quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Um best of muito pessoal



Não é muito fácil elaborar um best of do ano no que respeita a livros publicados entre nós. Primeiro porque não são assim tantos os livros que se publica de filosofia em portugal. Depois porque não os leio todos. E depois porque muitas vezes passo mais tempo a ler livros que já tem uns anos do que propriamente livros acabados de sair. Mas a dizer a verdade ainda são muitos os livros que leio num ano. Nem tenho bem a conta feita, mas são mesmo muitos. Gostaria ainda assim de destacar aqui livros que, mesmo não sendo exclusivamente de filosofia, mereceram o meu tempo e destaque. Outros há que não os destaco, mesmo tendo sido lidos este ano e sendo 2020 o ano da sua edição em língua portuguesa. Não gostei deles e por isso soa-me errado estar a fazer-lhes destaque. Isto porque esta pequena lista assume um carácter inteiramente pessoal. Ao contrário do que até fiz em outros finais de ano não estou a fazer a listagem dos livros mais relevantes que saíram ao longo do ano, mas somente a destacar aqueles que mais gostei. 

Começo por destacar o livro de Pedro Galvão, Três diálogos sobre a morte (Gradiva). É provavelmente o melhor livro de filosofia que me recordo ter lido escrito por um português. Porque os problemas tratados são de difícil argumentação há passagens mais sofisticadas, mas da maneira como está escrito, numa engenhosa trama de diálogos, acaba por transformar algo bem sofisticado num desafio intelectual em que o leitor sai claramente a ganhar. 



Mas Galvão não se ficou por aí este ano. Além de ter também publicado um livro de ficção, uma estreia, que ainda não li, publicou também uma tradução revista do seminal texto de Stuart Mill, Utilitarismo. Para enriquecer esta edição, adicionou um conjunto de ensaios de Mill sobre Bentham e ainda uma extensa e útil introdução aos textos e à filoosfia de Mill. A edição é da Primatur.




Ainda que o livro sobre a morte de Pedro Galvão seja a todos os níveis o melhor livro de filosofia lido este ano, não poderia esquecer a importância da edição, na mesma coleção da Gradiva, a Filosofia Aberta, do livro de John Searle, Da realidade física à realidade humana. Este livro foi publicado na língua portuguesa mesmo antes de ser publicado no original em inglês, o que revela uma perspicácia pouco habitual numa área como a filosofia, principalmente de Aires Almeida, o diretor desta coleção e que tem feito um trabalho soberbo. É uma espécie do melhor da filosofia de Searle. Publicar filosofia em Portugal é muito complicado. Primeiro porque quem se interessa a valer pela área acaba por aprender a ler em inglês e traduzir determinados títulos para a nossa língua é sempre um risco demasiado elevado para os editores. Afinal, quem os vai comprar? Os mais especialistas compram em inglês e os menos especialistas não os compram. Ora, neste contexto, conseguir o que se tem feito com a Filosofia Aberta, só mesmo com muito amor à camisola. 




Destacaria dois livros que não são de filosofia, mesmo que neles se refira muitas vezes filósofos. São eles o livro de Tim Harford, O que os números escondem (Objetiva) e o de Anne Applebaum, O crepúsculo da democracia (Bertrand). E porque destaco estes dois livros? O primeiro porque é uma maneira bastante interessante de nos alertar dos vieses cognitivos que constantemente cometemos na interpretação que fazemos dos acontecimentos e do modo de os evitar. E o segundo porque, também fruto desses vieses, alerta para o perigo que corremos em eleger partidos extremistas para os governos. A autora serve-se do caso da ascensão da extrema direita na Polónia e passa pelo Brexit, Trump, entre outros casos de extremismo populista. São livros bem documentados e que nos enquadra os riscos do nosso comportamento na sociedade moderna. 





O meu último destaque não é tanto dirigido ao livro, mas à ciência em geral. Nos tempos que vivemos, a força da crença irracional, o negacionismo, o erro político de manter a esperança nos extremismos populistas ocupam um destaque social crescente. O recente livro da dupla portuguesa Carlos Fiolhais e David Marçal é mais que um livro apenas sobre a pandemia. É um livro que mostra os erros que se comete constantemente na avaliação dos acontecimentos. Mas é um livro que tem o foco na importância capital que a ciência tem nos nossos dias e no impacto que acaba também por ter nas nossas vidas. Mas como a ciência é contraintuitiva talvez afaste as pessoas do que ela é e como funciona. Por isso estes livros são tão importantes. Porque este ano de 2020 é, para mim, definitivamente o ano da ciência. E o meu maior destaque de 2020 vai mesmo para a ciência.  

Em 2021 continuarei certamente a ler livros de 2020. Alguns estão aí em lista de espera. Haja saúde e paz. 



Outros Best Of meus: AQUI e AQUI

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

2020 em revista

O colega António Gomes, amavelmente, convidou-me a escrever uns apontamentos sobre o que se passou em 2020. Aqui está o resultado e link para aceder app texto completo onde ele foi disponibilizado. Um agradecimento ao António que há décadas faz um trabalho muito decente na internet sendo uma das fontes de inspiração deste mesmo blogue que também já é um veterano. O Gomes já por cá andava. ACEDER AQUI





