domingo, 15 de novembro de 2009

Filosofia e metodologia

Frequentemente alunos meus que tiveram aulas de filosofia com outros professores, confessam-me que, apesar da matéria ser a mesma, a metodologia de ensino é muito distinta. Por exemplo, algumas vezes, alunos do 10º ano que estão a repetir o ano dizem que não deram as noções de validade, verdade, argumento, premissas e conclusão, mas que deram “o que é a filosofia?” durante praticamente todo o 1º período. Nessas circunstâncias, pergunto a esses alunos se deram as características da filosofia (aquela coisa bizarra da historicidade, radicalidade, etc…), e se estiveram todo o 1º período a ler textos que procuram definir a filosofia. A resposta é sempre afirmativa. Seguidamente pergunto se tinham de escrever muito nos testes e respondem também afirmativamente.
Quando isto acontece não é preciso grande esforço para perceber que estamos perante duas formas de abordar a filosofia e o seu ensino. O próprio programa da disciplina promove esta liberdade de ensino, ainda que a promova mais vincadamente sob a versão descrita pelos alunos. Mas é pena que assim seja. E é pena por dois motivos principais:
1)      Porque o programa deveria sofrer os upgrades necessários à disciplina e dotá-la dos mais modernos métodos. Ensinar filosofia como sugere o programa é pensar que os seus métodos não apresentaram qualquer progresso, o que é falso. A ética, arte, política, metafísica, mente, são áreas que foram repensadas à luz dos mais recentes métodos e das descobertas de investigação feitas na lógica.
2)      Porque raramente se ensina segundo o método descrito sem incorrer em erros. Por exemplo, a história das características da filosofia não tem pés nem cabeça. Na verdade elas são tanto características da filosofia como da biologia ou da ciência em geral, pelo que é falso que historicidade, radicalidade, universalidade e autonomia caracterizem a filosofia em específico.
Finalmente, se temos opções de ensino mais rigorosas, pedagogicamente mais correctas, qual a razão de persistir em modelos que em nada têm dignificado a disciplina? Não existe qualquer razão para deixar cair a disciplina no desinteresse geral, nem é bom que tal aconteça. Devemos ser nós, profissionais da filosofia a mostrar o valor da nossa disciplina e a revelar as suas capacidades formativas, revelando também a sua pertinência como matéria de estudo para jovens adolescentes. Sem isso, tanto vale ter como não ter filosofia.

2 comentários:

Jaime Quintas disse...

Caro Rolando,

Há um aspecto que me faz um pouco de confusão no actual ensino da filosofia em Portugal.
Começa-se, parece-me, a vislumbrar a corrente analítica entre os professores de filosofia do secundário. Isto era algo que não se via há uns anos, sendo a vertente continental hegemónica.
Acho excelente que a via analítica ganhe expressão; infelizmente eu só me cruzei com a via continental, o que implicou que só aos 25 anos me interessasse por filosofia seriamente, quando li os primeiros textos mais analíticos.

Mas estas duas abordagens são completamente distintas e, diria mesmo, incompatíveis. Agora pergunto: como é que ficam os exames nacionais? (não sei se os há, já agora, mas imaginando que houvesse...).
Como é que um empedernido professor continental corrige um teste de um aluno teu? Ele estará, pressumo, à espera de uma resposta de 7 páginas sobre o que é a filosofia, coisa que os teus alunos não estarão preparados para fazer.
Por outro lado, o aluno que vem munido de tralha para preencher as 7 páginas sobre o que é a filosofia não saberá responder às questões sobre modalidade ou outras.
Finalmente, mesmo que os alunos se pudessem preparar para as duas (não defendo que seja esta a via, claro) não saberá qual é o professor que o vai corrigir.

Não será, na realidade, a filosofia analítica uma disciplina diferente da filosofia continental?

Rolando Almeida disse...

Pois, O problema que falas não tem tanto a ver com filosofia continental e filosofia analítica, mas mais com o programa que está vazio de conteúdos. Se o programa, quer ensine Ricoeur ou Thomas Nagel for feito na base com conteúdos precisos, não vejo problema algum na concepção de um exame nacional. Acontece que o programa não apresenta conteúdos precisos, e a maioria dos manuais segue-lhe os passos. Curiosamente é esse vazio de conteúdos que possibilitou também que manuais como o Criticamente, o Arte ou o Logos se tornassem possíveis. Desde que os pontos cardeais do programa sejam respeitados, tanto vale que ensines Heidegger, Ricoeur ou Nagel. Do meu ponto de vista há clara desvantagem em abordar autores da chamada filosofia continental contemporânea. E isto porque esses autores fazem uma abordagem da filosofia manifestamente menos clara que os autores analíticos. Russell, o pai da filosofia analítica, inaugurou (ou retomou) uma forma de escrever filosofia que prima pelo rigor lógico dos argumentos e pela clareza do texto. E isto, no nível do secundário, parece-me pedagogicamente mais adequado. É também essa uma das razões que explica que um manual como o Arte seja muito mais acertado pedagogicamente que um manual como o Pensar Azul. Depois, como já disse, existe o problema maior que é a falta de rigor dos manuais da tradição hermenêutica. São manuais confusos, subjectivos, e muito menos dignificante para a filosofia. Muito raramente encontro um manual bom feito na base da abordagem hermenêutica. Mas encontro casos sérios na chamada filosofia analítica. Finalmente, considero falsa a divisão entre fil analítica e filosofia continental. As metodologias de se fazer filosofia evoluíram naturalmente. Com efeito, estas divisões aparecem e acontecem também noutras áreas do saber. O que temos actualmente são filósofos que fazem um trabalho claramente filosófico e outros que praticam um hibrído tal que não se percebe bem se são filósofos, sociólogos ou outra coisa qualquer a que chamam pensadores.
abraço