terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Os livros do ano




Porque o tempo de um professor não é muito e prefiro elaborar a tradicional lista de discos do ano, a ser publicada aqui, fica aqui uma foto de alguns dos livros do ano. Uns são mais especiais que outros, como o Humanidade do Bregman que foi provavelmente o livro que mais me influenciou e transformou algo da minha visão dos outros e do mundo. Faltam ler uns dois, como o do Brennan que me chegou às mãos ao mesmo tempo que outros livros como o do Pinker que estou a terminar. E ainda faltam os livros que compro em formato digital. De todos destacaria o do A C Grayling que estou também a ler neste momento. Mas fica aqui a foto para lembrar alguns dos livros que fui lendo ao longo deste ano, mas sobretudo para lembrar que ler e pensar são atividades que nos faz bem e que não devemos abandonar. Boas festas a todos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

João Carlos Silva, Vida examinada

Vale a pena assinalar a publicação de mais um livro de João Carlos Silva. Por várias razões que até se ligam, algumas, a este blog. Uma delas e a principal é que o João é professor de filosofia no ensino secundário. Ser professor no secundário e conseguir publicar mais de 500 páginas de filosofia é, caso raro. Tal só se explica de uma maneira: um grande amor à filosofia. Aliás, esse é um dos títulos de um dos seus 4 volumes de ensaios. Não é, de facto, coisa pouca. Senão vejamos:

 

2010, A natureza das coisas do ponto de vista do universo, 367 pp

2010, Também aqui moram os deuses, 269 pp

2015, Por um amor à sabedoria, investigações filosóficas sobre o todo e todas as coisas, 498 pp

2021, Vida Examinada, a responsabilidade moral do professor de filosofia e outros ensaios, 546 pp

 


Tudo bem somado dá a módica quantia de 1680 páginas impressas. Se a isto somarmos alguns textos de ocasião e artigos que vai publicando online e que não tiveram espaço nestes livros, rapidamente percebemos da capacidade do João para se dedicar à escrita. Não esquecendo que pelo meio o João publicou também alguns livros que não são de filosofia, pelo menos um. 

O volume deste ano, publicado pela Lisbon International Press, reúne mais de 50 ensaios que percorrem várias áreas filosóficas que, penso poder afirmá-lo, correspondem aos interesses do autor. Assim, desde a eutanásia, existência de deus, epistemologia e ciência, política, etc.… intersectando áreas como cinema, história, questões pessoais, etc. muitos são os temas ali presentes e que podem ser lidos não na ordem apresentada no índice. 

Bem, na verdade o João comete ocasionalmente esta maldade, a de nos roubar o tempo para ler a sua prosa que tem tanto de instruída como muitas vezes bem-humorada e surpreendente.  

Quero aqui expressar de modo pessoal os meus parabéns ao João pelo trabalho que tem feito e o meu respeito pelo mesmo.


 

terça-feira, 2 de novembro de 2021

A escola inclusiva inclui ou exclui?

A escolaridade foi alargada até aos 18 anos (por lei) e para tentar que os alunos consigam estudar até ao 12º ano. Uma maneira de fazer com que isto aconteça é reduzir os conteúdos ou minimizá-los por vezes ao absolutamente superficial e banal. Outra é a escola inclusiva que consiste basicamente em arranjar maneiras de fazer com que o aluno transite de ano. Ora tudo isto não se ajusta muito bem a um modelo de aprendizagem em que o aluno tem de estudar para fazer bons testes nos quais escreve bem e mostra que realmente conhece os conteúdos e até, os que vão mais longe, já conseguem pensar sobre as matérias que aprendem. E honestamente não estou a ver como se pensa nas matérias sem mergulhar nelas, não estou a ver como se pensa o problema do conhecimento sem pelo menos mergulhar um pouco nas teorias de Hume ou Descartes, por exemplo. Discordo dos argumentos de muitos colegas que acham que tal é possível. Esses colegas tiveram a oportunidade de mergulhar nessas teorias e honestamente não compreendo como acham que os seus alunos são capazes de realizar aprendizagens sem fazer esse mesmo mergulho. Pressupor que existe uma escola agora que é inclusiva é ao mesmo tempo presumir que até aqui ela foi exclusiva. E eu não sei o que é mais exclusivo, se uma escola que chumba os alunos quando eles não são capazes de dominar conteúdos ou se passa por cima dos conteúdos para fazer alunos passar de ano. Dizem-me também os mais entusiastas que a escola inclusiva consiste em avaliar de maneira diferente, de acordo com as necessidades de cada aluno, uma espécie de fato por medida. A questão que aqui se coloca é se o aluno que aprende Descartes fazendo um exercício diferente de um teste escrito, depois pode falhar redondamente no teste alegando que não se ajusta ao seu modelo de aprendizagem? 

