domingo, 19 de maio de 2013

Ainda há manuais muito maus


Apesar de existir muita bibliografia disponível, é inaceitável como é que encontro nos novos manuais de filosofia incompreensões que são básicas. Entre elas, a de saber com correcção o que é um argumento. Acabei de ler num manual que um argumento “consiste em sustentar racionalmente uma tese”. Como exemplos de argumentos o manual sugere dois:

O altruísmo promove o progresso da humanidade
O altruísmo contribui para o progresso da humanidade

Estes são os dois exemplos de argumentos apresentados no manual. Bastaria fazer umas questões aos alunos no próprio manual para perceber que as mesmas não teriam qualquer resposta possível. Então vamos lá?

1.      Indique a ou as premissas do primeiro argumento?
2.      Qual a conclusão do primeiro argumento?
3.      Qual a tese defendida no segundo argumento?
4.      Quais a ou as razões apresentas no segundo argumento para a defesa da tese nele enunciada?

Como se verifica, só entrando no reino da engenharia fantasista é que daríamos respostas a estas questões. Isto porque as afirmações apresentadas no manual não são argumentos.

Até aqui o manual indica que se deve saber distinguir um texto jornalístico de um texto filosófico. Não percebi bem a relevância da distinção feita, mas ela assenta no seguinte:

Enquanto o texto jornalístico tem por função informar, descrevendo o que aconteceu, o texto filosófico pretende provocar o debate e a reflexão crítica

Nem sei muito bem se o que está mais errado é não se perceber o que é a filosofia ou o texto jornalístico, até porque no texto jornalístico pode-se perfeitamente provocar o debate e reflexão crítica. Quando abrimos os jornais nos dias de hoje, o que não falta são textos jornalísticos de reflexão crítica e debate em torno da crise financeira e social. E não são textos filosóficos pois não tratam de problemas da filosofia.

Depois refere o manual que na dimensão discursiva do texto filosófico se devem distinguir dois pólos: o leitor e o texto. Queria evitar a ironia nestas observações que tenho feito aos manuais, pois a minha intenção é ajudar a corrigir para fazer melhor. Mas confesso que não sei como expressar a vagueza deste tipo de explicação de outra forma: então e que tal acrescentar outros pólos à dimensão discursiva, como o facto de necessitarmos de olhos, de luz, etc… para a dimensão discursiva. Qual a relevância de indicar aos alunos que para analisar um texto filosoficamente precisamos de dois pólos: o texto e o leitor? Isso parece elementar e pouco filosófico, não? Os autores indicam que a leitura do texto filosófico é dinâmica. Mas qualquer leitura é dinâmica. O que creio que os autores querem dizer, mas não dizem (não sei por quê) é que em filosofia fazemos uma leitura activa uma vez que estamos a investigar problemas e não a ler romances, o que é uma coisa completamente diferente de afirmar que na leitura do texto filosófico existem dois pólos, o leitor e o texto.

No caso deste manual cada linha escrita é um deslize gigante. Diz logo a seguir que “um cientista tem de garantir a adequação da sua tese e aquilo que pode ser cientificamente comprovado”. Afirma-se isto mesmo sem ter qualquer consideração pela investigação em filosofia da ciência que se vai ensinar no 11º ano. Se o critério da ciência fosse a comprovação (penso que empírica, a que é referida) a esmagadora maioria das teorias científicas não estariam comprovadas. Mas, já agora, não estariam, é, ainda falsificadas.
Momentos antes o manual sugere uma distinção entre filosofia espontânea e filosofia sistemática. Esta distinção não existe, sequer. O que existe é filosofia. Do facto das pessoas fazerem as contas quando vão às compras não se segue que estejam a fazer matemática. Do facto das pessoas dizerem as tolices que quiserem acerca da moralidade do casamento homossexual, não se segue que sejam filósofas ou estejam a fazer filosofia.