terça-feira, 1 de dezembro de 2020

"Ninguém vai chumbar a filosofia!" Por, Carlos Café

O professor de filosofia, Carlos Café, ensina na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão. Tem um currículo preenchido de criatividade aplicada à filosofia. Assinou este texto que aqui apresento na sua página pessoal do Facebook. E pedi-lhe que, caridosamente, me deixasse fazer pública através do blogue FES, a mensagem do texto, tal e qual foi publicada. Isto porque sempre defendi que devemos aplicar criatividade ao ensino. Se o modelo falhar, mudamos, pois é da mudança que brota a inovação e a inventividade. Uma escola progressista é certamente aquela que respira liberdade, sem se agarrar a modelos fechados, controladores e limitadores. Ensino há 25 anos. Se há modelo que conheço muito bem é o dos chumbos. Já lhe conheço todas as vantagens e fragilidades. E o modelo tem imensas falhas. Porque não tentar outras vias? A verdade é que todos desejamos evitar os chumbos, mas não sabemos bem como fazê-lo e, então, ninguém arrisca. Enquanto isso, nada muda. Claro que o texto do Carlos é a opinião dele que, como espírito livre que demonstra ser, não se importa de partilhar. Há também quem pense que este género de posição pertence a discussões internas nos departamentos curriculares das escolas. Acho que têm uma certa razão. Mas ao mesmo tempo penso que a educação não é uma profissão como as outras. Ela é uma missão de todos, já que envolve toda a comunidade. É um bem público. E como bem público devemos também partilhar publicamente o que fazemos, como fazemos e como achamos que se deve fazer. Isso não se confunde com todos a mandar na sala de aula, de modo algum. Na sala de aula, o professor é ainda o maestro. Só que temos de fazer a banda tocar. E para isso precisamos da colaboração de todos. Dê lá as voltas que o assunto der, de uma coisa estou certo: a atitude do professor Carlos faz mais pela educação que quinhentas medidas políticas para inglês ver. Fica o texto e um agradecimento ao professor Carlos Café por ter autorizado a sua partilha. A foto também é dele. 




 

“Escrevi isto no quadro quando entreguei os testes na semana passada. Ao ver-me tirar a foto, um aluno, na sua ingenuidade, perguntou-me: "está a fotografar para não se esquecer?"

Respondi-lhe que não, que era para postar aqui. Mas, vendo bem, poderia muito bem ser, para não me esquecer do que me levou a fazer esta "profecia" algo temerária. Que passo a explicar.

Uma das coisas mais difíceis para um professor é manter os níveis de motivação dos seus alunos quando eles, apesar do seu esforço, obtêm resultados negativos. Quando entreguei os testes na semana passada, a cena repetiu-se com alguns deles e delas: tristes, desapontados, por vezes chorosos. Tinham recebido o 1.º teste de Filosofia, eles e elas que, há uns meses atrás, estavam ainda no 9.º ano numa outra escola com outro tipo de características e exigências. Foi então que decidi escrever isto no quadro.

Comecei por lhes dizer que, se fosse professor de Matemática, Português ou de Inglês, por exemplo, nunca escreveria tal coisa. Por quê? Porque, apesar dos esforços enormes que os colegas fazem, nem sempre é possível recuperar falhas de anos anteriores com o ritmo exigido no secundário (são turmas do 10.º ano). Mas a Filosofia é uma disciplina nova. "E eu não admito que algum aluno meu chumbe!" - acrescentei. - "Mesmo os que ´desligarem´ e quiserem chumbar vão ter de me 'enfrentar!´" - concluí um tanto provocatoriamente.

Também lhes disse que não ia passar ninguém por pena ou por favor, e que iriam passar todos, sim, mas porque isso era justo e o mereciam.

Para além de ser, como se percebe, uma estratégia de motivação (os alunos percebem que têm em mim alguém que se preocupa e que não vai desistir deles), há por detrás dela uma convicção profunda: não faz sentido algum que haja alunos e alunas a chumbar a Filosofia! Chumbar por quê? Perderam a curiosidade natural? Foram amputados da capacidade de raciocínio lógico? Desprezam a possibilidade de ter opiniões próprias?

Não, nada disso. Na maioria dos casos, os alunos chumbam porque os instrumentos que são utilizados para os avaliar são repetitivos, redutores e não abarcam todas as competências que é suposto serem avaliadas. A tirania do hábito, a tentação da inércia e a pressão social e institucional com os exames para entrar na universidade fizeram com que o secundário se tornasse numa "linha de montagem" de candidatos à universidade, em que os professores se transformaram, lentamente e sem disso se aperceberem, em zelosos e eficazes "explicadores". Já não ensinamos, limitamo-nos a explicar a matéria que pode sair nos exames. 

Bem vistas as coisas, temos andado a comportar-nos como aquela personagem de um curioso cartoon que circula por aí nas redes sociais, que reúne os diferentes animais da selva e lhes diz qualquer coisa como: "Hoje vão todos fazer um teste. Por uma questão de igualdade, a prova terá de ser a mesma para todos. E hoje o teste é o seguinte: todos vocês têm de subir a uma árvore!". 

Pois bem, é mais que tempo de deixar de exigir ao elefante ou ao hipopótamo que tentem subir árvores e dar-lhes a possibilidade de atingirem os mesmos objetivos de acordo com os seus interesses e natureza. 

Na minha escola, por exemplo, a avaliação é feita por competências e os testes valem cerca de 50% da nota dos alunos (fazemos apenas 3 por ano). Tudo é avaliado, mas nem tudo é avaliado por testes. Ao longo do ano, os alunos fazem um ensaio filosófico (uma avaliação mais "académica", portanto) sobre um problema filosófico escolhido por si. Fazem "tarefas coletivas de turma", em que cada aluno contribui para a realização de um trabalho global da turma (a título de exemplo, a clarificação e explicação do que são problemas filosóficos constitui a tarefa "objetos filosóficos", em que cada aluno trouxe para a aula um objeto por si escolhido e explicou aos colegas a razão da escolha e o que ele tem de filosófico). Houve quem levasse um relógio para perguntar "o que é o tempo?", rimmel ("o que é a Beleza?"), 1 euro ("o dinheiro é o mais importante na vida?") ou, ainda, quem não levasse objeto algum para poder perguntar: "o que é o nada?".

Mas o mais interessante é o projeto pessoal de Filosofia (PPF), um trabalho de projeto que é feito ao longo do ano e em que os alunos trabalham um problema/tema filosófico escolhido por si e o abordam da forma que entenderem: texto, banda desenhada, curta metragem, música, dança, jogo, diário gráfico, etc., etc.

Só para que se perceba a importância do PPF, ele tem um peso de 2 valores na nota final do aluno.

Bom, e para além de tudo isto, temos a atitude e o comprometimento nas aulas e o respeito que lhes é exigido pelos colegas e pelas suas opiniões.

Como se constata, os alunos trabalham provavelmente muito mais (e melhor, espero eu) do que se fossem avaliados essencialmente por testes que são o paraíso para quem escreve bem e o inferno para quem preferiria expressar-se também de outras formas.

Nas últimas 3 semanas de aulas, com a matéria já dada e o essencial das notas definidas, os alunos e as alunas apresentam à turma os seus PPF, em que andaram a trabalhar (autonomamente, mas com a minha supervisão) ao longo do ano.

