terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O meu testemunho da tragédia na ilha da Madeira




Tenho ouvido e lido várias vezes argumentos que procuram mostrar, sem justificação suficiente no entanto, que existiu uma grande culpa da intervenção humana e da falta de planeamento urbanístico na ilha da Madeira. Resido há quase 10 anos na ilha e recordo que desde sempre as ribeiras são uma questão política e social na Madeira. Embora me pareça que os argumentos carecem de muita apreciação mais técnica há com efeito um dado que presenciei empiricamente que me faz acreditar que a intervenção humana nada teve a ver com o que aconteceu na ilha. A água vem das altas montanhas da ilha. A ilha não está habitada no cume das montanhas e a grande totalidade da montanha da ilha da Madeira não tem sequer intervenção humana. É natureza pura e pertence ao parque natural da ilha onde não é possível sequer qualquer intervenção. Eu próprio já fiz alguns percursos na montanha sem que tenha visto qualquer vestígio de intervenção humana a não ser as veredas, que são  estreitíssimos caminhos de terra feitos à mão há alguns séculos já e que hoje em dia são alvo de caminhadas turísticas sempre com guias especializados.
O mais impressionante é que a água não chegou ao litoral da ilha somente seguindo os cursos das ribeiras, senão vejamos o caso que mais me impressionou. Na zona da Pena morreram várias pessoas, provavelmente, além da Ribeira Brava, a localidade onde mais pessoas perderam a vida. Faço essa estrada duas vezes por semana, pelo menos. Ora, não conheço qualquer ribeira junto dessa estrada. Ou seja, a água pura e simplesmente veio da serra por onde calhou e não procurando somente os cursos naturais das ribeiras.
Mas há mais dados. Por exemplo, segundo sei, o leito da ribeira na Ribeira Brava, praticamente não foi alterado e a Ribeira Brava é uma localidade relativamente pequena. A Ribeira Brava é ladeada por montanhas ficando num belo vale. Aliás, uma das paisagens mais belas que conheço da ilha da Madeira é a deste vale. Na Ribeira Brava não se coloca o problema do desordenamento urbanístico. Com efeito foi uma zona muito afectada. E isto para não falar do Curral das Freiras, uma aldeia com cerca de 4 mim habitantes. Mesmo sem qualquer efeito de desordenamento urbanístico, o Curral foi muito afectado.
Por outro lado, a ilha da Madeira praticamente não tem zonas planas. Já vivi em duas casas diferentes na ilha e recordo que tive alguma dificuldade em encontrar a casa que mais queria precisamente porque gosto de zonas planas e as poucas que existem são encostadas ao litoral e muito caras. Por outro lado, mesmo sem conhecimentos técnicos ou científicos, é de notar que nenhum prédio ruiu no Funchal, mesmo contra o argumento dos ambientalistas que juram que os prédios estão construídos sobre as ribeiras.
Creio que as imagens da TV não conseguem mostrar o que tenho presenciado aqui na ilha. Por todo o lado, com ou sem ribeiras, encontro rastro de destruição e ainda não me desloquei muito pela ilha. A zona antiga da cidade do Funchal chega a ter uns impressionantes 3 metros de atura de terra batida (a da serra) e pedregulhos, alguns de um tamanho impressionável ao olhar. Gostaria de saber qual a ribeira ou até rio do mundo que aguentaria tal avalanche? Grande parte das ribeiras foram devidamente canalizadas pelas autoridades regionais. Aliás, essa sempre tem sido uma preocupação enorme do governo regional, pelo que estou crente que se assim não fosse, ainda teria sido pior a catástrofe. E atenção que as ribeiras só estão canalizadas já na marginal da ilha. É certo que se a água vem da montanha, chega à marginal com uma velocidade impressionante, mas foi precisamente a canalização das ribeiras que condicionou a que muita da água não se espalhasse muito mais. Mas o impressionante, repito, é que a água não chegou ao Funchal somente pelas ribeiras, mas por todo o lado. Dá-me toda a impressão que a obra foi da natureza, pelo menos da natureza que ainda não conhecemos e dominamos cientificamente. Mas tenho dúvida que toda a ciência junta na ilha da Madeira não teria evitado a tragédia.
É já a segunda vez na vida que presencio tragédias com perdas humanas elevadas. A primeira foi a queda da ponte de Entre-os-Rios, Castelo de Paiva, a minha terra natal. Na altura fiquei convencido que a culpa era realmente da componente humana, da falta de conhecimento. As pessoas em geral sentiam insegurança com a ponte há mais de uma década. Eu próprio lá passei duas vezes algumas horas antes da queda e numa dessas vezes comentei o mau estado da ponte que poderia não resistir à força das águas do Douro. Aqui na Madeira a causa parece-me bem diferente.
Para poupar algumas reacções acho que devo dizer que me estou nas tintas para a política regional.

