quinta-feira, 18 de abril de 2013

Manuais 2013 – como escolher um bom manual


A crítica e análise pública de manuais é uma necessidade. É aí que se joga a qualidade e exigência relativa aos manuais escolares. É com essa análise crítica que se corrigem erros, que se consegue fazer melhor. O meu pequeno trabalho em 2007 e 2008 visava isso mesmo, a melhoria da qualidade geral na concepção de manuais escolares de filosofia. O trabalho foi muito modesto, mas acabou por ser muito usado e discutido pois foi praticamente único e isolado. A ideia é bastante simples: se nos nossos grupos disciplinares analisamos manuais com critérios didácticos e científicos, por que não partilhá-los com autores, colegas, e todos os interessados? Afinal de contas os autores raramente sabem bem as razões que levaram os professores a rejeitar os seus manuais e optar por outros.

Aproxima-se o tempo de adopção de novos manuais do 10º ano para os próximos 6 anos lectivos. Há que discutir antes de tudo se este modelo de adopção de manuais é o mais acertado. Há vários factores a ter em conta para este ponto. Por uma questão de gestão de tempo, abordarei aqui brevemente apenas um, o que interessa ao professor e o que de certo modo mais tem afectado a minha experiência como professor de filosofia. Quase sempre tive maus manuais adoptados. É interessante pensar as razões que explicam que maus manuais sejam sistematicamente adoptados, quando temos desde pelo menos 2003 concorrentes muitíssimo mais competentes e de qualidade incomparável. Para já interessa aqui apenas salientar que um professor que deseje fazer um bom trabalho, tendo adoptado um manual sofrível, está rendido à ditadura do manual, pois não o escolheu e não pode optar por outro. E o problema surge: que fazer? Trabalhar sujeito a um manual que presta uma homenagem patusca à sua disciplina ou pedir aos alunos que guardem o manual no armário e recorrer a outros materiais, muitas vezes roubados a outros manuais que não o adoptado na sua escola? Na verdade é isto que tenho feito nos últimos anos. Nada há a fazer senão explicar aos alunos e aos pais que gastaram cerca de 30€ num mau manual, que o manual é desadequado. O professor menos exigente pensa porventura que tudo não passa de uma questão de gosto pessoal. Mas as coisas não são bem assim. Senão como explicar aos alunos que, afinal, os argumentos podem ter uma só premissa? Como explicar aos alunos que fazer a distinção entre argumentos dedutivos e condicionais é uma distinção inexistente e sem qualquer sentido? Como explicar que um argumento dedutivo nada tem que ver com premissas gerais ou particulares e conclusões mais gerais ou particulares? Como explicar aos alunos que o manual chama argumento a proposições? E mais grave talvez: e se é o próprio aluno a reparar nesses erros? E como explicar ao aluno que a matemática, a física, a biologia também possuem como características a universalidade, a historicidade, a radicalidade e a autonomia? É que essas são tão características da filosofia como de todos os outros saberes? Em alguns casos mais graves como explicar aos alunos que o seu manual comete um erro ao afirmar que a dedução é usada somente nas ciências quando Descartes, Platão ou Russell se fartaram de fazer demonstrações dedutivas? Como explicar David Hume correctamente se nunca se explicou antes o problema da validade não dedutiva? Isto para nem falar que desse modo é pura e simplesmente impensável explicar as razões da teoria de Popper na filosofia da ciência. Como explicar que, afinal, o manual está errado quando afirma que extensão e compreensão de conceitos variam em razão inversa?

Basta começar a pensar um pouco nas coisas para ver que muita coisa não bate certo. Mas além disso, como disse, desde pelo menos 2003 temos outros filtros. Hoje em dia temos a internet e acesso a boas fontes.

Para a adopção cuidadosa dos manuais há que seguir alguns critérios. Faço aqui uma pequena lista que pode ajudar.