É por tudo isto, cara amiga e caro amigo, que eu posso arriscar imenso e dizer: NINGUÉM VAI CHUMBAR A FILOSOFIA!

Lá para junho conto como foi 😉

Obrigado pela paciência.

 

Carlos Café”

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Filosofia, oferta de emprego urgente

 A Escola Secundária Jaime Moniz, tem neste momento em oferta pública e com carácter de urgência, a oferta de um horário completo para o grupo de docência 410, filosofia. os interessados devem contactar a escola. Os contactos estão no site da escola AQUI.



 

Dia da filosofia

 Hoje é o dia mundial da filosofia determinado pela UNESCO. De facto poucas ou mesmo mais nenhuma disciplina do ensino secundário é considerada património da humanidade. Uma das características de um dado património é que é para ser preservado. E nisto concordo com a assinalável data da UNESCO. Outra é que é para não se mexer. E neste posso ou não concordar. Na sua essência a filosofia não é para se mexer, sob pena de se transformar numa qualquer caricatura dela mesma, o que, infelizmente, tantas vezes acontece. Mas nos seus modelos e métodos, a filosofia funciona organicamente, como qualquer saber ou ciência. E nesse sentido hoje  em dia faz-se mais e melhor filosofia dada a sua evolução. E assim é que se deseja. Mas mais que isso para se fazer e gostar de filosofia é preciso estar-se nesse registo. Com preguiça intelectual, por muitas voltas que se dê, não se compreende nem se faz filosofia. É que muitas vezes ela pode ser feita como fazemos tudo aquilo que nos dá prazer na vida, sem medir a sua utilidade e sem qualquer preocupação com a sua finalidade. Fazemos o que nos dá prazer, apenas porque nos dá prazer e nos sentimos mais felizes com isso. Mas há muitas, muitas mesmo, mais boas razões para se fazer filosofia. Mias informações sobre este dia AQUI


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Para, escuta e Pensa!

O professor Carlos Café, que tem no seu currículo ideias bastante inovadoras mesmo num tempo onde inovar não era valorizado, surpreende-nos com mais uma, mostrando assim o seu gosto em ensinar. "Para, Escuta e Pensa", é o seu novo projeto, um conjunto de episódios no formato podcast e alojados na plataforma SoundCloud. Vale a pena escutar e pensar. Pode ser acessado AQUI




domingo, 18 de outubro de 2020

Academia do Diálogo, a tua nova escola de filosofia


A Academia do Diálogo, é uma iniciativa de Tomás Magalhães, conhecido dinamizador dos Cafés Filosóficos e trata-se de uma escola de filosofia de livre acesso. A Academia oferece cursos e atividades com pessoas com experiência na filosofia, desde a edição, autoria, ensino, investigação, etc. É uma escola diferente do habitual pois não segue um currículo rígido e demasiado formal. Não é necessária qualquer formação prévia para se inscrever nas atividades ou cursos ministrados na Academia. E, claro, há um certificado final. Vale a pena espreitar, conhecer e frequentar. É uma maneira diferente de aproveitar, de relaxar, de passar alguns serões diferentes. Isto ao mesmo tempo que se enriquece conhecimentos, referências além de desenvolver capacidades críticas e argumentativas. Um verdadeiro ginásio. As inscrições podem ser feitas AQUI

Equações matemáticas são difíceis. Problemas filosóficos são uma treta.


Não penso que a generalidade das pessoas dê mais valor a determinados conteúdos do saber do que à filosofia. Como o psicólogo, prémio Nobel da economia, Daniel Kahneman, nos mostrou no seu extenso,
 Pensar depressa e devagar (edição portuguesa da Temas & Debates), filosofia ou física ou matemática exigem pensamento de 2ª ordem, o pensar devagar, o que implica esforço. Mas a imagem social, o que fica no senso comum, dos diferentes saberes influencia muitas vezes a maneira como nos relacionados de todo com o conhecimento. Por isso é que esperamos, por exemplo, maiores responsabilidades do que aquelas que seria de esperar, dos médicos, pois socialmente olhamos para eles como uma espécie de sábios. E não são. Ainda na sexta passada um médico fez um ar admirado quando lhe expliquei que havia investigação de topo, muito rigorosa, sobre o problema moral da eutanásia. E ele lá confessou que nem sabia que isso era matéria de estudo académico. Outro exemplo é a imagem social de disciplinas como a matemática (gosto de usar este exemplo por várias razões) e a filosofia. Assim, para o comum das pessoas, se não sabem resolver uma equação é porque se trata de uma matéria difícil. Mas se não compreendem um argumento filosófico é porque é conversa da treta. Ora, pode acontecer que o argumento seja uma treta. E pode acontecer que a resolução de uma equação também o seja. Mas ao mesmo tempo é verdade que os mecanismos intelectuais que geram consenso na matemática não são exatamente os mesmos que possam gerar algum consenso para os argumentos filosóficos. Isto acontece não por nenhuma pobreza da filosofia, mas antes pela natureza dos seus problemas, pois são problemas para os quais dificilmente teremos consenso. Daí não se segue que sejam resolvidos pelo subjetivismo. Acontece apenas que tentar resolvê-los é a própria razão de existência da filosofia. Ou pelo menos investir nessa demanda. Mas o sentido comum em que se diz muitas vezes que o argumento é uma treta parece errado, pois os argumentos são maneiras de tentar sistematizar uma realidade que muitas vezes é de tal modo complexa que parece escapar a qualquer investida intelectual, a qualquer enquadramento teórico. Tal não é razão para se cruzar os braços. E neste sentido, aquilo que sabemos ou podemos saber em filosofia não é muito diferente daquilo que sabemos ou podemos saber em muitas outras áreas. Acontece por vezes (creio que quase sempre, até) que a ideia comum que guardamos de consenso em física ou matemática pode estar errada. Os consensos nessas áreas são muitas vezes temporários e levam muito tempo até gerar novos consensos. Esta ideia foi explorada pelo filósofo de formação em física Thomas Kuhn, no seu influente livro, A estrutura das revoluções científicas. E obviamente este livro também não é, ele próprio, consensual entre os filósofos e tem sofrido muitos ataques exatamente porque o autor pretende encerrar um problema. E mais uma vez, não teve um final feliz. 