13 comentários:

Luís disse...

Rolando,
Folgo saber que estás bem. Coragem, para fazer face à grande tarefa da reconstrução. Da paisagem e do ânimo.
Saudações solidárias,
Luís Vilela.

Rolando Almeida disse...

Olá Luís,
Sim, ainda estou inteiro :-)
obrigado e abraço

António Daniel disse...

Caro Rolando, cumprimentos. Folgo em saber que contigo e com a tua família está tudo bem . Realmente imagino o que por aí vai. Pela televisão nunca temos a verdadeira dimensão da tragédia. Acima de tudo foi um grande azar, com tantos litros de água... Contudo, isto não invalida que, depois de tudo passar, se repense o planeamento. Não conheço a Madeira mas deve ter os mesmos problemas que o continente em termos de planeamento, com a agravante das especificidades geográficas e geológicas da Madeira. Um abraço.

Eduardo F. disse...

Caro Rolando,
É a primeira vez que escrevo.
Nunca estive na ilha.
Podia escrever um artigo com estas palavras, mas acho melhor pô-las em jeito de interpelação ao Rolando.

Tenho muito em conta a observação de uma pessoa que está no local. É importante a sua visão e explanação do sucedido. Penso que, face ao habitual superficial trabalho jornalístico por que obtemos informações sobre a situação, a sua opinião não é nada repetitiva. Pelo contrário, apresenta novas perspectivas para reflectirmos.

Ouvimos os técnicos do IM dizer que a quantidade de precipitação foi uma coisa nunca vista (causas maiores cuja explicação nos escapa. Até que ponto resultado das alterações climáticas? Será possível avaliá-lo?).

Como diz o amigo, a maior parte da ilha é natural, sem intervenção humana. O relevo, encaixadíssimo ("não tem zonas planas") pela forte erodibilidade do material rochoso, pela acção da pluviosidade e dos cursos de água.

A situação do Curral das Freiras (4 mil habitantes? Puxa... e é uma aldeia...)

Pelo que percebo, os problemas verificaram-se mais junto ao litoral, zona última da cadeia cumulativa dos factores acima.

A minha questão primeira é: será que era possível, nesta parte litoral, ter-se evitado o que aconteceu?

Porque diz o amigo que "as ribeiras são uma questão política e social"?

Em que medida, a construção (distanciamento, densidade, impermeabilização) terá, portanto, agravado os factores a montante? Será possível avaliá-lo?

Outra pergunta que lanço aqui é: Porque é que o proprietário do C.C. da Anadia (é assim?) negou que tivessem sido retirados cadáveres do parque de estacionamento do dito?

Como no filme "A Melhor Juventude", em situação parecida, todas as pessoas se mobilizaram para restabelecer a normalidade das suas vidas. É notável o que está a acontecer com a população da ilha. Dá vontade de estar aí também, a ajudar-vos.

Uma outra citação, de que quase sempre me lembro nestas ocasiões de catástrofes naturais com impactos humanos (daí o conceito de risco: só é risco quando há populações que podem sair afectadas com o fenómeno.) é a cantada pela Amélia Muge (versão de uma canção da Laurie Anderson) "A Natureza tem regras. E a Natureza tem leis. E se a enganamos... vem logo a garra do macaco".

Pelo que disse acima, não quero ser interpretado como estando a atribuir culpas a estes ou aqueles. O que quero frisar é que nós não vivemos isolados de um espaço, que é sempre emprestado. Não somos invulneráveis. Temos de viver com o risco. Nos EUA, por causa dos tornados, há muito que constroem casas de madeira. Deixam de viver nas zonas afectadas? Não. Isso é também uma característica do Homem, a da luta pela sobrevivência em terreno hostil.

Outro exemplo, a erosão costeira. É um processo natural, tão antigo como o tempo. O Homem apenas age como catalisador. Estando em zonas afectáveis, cria e aumenta o risco.

O que digo é que, as coisas acontecem. Mais ou menos inesperadas, ou inesperadas de todo, elas acontecem. Cabe-nos estarmos preparados e intervir no nosso campo de intervenção. Para não avolumar a evolução dos fenómenos naturais.

A minha solidariedade para com as pessoas afectadas e força para, como disse, aprender a viver com o risco.

Abraço.

Rolando Almeida disse...