  • ·         Em regra os autores cometem falhas em capítulos cruciais. Assim, por exemplo, nos maus manuais aparecem confusões enormes na lógica ou nos instrumentos lógicos do pensamento. Uma boa regra é começar por ler e analisar esses capítulos.

  • ·         Os manuais não são para os professores, mas para os alunos. A clareza da linguagem deve ser, acima de tudo, uma primeira regra de exigência, sem confundir clareza com falta de rigor. Só conheço uma forma de se conseguir ser claro, que é ter um bom domínio das matérias. Um mau domínio faz com que as ambiguidades apareçam com frequência.

  • ·         Muitos manuais, aproveitando um programa aberto, apresentam mais conteúdos de sociologia do que filosofia. Assim, por exemplo, grande parte deles, prefere abordar o sagrado e o profano na filosofia da religião do que propriamente um problema filosófico como o da existência de Deus.

  • ·         A filosofia acima de tudo pratica-se. Há manuais que são expositivos e pouco mais. Limitam-se a expor o que Descartes ou Hume pensaram e não os argumentos que sustentam as suas teses. Um manual que estimule a reflexão crítica inclui objecções às teorias, apresenta não o que os filósofos pensam, mas a discussão filosófica dos problemas. Há que fazer então a seguinte questão: o manual a optar apresenta objecções às teorias apresentadas? Se não como justificar que servirá bem uma correcta aprendizagem da disciplina?

  • ·         É muito importante que o manual tenha um fio condutor e uniforme do princípio ao fim. Um mau manual apresenta algumas noções de lógica no início (argumento, premissas, conclusão, validade, verdade), mas rapidamente abandona essas noções e nunca mais as aplica. Ou seja, o estudante fica mais ou menos como eu quando estudei lógica na universidade, isto é, sem perceber muito bem para que serve aquilo tudo que estudou logo nas primeiras aulas.

  • ·         Os maus manuais defendem que a filosofia é uma actividade crítica, mas depois raramente estimulam a discussão crítica. Os maus manuais apresentam exercícios que mais não são do que interpretação de textos, exercícios não muito diferentes de qualquer manual da disciplina de português.

  • ·         Os bons manuais baseiam-se em boas bibliografias, de filósofos actuais e clássicos. Os maus manuais muitas vezes apresentam textos que não são de filósofos nem apresentam quaisquer teses filosóficas. Muitas vezes os maus manuais também optam por autores com escrita muito ambígua e hoje em dia pouco consensuais nos grandes centros de investigação filosófica. Não há qualquer necessidade de procurar resolver problemas filosóficos fora da filosofia, quando a história da filosofia nos oferece milhares de exemplos excelentes.

  • ·         Um bom manual contém não só textos dos filósofos clássicos como textos de filósofos actuais de expressão inglesa. Os autores de expressão inglesa hoje em dia conseguem ser mais claros e rigorosos e, por isso, muitíssimo mais vantajosos didacticamente. Assim é de longe preferível um manual que apresente alguns textos de autores como Peter Singer ou Thomas Nagel do que Gilles Deleuze ou Heidegger.

  • ·         A formação dos autores é relevante. Onde estudou, o que tem publicado, que conhecimento tem do ensino secundário, etc.. Há bons autores com pouco currículo e maus autores com muito currículo. Mas é mais fácil optar por um manual de um autor que publica com regularidade pois desse modo podemos conhecer o trabalho do autor por outras fontes e no momento da opção conhecemos como escreve, como apresenta a filosofia, se é claro no modo como a apresenta, etc…

  • ·         Ainda mais uma nota à minha lista: hoje em dia temos bom acesso à internet. Há dezenas de manuais de filosofia acessíveis. Que tal conhecer alguns manuais do AS Level inglês, que é o equivalente ao nosso ensino secundário? Que se publica em filosofia para ensinar os jovens nesses países? Claro que é melhor optar pelos bons modelos e é uma opção mais acertada ir de encontro aos manuais ingleses do que aos franceses ou espanhóis. Isto por uma razão: ao passo que tanto em França como em Espanha o ensino da filosofia no secundário está em decadência há anos, em Inglaterra ou Estados Unidos passa-se exactamente o contrário. Pelo que faz sentido espreitar os bons modelos e aprender com eles.

