Mostrar mensagens com a etiqueta Manuais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuais. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Arte de Pensar, Como um Manual Mudou as Minhas Aulas de Filosofia (o fim da Plátano/Didáctica)

                                (foto da 1ª edição do Arte de Pensar, que ainda conservo em casa)


Nota prévia sobre o tom

Antes de mais, um alerta: este texto tem marca pessoal assumida. Vai na primeira pessoa, com a franqueza de quem fala da própria experiência e do seu percurso. O objetivo não é impor verdades, mas partilhar um caminho — com entusiasmos, equívocos e mudanças de perspetiva.


O regresso ao ensino regular (2005)

Por volta de 2005 regressei ao ensino regular, depois de quatro anos no ensino profissional numa escola privada. Não esperava tanta mudança. Foi o ano das conhecidas e muito discutidas OLPF – Orientações de Lecionação do Programa de Filosofia.

Durante muitos anos vigorou um programa de Filosofia de carácter temático, sem conteúdos claramente definidos. Ora, é difícil ter um exame nacional rigoroso sem um corpus de conteúdos. Daí a urgência de um documento paralelo e vinculativo que desse consistência ao que seria avaliado: as OLPF.

Para a maioria dos professores — e para mim — muitos conteúdos eram novidade.


O desencontro com os manuais

Fui colocado numa escola pública e, ao chegar, percebi rapidamente o problema: o manual adotado não acompanhava as OLPF. Tornou-se evidente que não conseguiria trabalhar com ele.

Na altura falava-se bastante de “educação centrada no aluno”. Alguns manuais levaram o mote tão à letra que se transformaram em reflexões superficiais, quase conversas de café. Mesmo sem OLPF, já era estranho trabalhar com materiais assim: muita coleção de textos, pouca filosofia, salvo honrosas exceções.


Um computador na biblioteca, disquetes e o Finisterra

Volto uns anos atrás. Quando foi instalado um computador com internet na biblioteca (recordo-o como iniciativa do Ministério da Educação e Ciência), dava eu aulas em Lamego. À noite, nos intervalos, refugiava-me na biblioteca a encher disquetes com textos. Foi assim que encontrei o nome de Desidério Murcho, no Finisterra. Os seus textos eram críticos — como tantos outros —, mas de outra natureza: sólidos, estruturados, com a fundamentação que me faltava ver noutros lugares. Ainda estávamos nos anos 90. Falava de ensino e também de música (essa parte, confesso, nunca me convenceu), mas o que me prendeu foi a crítica bem armada ao ensino da Filosofia.


Materiais próprios, o blogue e um conselho

Regresso a 2005: OLPF numa mão, manual desadequado na outra. Percebi que teria de produzir materiais. Nasceu assim este blogue (primeiro na plataforma SAPO) para distribuir textos aos alunos numa altura em que até as fotocópias tinham limitações.

Telefonei a um amigo, autor de manuais. A recomendação foi direta:

“Deita os manuais ao lixo, arranja A Arte de Pensar da Didática/Plátano e trabalha com ele e com as OLPF. É o único em consonância.”

Escrevi à editora a pedir o manual. Responderam que o teria de comprar (com desconto), por não estar adotado na minha escola. Dei uma resposta dura, alinhada com a “teoria da suspeita” que circulava: haveria uma conspiração entre a Plátano e o Ministério para que o único manual conforme às OLPF fosse o deles. Vistas as coisas hoje, retenho duas notas: (1) foi uma má cartada, de facto; (2) é muito difícil mudar o que está instalado sem “golpes de estado”.

Dias depois, encontrei o manual A Arte de Pensar esquecido num armário da escola e levei-o para casa. Nem reparei que um dos autores era Desidério Murcho. Fui com ele para casa revoltado: era, afinal, “o livro dos conspiradores”, dos “traidores do sistema” — e traidores não se perdoam (mesmo quando o sistema é mau). Hoje sei que um manual que vende bem é negócio; e o negócio, muitas vezes, corrompe o espírito da coisa. Mais tarde, ao envolver-me na conceção de um manual, vi com os meus olhos o jogo que há pelo meio. Seria essa a intenção dos autores do Arte, uma artimanha para ganhar dinheiro com a conspiração? Pois, mas aqui o dinheiro era bem ganho, pois há mais história para contar.


A noite em que li um manual de enfiada

Chegada a hora de deitar, peguei no A Arte de Pensar. A experiência não foi a habitual. Os manuais que conhecia eram compilações desconexas, aborrecidas, sem fio condutor. Aqui encontrei clareza, coerência, ligação entre as matérias. Li o volume do 10.º ano de enfiada. Adormeci a pensar: “Se eu fosse aluno, era assim que queria aprender.”


