Em Portugal Setembro é o mês do regresso às aulas. Nos
últimos anos tem sido marcado negativamente em várias frentes: os pais e o
custo financeiro com os manuais e material escolar, os professores com a enorme
instabilidade profissional, a rede escolar com problemas de equilíbrio, etc… de
uma forma resumida o que mais marca o início de cada ano letivo são as
alterações das “regras do jogo”. Mas ao mesmo tempo que alguns aspetos no
ensino mudam de ano para ano (por vezes menos), outros há que não mudam há mais
de uma década. O programa de filosofia vigente data de 2001 (ver
aqui). Muitas mudanças no ensino acontecem porque cada ministro que sucede
o anterior, assim como as novas equipas, têm ideias diferentes e querem assim
imprimir a sua marca, não se dando conta que desse modo estão a estragar mais
do que o que arranjam. Neste sentido, ainda bem que o programa de filosofia não
tem sofrido alterações. Alterar apenas porque sim, não me parece uma boa ideia.
E alterar apenas porque se discorda totalmente também não me parece razoável.
Há um trabalho de base meritório que vale a pena retocar. Afinal de contas,
nós, professores, andamos há tantos anos nisto, a trabalhar um programa que
parece insensato querer alterar tudo de uma só vez. Felizmente as propostas que
entretanto se vão falando não seguem esse sentido, o de tudo alterar. A proposta,
oficial de revisão curricular para a disciplina no 10º ano já circula
livremente (ver
aqui). E ela inclui alguns aspetos muito interessantes, embora, claro,
discutíveis. A inclusão da lógica elementar logo a abrir o 10º ano parece-me
uma opção correta como método de trabalho. Mas é igualmente importante que os
tempos letivos para cada unidade sejam pensados não de modo a explorar os
conteúdos teóricos sem considerar o trabalho e tempo necessário em sala de aula
para trabalhar textos, interpretação aplicando os métodos aprendidos, gerir
comportamento adequado ao trabalho, etc. Claro que começar a disciplina pela
apresentação do método não é, em muitos sentidos, uma opção feliz. Se o que
anima a disciplina, por que não começar logo por debater os problemas? Haveria
algum prejuízo em começar a ensinar astronomia olhando para as estrelas?
É sobretudo importante que as mudanças não impliquem
transformações de fundo constantes, muitas vezes quase ao sabor do vento
ideológico ou de preferências grupais sem atender os muitos e diversos
contextos em que a disciplina se ensina. As mudanças permanentes atrapalham o
trabalho nas escolas e em regra acabam sempre por desmotivar.
Por fim, uma palavra aos professores de filosofia. Segundo percebo
são muitos os professores de filosofia que não ensinam filosofia. Isto acontece
porque os horários têm vindo a diminuir e, entretanto, os disponíveis acabam
todos ocupados por professores de quadro de escola e com mais tempo de serviço.
Por isso mesmo em muitas escolas os professores de filosofia estão a ensinar
disciplinas que não a filosofia. Não considero a filosofia mais essencial que
muitas outras disciplinas que podem ser ensinadas. Afinal, poderíamos ter um
currículo diferente e até melhor com ou sem a filosofia. O ponto aqui é outro. Os
professores de filosofia estudaram filosofia e prepararam-se durante alguns
anos para o domínio científico da filosofia. Por isso mesmo e enquanto cá
andamos e é tempo, esta parece ser uma boa razão para assegurar a disciplina no
ensino geral e obrigatório. Como disse, um bom sistema de ensino pode dispensar
uma outra disciplina ou substituindo-a por outra igualmente importante. Daí não
se segue que a disciplina de filosofia seja dispensável. Acontece que, uma vez
existindo, isso é por si mesmo uma boa oportunidade para fazer um bom trabalho
na sua apresentação.
E ainda antes de terminar. Costumo usar uma hipótese quando
pessoas não ligadas ao ensino criticam de forma geral o trabalho dos
professores: “- Vamos imaginar que é verdade que os professores são todos mesmo
maus. Sendo isso verdade e sabendo disso mesmo, o que é que devemos fazer,
substituir todos os professores por carpinteiros nas escolas?” Invariavelmente
a resposta é não. Isto é, temos de trabalhar com o que somos e temos, saber contar
apenas com o nosso trabalho. Tudo o que vier a mais de positivo será bom. Mas não
podemos esperar que sejam os de fora, mesmo os das universidades, a fazer o
nosso trabalho. Não podemos nem devemos esperar que nos preparem os programas,
as aulas, os materiais que usamos. Dependemos apenas de nós mesmos.
Um bom ano a todos