O manual refere que:

Quando se inicia a leitura de um texto filosófico, deve-se ser capaz de identificar alguns aspectos:
O tema em questão
O problema abordado
A(s) tese(s) defendida(s) pelo autor

De seguida, deve-se procurar identificar os argumentos utilizados pelo autor para sustentar a sua tese

Logo aqui parece surgir de novo a incompreensão do que é um argumento. O argumento não é algo separado da tese do autor. A tese é uma parte da argumentação. Noutras palavras que o manual procura sempre evitar: é a conclusão do argumento.

Mas logo a seguir indica-se que:

Referimos que não existe um método único para a análise  do texto filosófico. Qualquer método de interpretação de textos filosóficos é sempre limitado e incompleto, podendo ser válido para um determinado texto e não o ser para o outro

E a justificação dada é que na filosofia o texto “deve ser aberto á colaboração do autor”. Remata-se isto com um texto de Konrad Lorenz que, como sabemos foi um zoólogo. Ou seja, propõe-se ao aluno que analise um texto filosófico com um texto não filosófico. O interessante é que o texto desmente tudo aquilo que se disse anteriormente, pois apesar de não tratar qualquer problema filosófico, contém nele um argumento. Trata-se de um texto sobre os problemas dos aglomerados populacionais nas grandes cidades e das consequências sociais desse fenómeno.

Do primeiro capítulo, nenhum aluno fica sequer com a menor ideia do que seja filosofar.

Vou escrevendo estas linhas à medida que avanço no manual. Saltei umas páginas à sorte e fui parar a uma célebre distinção entre juízos de facto e juízos de valor. Os juízos de valor são definidos como subjectivos, não tendo valor de verdade e normativos e avaliativos. Nenhuma destas caracterizações é correcta. Antes disso pensei de imediato: se o manual indica os juízos de valor como subjectivos, então não deve abordar o problema da subjectividade / objectividade dos valores, pois se a tese objectivista for verdadeira e se for verdade que é errado matar seres humanos inocentes, por exemplo, então um juízo de valor como “é errado matar seres humanos inocentes” tem de ser verdadeiro e objectivo. Em todo o caso, o manual aponta a distinção entre objectivismo dos valores e subjectivismo. Já lá iremos.

A caracterização dos juízos de facto está errada porque:

1)      Se alguns valores forem objectivos, é falso que os juízos de valor são subjectivos
2)      Se alguns valores forem objectivos, alguns juízos de valor têm valor de verdade
3)      Nem todos os juízos de valor são normativos. Um juízo sobre uma obra de arte é um juízo de valor que não sugere qualquer normatividade.

No manual a caracterização de juízos de facto também é errada. Diz-se que os juízos de facto são objectivos porque existe uma correspondência directa entre o que é afirmado e a realidade. Não é ser ou não objectivo que caracteriza um juízo de facto, mas sim a sua possibilidade de ser verdadeiro ou falso.

Assim, uma caracterização correcta e sem confusões será como:

Juízos
Tem valor de verdade?
De facto
Sim
De valor
Sim ou não


Isto até se compreende muito bem se pensarmos num juízo de facto como: “Há vida em marte”. É um juízo de facto porque podemos saber investigando se há ou não vida em marte, isto é, podemos saber se é verdadeiro ou falso, ainda que não saibamos se o é ou não. Enunciamos muitos juízos de facto que podem ser falsos. Podemos afirmar “O João está presente na aula” só porque nos enganamos e de facto ser falso o juízo, pois o facto é que o João está a faltar.

Para o objectivismo axiológico, a explicação apresentada é que os valores têm uma existência concreta, nos objectos, independentes do sujeito. Ora isto está completamente errado. Primeiro porque é trivial que há valores subjectivos. Por essa razão é que os objectivistas defendem que alguns valores têm valor de verdade. Ter valor de verdade não significa que são dependentes ou independentes do sujeito que avalia. Significa antes que podem ser verdadeiros ou falsos. Mas não são verdadeiros ou falsos em consequência de estarem presentes nos objectos da avaliação. Podem ser verdadeiros ou falsos dependendo do raciocínio. No caso de juízos morais é isso que acontece. Um valor é verdadeiro ou falso dependendo do raciocínio moral, mas não porque, como diz no manual, os valores tenham uma existência concreta. Além de confuso é muito complicado expor coisas como estas aos alunos de 15 anos.