Analítica, preconceitos e aprendizagem

Nas aulas de Epistemologia do 2.º ano do curso tinha ouvido qualquer coisa sobre filosofia analítica. Recordo o desdém com que era apresentada — ironia incluída. Eu próprio herdei esse preconceito: encarava a filosofia analítica como uma simplificação “inglesa” e confundia-a, sem qualquer cerimónia, com o positivismo lógico. Usava a mesma ironia fácil que fica mal a quem se dedica ao saber: ridicularizar o falhanço. É humano, mas pouco elegante; o conhecimento progride muito por erros. Se ignorar isto já não é aceitável no senso comum, costuma ser fatal quando lidamos com o saber e a ciência. O manual ajudou-me a desfazer caricaturas. Não converti a fé, corrigi o mapa que me orientava.


O blogue e o eco inesperado

Nesse ano surgiram novos manuais para adoção (creio que para o 11.º ano). Comecei a escrever apaixonadamente sobre eles — e, não poucas vezes, a desancar. Para meu espanto, o blogue passou a registar 300 a 600 visitas diárias. Chegaram telefonemas, emails, comentários. 

“Tivemos em conta as tuas análises na adoção do manual.”, escreveram muitos.

Havia sede de crítica estruturada. Nem tudo foram flores: apareceram inimizades, anónimos a denunciar “mais um lacaio do Desidério”, “o analítico da Madeira” e, pior, autores que não apreciaram as críticas. Uns foram cordiais; outros vingativos. A instituição foi, talvez, a mais dura: dividiu-se entre “analíticos” e os da “filosofia verdadeira” — aquela em que muitos, como eu, fomos formatados.

Com o tempo, iniciou-se um projeto meu para um manual que ainda está no mercado (mas já sem a minha autoria). E, apesar de tudo, mantenho este ponto essencial: nunca me interessou se a filosofia é analítica ou não analítica (ou “paralítica”, como muitas vezes eu próprio referi). Interessa-me o que funciona com os alunos. O modelo inaugurado com as OLPF e com A Arte de Pensar funcionava — e, em geral, funciona até melhor. Hoje acrescento uma reserva: qualquer modelo funciona se o professor for verdadeiramente apaixonado pelo que faz.


Uma revolução (a boa)

Em trinta anos de ensino de Filosofia (com a interrupção de quatro), esta foi a única boa revolução que vi. Surgiu quando se questionava o lugar da disciplina no currículo, com propostas para a tornar opcional. Vieram milhares de discussões (muitas infantis) e ódios pessoais que a internet ajudou a mascarar, amplificar e punir. Não sei se a causalidade se comprova, mas deixou-se de falar em acabar com a disciplina e recuperou-se dignidade. Paradoxalmente, ainda hoje há quem acuse a disciplina de ter sido “esvaziada de conteúdos” — quando, em 2005, o vazio era precisamente o problema.


2025: fecho da Plátano e balanço

Este ano de 2025 trouxe a notícia do fecho da Plátano. Desde 2005 e até há pouco tempo desenvolvi algum trabalho com o Desidério Murcho. Tive de refazer aprendizagens: ler autores novos, reler clássicos com outro olhar, estudar lógica ao ponto de ajudar colegas com formação na área. O Desidério foi um excelente professor, sem nunca me cobrar nada. Um dia disse-me, a propósito do meu email inflamado que enviei ao editor:

“Ele não tem razão, mas está aqui um professor interessado em aprender e vale a pena responder-lhe.”

Tenho gratidão por isso. As aulas que hoje dou nada têm a ver com as de antes desta revolução provocada — imagine-se — por um manual.

Quanto ao futuro, não faço ideia. Não sei se haverá continuadores desta linha, nem como será o futuro dos manuais e do ensino da Filosofia. Muitos dos nossos manuais tem algo do Arte de Pensar e são também por isso, melhores. Esqueceremos depressa? Ou a revolução ficou para durar?

