domingo, 2 de maio de 2010

Associativismo filosófico


Uma das sugestões que recebo de alguns colegas profissionais de filosofia é que a disciplina de filosofia no ensino secundário é melhor defendida se os profissionais se associarem de forma organizada. Temos algumas instituições para o efeito a APF e a SPF, mas segundo alguns leitores estas associações não têm tido uma intervenção eficaz. Recordo que o CEF fez várias investidas para reformar a disciplina, muito interessantes e no entanto as resistências começaram mesmo dentro da disciplina, antes mesmo de qualquer intervenção no Ministério da Educação. A ideia de um associativismo parece-me muito boa, mas sinceramente sou muito céptico em relação ao interesse dos próprios profissionais da disciplina.  Pelo menos a minha experiência diz-me que a generalidade dos professores são muito obedientes às orientações do ME, mas pouco receptivos à iniciativa individual. Existe também um grupo de profissionais da filosofia – alguns deles pertencentes aos quadros da Crítica – que fazem um investimento na disciplina muito sério e quase à margem da política educativa que consiste na produção, tradução e publicação de materiais muito úteis à leccionação e divulgação da filosofia. Prova disso é que todos os manuais de filosofia publicados para o ensino secundário se servem directa ou indirectamente desses materiais. Ou seja, o trabalho destes “independentes” acaba por ser muito mais influente no ensino da disciplina do que qualquer tentativa de intervenção nas políticas educativas. E é talvez este facto que me faz acreditar mais neste estilo de trabalhar do que em qualquer associação que só fica com o nome e não traz bons resultados práticos para a disciplina. Por outro lado existe uma escassez enorme de formação na filosofia para professores do secundário e uma associação poderia muito bem intervir neste sentido. Como? Propondo a venda de algumas acções de formação junto das instituições que as promovem como os sindicatos de professores ou entidades privadas. Estas são ideias muito gerais, mas que pensam os colegas desta ideia? Gostava de mais ideias sobre as possibilidades que aqui falo. Que me dizem? Uma coisa é certa: ter ideias todos temos.

12 comentários:

Graça Silva disse...

Caro Rolando, os meus parabéns pelo trabalho que tem desenvolvido.
Concordo plenamente com duas ideias do seu texto:
1. Também penso que a revista Crítica, tem efectivamente operada uma "revolução" embora discreta, no ensino da Filosofia.
2. Temos necessidade urgente de formação na nossa área disciplinar. No meu caso, e de outros colegas que conheço, concretamente na área da Lógica e Metafísica.
Cumprimentos

Tomás disse...

Caro Rolando,

em relação ao ponto 2 (Formação) do teu post.

De facto, enquanto formador na área da Filosofia sinto imensa dificuldade em divulgar a minha formação -
http://sigarra.up.pt/flup/cursos_geral.FormView?P_CUR_SIGLA=FCFPPC

Chego inclusive a enviar dezenas de Cartazes para afixar nas escolas mas depois visito-as (tenho sido convidade para moderar Sessões de Filosofia Prática em algumas escolas aqui do Norte) e ninguém conhece a formação, ou seja, a informação nunca sai da Administração da Escola para os professores que são a parte interessada.
A quase totalidade dos professores têm conhecimento destas Acções de Formação através do meu site Filosofia Crítica ou de amigos que fazem o favor de divulgar nos deles (como tu), ou de serviços como a "Lekton" e a "Hermes".

É, de facto, um pouco estranho toda a gente queixar-se da falta de formação em Filosofia, e depois haverem Acções de Formação que não se realizam por falta de inscrições.
Talvez haja realmente espaço, e necessidade, para uma Associação de Formadores de Filosofia que lide com estas questões.
Quanto a mim estou receptivo a ideias e sugestões.

abraço,

Tomás

Eduardo F. disse...

Amigo Rolando (lá venho eu outra vez...) correctamente devias ter escrito:

"disciplina de filosofia no ensino secundário é mais bem defendida se os profissionais se associarem de forma organizada."

em vez de " disciplina de filosofia no ensino secundário é melhor defendida se os profissionais se associarem de forma organizada."

A diferença é idêntica à de "bem" e "bom". Como o "melhor" deriva do "bom" o "bem" dá origem a "mais bem".

Abraço.

gabinete-project disse...