A definição da tese do objectivismo dada no manual é incompatível com o que se diz logo a abrir este capítulo. No início refere-se que é o ser humano que exprime valores. Mais adiante elenca-se algumas objecções ao subjectivismo e expõe-se de modo abreviado o objectivismo, sem elencar qualquer objecção. Mas define-se objectivismo como a posição filosófica que defende que os valores dependem de propriedades concretas dos objectos.

O manual rejeita liminarmente algumas teorias (algumas delas nem são filosóficas) para apresentar outras como verdadeiras (e algumas delas também não são sequer filosóficas), o que é claramente incorrecto e traiçoeiro para um ensino da filosofia com o mínimo de seriedade e qualidade.
E fiquei por aqui na leitura deste manual. 

4 comentários:

Rui Areal disse...

Mas cada vez há mais manuais com qualidade... felizmente.

Rolando Almeida disse...

Olá Rui, na verdade fiquei com essa impressão ao folhear os manuais assim que me foram chegando às mãos. mas mal os começo a ler, não mantenho, infelizmente, a mesma opinião. A esmagadora maioria são feitos apressadamente sem se pensar no que se está a fazer. Se fosse fácil fazer um manual, eu também já teria o meu

Frederico Gastão disse...

Rolando, lá está você a fazer confusão. Você esquece-se que existem jogos de linguagem diferentes.

No âmbito da Lógica, que é uma disciplina lecionada em Filosofia e que até já foi lecionada em Matemática, e que até pode ser ser considerada uma ciência autónoma, chamamos argumento ao conjunto das premissas e da conclusão.
No entanto repare que numa teoria da argumentação, como a de Perelman, que o Arte de Pensar e o Luís Rodrigues, sempre ignoraram, apesar de ser uma matéria presente nas orientações para a lecionação do programa para efeitos de avaliação externa, este autor refere que argumentar é apresentar razões (os argumentos) a favor ou contra uma determinada tese. Aliás o programa original, para o qual o Rolando parece-me que nunca olhou, refere isso mesmo. Consulte o programa, na página 27, e verá,na abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar, na dimensão discursiva do trabalho filosófico, o ponto 3 e verá a afirmação "Identificação das teses que os textos defendem e dos argumentos que apresentam". Portanto, pedir a um aluno que identifique a tese e os argumentos que a justificam é perfeitamente legítimo.

Rolando Almeida disse...

Frederico,
Se não sabe ou tem dúvidas sobre o que é um argumento tudo o que tem a fazer é consultar os manuais sobre essa matéria, os manuais universitários. Perelman não é, sequer, um autor central na retórica. É até muito lateral. Mas já agora, eu não fiz confusão alguma pois é falso que quer o programa (muito menos na página 27), quer as Orientações de 2011 (as únicas em vigor) remetem para Perelman ou para a ideia de que um argumento são apenas premissas. Apresenta-se argumentos contra uma tese? Claro que sim. Uma coisa é afirmar isso dessa maneira. Outra bem diferente é afirmar, erradamente, que um argumento é uma coisa diferente de uma tese. É um erro, nada mais. O que diz o programa é isto: “Identificação das teses que os textos defendem e dos argumentos que apresentam;”. Isto nem sequer é muito claro, mas vou ser caridoso e pressupor que o programa não tem erros e está muito bem feitinho. O Frederico pega nos textos e tem de ver as teses e os argumentos que eles apresentam. Daí não se segue que um argumento seja premissas e a tese uma coisa fora do argumento. Que tolice! Nem é preciso saber filosofia para saber isto. Outra coisa: o Luís Rodrigues tem manuais do 11º com textos de Perelman.