Sei apenas isto: para mim, e para muitos alunos, a Filosofia deixou de ser um amontoado de textos e passou a ser, de facto, uma arte de pensar.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Manuais didaticamente fortes


 


Agora que andamos (professores) a analisar manuais, deixo aqui uma pequena reflexão. Afinal quando é que um manual é didaticamente mais forte que outro? Isto não se mede a régua e esquadro. Se os manuais devem resultar num equilibro entre o que se ensina e quem vai por eles aprender, então temos de ter uma noção de quando um manual é didaticamente forte e didaticamente fraco, ainda que existam casos fronteira, exatamente porque os contextos de aprendizagem são bastante diversos. Por isso o manual X que se adapta bem ao colégio XPTO pode ser desadequado para os miúdos do bairro na minha paróquia. Mas vamos lá ao exemplo. Referem as aprendizagens essenciais de filosofia que a lógica é uma ferramenta que deve ser explorada ao longo de todo o programa. E é uma boa referência, caso contrário não faz sentido ensinar lógica. Acontece que já me deparei com um manual que disseca os argumentos ao tutano e por isso acaba por ser didaticamente fraco ao fazê-lo, pois está a exigir uma leitura pouco razoável da filosofia, dos textos e fá-lo do pior modo que é o de pressupor que toda a análise filosófica se faz esquematizando argumentos em várias premissas e conclusão. Empobrece a análise que se pede e transmite uma ideia errada da filosofia, oferecendo pouca liberdade de análise aos aprendizes. Outros manuais ignoram completamente a lógica e aí continua a cometer-se o mesmo erro de sempre. Mas há pelo meio manuais equilibrados que conseguem mostrar que, por exemplo, na defesa de uma teoria podemos esquematizar o argumento como um modus ponens e assim cumprir um dos requisitos da boa argumentação, que é a de apresentar sempre que possível, argumentos dedutivos válidos. E isto para um nível de 10º ano, faz-se com duas premissas e uma conclusão. E basta arrancar para a teoria a partir daí. Mas deve-se evitar estas duas coisas: 1ª espancar os textos em argumentos de várias premissas e conclusão pois o que se consegue é perder-se na análise dado que a lógica que se ensina não permite avaliar os argumentos dessa maneira; 2º ignorar por completo aquilo que se aprendeu em lógica. Como de resto é notícia eu não fiz qualquer manual desta leva. Se o fizesse a minha proposta iria não no sentido de escancarar todos os argumentos em premissas e conclusão, mas antes propor exercícios aos alunos para esse mesmo fim, exercícios que sejam adequados à lógica que se ensina que é ainda muito elementar, tal como deverá ser num nível que ainda é muito introdutório e para o qual na esmagadora maioria das escolas os alunos têm apenas 3 aulas de 50 minutos cada por semana. Portanto, muito azeite no candeeiro e o pavio não arde. Mas também não arde sem azeite. 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Guia para adoção de manuais de filosofia

 Desta vez resolvi gravar um vídeo com um pequeno guia que pode servir de auxiliar para adoção de manuais de filosofia. Espero que seja útil e porque é particular tem as suas falhas e omissões da minha responsabilidade. 




quarta-feira, 26 de março de 2014

Como Pensar Tudo Isto? Novo manual para o 11º ano

Apresentamos a capa do manual de Filosofia para o 11º ano que preparamos para ensinar filosofia, para alunos e professores. Vamos dando conta do que temos em termos de conteúdo. Numa primeira abordagem pública da face do manual, procuramos ser informais, mas sérios e ir ao encontro dos alunos, mas também dos professores. Esperamos que seja do vosso agrado e estamos convencidos que sim, até porque as nossas decisões são o produto da colaboração de muitos professores. Mais informações na nossa edição on line: CLICAR AQUI.


Como Pensar Tudo isto?

Como já é sabido o título do manual que está prestes a ser publicado pela Sebenta Editora, chama-se "Como Pensar Tudo Isto?". Muito em breve vou aqui apresentar novidades, bem como no site oficial do manual.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Manuais 2014 - Como pensar tudo isto?

O nosso manual, do qual sou autor com os colegas Luís Veríssimo e Domingos Faria tem já apresentações marcadas. Esperemos que gostem do nosso projeto. Clicar na imagem para mais informações e contem com novidades para breve.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Entrevistamos Harry Gensler

O meu colega de projeto, Domingos Faria, entrevistou o filósofo Harry Gensler sobre o ensino da lógica e a sua importância para o ensino da filosofia. A entrevista pode ser lida AQUI.




Harry Gensler é um filósofo contemporâneo especialista sobretudo em lógica, ética e filosofia da religião. Ensina lógica há mais de três décadas, tendo inventado um método muito simples para testar a validade silogística (o teste estrela), bem como concebeu um método bastante acessível para se fazerem derivações que funciona em lógica proposicional, de predicados, modal, deôntica, epistémica, etc. Além disso, desenvolveu um programa de computador muito popular para se aprender lógica chamado “LogiCola”. 