O lado social destas visões tem o desenlace menos feliz de afetar muito o desenvolvimento intelectual das diferentes áreas. Isto porque se socialmente continuarmos a supor que os argumentos filosóficos são uma treta ao mesmo tempo que achamos que as equações matemática são apenas difíceis, acabamos por sofrer um desinvestimento na massa crítica de áreas como a filosofia. E é por essa razão que existe um esforço de publicar alguns livros introdutórios, praticar um ensino da filosofia que seja rigoroso, etc... no sentido de dignificar socialmente a disciplina. Claro que também se pode cair facilmente na aldrabice, muitas vezes bem intencionada, por muito paradoxal que nos possa soar. Mas é verdade que o esforço de fazer chegar ao pensamento apressado de kahneman muitas das vezes torna a filosofia um exercício patético. Seria o mesmo que traduzir equações matemáticas complexas em operações aritméticas simples. Ou algo ainda pior. 

 

domingo, 11 de outubro de 2020

A. C. Grayling, Uma história da filosofia


São vários os livros que vão saindo no mercado nacional na área da filosofia. Não são muitos, pois o mercado ainda é pequeno. E, acreditem ou não, raramente se publica entre nós filosofia mais avançada com livros mais robustos em termos de argumentação. Quem procura esses livros acaba por os ler em inglês, no original. Ainda assim, destinado a um público não especializado, vamos tendo boas obras. Diria mesmo que o mercado editorial está praticamente todo focado neste público alvo. Assim hoje dispomos de obras de divulgação de ciência muito bons e que saem para o mercado todos os meses. E ainda bem. E ocasionalmente lá aparecem os de filosofia e, aqui, honra seja feita à Filosofia Aberta, coleção da Gradiva que tem sido a coleção mais persistente no tempo, com maior longevidade, portanto. E esta coleção até arrisca um pouco, publicando alguns livros que são já um pouco mais especializados, como o fez com o seminal Nomear a Necessidade de Kripke ou o caso mais recente dos excelentes ensaios de John Searle, apenas para dar dois exemplos. 

O espaço deste blogue, que continua também a ser a obra de one man show, obviamente não consegue fazer a cobertura de todos os livros que vão, entretanto, saindo para o mercado. Ainda assim não queria deixar passar esta magnífica edição da muito interessante história da filosofia do filósofo inglês, A. C. Grayling, aqui numa tradução do sempre competente Desidério Murcho, já com uma extensa experiência no ramo da tradução de filosofia. Obviamente construir uma história levanta problemas da própria filosofia da história, problemas que o autor não esquece ao justificar cuidadosamente todas as escolhas feitas. São quase 700 páginas de história da filosofia, abarcando também a filosofia indiana e chinesa, além de contemplar um interessante capítulo de filosofia analítica e continental (na verdade são dois capítulos) no qual Grayling não se escusa de refletir sobre esta suposta divisão e também lhe dando um enquadramento que permite compreender não somente as origens de tais divisões, bem como essas divisões deixam de fazer qualquer sentido no mundo da filosofia.

O livro é bem concebido como objeto pois as quase 700 páginas não pesam muito nas mãos. Ainda comprei a edição em papel, muito embora cada vez mais vá optando pelas edições em versão eletrónica que as Edições 70, felizmente, já adotaram. 

Num formato e estilo muitíssimo diferente da monumental história da filosofia do Kenny (também editada entre nós pela Gradiva), esta é uma obra que vale a pena ter, vale a pena descobrir e não deixa de ser uma ferramenta de estudo para quem quer que se dedique a descobrir mais deste universo de conhecimento que conta já com mais de 2500 anos de história.


VER AQUI

domingo, 27 de setembro de 2020

Muitas questões e respostas sobre o que é a filosofia

Uma entrevista com Desidério Murcho na qual são esclarecidas de forma bastante plausível o que é a filosofia, como se faz filosofia, qual o lugar da filosofia no conjunto de todos os saberes, se é possível alguém fazer filosofia fora dos meios escolares e académicos, se vale a pena ensinar filosofia, entre muitas outras curiosidades. São quase duas horas de grande proveito principalmente para quem tem curiosidade em saber possíveis respostas a estas questões, mas também para estudantes e professores. 



sábado, 26 de setembro de 2020

Materiais de filosofia

 A RTP, enquanto serviço público, tem no seu site o "Ensina" que é um projeto que reune materiais audiovisuais para auxiliar o estudo. Na disciplina de filosofia estão lá reunidas todas as aulas do projeto da SRE - Madeira, Telensino, Estudar com Autonomia. Estas aulas estão também alojadas no meu canal auxiliar deste blogue AQUI. Para ceder ao Ensina , clicar AQUI



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O Luís é fora de série. Muito especial. Não partiste do nosso coração e devolveremos em dobro o teu talento

Estou em choque e ainda não digeri. Soube, do nada, ao fim de um dia de trabalho que o amigo e colega Luís Rodrigues partiu. Tive a oportunidade de conviver um pouco com ele e a família e ficou no meu coração e da minha família. O Luís fez muito pela filosofia e vou ter saudades dos manuais dele. Muita saudade vais deixar amigo, pessoais e filosóficas. De facto há muito que nada sabia de ti e nunca me passou pela cabeça perguntar-te porque nunca mais me enviaste uns materiais para eu dar a minha opinião. Gostei mesmo muito de ti, amigo. A valer. Eu e a minha família. Escrevo isto e queria tanto que isto fosse mentira... Fica a aqui a minha modesta homenagem pois também és parte deste trabalho que aqui anda. Obrigado amigo por tudo o que nos deste e que me deste. 






terça-feira, 8 de setembro de 2020

Telensino. Quando a TV também ensina filosofia (artigo)

Foi publicado o meu artigo de reflexão, "Telensino. Quando a TV também ensina filosofia", na revista Diversidades, publicação da DRE (Direção Regional de Educação), da SRE (Secretaria Regional de Educação) no seu número 56, de Janeiro e Junho. Pode ser consultado neste link.






sexta-feira, 24 de julho de 2020

Crise das humanidades e da filosofia. Vem de dentro ou de fora?

