quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sigur Rós da ilha do gelo para os meus alunos da Pérola do Atlântico

Não me canso de ano após ano recomendar esta música e vídeo aos meus alunos. Há uma razão para isso. A beleza captada tanto na música como no vídeo é algo imediata, mas apropriada às vossas idades. E está muito longe do vazio de muitas músicas que por aí ouvimos. Depois porque os rapazes que fizeram a música são como nós num aspeto especial: vivem numa ilha. Só que a deles não tem o sol que nós temos o ano inteiro. São islandeses, Ice Land, o país do gelo. Nós somos da Madeira, a pérola do atlântico. São os Sigur Rós. Boas audições enquanto eu vou corrigindo os vossos testes para vos ajudar a fazer ainda melhor. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O que andamos a estudar?

Além dos habituais testes de conhecimentos, estamos nesta altura do ano a estudar duas teorias morais objetivistas, a deontológica de Kant e a consequencialista de Mill. Já sabemos que a primeira é deontológica pois é uma ética baseada nos princípios racionais, ao passo que a de Mill é baseada nas consequências da ação. Qualquer uma destas teorias procura responder ao problema de saber o que é uma ação moralmente correta. Inicialmente este é um problema embaraçoso, pois, ao contrário da novidade dos problemas que estudas nas disciplinas, saber o que é uma ação correta não é um problema novo para a maioria de nós. E é embaraçoso pois também achamos que até já temos boas respostas a esta questão. Na verdade talvez as nossas respostas contenham alguns problemas se pensarmos um pouco atentamente nelas. As nossas respostas mais imediatas a estes problemas envolvem contradições, já que em algumas alturas defendemos a posição X para logo numa outra altura, com as mesmas condições, defendermos a posição Y. (o dilema do elétrico é isso mesmo que nos mostra). Isto acontece porque provavelmente nunca pensamos seriamente no assunto. Pensar seriamente é pensar de modo sistemático e é aqui que a filosofia entra e as teorias podem ajudar a compreender melhor os problemas. Não é de esperar que as teorias nos resolvam os problemas mais quotidianos, do mesmo modo que aprender um teorema matemático não nos ajuda a lavar melhor a roupa ou aquecer o jantar. Mas em certo sentido é verdade que as teorias de muitos problemas tratados pelos filósofos dizem respeito aos problemas mais elementares e básicos da vida humana, como é este o de saber o que é certo e errado. Todas as áreas de atividade humanas procuram dar resposta a este problema, o de saber o que é o certo e o errado. As religiões são respostas de acordo com aquilo que Deus determina como sendo a ação certa e a ação errada. Os cientistas estão convencidos que algum dia vão encontrar no cérebro a localização exata que nos faz diferenciar o certo do errado. Os antropólogos procuram as respostas nas raízes etnográficas de um povo. E os filósofos procuram dar resposta ao problema com razões e argumentos. Portanto, ter a oportunidade de ouvir o que dizem os filósofos e discutir o que eles defendem é também a oportunidade de irmos um pouco além das nossas crenças.

Método de estudar filosofia


Um dia um pai perguntou-me como é que a filha deveria estudar filosofia. Respondi que o melhor a fazer seria ler atentamente os textos fornecidos pelo professor. O pai ripostou questionando: “ E se não compreender o que leu?”. Respondi: “Terá de ler outra vez”, ao que o pai retorquiu: “E se ainda assim não compreender?”. Respondi: “Tem de ler outra vez”.
Este episódio é real. Claro que não me fiquei por aqui, mas a conversa teve mesmo este início. Na verdade não existe qualquer magia para se estudar filosofia. Tudo o que há a fazer é ler. O maior obstáculo é que a maioria dos alunos praticamente aprendem o que se deu nas aulas sem fazer qualquer estudo de consolidação. E assim as coisas tornam-se muito mais difíceis e incompreensíveis, para além de passarem a ser uma maçada com pouco sentido na cabeça dos estudantes.

