sexta-feira, 21 de junho de 2013

A minha opinião sobre o exame nacional de filosofia

Hoje mesmo arranjei algum tempo e fiz o exame de filosofia. Tenho como estratégia realizar eu próprio o exame sem olhar para os critérios de correcção. Desta forma consigo ver muito melhor as deficiências dos exames. Aliás, é exactamente assim que faço com todos os meus testes. De uma maneira geral gostei mais deste exame que dos anteriores. Há aspectos positivos e negativos no exame. Vamos a eles:

Positivo:
- É relativamente simples, o que na minha opinião se adequa a um exame. Sempre defendi que os exames não têm de ser de um grau de dificuldade muito elevado
- O tempo parece-me adequado. Demorei menos de 40 minutos a realizá-lo, de modo que me parece adequado aos alunos de secundário.
- As questões de um modo geral são directas, sem grades artificialismos e ambiguidades.

Negativo
- O exame ainda constitui um grande apelo aos alunos que “decoram” grande parte da matéria, mesmo nas questões de opção. De uma forma geral não direcciona as respostas para os problemas, mas para testar se decoraram ou não as teorias dos principais filósofos.

Este ponto merece uma reflexão:
Não sei até que ponto a generalidade do ensino da filosofia estaria vocacionado para um exame que remetesse os alunos para a discussão dos problemas, mas na minha opinião valeria a pena arriscar. E isto porque mesmo os alunos que tenham realizado um estudo mais à base da memorização, decorrente de um ensino assim direcionado, estariam em condições de pensar pela sua própria cabeça. Por outro lado, parece-me que um exame que remetesse directamente para a discussão agradaria muitíssimo mais aos alunos que o realizassem.

Por exemplo, em vez de se pedir para comparar ou expor as teorias, poderia colocar-se um diálogo, simples, no qual duas pessoas discutissem teorias. Daí podem-se fazer várias questões que remetam para competências da disciplina: Identificação do problema, das teorias em causa e, finalmente, uma posição crítica dos alunos sobre as mesmas. Repare-se que nenhum aluno conseguiria responder sem dominar as teorias, mas ao mesmo tempo a resposta nunca seria totalmente adequada se, com esse conhecimento, o aluno se escusasse de pensar criticamente. E os critérios de correcção teriam de ir nesse sentido, já que os alunos que realizaram um estudo baseado na memorização, sem compreender muitas vezes o que está em causa, limitam-se nestas respostas a “despejar” a teoria toda sem, com efeito, estar a pensar sobre ela.

Há muitas formas engenhosas de fazer isto: uma delas, por exemplo, é confrontar o aluno com as objecções aos problemas filosóficos.

As vantagens de testes e exames que apelem ao aluno para pensar pela sua cabeça, é que colocam directamente em teste, examinam as competências filosóficas, sendo que as principais se prendem com:

·         Identificação do problema
·         Identificação das teses em disputa
·         Identificação dos argumentos de cada tese
·         Posicionamento crítico sobre os problemas, teses e argumentos.


Seja como for, nota-se algum esforço no exame de dar uns passos neste sentido. E este, para mim, é de longe um exame preferível a muitos outros. Espero que seja para continuar. 

7 comentários:

Frederico Gastão disse...

Caro Rolando

". Identificação do problema
· Identificação das teses em disputa
· Identificação dos argumentos de cada tese
· Posicionamento crítico sobre os problemas, teses e argumentos"

Vejo que já aderiu ao tal jogo de linguagem que criticava. Digo-o sem qualquer ironia e com todo o respeito

Cumprimentos

Rolando Almeida disse...

Faz parte do trabalho em filosofia saber identificar os problemas em análise, as teses em disputa e os argumentos apresentados por cada tese, bem como as respectivas objecções. Esta metodologia foi já por mim diversas vezes (diria muitas mesmo) e em diversos locais explicada. Não encaixo aqui sequer qualquer jogo de linguagem. O conceito de "jogos de linguagem" usado por Wittgenstein e adaptado mais tarde por filósofos como Rorty para "jogos de racionalidade" não tem aqui qualquer aplicação, pelo menos que eu esteja a ver.

Frederico Gastão disse...

