sábado, 9 de janeiro de 2010

A aldrabice da avaliação dos professores




Esta semana foi finalmente assinado um acordo entre sindicatos de professores e ME para o ECD e a avaliação dos professores.
Em primeiro lugar é corrente a ideia de que os professores precisam de ser avaliados, mas nunca percebi muito bem como é que esta é uma verdade estabelecida. De tantas vezes repetida, acho que se tornou uma verdade inviolável. Não percebi muito bem por uma razão especial: o antigo ECD prevê a intervenção da escola quando encontram professores menos bons a leccionar. Se não o fazem, qual o sentido de intervir no processo de avaliação? O problema é a falta de aplicação.
Depois porque sinceramente nem me vejo a avaliar colegas nem percebo por que raio tenho de me sujeitar a avaliações de colegas. Além disso vou ser avaliado em situações profissionais que nem sempre escolho, ao passo que outros colegas são avaliados em situações profissionais que escolhem. Por exemplo: este ano sou professor num curso CEF. A prática lectiva e o professor que sou no CEF nada tem que ver com o professor que sou quando lecciono filosofia no secundário. Leccionar CEF não foi uma circunstância profissional que eu tenha escolhido, ao passo que há colegas, pela graduação profissional, que têm prioridade nas suas escolhas para leccionação e leccionam o que mais gostam. Na minha posição profissional, todos os anos tenho turmas novas e cursos diferentes. Ou seja, há anos a fio que, para além de ter níveis de ensino muito diferentes, me vejo a braços com ter de preparar programas aos quais, no ano seguinte, já não dou continuidade. Será esta uma situação profissional, a exemplo, que possa ser avaliada nas mesmas circunstâncias de um professor que escolhe os níveis, tem anos seguidos de experiência de leccionação nos mesmos níveis, etc.? Ou terei de escrever todas estas coisas num relatório final? Sinceramente não me apetece desculpar a minha avaliação, mas, na prática, é isto que acontece com a avaliação que os sindicatos que representam os professores assinaram em acordo.
Mas vamos a outro exemplo: em dois momentos da avaliação, a progressão é travada por quotas. Mas como é que existe equidade na avaliação entre um docente de matemática e um outro de educação física, por exemplo? Não digo que uma seja mais fácil que outra (para ser sincero acho mesmo que as disciplinas tem à partida níveis de exigência na leccionação diferentes, para além de todos os problemas pontuais que ensinar a uma turma levanta), mas não é suposto existirem diferenças? Acontece que um professor de educação física considerado excelente não é o mesmo que um de filosofia considerado excelente. Há requisitos diferentes. Mas ambos concorrem para as mesmas cotas.
Há muito, muito mesmo, a dizer sobre este modelo de avaliação. Os sindicatos foram imprudentes a assinar o acordo. E nem me apetece aqui falar das promessas eleitorais do principal partido da oposição.
Mas a procurar uma frase síntese que em segundos explique a avaliação docente a quem de fora me pergunte o que penso do assunto, ela será: “avaliação? Qual avaliação?”. Não tenho qualquer dúvida que qualquer curandeiro disfarçado de professor de filosofia obterá melhor classificação que muitos professores de filosofia que ensinam com rigor e aplicação. E isto não é avaliação, nem distingue os mais aplicados, nem contribui para um melhor sistema de ensino. E a vida continua. Como sempre.

4 comentários:

António Daniel disse...

Caro Rolando, se não queiseres publicar isto, tubo bem, mas apetece-me dizer.
Nós, profs, somos os últimos ingénuos deste mundo. finalmente vamos deixar de o ser porque vamos encontrar o segredo da vida: treta. E quanto mais treta tem o ensino, mais ele será verdadeiro. Apetece dizer como Colin McGinn: não me fodam o juízo. O problema da avaliação é a exigência das outras classes profissionais que todos sejam fodidos no juízo independentemente da seriedade das coisas. Juntando foder com treta posso dizer que tudo isto é uma treta fodida. Abraço.

Luís disse...