Estudar e aprender exige uma certa rotina. Ir às aulas e estar atento é, já por si, cansativo. O estudo em casa deve, num nível como o secundário, implicar pelo menos 20% do esforço. A melhor estratégia para começar a ter êxito é ler e compreender as teorias que os textos explicam. Em filosofia o ritmo é sempre o mesmo: Problema – teorias – argumentos: para cada problema há várias teorias em disputa. E cada uma delas apresenta os seus argumentos. Num período inicial os estudantes são confrontados com a forma de fazer filosofia. Depois estão aptos a fazê-la, lendo os argumentos e os textos propostos e discutindo-os. Esta ferramenta desenvolve capacidades extraordinárias nos estudantes, principalmente a de saber raciocinar com consequência sobre os problemas.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Sobre o ensino da lógica e ensino da filosofia

Apesar de antigo, esta introdução de Salmon esclarece muitas dúvidas quanto ao papel da lógica no ensino da Filosofia. Vale a pena ler este pequeno texto que recolhi do livro, principalmente para ajudar a compreender o falso estigma de que não se pode reduzir o ensino da Filosofia ao ensino da lógica. Acrecento que não se deve reduzir o ensino da Filosofia a um complete desprezo pelo ensino e prática da lógica.


Deve estar evidente, agora, que, a Lógica não visa descrever os modos de pensar. Mas seria sua tarefa o estabelecimento de regras segundo as quais se deveria pensar? A Lógica não nos oferece um conjunto de regras para guiar-nos ao raciocinar, ao resolver problemas e ao obter conclusões? A Lógica não nos indica os passos a dar ao inferir? A resposta afirmativa a tais questões é muito comum. Diz-se, mesmo, que as pessoas de raciocínio eficaz possuem um "espírito lógico" e que raciocinam "logicamente".

Sherlock Holmes é um bom exemplo de pessoa com so­berbos podêres de raciocínio. Sua habilidade ao inferir e chegar a conclusões é notável. Não obstante, a sua habilidade não depende da utilização de um conjunto de regras que norteiam o seu pensamento. Holmes é muito mais capaz de fazer inferên­cias do que o seu amigo Watson. Holmes está disposto a transmitir seus métodos ao amigo, e Watson é um homem inte­ligente. Infelizmente, contudo, não há regras que Holmes possa transmitir a Watson capacitando-o a realizar os mesmos feitos do detetive. As habilidades de Holmes defluem de fatôres como a sua aguda curiosidade, a sua grande inteligência, a sua fértil imaginação, seus podêres de percepção, a grande massa de infor­mações acumulada e a sua extrema sagacidade. Nenhurn con­junto de regras pode substituir essas capacidades.
Se existissem regras para inferir, elas seriam regras para descobrir. Na realidade, o pensamento efetivo exige um constante jôgo de imaginação e de pensamento. Prender-se a regras rígidas ou a métodos bem delineados equivale a bloquear o pensamento. As idéias mais frutíferas são, com freqüência, justamente aquelas que as regras seriam incapazes de sugerir. É claro que as pessoas podem melhorar as suas capacidades de raciocínio pela educação, através da prática, mediante um treinamento intensivo; isso tudo, porém, está longe de ser equivalente à adoção de um conjunto de regras de pensamento. Seja como fôr, ao discutirmos as específicas regras da Lógica veremos que elas não poderiam ser encaradas como adequados métodos de pensar. As regras da Lógica, se fossem aceitas como orientadoras dos modos de pensar, transforrnar-se-iam numa verdadeira camisa-de-fôrça.
O que acabamos de dizer pode causar certo desapontamento.
Frisamos, de modo enfático, o lado negativo, esclarecendo aquilo que a Lógica não pode fazer. A Lógica não nos dá uma descri­ção dos reais processos de pensamento - êsses problemas pertencem ao domínio da Psicologia. A Lógica não nos dá regras para inferir - essas questões cabem no âmbito da desco­berta. Mas, então, para que serve a Lógica? A Lógica oferece­nos métodos de crítica para avaliação coerente das inferências. E nesse sentido, talvez, que a Lógica está qualificada para dizer-nos de que modo deveríamos pensar. Completada uma inferência, é possível transformá-la num argumento, e a Lógica pode ser utilizada a fim de determinar se o argumento é correto ou não. A Lógica não nos ensina como inferir; indica-nos, porém, que inferências podemos aceitar. Procede ilogicamente a pessoa que aceita inferências incorretas.
Para poder apreciar o valor dos métodos lógicos, é preciso ter esperanças realistas quanto ao seu uso. Quem espera que um martelo possa efetuar o trabalho de uma chave de fenda está fadado a sofrer grandes desilusões; quem sabe servir-se de um martelo conhece a sua utilidade. A Lógica interessa-se pela justificação, não pela descoberta. A Lógica fornece métodos para a análise do discurso, e essa análise é indispensável para exprimir de modo inteligível o pensamento e para a boa compre­ensão daquilo que se comunica e se aprende.
Wesley C. Salmon, Lógica, Zahar Editores, 1971, Trad. L. Hegenberg e O. Mota, pp.28,29