Daniel,
Sim, a Madeira tem os seus problemas, fenómenos associados ao progresso económico da ilha.
Obrigado e abraço

Rolando Almeida disse...

Olá Eduardo,
Obrigado pela sua resposta. Para ser sincero, na minha opinião, poderia responder a todas as questões que levantou com uma frase: “temos de ver”. E isto porque estou crente que os problemas se resolvem com ciência empírica, vendo o que se passa nos locais e adoptando as melhores medidas que minimizem os danos. Mas foi também baseado nisso que escrevi o que escrevi. Não me baseei em conhecimento científico que não tenho, mas no que vejo e olhando para esta ilha. O único local que me levanta sérias dúvidas sobre o estrangulamento da ribeira é o do Dolce Vita, curiosamente um local onde até agora ninguém perdeu a vida, sendo certo que os danos são mais que muitos. Infelizmente o caso junto ao Dolce Vita é nada se pensarmos na dimensão da tragédia.

“Ouvimos os técnicos do IM dizer que a quantidade de precipitação foi uma coisa nunca vista (causas maiores cuja explicação nos escapa. Até que ponto resultado das alterações climáticas? Será possível avaliá-lo?).”
Pois, mas o que importa aqui é pensar o seguinte: as obras na ilha aumentaram os danos ou não? Em certo sentido sim, pois onde há mais construção há mais destruição.


“Pelo que percebo, os problemas verificaram-se mais junto ao litoral, zona última da cadeia cumulativa dos factores acima.”
Sim, mas porque é aí que reside a maioria da população porque os problemas começaram antes, pela própria natureza da ilha. Só que mais acima vive menos gente e muito mais acima, ninguém vive.

“A minha questão primeira é: será que era possível, nesta parte litoral, ter-se evitado o que aconteceu?”
Evitar tenho a certeza que não, embora seja possível que em alguns lugares se pudesse ter minimizado danos. Mas também é certo que noutros ainda, pela intervenção humana, se pouparam imensos problemas.

“Porque diz o amigo que "as ribeiras são uma questão política e social"?”
As ribeiras têm de ser constantemente limpas e envolvem muita obra de engenharia e decisões que nem sempre são consensuais. Por exemplo, uma das questões que a oposição política debateu é que se deveria colocar pedras nas ribeiras. Mas mesmo sem pedras, vieram pedras por aí abaixo, directamente da serra. Por exemplo, em algumas ribeiras, mais junto ao litoral, colocaram-se uma espécie de travessões de cimento para travar a força das águas em situação de maior intensidade de águas.é verdade que na freguesia de S António, uma das muito afedtadas, existem muitas habitações junto das ribeiras. Ora, segundo muitos argumentos, o governo nunca deveria ter permitido estas construções junto das ribeiras. Talvez tenham razão, mas mais uma vez, infelizmente, a tragédia foi muito mais que o já de si complicado levar das casas junto das ribeiras.

“Em que medida, a construção (distanciamento, densidade, impermeabilização) terá, portanto, agravado os factores a montante? Será possível avaliá-lo?”
Realmente não sei responder a esta questão, mas é precisamente isto que se discute e muito na política regional. Faz-se disto uma questão política. Recordo aqui há uns anos que a RTP Madeira andava nas ruas a questionar as pessoas sobre estas coisas.

“Outra pergunta que lanço aqui é: Porque é que o proprietário do C.C. da Anadia (é assim?) negou que tivessem sido retirados cadáveres do parque de estacionamento do dito?”
Creio que não foram mesmo encontrados cadáveres nos parques de estacionamento. Repare, quem fez as buscas nos parques foram mergulhadores continentais e muitos repórteres nos locais nem sequer eram madeirenses. Acha que se as informações oficiais fossem mentira não escapava a verdade?

Rolando Almeida disse...

CONTINUAÇAO:
“Como no filme "A Melhor Juventude", em situação parecida, todas as pessoas se mobilizaram para restabelecer a normalidade das suas vidas. É notável o que está a acontecer com a população da ilha. Dá vontade de estar aí também, a ajudar-vos.”
Sim, até para mim tem sido um exemplo e eu próprio já dei algum contributo.

“Uma outra citação, de que quase sempre me lembro nestas ocasiões de catástrofes naturais com impactos humanos (daí o conceito de risco: só é risco quando há populações que podem sair afectadas com o fenómeno.) é a cantada pela Amélia Muge (versão de uma canção da Laurie Anderson) "A Natureza tem regras. E a Natureza tem leis. E se a enganamos... vem logo a garra do macaco".”
Conheço bem a Laurie Anderson, mas não sabia dessa versão. Boa sugestão. Thanks.