Caro Rolando

Aqui há tempos você criticava um manual por, na análise de um texto, os autores do manual pedirem aos alunos para fazerem aquilo que você considera serem as principais competências filosóficas:

Identificação do problema
· Identificação das teses em disputa
· Identificação dos argumentos de cada tese
· Posicionamento crítico sobre os problemas, teses e argumentos

Você dizia que o argumento englobava a tese (conclusão) e as premissas, portanto não tinha sentido estar a separar a tese dos argumentos como se os argumentos fossem apenas as premissas.

Mas agora você próprio está a fazer o mesmo que o tal manual que criticava.

O que eu quero dizer com os jogos de linguagem, significa que num dado sistema de significação um termo pode ter um significado e noutro sistema pode ter outro. Na lógica um argumento inclui as premissas e a conclusão, numa teoria da argumentação (aliás no estudo da argumentação que se faz na linguística)usamos o termo argumento com o significado de prova, ou justificação, da tese ou teoria.

Rolando Almeida disse...

Argumento – conjunto de proposições das quais, uma, a conclusão, se segue supostamente das outras, as premissas.

Dicionário de Filosofia, Dir. de Thomas Mautner (Ed.70)

Tese – Uma proposição apresentada a ser demonstrada ou para ser tida em consideração.

Dicionário de Filosofia, Dir. de Thomas Mautner (Ed.70)

Claro que os termos podem ter significados diferentes consoante os contextos (e ainda assim não percebo o que é que isto tenha a ver com jogos de linguagem). Efectivamente quando estudo filosofia consulto os dicionários de filosofia e não os de linguística ou matemática (já viu o significado de argumento em matemática).
Agradeço que dedique o seu tempo para me encontrar as minhas falhas. Não lhe vai faltar serviço, de certeza.

Frederico Gastão disse...

Pronto, caro Rolando, mas não aponte as "falhas" dos outros quando comete exatamente as mesmas "falhas". Olhe o que você diz num post anterior acerca de um manual

"O manual refere que:

'Quando se inicia a leitura de um texto filosófico, deve-se ser capaz de identificar alguns aspectos:
O tema em questão
O problema abordado
A(s) tese(s) defendida(s) pelo autor

De seguida, deve-se procurar identificar os argumentos utilizados pelo autor para sustentar a sua tese'

Logo aqui (afirma o Rolando) parece surgir de novo a incompreensão do que é um argumento. O argumento não é algo separado da tese do autor. A tese é uma parte da argumentação. Noutras palavras que o manual procura sempre evitar: é a conclusão do argumento.

Mas neste post recente você diz precisamente aquilo que critica no dito manual. É só isso.

E esqueça essa questão dos jogos de linguagem. A sua confusão é pensar que o significado das palavras que se utilizam num texto filosófico, ou num discurso acerca da filosofia tem de ser procurada num dicionário de filosofia, como se a filosofia tivesse uma linguagem em que todos os seus termos fossem exclusivamente filosóficos e não fossem tirados das linguagem comum

Rolando Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rolando Almeida disse...

Pois Frederico, o que há de irritante nos seus comentários é que é de tal modo teimoso que parece nem sequer ler o que escrevo para depois tirar as conclusões que tomou como verdadeiras.
Mais uma vez – se é leitor do meu blogue já devia saber disto há muito tempo – refiro o seguinte:
Um argumento é um conjunto de proposições, das quais uma é a conclusão e outras são as premissas. O que vários manuais referem é que um argumento são as premissas. Isto é referido como se a conclusão fosse um elemento separado de um argumento. Isto é errado e foi isto que referi. No posto não digo nada em contrário do que aqui lhe digo, já que para analisar um argumento é necessário tanto a identificação das premissas como da conclusão e a conclusão é a tese, que é, como refiro, parte do argumento.
As premissas são premissas de quê? de uma conclusão, de uma tese. Um conjunto de proposições isoladas nem são premissas de nada, muito menos argumentos, que é o que critiquei quando encontrei tal parvoíce em alguns manuais.
Realmente tenho dezenas de comentários neste blogue onde agradeço aos leitores a correcção feita, já que me ajudou a ver melhor o problema. No seu caso, não acerta uma e só pretende baralhar.
Finalmente, se o pressuposto é que os dicionários só servem para enfeitar, então eu acho que o conceito de "treta" descreve filosoficamente e muito bem os seus comentários. Ironia a valer 