Também não me parece que o modelo de avaliação demasiado centrado no teste sumativo seja o mais adequado e até concebo um sistema de ensino sem qualquer teste. A questão aqui é a de como formar se transforma em avaliar? O que é que vamos fazer? Afinal de contas o aluno que consegue um 15 a filosofia de média final de secundário tem ou não a obrigação de ter êxito no exame? Obviamente não possuo aqui quantificações para poder responder com dados a estas questões. Nem sei se tais dados existem. Mas posso pelo menos manter a suspeita como forma de alerta de que os alunos que apesar de não estarem num modelo de testes vão a exame final e conseguem boas classificações, se estudassem numa escola com o modelo dos testes seriam na mesma bons alunos. Significa isto que se a minha hipótese for aproximada à verdade, então e uma vez mais a escola inclusiva falha o alvo e não passa de propaganda política. 

A minha profissão é um quebra-cabeças e educar é um verdadeiro quebra-cabeças. Mas a experiência vai-me dizendo que cada vez mais, mais alunos apenas frequentam a escola. De facto, chumbar a falta de esforço e empenho ou o simples “não conseguir” pode não ser a melhor solução. Mas ainda tenho dificuldade em compreender como a melhor resposta tenha de ser a de “passar com falta de esforço e empenho ou o simples não conseguir”.

Os otimistas da escola inclusiva parecem estar a levar a melhor. Só não percebo ainda como é que convivem pacificamente com uma avaliação que vai de 0 a 20 e de 0 a 9 o aluno não transita de ano. Não faria sentido que o seu otimismo ao mesmo tempo constituísse o fim da escala até 9? 

(Foto minha)

domingo, 26 de setembro de 2021

Entrada na Universidade no curso de Filosofia

 Este é o panorama de entrada no curso de filosofia no ano de 2021. Felicidades a todos os que escolheram esta aventura do filosofar como gente grande. 

Fonte: Jornal Público de 26/09/2021



domingo, 5 de setembro de 2021

Bom ano letivo 2021-22

 


O desejo a todos de um bom ano letivo, especialmente para a filosofia. Mais um ano com o essencial da história a repetir-se: muitos jovens adolescentes entram pela primeira vez no universo histórico e crítico da filosofia. Um dos imperativos para que essa entrada seja cada vez mais valorizada pelos estudantes é nunca esquecer que nós, professores, estamos aqui para os ensinar e não para esperar que eles já saibam o que temos para lhes oferecer. Se a perplexidade inicial da disciplina parece ser um obstáculo, ao mesmo tempo é essa mesma especificidade, a perplexidade  para pensar problemas básicos da nossa passagem pelo cosmos, que é o motor de atração para pensar, construir argumentos, compreender quando falham, apresenta-los publicamente, partilhar as ideias, não ter medo de pensar, ver na excentricidade uma virtude, perceber que por cada passo que damos existe uma implicação moral, epistémica, científica. Este caminho começa a fazer-se no sistema de ensino português, com 15 anos, no 10º ano. E a melhor conquista de um professor é que os alunos gostem de aprender. Mas nada como o gozo vaidoso de quando eles e elas nos dizem nos corredores da escola: “é a minha disciplina favorita!”. Não sejamos modestos nesta tarefa. Eu não sou. Enchemo-nos de vaidade. Nós e os nossos alunos. Se não formos vaidosos nas nossas conquistas, quem o será? Bom ano a todos. 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Newsletter Lyceu

Um novo número fresquinho dos trabalhos de alunos do Liceu Jaime Moniz. Vale a pena espreitar, pois é uma forma para conhecer um pouco melhor esta importante escola. 