Boa tarde colegas,

Fico satisfeito pelo Post do Rolando, que revela um tópico importante para os profissionais da Filosofia...
Dado que estamos em Portugal, somos levados a reflectir, de modo rigoroso, sobre a realidade existente e sobre a abertura de horizontes.
Para explorar o tema do «Associativismo» na área da Filosofia, é necessário saber as razões que levaram o Rolando a optar pelo mesmo e quais os objectivos a atingir.
De qualquer modo, temos de reconhecer que já existem bastantes associações de Filosofia em Portugal. Que eu tenha conhecimento, talvez 10.
O Tomás Carneiro dá-nos uma ideia muito interessante e inovadora: uma Associação de Formadores de Filosofia.
Para mim, mais do que uma Associação especializada numa determinada área da Filosofia, penso que seria necessário uma Associação que se dedicasse à regulamentação da profissão junto do Governo, com o objectivo de promover a Filosofia nos mais diversos sectores da sociedade.
Todas as associações são válidas e importantes, e a Filosofia ganha com o seu trabalho.
Por agora fico neste ponto. Vou aguardar por mais comentários... Voltarei em breve.

Cumprimentos a todos e bom trabalho.

Jorge Humberto Dias

Rolando Almeida disse...

Eduardo,
Pois e tens sempre razão. Esta confesso que é subtil. A questão é que levando um verbo à frente o "melhor" estraga tudo. Vê onde apanhei isto, recomendado por um amigo que sabe destas coisas:
http://www.ciberduvidas.pt/pelourinho.php?rid=545
e
http://www.ciberduvidas.pt/pelourinho.php?rid=1006
A tua formação é qual Eduardo? És de fil ou decoraste o ciberdúvidas :-)??
abraço e agradecido

Eduardo F. disse...

Ahah, essa 'tá gira, Rolando.

A minha formação é Geografia.

Mas a língua é de todos, não é?

Abraço.

Rolando Almeida disse...

Sim claro, mas esta que aqui falamos é engraçada pois em tempos eu próprio tinha abandonado o "mais bem" e o "mais mal" precisamente por não me soar bem. É verdade também que nunca tinha discutido a opção com ninguém, mas também é verdade que nem todas as opções na lingua têm de ter razões substanciais por baixo. Se as houver, fixe, mas senão, usamos a língua consoante o gosto. I think.

Eduardo F. disse...

Ah, sim, mas eu referia-me a sugerires que eu decorei o Ciberdúvidas...

:)

Rolando Almeida disse...

Claro, mas isso é um elogio que te fiz. Estás sempre atento. E que mais posso fazer senão agradecer-te?
abraço

Eduardo F. disse...

:)

Muito me honras, amigo.

Grande abraço.

Rolando Almeida disse...

Colegas,
Agradeço a todos a vossa colaboração e as palavras da colega Graça que também conheço da blogosfera. Mais tarde vou fazer um post pequeno a perguntar se é uma boa ideia reunirmos estas pessoas ou se há matéria suficiente para pensar em alguma forma de nos organizarmos, informalmente, para trabalhar em conjunto. Como eu disse no post ainda estou algo céptico, mas quem sabe não surgem aí boas ideias.
Por outro lado o que disse o Tomás deixa-me num impasse. Eu tenho uma má experiência, talvez por estupidez minha. Quando li o manual A Arte de Pensar pela primeira vez entendi que estava ali algo verdadeiramente interessante para a filosofia. As primeiras reacções negativas chegaram de colegas que não conheciam o manual e sempre pensei que após lerem o manual que perceberiam, como eu percebi, que o manual tinha bastante potencial. mas isso não aconteceu. Estou convencido que esses colegas estão errados, até porque nunca me convenceram que o manual não é inovador. Ora, receio algo deste género em qualquer tentativa de associativismo. O que tem a experiência do Tomás a ver com isto? É que se me aparecer uma formação aqui próximo em filosofia jamais a desperdiço. Tenho é alguma dificuldade em mobilidade para o continente já que vivo numa ilha e ir ao continente implica faltas e dinheiro. É realmente estranho que as acções do Tomás não tenham lotação esgotada.

APEFP disse...

Boa Noite:

Sendo o tema que aqui está em debate o associativismo em Portugal na área da Filosofia não posso deixar de participar e dizer que nem tudo vai assim tão mal em termos de associações de Filosofia em Portugal e isto porque a APEFP (Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática tem tido uma participação massiva quer de professores de Filosofia quer da sociedade civil nas suas actividades. O Tomás já foi testemunha bem como outros interlocutores que aqui expõem as suas opiniões ou tal como demonstra o blog da Associação. Diria mesmo que é das poucas associações que demonstra capacidade de dinamização e envolvimento de massas na área da Filosofia em Portugal Efectivamente, a acção desta novíssima associação tem sido uma lufada de ar fresco em Portugal na promoção da Filosofia e da Ética.
No que concerne a Associações, a razão para que o seu êxito seja efemero é porque é necessário disponibilidade e perca de dinheiro por parte de quem faz parte e neste momento,os que querem promover a Filosofia têm apenas como objectivo a vertente do negócio. Ora aí é que reside o problema! Pois se os Formandos não se inscrevem nas acções de Formação é porque não são gratuitas e têm um preço elevadíssimo e digo isto porque sei do que estou a falar.

Agradeço

Eugénio Oliveira