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Aula de filosofia na Semana da Filosofia da Escola Jaime Moniz


Hoje ofereci uma aula de filosofia na Escola Secundária JaimeMoniz, uma atividade inserida na Semana da Filosofia da nossa escola. A ideia foi mostrar aos pais dos alunos como funciona uma aula de filosofia. Comecei por mostrar como funciona a filosofia expondo a mecânica dos argumentos, das teorias e dos problemas, assim como a relevância quer da dialética, quer da lógica na discussão dos problemas. De seguida entrei na discussão propriamente dita. Comecei com uma foto da coleção de cromos do meu filho e expliquei o que observei na escola quando os miúdos trocam cromos. Reparei nas injustiças dos mais velhos com os mais novos, no exercício do poder em benefício próprio e resolvi intervir com o meu paternalismo ajudando o pequeno João a fazer trocas de cromos que sejam justas para ambas as partes. Partindo deste exemplo questionei sobre quais os métodos adequados para a Justiça Social. Deve o Estado assumir-se como paternalista (tal como fiz com o João) na distribuição da riqueza? O que pensam os mais pobres? E os mais ricos? Os mais e menos inteligentes? Este foi o ponto de partida para examinar a teoria da justiça como equidade de John Rawls.
No final procurei expor algumas objeções, nomeadamente com a referência inevitável a Robert Nozick. Aproveitei ainda uns breves minutos para recomendar bibliografia menos especializada, mas acessível ao leitor não especializado.
A terminar pedi a todos os presentes que num post it que distribuí colocassem um sinal + com o que acharam de melhor na aula e um – com o que acharam de menos bem. Os comentários são deliciosos. É sempre bom saber como os outros avaliam o nosso trabalho. De uma forma geral, o mais positivo foi a clareza da exposição, os exemplos dados, o à-vontade com que me situei com a teoria exposta. Como sinal menos positivo, alguma falta de interatividade com a plateia.
De um ponto de vista pessoal foi um bom treino. De um ponto de vista impessoal espero ter conseguido dar uma ideia digna da filosofia e da Escola.

Um obrigado aos pais dos alunos que apareceram em número razoável e sempre interessados, aos colegas de filosofia e não só que compareceram e, claro, aos alunos que estiveram presentes. Um agradecimento especial à Professora Teresa Sousa, delegada de Grupo de Filosofia e à Professora Elisa Seixas, autora das fotografias que a seguir publico. 
E sempre que falo de filosofia fora da sala de aula, tenho de me lembrar dos meus colegas e amigos Aires Almeida e Desidério Murcho, as pessoas que mais e melhor me ensinam a saber comunicar e pensar a filosofia. Obrigado também a eles. 










sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mais um TPC

Recentemente leste na aula o texto sobre o caso da tortura. Resumidamente o caso colocava-se nestes termos: ou o Matos torturava o filho inocente de um terrorista para que o terrorista desse informações sobre uma bomba que iria matar centenas de pessoas, ou então não torturava o filho inocente e deixava que a bomba rebentasse matando centenas de vidas inocentes. Nas aulas tiramos duas conclusões: alguns alunos defenderam que o Matos não devia torturar (posição A) e outros que o Matos devia torturar (Posição B). Quando questionamos uns e outros concluímos que os que defendiam a posição A, invocavam como critério para a sua opção os princípios, ao passo que os que invocaram a posição B invocaram as consequências.
O que te proponho é que realizes um pequeno trabalho em que mostres por que razão não optaste por A ou B, isto é, que reveles quais as objecções que podem ser feitas a cada uma das posições morais.

Como começas já a ver esta é a oposição entre éticas deontológicas e éticas consequencialistas, duas respostas ao problema da fundamentação da moralidade, duas respostas objectivistas, claro. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Entrevistamos Harry Gensler

O meu colega de projeto, Domingos Faria, entrevistou o filósofo Harry Gensler sobre o ensino da lógica e a sua importância para o ensino da filosofia. A entrevista pode ser lida AQUI.




