quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Acordês Ortografês, ou cá vai mais de Eduquês

Confesso que não estou especialmente preocupado com o acordo ortográfico. Li sobre o assunto, pesei argumentos e estou convencido que são mais os contras que os prós em estabelecer mais um acordo ortográfico. Mas entre muitas razões lidas e discutidas, estava agora mesmo a ler a nota de introdução de um pequeno livro sobre o acordo, publicado na Texto Editora, da autoria de João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia, quando leio o seguinte argumento:


A terceira razão é de natureza pedagógica e também internacional. Nas várias escolas e Instituições em que por esse Mundo fora se ensina e cultiva o português, convém que haja só uma ortografia, e não duas, pois tal facilita a aprendizagem.


E o período do texto acaba exactamente com este parágrafo. Isto é, assume-se que esta é uma verdade sem discussão, estabelecida e comprovada. Mas se assim é, qual a razão que ainda não conduziu outros povos a acordarem a sua ortografia, como por exemplo os ingleses e os americanos? Será que temos estudos avançados que nos provam a solidez deste argumento? Por outro lado, mesmo sem a linguística ser a minha especialidade académica, arrisco a defender que não é a ortografia unificada que facilita mais a aprendizagem de uma língua, mas a simplicidade da sua gramática, resultado de anos e anos de estudo aturado. E de facto, quem dominar um pouco de outras línguas percebe com facilidade que a língua portuguesa é confusa e complexa, quando podia, de facto, ser mais simples.
Não tenho assim tanta certeza como estes dois autores que a unificação ortográfica simplifique as aprendizagens. Mas se tal fosse verdade havia até fortes razões para falar no planeta inteiro uma só língua. É discutível.
Mas enquanto vamos pensando assim, com as nossas verdades tiradas não se sabe bem de onde, a verdade é que se queremos ler Eça de Queiroz tal como ele escreveu temos de o ter traduzido dentro da própria língua para compreender o que se lê, ao passo que um inglês ou americano, sem qualquer acordo, consegue ler Shakespeare no original, tal como foi escrito pelo próprio autor. Portanto, não estou a ver de que forma a unificação vai simplificar aprendizagens. E, já agora, vamos também ter de traduzir um dos dois nossos Nobel, precisamente da literatura, José Saramago, já que os seus livros passaram a constar na lista dos livros com erros de ortografia. 

2 comentários:

Eduardo F. disse...

Muito bem, amigo.

Partilho integralmente do que dizes, pelo que vou partilhá-lo.

Abraço.
:)

Rolando Almeida disse...

Obrigado Eduardo e um abraço