Entre os seus principais livros, podemos encontrar:
• The A to Z of Logic (2010)
• Introduction to Logic (2010)
• Ethics: A Contemporary Introduction (2011)
• Ethics and the Golden Rule (2013)


Devido à sua experiência em lógica, decidimos falar com este filósofo para nos esclarecer sobre alguns pormenores no ensino da lógica no Ensino Secundário.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Manual 2.0 e powerpoint sobre Kant

No site da Sebenta Editora (Grupo Leya), continuo com o meu colega de trabalho Domingos Faria, a publicar posts no manual 2.0 de Filosofia que podem ser úteis à compreensão do que é a filosofia e a sua aplicação no ensino secundário. Publiquei recentemente um powerpoint para ensinar Kant que eu próprio elaborei e utilizei nas minhas aulas do 10º ano deste ano. Espero que façam bom proveito. Clicar na imagem para aceder ao manual 2.0 de Filosofia.




sexta-feira, 31 de maio de 2013

Como se salva a filosofia no secundário?

A escolha de manuais assenta, muitas vezes, em critérios absolutamente bizarros, o que revela que é feita à pressa, sem qualquer cuidado e sem grande zelo profissional. Muitas vezes invocam-se questões de estilo. O problema é que um mau manual ultrapassa muitas das vezes a questão do estilo. Nem se trata do estilo com que é escrito ou dos percursos que escolhe seguir. Trata-se de ignorância grosseira, do baralhar e voltar a dar, de incompetências científicas evidentes e não subtis. Sei por contacto directo a dificuldade e exigência que é fazer um bom manual. Mas é incompetente colocar todos no mesmo patamar. Há manuais visivelmente incompetentes. E que ainda assim circulam no mercado com relativo à vontade. Quem sofre com essa circunstância é a própria filosofia que vê assim a sua dignidade no ensino relegada para um lugar secundário. E uma das vias mais certas para revitalizar o ensino da filosofia, é torna-lo produtivo, fazer com que cada vez mais alunos vejam a filosofia como uma disciplina entre as mais importantes que estudam e não como uma conversa oca, sem qualquer sentido. O que pode oferecer consistência à disciplina é o seu rigor científico. Com conversa da tanga não vamos lá. É por essa razão que é tão útil e importante ler algumas coisas que se vão publicando. E dai a minha sugestão para este texto de Desidério Murcho, publicado no blog do 50 Lições de Filosofia.  


quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Deus é uma verdade inquestionável" não é juízo de valor


Acabei de ler num manual o seguinte exemplo de juízo de valor:

“Deus é uma verdade inquestionável”

E se for verdade que Deus existe continua a ser um juízo de valor? Não, é um juízo de facto. O que acontece se for verdade que Deus existe, é que quando afirmo: “deus não existe”, o meu juízo de facto é falso. Tal como afirmar que a terra está no centro do sistema solar é um juízo de facto errado.

Mas o exemplo contém uma gralha ainda maior: Deus não é uma verdade, tal como uma pedra ou uma casa não é uma verdade. O que é uma verdade ou falsidade é a proposição expressa na frase e não Deus.
Se Deus existir, não é uma verdade. O que é verdadeiro é que se Deus existir, a frase "Deus existe" é uma verdade. Mas não é Deus em si que é uma verdade.
Este tipo de exemplos só lança confusão na cabeça dos alunos, em vez de os esclarecer e ver como funcionam as coisas. Ainda por cima há milhares de exemplos óbvios. 

Neste manual encontro de novo a definição de juízo de valor como subjectivo e não podendo ser verdadeiro ou falso. mas de seguida expõe-se a tese objectivista como se nada se tivesse dito em contrário na definição de juízo de valor. É que, se a tese objectivista for verdadeira, pelo menos alguns juízos valores são verdadeiros e objectivos, o que contraria a definição de que um juízo de valor é subjectivo.

A definição de objectividade é igualmente infeliz. Diz o manual que:

"Os valores são objectivos; encontram-se na relação com os objectos e podem ser conhecidos como qualquer outro facto"

Subjectividade define-se assim no manual:

"Os valores são subjectivos; dependem do sujeito para se mostrarem"

Convido os professores a imaginarem que têm apenas 15 anos e como é que entendem o que se escreve no manual?

Os juízos de valor dependem sempre do sujeito. Ou há juízos para além de sujeitos? Os juízos são coisas? Os juízos são a expressão verbal das nossas crenças acerca do mundo. E o conteúdo que expressam pode ser verdadeiro ou falso. Ora, os objectivistas defendem que há juízos de valor que têm valor de verdade, isto é, que podem ser verdadeiros ou falsos, mesmo que nós não saibamos ainda se são verdadeiros ou falsos.
A opção na distinção entre juízos de valor e juízos de facto, além de errada, nem sequer é didacticamente acertada.