Ver Aqui.




segunda-feira, 12 de julho de 2021

Uma citação de honra

 Recentemente Marcelo Fischborn, autor deste canal de YouTube que recomendo aos alunos, professores e demais interessados, destacou, no seu blogue, as aulas que gravei para o Telensino. Agradeço ao Marcelo pois é uma honra o seu reconhecimento dado o respeito que tenho pelo trabalho dele. Pode ser lido aqui o registo



quinta-feira, 27 de maio de 2021

Manuais didaticamente fortes


 


Agora que andamos (professores) a analisar manuais, deixo aqui uma pequena reflexão. Afinal quando é que um manual é didaticamente mais forte que outro? Isto não se mede a régua e esquadro. Se os manuais devem resultar num equilibro entre o que se ensina e quem vai por eles aprender, então temos de ter uma noção de quando um manual é didaticamente forte e didaticamente fraco, ainda que existam casos fronteira, exatamente porque os contextos de aprendizagem são bastante diversos. Por isso o manual X que se adapta bem ao colégio XPTO pode ser desadequado para os miúdos do bairro na minha paróquia. Mas vamos lá ao exemplo. Referem as aprendizagens essenciais de filosofia que a lógica é uma ferramenta que deve ser explorada ao longo de todo o programa. E é uma boa referência, caso contrário não faz sentido ensinar lógica. Acontece que já me deparei com um manual que disseca os argumentos ao tutano e por isso acaba por ser didaticamente fraco ao fazê-lo, pois está a exigir uma leitura pouco razoável da filosofia, dos textos e fá-lo do pior modo que é o de pressupor que toda a análise filosófica se faz esquematizando argumentos em várias premissas e conclusão. Empobrece a análise que se pede e transmite uma ideia errada da filosofia, oferecendo pouca liberdade de análise aos aprendizes. Outros manuais ignoram completamente a lógica e aí continua a cometer-se o mesmo erro de sempre. Mas há pelo meio manuais equilibrados que conseguem mostrar que, por exemplo, na defesa de uma teoria podemos esquematizar o argumento como um modus ponens e assim cumprir um dos requisitos da boa argumentação, que é a de apresentar sempre que possível, argumentos dedutivos válidos. E isto para um nível de 10º ano, faz-se com duas premissas e uma conclusão. E basta arrancar para a teoria a partir daí. Mas deve-se evitar estas duas coisas: 1ª espancar os textos em argumentos de várias premissas e conclusão pois o que se consegue é perder-se na análise dado que a lógica que se ensina não permite avaliar os argumentos dessa maneira; 2º ignorar por completo aquilo que se aprendeu em lógica. Como de resto é notícia eu não fiz qualquer manual desta leva. Se o fizesse a minha proposta iria não no sentido de escancarar todos os argumentos em premissas e conclusão, mas antes propor exercícios aos alunos para esse mesmo fim, exercícios que sejam adequados à lógica que se ensina que é ainda muito elementar, tal como deverá ser num nível que ainda é muito introdutório e para o qual na esmagadora maioria das escolas os alunos têm apenas 3 aulas de 50 minutos cada por semana. Portanto, muito azeite no candeeiro e o pavio não arde. Mas também não arde sem azeite. 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Guia para adoção de manuais de filosofia

 Desta vez resolvi gravar um vídeo com um pequeno guia que pode servir de auxiliar para adoção de manuais de filosofia. Espero que seja útil e porque é particular tem as suas falhas e omissões da minha responsabilidade. 




domingo, 16 de maio de 2021

Novidades filosóficas pelo YouTube! E em português!!!

Já no Brasil se faziam muitos e bons vídeos de filosofia para a plataforma YouTube (ver secção deste blogue dedicada a vídeos) e nada se encontrava em língua portuguesa. Creio que tal se deve porque não entram no sistema de ensino professores mais jovens, eventualmente aqueles mais sensíveis a estas maneiras de comunicar a filosofia. Recentemente descobri dois canais que abordam o programa de filosofia no ensino secundário português. Podem ser boas ferramentas para estudantes. 

Um desses canais chama-se “A Tua Filosofia” e contém materiais de preparação para exames para além de vídeos que abordam praticamente todos os tópicos das matérias. Pode ser visitado AQUI

No outro canal, “Filosofia Secundário”, os vídeos são mais curtos e sintéticos, mas com uma realização mais sóbria sem a característica do ensinar divertindo do primeiro. Pode ser acedido AQUI. Ainda bem que vão aparecendo caras novas, com ideias novas. Já fazia alguma falta.