Imagine que se pede a um professor de física para estabelecer a relação entre a queda dos graves e deixar cair no lixo no chão e a consequência para o ambiente? O que esperar? Pois em filosofia tais absurdos são possíveis sem que provoque qualquer espanto até por muitos daqueles que a ensinam.
estudo de Sokal e Bricmont publicado em 1997 foi a machadada final que haveria de ser dada às ciências humanas. Estes dois físicos submeteram um artigo anónimo à revista prestigiada de ciências sociais, Social Text, com erros e absurdos deliberados. O espantoso é que o artigo foi aceite pela revista e publicado. O que os físicos fizeram foi usar jargão científico num contexto de humanidades, mas com relações causais inexistentes ou absurdas. O que pretenderam mostrar foi o abuso das ciências humanas em falar daquilo que não sabe, em estabelecer relações vagas, em fazer da vagueza a sua zona de bem-estar. Um ano após a aprovação do artigo, os físicos desvendaram a aldrabice. A verdade é que o livro estalou o ambiente nos departamentos de ciências humanas (em Portugal creio que nada se passou, apesar da Gradiva em tempo útil ter publicado o estudo entre nós). Mas a partir daí alguns departamentos de ciências humanas procuraram uma revolução enquanto a maioria permaneceu quieta no conforto do vazio pós-moderno. Assim, autores como Foucault ou Deleuze saíram da esfera da filosofia nos departamentos mais revolucionários, ao passo que nos outros passaram a constar dos estudos sociais e literários tais como estudos feministas, movimentos anti sistema, etc. com a clara influência do marxismo cultural. Obviamente a filosofia perdeu prestígio social nestes meios. Passou a ser tomada como uma disciplina de cultura geral, sem grande rigor, uma espécie de narrativa onde tudo cabe desde que tenha a toada da catequese mais elementar baseada, como qualquer catequese, em ideologia (e pouco ou nada em ciência e rigor). Este é o contexto em que se insere o ensino da filosofia em Portugal, ainda que com algumas investidas pelo meio de aprimorar o rigor que a disciplina merece. Mas socialmente passou a ser vista como uma disciplina apenas para aumentar um pouco a cultura geral dos alunos e como muitas vezes eles até chumbam, creio não estar muito distante da realidade se afirmar que muitos pais e alunos até batiam palmas se a disciplina acabasse de vez como formação geral. Os professores de filosofia aperceberam-se deste desprestígio e, em regra, acham que tudo não passa de uma orquestração do mundo moderno para liquidar a liberdade do pensamento. É aqui que eu não estou alinhado com a maioria, pois acho que não existe qualquer conspiração antifilosofia ou que da parte do poder existe uma tentativa de socializar os jovens alunos num ambiente de amorfismo intelectual. Pelo contrário estou convencido que o problema é interno à própria disciplina e ao que muitas vezes dela fazemos, ao alinhar nestas aldrabices de projetos e quejandos que tais com relações vagas com a disciplina. Tal como os dois físicos mostraram, as ciências ditas humanas e sociais perdem em rigor porque fazem abordagens vagas, porque fazem da Zizeckmania uma forma de estar no saber e no conhecimento (em Portugal tivemos um Agostinho da Silva e mais tarde um Eduardo Lourenço, erradamente tomados como filósofos, sem que tenham avançado grandes contributos para a filosofia).
No ensino secundário esta crise é notória quando se aceita pacificamente que existe uma relação estreita entre filosofia e cidadania. Acontece que essa relação não é mais estreita que a relação entre filosofia e conhecimento, filosofia e arte, filosofia e sentido da vida, filosofia e moralidade, etc. Isto é, existem teorias discutidas da cidadania em filosofia política, mas tais teorias estão a léguas daquilo que se quer fazer da cidadania nas escolas secundárias. A filosofia que prestigia a disciplina não se compadece com catecismos e cadernos de encargos políticos feministas, religiosos, da luta pelos direitos dos animais, direitos humanos, etc. E para fazer um ensino rigoroso da filosofia é igual se estamos a discutir o problema dos direitos morais dos animais não humanos ou a justificação epistémica do ponto de partida do conhecimento em geral, apenas pegando em dois exemplos. Esta ideia de que se parte da experiência dos alunos é tão válida na filosofia como na física ou na biologia e não deve ser mais explorada na filosofia do que nestas outras disciplinas.  É por isso que a esmagadora maioria dos projetos de cidadania alojados na disciplina de filosofia, por muito bem intencionados que possam ser, em rigor, não possuem qualquer relação com a filosofia e não passam de logros filosóficos. Ganhe-se então coragem e acabe-se de vez com a disciplina e em seu lugar coloque-se qualquer coisa como “Cidadania e participação”, sei lá...
A professora de filosofia do ensino secundário Maria Alcina Dias escreveu publicou recentemente um artigo no Jornal Público (ver AQUI) onde chama a atenção para a conceção do exame nacional e o retrocesso no ensino das humanidades. Mas outra coisa não será de esperar quando do lado de dentro as ciências sociais e humanas teimam em cavar cada mais fundo a sua cova. Nesta pequena entrevista que dei a um programa de entretenimento na RTP Madeira (ver AQUI), que fez a cobertura do Telensino, abordei esse problema do ensino da filosofia ao defender que o prestígio social da disciplina não é igual ao da matemática, e ao passo que nesta última um professor menos bom é apontado como o culpado do mau ensino, no caso da filosofia, é sempre a disciplina que fica em causa. 
Portanto, quando nós professores, aceitamos pacificamente que na nossa disciplina cabe tudo quanto é ideologia e catequese, quando não nos incomodamos que o Zizeck seja o mais famoso dos supostos filósofos, quando fazemos, mesmo que inadvertidamente, a apologia da vagueza, quando não sabemos distinguir a filosofia dos demais saberes, quando a nossa cultura filosófica parou no tempo, quando aceitamos sem reservas que sejam retiradas horas à nossa disciplina para projetos inócuos ( e a lei nem sequer impõe que tal seja assim, ver Art. 15, ponto 4, DR, 1ª série – Nº129 – 6 de julho de 2018), estamos sem dúvida a cavar a cova para enterrar de vez a disciplina. Não temos, pois, de ter medo nem do rigor nem da filosofia. Também nós, profissionais da filosofia, devemos arrancar a filosofia da social text e das suas imposturas intelectuais.