Rolando,
Para começar, um excelente ano de 2010.
Este texto é certeiro, demonstrando algumas perplexidades associadas ao que se tem tentado fazer no sector educativo. Seja relativamente a um sistema de (pseudo)avaliação ou alterações curriculares.
Em primeiro lugar, para estas equipas (ministério e sindicatos) o que parece contar no importante tópico da avaliação dos docentes são os problemas de ordem financeira. Por parte da tutela, as contas gerais do estado. Por parte dos sindicatos, os interesses dos seus representados. Receio que ambos estejam enganados quando ao que importa aqui: estabelecer metas de qualidade no ensino (e na formação), racionalidade e adequação dos programas à promoção do saber e critérios de aferição de resultados, que sejam objectivos e passíveis de discussão e análise pública. Para que o sistema educativo possa fazer o seu exigente trabalho respaldado no conhecimento das várias áreas disciplinares, mas também pelo mandato e a legitimidade que a sociedade pode dar quando discute o sistema e o seu propósito.
Outro ponto do teu texto que considero muito nocivo ao nosso trabalho é a volatilidade dos programas que temos que leccionar. O que acontece sempre (e não julgo exagerar) aos professores mais novos, menos experientes (embora, por vezes com mais formação) e com os vínculos mais frágeis. Cheguei a ouvir da boca de um professor (seguramente um candidato a titular!), em plena reunião de Departamento, que os professores que leccionavam CEF´s EfA´s (e afins (ÁI, entre outras) não trabalhavam. E portanto deveriam ser penalizados na avaliação (que na altura se estava a preparar). Surpreendido? Não, há muito sabia que estes professores escolhem as turmas que querem e horários que mais lhes convém. Até aqui, isto será o que acontece noutras organizações. Mas penalizar os mais novos porque não trabalham a leccionar aqueles "currículos"???
Era uma estratégia (de negra política) da tutela: dividir para reinar. Considero é que qualquer dia, tutela e sindicatos, reinam sobre uma geografia de cinzas e fumo. E não restará nada do sistema público de educação. Se é isso que se quer, convinha era que se pudesse discutir publicamente. Seriamente. Politicamente.
Mas - como dizes no final - a vida continua, como sempre. Até quando?
Um abraço e bom trabalho,
Luís Vilela.

Rolando Almeida disse...

Daniel,
Sou muito céptico quanto a uma avaliação do trabalho dos professores. E isto por uma razão simples: não temos no nosso país massa crítica suficientemente capaz de fazer avaliações sérias e rigorosas, porquanto tudo cai na arbitrariedade e no aleatório. Defendo uma avaliação informal que procure corrigir os pontos fracos do ensino. Depois parece que é fácil derrotar os professores desde que o ME adoptou uma postura de tudo menos de rigor no ensino. Os programas de ensino não são rigorosos, a formação em educação é caduca e nada rigorosa, pelo que os professores têm formações debilitadas e, assim, é mais ou menos fácil derrotá-los em qualquer avaliação. Não sei onde estavam os sindicatos mais os 120 mil manifestantes quando nos dão cabo dos programas, dos curriculos e dos exames nacionais. Mas talvez esteja a pedir demais.

Luís,
Bom ano para ti também. Essa que me contas do CEF e Efas é curioso, por uma razão: realmente aquilo não dá qualquer trabalho científico de preparação pois não existe nesses cursos esse nível de exigência, mas a verdade é que uma só turma de CEF que tenho dá-me muito mais trabalho que as outras. Que trabalho? Preparação de actividades, manuais e uma dose de talento infindável, paciência inesgotável para integrar 1% dos alunos de costas claramente voltadas para a escola e para o sistema de ensino. Mas há um aspecto curioso nos CEFS e EFAS. É que a maioria dos professores envolvidos nesses cursos e a leccionar a essas turmas não são os "agora antigos", professores titulares, mas precisamente aqueles que não têm muita margem de escolha.Este facto deve ser analisado pelos professores que partem do princípio de que os cefs e efas não dão trabalho algum. Se não dão, por que razão não vão esses professores ensinar a essas turmas? Eu oferece-lhos de bom grado os cefs e efas em troca de ensinar algo que gosto mais, filosofia.
abraços

Rolando Almeida disse...

Depois acontecem algumas coisas bizarras. Talvez eu esteja a ver mal a coisa já que ainda não vi ninguém publicamente falar nestes termos, mas parece que o primeiro ministro estava à espera de um acordo para arranjar um tacho à Maria de Lurdes Rodrigues. Repito, devo estar a ver mal, mas entendi isso como mais uma manifestação de forças. E soube-me muito, mas mesmo muito mal.