Espero que estas dicas possam constituir uma boa ajuda para a apreciação dos manuais. Mas espero sobretudo que se façam opções acertadas e que de uma vez por todas se opte pela qualidade em vez da mediocridade. Pelas minhas contas vamos ter cerca de 15 manuais diferentes (em 2007 eram 17). Pelo menos 5 são opções seguras. Outros 6 são más opções. 4 ficarão entre o sofrível e o aproveitável. Façam as vossas análises e publiquem-nas.  

5 comentários:

Eva A. disse...

Caro Rolando Almeida,
Como editora do Projeto Desafios de Filosofia da Santillana, gostaria de lhe dar conhecimento de que o seu trabalho realizado em 2007, com uma análise rigorosa e objetiva dos manuais de Filosofia do 10.º ano, me foi muito útil, permitindo-me recolher informações muito importantes, que de alguma forma influenciaram o meu trabalho de edição.
Estou convicta de que se o Projeto Desafios de Filosofia da Santillana agora publicado for alvo de uma análise cuidadosa, realizada em função de critérios relevantes e objetivos, como os que aqui sugere, será bem-sucedido. Do excelente trabalho realizado pelos autores, Faustino Vaz e Luís Veríssimo, resultou um projeto de uma qualidade filosófica e didática inquestionável, sólido, organizado e muito completo. Foi estruturado e escrito a pensar nos alunos, com textos que apresentam uma linguagem clara, acessível, didaticamente adequada e cientificamente rigorosa. Caracteriza-se igualmente por uma forte aposta na dimensão prática da filosofia e na sua capacidade motivadora da aprendizagem.
Muito obrigada pelo trabalho que tem vindo a desenvolver no sentido de contribuir para uma melhoria da qualidade geral dos manuais escolares de Filosofia.

Rolando Almeida disse...

Olá Eva, como está? É sempre muito bom saber da utilidade do trabalho feito. E fico feliz que o meu trabalho tenha em certo sentido dado alguma orientação à vossa decisão editorial. Na verdade já me chegou às mãos o trabalho do Faustino Vaz e Luís Veríssimo e espero que tenha um bom resultado nas adopções, pois é dos projectos mais competentes que tenho visto em filosofia. Consegue até ser tão excelente para os alunos, como para os professores. É um trabalho que merece a melhor atenção. Obrigado

António Gomes disse...

Rolando,

só uma observação (pormenor, secundário): os manuais espanhóis não são tão maus como parece que achas serem. Não sei se conheces algum (ou se o que escreveste é o que supões); eu comprei alguns, em tempos idos, e garanto-te que os há melhores do que, pela tua apreciação, algum leitor poderia ser levado a pensar...

Rolando Almeida disse...

Gomes, não é muito elegante pressupor que alguém desconhece X somente porque não estamos de acordo com o que escreveu sobre X. Do mesmo modo podes dizer, se fores espanhol, que nos Açores existem bons manuais de filosofia. Claro que existem. Daí não se segue que vás, enquanto espanhol, usar como guias de bons manuais os manuais dos Açores. A minha ideia é muito clara.

zarsoft disse...

Caro Rolando Almeida, gostei da sua perspetiva racional do problema. Outro problema semelhante é a inexistência de manuais com matéria que devia estar incluída. Por exemplo, o futuro da humanidade. Dado o estado da mundo comtemporâneo, da globalização e dos direitos humanos, devia ser uma matéria incontornável. A Republica, Utopia, A Nova Ordem Mundial, O 8º Dia, etc. O livro O 8º Dia até consegue propor uma solução para acabar com todos os problemas da humanidade.