domingo, 19 de julho de 2020

Filosofia da morte (e da vida)

Diz-se muitas vezes que a filosofia é um saber fundamental, que trata dos fundamentos. E isto é verdade, pois é mesmo assim. A filosofia começa por procurar estabelecer os conceitos com os quais vamos empreender toda a nossa compreensão do mundo. Claro que os saberes são tão emaranhados, complexos e misturados que muitas vezes se estudamos física ou biologia podemos cair na tentação de nem sequer pensar nos conceitos que fundamentam as nossas investigações. Não é de todo raro ler de um Stephen Hawking ou Peter Atkins que a física vai explicar tudo. Ou de um E. O. Wilson, que tal tarefa será completada pela biologia. E por aí adiante. Mas na verdade nenhum saber avança sem alguma mediação filosófica no estabelecimento dos conceitos base. E é exatamente essa noção que ficamos quando lemos este novo e brilhante livro de Pedro Galvão. Pressupondo que muitas pessoas sem formação em filosofia me estão a ler, esqueçam se querem fazer uma leitura de praia deste livro. Quer dizer, leiam-no quando e onde quiserem, mas a sua leitura exige de nós um permanente esforço de compreensão. Todos os livros de filosofia o exigem, certo. Mas neste há uma particularidade que até eu estava inicialmente cético: é que é escrito em diálogo e mistura ficção com a filosofia para, pasme-se, ser um livro de e apenas de filosofia. Claro que o tema seduz ainda mais para a questão dos conceitos fundamentais, já que se trata da conceção que temos de vida e de morte e como é que filosoficamente essa conceção é mais ou menos plausível. Não é um livro de questões fundamentais por ser um livro acerca de problemas da existência e do fim dela, mas por ser um livro de filosofia. Ele é também um livro de panorama já que se propõe a explorar as principais teorias, clássicas e contemporâneas, que disputam estes problemas. É um livro que se avança devagar e se possível sem distrações. Porque o mundo da filosofia é assim, como de resto também o será o mundo de muitos outros saberes, menos os experimentais. Portanto, esta não é certamente uma sugestão de leitura de verão, mas uma sugestão de um excelente livro de filosofia acerca dos problemas fundamentais da vida e da morte. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

domingo, 28 de junho de 2020

Filosofia da Morte e Existência de Deus, duas novidades editoriais

Este livro é uma introdução a alguns argumentos acerca do problema da existência de Deus. Interessa a professores do ensino secundário, mas também para quem gosta de saber pensar sobre este relevante problema e ultrapassar o limite básico da opinião. Serviu de base à apresentação que fiz no Telensino (2020) já que segue as Aprendizagens Essenciais. Os outros livros desta coleção são igualmente recomendáveis. Pode ser adquirido aqui

 

 

Creio que este livro é praticamente o único existente em português e escrito por um português, Pedro Galvão, sobre as abordagens contemporâneas da filosofia da morte. Está escrito em diálogo que é uma das maneiras clássicas de se fazer filosofia e muito apreciada não somente por filósofos, mas pelo público não especializado. Para além disso, na minha opinião, Pedro Galvão é provavelmente a pessoa que melhor escreve filosofia atualmente em Portugal e com alguma visibilidade com trabalho já de algum alcance. Já agora, Galvão publicou também recentemente um livro de literatura fantástica que pode ser visto Aqui. É interessante apreciar como é que alguém que conhecemos pela escrita de filosofia e que, como referi, escreve muito bem sobre assuntos complexos, se sai na literatura. 

A coleção da Gradiva, Filosofia Aberta, dirigida pelo professor Aires Almeida tem outros títulos que ainda aqui não destaquei, mas muito bons, como o recente livro de John Searle que até foi publicado primeiro com a tradução portuguesa do que no original em inglês. O livro é muito bom e é uma espécie de best of de Searle.  Ver aqui.



sábado, 27 de junho de 2020

Problemas com a publicidade

Neste momento o blogue está apresentar publicidade, mesmo que eu tenha bloqueado essa função. Ainda não descobri o que está a acontecer e peço desculpa por tal. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Filosofia da Arte - Aula 4 - 11º Ano

A blogger resolver trocar as voltas ao layout e entretanto o carregamento de videos está com problemas, mas o vídeo da aula está alojado AQUI NESTE LINK



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Filosofia da Arte Aula 2 11º -Telensino

Mias uma aula de telesnino, Projeto do Governo Regional da Madeira e da Secretaria Regional da Educação em parceria com a RTP M

Errata: é Jerrold Levinson e não "Levingson" como aparece no vídeo. 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Videos de filosofia com a Help2Learn

Com grande gosto anuncio a minha parceria com a Help2Learn para a criação de conteúdos de estudo em vídeo. O vídeo tem uma pequena gralha apenas no nome de Levinson que ficou com uma letra a mais. Espero que gostem e visitem o canal da Help2Learn. Podem visitar a Help2Learn AQUI. 

Errata: mais ou menos ao minuto 3:50, a explicação da negação está correta, mas as proposições quando escritas aparecem ao contrário. No lugar onde está "arte" deveria estar representação. deveria estar "X é representação e não é arte" ou, o que é o mesmo, "...mas não é....". Agradeço ao leitor atento que reparou nesta gralha. É assim que se trabalha!

terça-feira, 21 de abril de 2020

Filosofia da arte Aula 1 (Introdução) 11º - Telensino

Fica aqui a primeira aula do 11º sobre filosofia da arte. Telensino, um projeto da Secretaria Regional da Educação, do Governo Regional da Madeira. Um total de 18 aulas para telensino.

sábado, 18 de abril de 2020

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Exame Nacional Explicações

Alguns alunos têm procurado ajuda externa para preparação do Exame Nacional de filosofia. O Centro Ginásios DaVinci está a fazer essa oferta em filosofia. Os contactos podem ser vistos AQUI




sábado, 11 de abril de 2020

Exame Nacional de filosofia 2020

Acabei de incluir na secção Exames, este pequena nota que serve como guia para o Exame Nacional 2020, comas informações tidas até hoje, dia 11 de Abril de 2020. 


