práticas são apenas isto; produtos culturais.
            (…) A segunda lição relaciona-se com a necessidade de manter o espírito aberto. No processo de crescimento, cada um de nós adquiriu algumas convicções fortes; (…) podemos, ocasionalmente, ver essas convicções postas á prova. (…) O relativismo cultural, ao sublinhar que as nossas perspectivas morais podem reflectir preconceitos da nossa sociedade, fornece um antídoto para este tipo de dogmatismo.
            (…) Perceber isto pode levar-nos a uma maior abertura de espírito. Podemos compreender que os nossos sentimentos não são necessariamente percepções da verdade – podem não ser mais do que o resultado do condicionamento cultural. (…) Podemos ficar mais abertos à descoberta da verdade, seja ela qual for.
RACHELS, James, Elementos de Filosofia Moral, pp.33-54




Questões:
1- Em que consiste a tese do relativismo cultural?
2- Que argumentos apresenta o autor contra o relativismo cultural?
3- Que pensa o autor sobre as diferenças culturais que sustentam a defesa do relativismo cultural?
4- O autor sugere que há possibilidade de encontrar valores transubjectivos?
5- Que aspectos positivos descobre o autor do texto no relativismo cultural? 

domingo, 12 de janeiro de 2014