“Pelo que disse acima, não quero ser interpretado como estando a atribuir culpas a estes ou aqueles. O que quero frisar é que nós não vivemos isolados de um espaço, que é sempre emprestado. Não somos invulneráveis. Temos de viver com o risco.”
Fez bem em comentar. Gostei de ler o seu comentário e é sempre bem vindo.

“O que digo é que, as coisas acontecem. Mais ou menos inesperadas, ou inesperadas de todo, elas acontecem. Cabe-nos estarmos preparados e intervir no nosso campo de intervenção. Para não avolumar a evolução dos fenómenos naturais.”
Não lhe passa pela cabeça a chuvada que aí esteve na madrugada de sexta e sábado pela manhã. A minha esposa acordou várias vezes assustada e eu vivo numa zona sem riscos de maior, pelo menos aparentemente.

“A minha solidariedade para com as pessoas afectadas e força para, como disse, aprender a viver com o risco.”
Obrigado. Quando quiser vir à Madeira e quiser um guia tenho todo o gosto em mostrar-lhe a ilha. Tem variedade paisagística e climática muito interessante.

Abraço.
Outro.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

"Estou-me nas tintas para a política regional"
E fazes tu muito bem.

Abraço

Eduardo F. disse...

Caro Rolando,

Obrigadíssimo pela resposta e pelos esclarecimentos.

Algumas coisas:

a canção da Amélia Muge está no disco "a Monte".

Em relação ao C.C da Anadia, fico mais tranquilo.

Citando:
"“Em que medida, a construção (distanciamento, densidade, impermeabilização) terá, portanto, agravado os factores a montante? Será possível avaliá-lo?”
Realmente não sei responder a esta questão, mas é precisamente isto que se discute e muito na política regional. Faz-se disto uma questão política. Recordo aqui há uns anos que a RTP Madeira andava nas ruas a questionar as pessoas sobre estas coisas."

Não queria deixar de frisar uma questão: é óbvio - e o amigo sabe muito bem o que quero dizer com isto (faz parte do conceito) - que a construção é uma questão política. O ordenamento é sempre uma questão política. Económica e/ou política. Longe de mim estar a dar-lhe cunho regionalista. Porque sobre essas escolhas vemos erros em todas as regiões.

Abraço.

Leão das Ilhas disse...

Dizes: A ilha não está habitada no cume das montanhas e a grande totalidade da montanha da ilha da Madeira não tem sequer intervenção humana. É natureza pura e pertence ao parque natural da ilha onde não é possível sequer qualquer intervenção.

Errado. Houve sim marca humana, o intenso pastoreio em anos anteriores, antes do Governo Regional ter proibido o mesmo, levou a que a zona que conhecemos por circundantes ao Pico do Areeiro e outras fossem alvo de uma intensa desflorestação, isto aliado ao consumo de qualquer vegetação pelos animais, levou a uma erosão tremenda daquelas encostas. Em caso de precipitação intensa ou não arrastam-se todos os detritos (rochas, terras, ...) que acompanham as águas até às ribeiras e depois é o que se sabe.
Não é um fenómeno de agora,e ao contrário de outra situações que relatas mal neste post, esta situação está diagnosticada e está a ser combatida pelo governo regional e outras entidades. Mas reflorestar, etc etc, não dá dinheiro, por isso é um prioridade relativa.
Abraço

D. Leça

Rolando Almeida disse...

Bom, talvez eu devesse ter clarificado que a intervenção humana praticamente não existe ao nível de construções, pelo menos acima dos 600m. Ainda assim, a parte que referes é uma pequena parte. Como sabemos a laurisilva, património da ilha, tem sofrido intervenções de florestação e está perfeitamente conservada e protegida existindo até alguns lugares onde o acesso é muito restrito, como horários rigídos.
Não vejo onde está o meu erro.

Rolando Almeida disse...

Leça,
Atenção a um aspecto. Eu escrevi uma opinião com base na observação empírica. Não ando no terreno a ver como as coisas estão. É o que me parece ser, pela via empírica. Eu avisei isso no texto. Pá, não posso pensar que sou especialista na coisa e que sei muito do que passa. Já agora um aspecto muito interessante é que os estudos técnicos praticamente não existem, pelo menos que se saiba.

Eduardo F. disse...

Olá, Rolando.

Relacionado com isto, lá escrevi um textinho que gostava que lesse.
http://georden.blogspot.com/2010/03/e-no-entanto-ela-move-se.html

Obrigado.