Exame Nacional de filosofia 2020

Como já informais no blogue, o exame deste ano de filosofia segue os conteúdos das Aprendizagens Essenciais. Este pequeno guia orienta quem vai fazer o exame para as principais mudanças.

10º Ano
- Lógica proposicional passou a ser obrigatória e, portanto, a lógica aristotélica já não constará no exame e passou a fazer parte do programa de 10º ano. A unidade da lógica engloba lógica formal e informal. A lista de falácias informais é ligeiramente diferente da que existia até então. Tenho AQUI um documento que auxilia ao estudo de tudo o que é necessário dominar referente à lógica proposicional (formal). Para estudar a lógica informal e também a proposicional ESTE documento tem o essencial e está muito bem feito. 
- Toda a matéria referente à filosofia da ação, diferença entre ação e acontecimento e tipos de ação, já não são objeto de avaliação. Segue-se da lógica na primeira unidade para o problema do livre arbítrio. 
- Ainda no 10º ano, na unidade de filosofia política, as objeções de Robert Nozick (principalmente ao princípio da diferença de Rawls) e as críticas do comunitarismo de Micael Sandel passaram a ser objeto de avaliação. É apenas uma pequena parte da matéria, mas obrigatória.

11º Ano
- São 4 as unidades referentes a este ano: filosofia do conhecimento, filosofia da ciência, filosofia da arte e filosofia da religião. Estas duas últimas transitaram para o 11º ano.
- Na unidade da filosofia da arte, além das 3 teorias essencialistas (representação , expressivista e forma significante) são agora matéria de avaliação duas teorias não essencialistas, a institucional e a histórica.
- Na filosofia da religião chamaria a atenção para o fideísmo de Pascal que passou a ser obrigatório e a análise ao argumento do mal de Leibniz. 

As aprendizagens Essenciais com todos os conteúdos devem ser vistas aqui: Décimo ano e décimo primeiro.
As informações Exame 2020 estão disponíveis AQUI. Estas indicações este ano em resumo indicam que será objeto de avaliação em exame nacional todas as matérias das Aprendizagens Essenciais. Obviamente tal não dispensa a responsabilidade de cada um da consulta do documento. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ensino a distância, as minhas dicas

Aqui fica o registo de umas dicas que deixei em registo jornalístico. AQUI ou clicar na imagem.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Help2Learn

Acabei de colocar na secção vídeos alguns vídeos interessantes, muito bem produzidos, pela Help2Learn, uma das minhas descobertas recentes e que me despertou bastante curiosidade pela qualidade do seu trabalho. Fica aqui uma pequena demonstração do trabalho que está a ser feito pela Help2Learn.




quinta-feira, 19 de março de 2020

Fazer escolhas em tempo de terra parada

No jornal Expresso foi publicado este interessante artigo em especial para os alunos do 10º ano, para as matérias que andamos a estudar de filosofia moral. Recomendo a sua leitura.
Kant, Stuart Mill, ou Aristóteles. Uma corrente deontológica, utilitarista, ou de virtude? Qual seguir? Agir bem em relação a si próprio e aos outros, além de contribuir para conter a pandemia, fará de si um cidadão do mundo em paz consigo próprio 
Vou mesmo ficar em casa todo o dia? Vou comprar mais comida ao supermercado? Vou publicar a minha opinião nas redes sociais? Vou bater palmas à janela às 22.00? Vou confiar nas decisões das autoridades? Nesta altura de pandemia em que somos chamados a tomar decisões individuais com impacte importante na sociedade, como vamos conseguir lidar com a complexidade, a incerteza e a necessidade de acção colectiva? Não é fácil, a nível individual, compreender como agir. Será que a ética nos pode ajudar a decidir “o que devo fazer?”. 
A ética normativa é uma disciplina filosófica que nos ajuda a fundamentar e argumentar de forma coerente as nossas decisões e acções. É isso que precisamos agora, de pensar de forma estruturada em como agir. Fazemos muitas coisas em “piloto automático”, julgamos muito os outros e achamos muitas coisas sem o necessário conhecimento. A pandemia - uma epidemia que ocorre em todo mundo, ao mesmo tempo – exige mais de nós. Exige exercícios de reflexão, de introspeção, de chamarmos à coação os nossos valores éticos. Exige responsabilidade e exige que sejamos construtivos. 
Há diferentes correntes éticas, a deontológica inspirada em Kant, a utilitarista inspirada em John Stuart Mill e a ética das virtudes inspirada em Aristóteles que assentam em diferentes estruturas de pensamento: 
A deontologia é a teoria do dever e da universalidade. Para decidir o que fazer pergunte “e se todos fizessem isto, estaria certo?” se a resposta for não, então Kant diz-lhe que o seu dever é não o fazer. “Se todos comprarem mais comida do que precisam, isso é bom?” A sua resposta dá-lhe a pista sobre se deve, ou não, fazê-lo. 
A teoria utilitarista diz que devemos agir de forma a maximizar as boas consequências e minimizar as más. Não é universal como a anterior, foca-se mais no contexto e nas consequências. “O que acontece se eu não seguir as instruções sobre a quarentena?” Se a consequência da sua resposta for uma maior probabilidade de apanhar o vírus ou contagiar alguém, Mill dir-lhe-ia que é errado. 
A ética das virtudes assenta mais na pessoa e menos na acção, dando ênfase ao carácter individual onde tão importante como a pergunta, “o que devo eu fazer?” é a pergunta de “como quero eu ser?”. Aristóteles perguntar-lhe-ia “Que tipo de pessoa é que quer ser neste contexto de pandemia?” e é a sua resposta que o ajudará a decidir o que fazer. 
Nem sempre há respostas absolutamente certas ou erradas, mas ao menos serão dadas de forma mais consciente e informada. Por isso, confie num destes filósofos, e questione ou o universalismo dos seus actos ou nas suas consequências ou em pensar que tipo de pessoa quer ser. Ou então em todos, apesar das respostas poderem não coincidir, o pluralismo ético faz parte da vida real. O essencial é conseguir fundamentar e argumentar de forma coerente o que decidir principalmente quando estamos, como agora, em contextos novos, complexos, difíceis e dilemáticos. 
Em tempos de crise podemos ainda recorrer à inspiração de grandes políticos: se nesta fase só se promete sangue, suor e lágrimas (Churchill), então não espere só o que podem fazer por si, centre-se no que pode você fazer (Kennedy) para ultrapassarmos todos, da melhor forma, esta pandemia. Mesmo se aquilo que tiver que fazer, seja não fazer nada e ficar de quarentena em casa. 
A boa notícia é que a ética tem intrinsecamente uma componente de harmonia ou felicidade e por isso agir bem em relação a si próprio e aos outros, além de contribuir para conter a pandemia, fará de si um cidadão do mundo em paz consigo próprio. Fica a ganhar duplamente. 
*Sofia Guedes Vaz, Investigadora no IFILNOVA e Presidente da Sociedade de Ética Ambiental