Harry Gensler é um filósofo contemporâneo especialista sobretudo em lógica, ética e filosofia da religião. Ensina lógica há mais de três décadas, tendo inventado um método muito simples para testar a validade silogística (o teste estrela), bem como concebeu um método bastante acessível para se fazerem derivações que funciona em lógica proposicional, de predicados, modal, deôntica, epistémica, etc. Além disso, desenvolveu um programa de computador muito popular para se aprender lógica chamado “LogiCola”. 

Entre os seus principais livros, podemos encontrar:
• The A to Z of Logic (2010)
• Introduction to Logic (2010)
• Ethics: A Contemporary Introduction (2011)
• Ethics and the Golden Rule (2013)


Devido à sua experiência em lógica, decidimos falar com este filósofo para nos esclarecer sobre alguns pormenores no ensino da lógica no Ensino Secundário.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Aula de Filosofia na Semana da Filosofia da Escola Jaime Moniz

No próximo dia 3 de Fevereiro, por ocasião da Semana da Filosofia da Escola Jaime Moniz, darei uma aula de Filosofia Política no Auditório 1 da Escola, pelas 13:15h. O conteúdo da aula será o do programa do 10º ano, mas o que esta aula tem de especial é que os pais dos alunos podem-nos acompanhar para verem como funciona uma aula de filosofia. Estão assim todos convidados a aparecer. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Relativismo Cultural



          “Culturas diferentes têm códigos morais diferentes”- pareceu a muitos pensadores ser a chave para compreender a moralidade. A ideia de verdade universal em ética, afirmam, é um mito. Tudo quanto existe são os costumes de sociedades diferentes. Não se pode dizer que estes costumes estão “correctos” ou “incorrectos”, pois isso implicaria ter um padrão independente decerto e errado pelo qual poderíamos julgá-los. Mas tal padrão não existe; todos os padrões são determinados por uma cultura. (…) O relativismo cultural, como tem sido chamado, desafia nossa crença habitual na objectividade e universalidade da verdade moral. Afirma, com efeito, que não existe verdade universal em ética; existem apenas os vários códigos morais e nada mais.
            (…) À primeira vista (o relativismo moral) parece bastante plausível No entanto, como todas as teorias do género, pode ser avaliado mediante análise racional; e quando analisamos o relativismo cultural, descobrimos que não é tão plausível como inicialmente parecia ser.
            (…)”A noção de certo está nos hábitos da população. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Suponha que tomávamos isto a sério. Quais seriam algumas das consequências?
            1.Deixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos. Isto é claro, é um dos principais aspectos sublinhados pelo relativismo cultural. (…) O relativismo cultural iria impedir-nos de dizer que qualquer destas práticas estava errada. (Nem sequer poderíamos dizer que uma sociedade tolerante em ralação aos judeus é melhor que uma sociedade anti-semita, pois isso implicaria um tipo qualquer de padrão transcultural de comparação).
            2. Poderíamos decidir se as acções são certas ou erradas pela simples consulta dos padrões da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural não se limita a impedir-nos de criticar os códigos de outras sociedades; não nos permite igualmente criticar a nossa. Afinal de contas, se certo e errado são relativos à cultura, isto tem de ser verdade tanto relativamente à nossa própria cultura como relativamente às outras.
            3. A ideia de progresso moral é posta em dúvida. Pensamos habitualmente que pelo menos algumas das mudanças sociais são melhorias. (…) Ao longo da maior parte da história ocidental o lugar das mulheres na sociedade esteve severamente circunscrito. (…) Recentemente, muitas destas coisas mudaram, e a maioria das pessoas pensa que isto é um progresso. Mas se o relativismo cultural estiver correcto, poderemos legitimamente pensar que é um progresso? Progresso significa substituir uma maneira de fazer as coisas por uma maneira melhor. Mas qual é o padrão pelo qual avaliamos estas novas maneiras como melhores? Se as velhas maneiras estavam de acordo com os padrões culturais do seu tempo, então o relativismo cultural diria que é um erro julgá-las pelos padrões de uma época diferente.
            (…) Estas três consequências do relativismo cultural levaram muitos pensadores a rejeitá-lo frontalmente como implausível. Faz realmente sentido, afirmam, condenar certas práticas, como a escravatura, onde quer que ocorram. Faz sentido pensar que a nossa própria sociedade fez algum progresso cultural, embora deva admitir-se, simultaneamente, que é ainda imperfeita e necessita de reformas. Uma vez que o relativismo cultural supõe que estes juízos não fazem sentido, não pode estar correcto.
            (…) O ímpeto original do relativismo cultural resulta da observação de que as culturas diferem de forma dramática nas suas perspectivas do que é certo ou errado. Mas até que ponto diferem realmente? É evidente que há diferenças (…) mas quando examinamos o que parece ser uma diferença drástica, descobrimos com frequência que as culturas não diferem tanto quanto parece.
           


Imagine-se uma cultura na qual as pessoas acreditam ser errado comer vacas. Pode até ser uma cultura pobre, na qual não há comida suficiente; mesmo assim, as vacas são intocáveis. Tal sociedade pareceria ter valores muito diferentes dos nossos. Mas será que tem? Ainda não perguntámos a razão pela qual estas pessoas se recusam a comer vacas. Suponha-se que é por acreditarem que depois da morte as almas dos seres humanos habitam os carpos dos animais, especialmente das vacas, podendo uma vaca ser a alma da avó de alguém. Vamos continuar a dizer que os valores deles são diferentes dos nossos? Não; a diferença está noutro lado. A diferença reside nos nossos sistemas de crenças, e não nos nossos valores. Concordamos que não devemos comer a nossa avó; limitamo-nos a discordar sobre se a vaca é (ou poderia ser) a nossa avó. (…) Não podemos, portanto, concluir que há um desacordo quanto aos valores, só porque os costumes diferem. Pode, pois, haver, menos desacordo quanto aos valores do que parece.
            (…) Há valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria de uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de quês estaria a dizer a verdade, pois poderia facialmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (…) A comunicação seria então extremamente difícil, se não mesmo impossível. (…) Pode, naturalmente, haver excepções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão excepções a uma regra que está em vigor na sociedade.
            (…) Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas as sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. (…) É um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.
            (…) Tudo isto constitui, na verdade, uma completa rejeição da teoria. No entanto, continua a ser uma ideia muito sedutora (…), a teoria deve ter alguma coisa a seu favor, pois a não ser assim porque razão se tornaria tão influente? Penso que, na verdade há alguma coisa correcta no relativismo cultural, e quero agora passar a dizer o que é. Há duas lições que devemos aprender com a teoria, ainda que acabemos por rejeitá-la.
            Primeiro, o relativismo cultural alerta-nos, de maneira correcta, para os perigos de pressupor que todas as nossas preferências estão fundadas numa espécie de padrão racional absoluto. Não estão. Muitas das nossas práticas (mas não todas) são particularidades exclusivas da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural começa com a preciosa observação de que muitas das nossas práticas são apenas isto; produtos culturais.
            (…) A segunda lição relaciona-se com a necessidade de manter o espírito aberto. No processo de crescimento, cada um de nós adquiriu algumas convicções fortes; (…) podemos, ocasionalmente, ver essas convicções postas á prova. (…) O relativismo cultural, ao sublinhar que as nossas perspectivas morais podem reflectir preconceitos da nossa sociedade, fornece um antídoto para este tipo de dogmatismo.
            (…) Perceber isto pode levar-nos a uma maior abertura de espírito. Podemos compreender que os nossos sentimentos não são necessariamente percepções da verdade – podem não ser mais do que o resultado do condicionamento cultural. (…) Podemos ficar mais abertos à descoberta da verdade, seja ela qual for.
RACHELS, James, Elementos de Filosofia Moral, pp.33-54




Questões:
1- Em que consiste a tese do relativismo cultural?
2- Que argumentos apresenta o autor contra o relativismo cultural?
3- Que pensa o autor sobre as diferenças culturais que sustentam a defesa do relativismo cultural?
4- O autor sugere que há possibilidade de encontrar valores transubjectivos?
5- Que aspectos positivos descobre o autor do texto no relativismo cultural? 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Exame Nacional de Filosofia

Para os alunos que desejam fazer o exame nacional de filosofia, as informações encontram-se AQUI.