Link: https://expresso.pt/opiniao/2020-03-17-Etica-em-clima-de-pandemia 

terça-feira, 17 de março de 2020

Exames nacionais na Escola Jaime Moniz

Descarregar o boletim de inscrição AQUI.
Depois enviar devidamente preenchido e digitalizado para um dos endereços disponíveis para esse efeito, tal como refere a nota no site da escola (AQUI).  

1.    Descarregar o boletim de inscrição, preencher e enviar para o correio eletrónico cristinaexames@jaimemoniz.com ou fatimaexames@jaimemoniz.com



sábado, 14 de março de 2020

Estudar em casa para evitar o Covid 19


Olá alunos
Como tenho todos os vossos emails, as classificações dos vossos testes serão enviadas por esse meio em breve, talvez mais para o final da próxima semana. Os alunos do 10º ano devem começar a ler os materiais que enviei sobre Filosofia Moral. Os do 11º ano podem estar mais tranquilos, mas os que vão fazer exame devem estudar com os materiais que já vos forneci e com as indicações dadas. Com efeito vou enviar durante a semana materiais completos para a filosofia da religião, a unidade que estudaremos no terceiro período.
Este mesmo blogue que já conhecem tem secções com as matérias organizadas que podem ser um recurso para o vosso estudo. 
Qualquer dúvida ou outra questão estamos sempre, como sempre, em contacto. E protejam-se. 


segunda-feira, 9 de março de 2020

Uma pequena sugestão para uma teoria não essencialista da arte

Com as aprendizagens essenciais, as teorias da arte não essencialistas passaram a ser de lecionação obrigatória no 11º ano. Ora, se ensinamos teorias essencialistas seria redutor não abordar teorias não essencialistas. E de algum modo esta sistematização teórica beneficia alunos e o ensino da filosofia, pois lava a cara à disciplina, retira-a das imagens por vezes confusas e bolorentas com que é ensinada, além de remeter para os grandes debates filosóficos de todos os tempos sem parar num qualquer século passado. Outra questão é saber se este é o modo mais adequado de ensinar filosofia ou se é estritamente necessário que se ensine com esta sistematização no secundário. Por exemplo, na universidade nunca ouvi falar de tais coisas na disciplina de estética e o debate passou ao lado. Em seu favor andei a ler textos de autores obscuros e que nem sequer entram no debate. Isto por si só, pensando que aconteceu à esmagadora maioria das pessoas que estudaram filosofia na universidade e que são hoje em dia professores do secundário, é causador dos maiores equívocos e “ignorância” em relação ao que de interessante e profícuo tem o debate nesta questão (nas outras não foi muito diferente o curso).
Alguns elementos da teoria institucional já apareciam ocasionalmente em manuais e eram ensinados por alguns professores. Eu próprio já fazia esta distinção entre teorias essencialistas e não essencialistas e cheguei até a usar textos de Goodman para explorar um pouco mais alguns aspetos de teorias não essencialistas. Claro que com as dificuldades inerentes a um professor do secundário que tem de se tornar um semi especialista nas grandes áreas da filosofia, o que não é de si tarefa fácil ou simples. 
Ainda há pouco material sobre as teorias não essencialistas (já que para as essencialistas há algum uma vez que já se ensinavam essas teorias) e o que tem aparecido são repetições de algum trabalho que estava já feito e nem sempre didaticamente cuidadoso (dar esses materiais a alunos não os conduz à compreensão das teorias). Por isso, nós, professores, temos de traçar itinerários que ajudem os alunos a compreender os aspetos centrais das teorias e a sua pertinência. E não, nem sempre aquele truque de relacionar com o quotidiano dos alunos funciona (eu diria mesmo que quase nunca funciona, mas isso é outra conversa). 
A teoria histórico-institucional compreende-se bem se articulada com uma das insuficiências da teoria institucional na versão simplificada de Dickie, que é aquela que nos é exigida no secundário. E segundo essa se um objeto pertencer ao mundo da arte, então pode ser que seja um objeto de arte. Isto parece não explicar de todo como funciona o mundo da arte. Senão numa aula apontaríamos para a nossa garrafa de água e poderíamos dizer que uma vez pertencendo ao mundo da arte, seria uma obra de arte. Eventualmente sim, se essa garrafa for sujeita a todo um escrutínio pelas pessoas e instituições da arte. A ideia de Levingson é afinar alguns aspetos da teoria e por isso remete para o conceito de propriedade. Isto é, não basta que um objeto passe a pertencer ao mundo da arte para ser considerado arte. É preciso que o criador possua direitos de propriedade sobre esse objeto. Bem, como não possuo direitos de propriedade sobre muitos objetos, não basta assim que os inclua de algum modo no mundo da arte, para que passem a ser objetos de arte. É preciso, segundo Levingson, que tenha algum direito de propriedade sobre o objeto que se quer ver como objeto de arte. Isto para além da necessidade de ver esse objeto no curso histórico da arte, com uma intenção clara de que ele seja visto como objeto de arte. No âmbito de uma teoria não essencialista estes aspetos não são de facto de deitar fora se queremos saber o que pertence e não pertence ao complexo mundo da arte. Esta fotografia mais abaixo foi um registo feito pelo inglês Richard Long. O que ele fez foi caminhar de um lado para o outro até que a relva ficasse com aquela aspeto amachucado. No final registou em foto. Uma vez que Long não tem direitos de propriedade sobre a relva e o terreno que pisou, será que ele produziu uma obra de arte? Parece que ele teve pelo menos alguma intenção que o seu feito fosse visto como arte ao registá-lo no final de o conceber. Em que ficamos?