Uma boa opção de manual


É muito raro conseguir ler em espaços públicos o que pensam os professores sobre os manuais de filosofia. Com efeito, os colegas autores do Dúvida Metódica apontaram aqui algumas razões para terem optado pelo 50 Lições de Filosofia. E publico essa opinião porque me parece adequada. Clicar na imagem para aceder ao blogue onde está a pequena análise.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Objectividade nos valores


A propósito da objectividade nos valores, deixo aqui 2 links que podem ser úteis para uma melhor compreensão do problema. Um está em inglês e o outro em português, mas ambos me parecem ajudar a clarificar algumas confusões.


domingo, 19 de maio de 2013

Mais um manual analisado (e com muito a corrigir)


Ao analisar o capítulo dos valores de mais um manual, dei-me conta de algumas incoerências que vi pelo menos em cerca de 10 manuais.

Em primeiro lugar há neste manual muito discurso literalmente para encher já que o mesmo não possui qualquer relevância filosófica, não apresentando qualquer problema da filosofia. É o que vou tentar explicar de seguida.

A escolha de um autor como Hessen não me parece adequada, já que se trata de um autor sem qualquer peso na discussão actual dos problemas que são sugeridos aos estudantes neste capítulo.

O manual começa com uma distinção entre acepção vulgar de valor, acepção económica, acepção moral e acepção filosófica. Para além destas distinções não revelarem qualquer problema da filosofia, ela está mal feita. E está mal feita porque nem sequer faz qualquer sentido fazer este tipo de distinções, inculcando nos alunos mais confusões que clarificações. Vamos por partes. Quanto à acepção vulgar diz-se que:

 “é sinónimo de preferência e selecção. Ao nível do senso comum, o valor é entendido como a preferência de alguma coisa”

Mas mais uns parágrafos à frente afirma-se que:

“os valores são referências para o agir, na medida em que o ser humano é orientado por valores nas escolhas que faz. No entanto, o ser humano é o detentor do seu próprio projecto de liberdade, porquanto tem a capacidade de reinventar valores ou de lhes atribuir novos significados ao longo da história”

Questões minhas:

1)      Então mas esta acepção que se dá de valores (a da citação acima) não era a acepção vulgar ou do senso comum? Qual é exactamente a diferença entre esta acepção dada de valores e a acepção do senso comum?
Antes, na acepção filosófica de valores, o manual refere que:

“a partir do seculo XIX e inícios do seculo xx, alguns filósofos dedicam-se ao estudo sistemático dos valores, criando mesmo escolas de pensamento dedicadas ao estudo dos valores. É a chamada filosofia dos valores ou axiologia”

A questão a colocar é em que medida é esta uma acepção de valores? Não é. Trata-se apenas de uma nota de rodapé, nada mais. E assim, o estudante pura e simplesmente fica sem saber distinguir acepção vulgar de valores de acepção filosófica. E fica porque o manual não a explica. Introduz uma confusão claramente errada. O que existe em filosofia são problemas que se relacionam com os valores, tais como:

- podem alguns valores ter valor de verdade tal como os juízos de facto têm?
- como compreender o valor intrínseco de uma determinada coisa?

Mais adiante o manual ensina ao aluno que:

“atribuir valor às coisas, isto é, valorar, é constitutivo do ser humano: ao sentir, pensar e relacionar-se com o mundo e com os outros posiciona-se face às situações. Enquanto agente, faz escolhas que têm em conta valores: um grupo de amigos, uma relação amorosa, uma profissão, uma associação, um projecto de vida”

Ou seja, afinal, a acepção do manual é sempre a do senso comum.

Mas para quê que se gasta quase 4 páginas com este discurso? Saber o que são valores é relativamente trivial para alunos de 15 anos. Em 2 minutos apenas, os adolescentes são capazes de enumerar imensos valores. Isto porque saber alguns valores são de senso comum, fazem parte da vida dos seres humanos, é uma questão relativamente trivial. Exactamente por isso é que até didacticamente é muitíssimo mais acertado arrancar logo os estudantes para a discussão dos problemas. Após esses 2 minutos de levantamento de alguns valores, podemos desde logo iniciar a discussão dos problemas (como o da objectividade – subjectividade). E essa discussão é que é menos trivial já que as pessoas não estão de todo familiarizadas com a discussão, nem sabem a melhor forma de a organizar intelectualmente, uma vez que não sabem também de que se trata de um problema filosófico. E os problemas filosóficos discutem-se “sistematicamente” como refere o manual. Reflectir sistematicamente é empregar determinadas regras da discussão filosófica, que este manual ignora de todo.

Vou recuperar a definição do manual de valores para levantar a questão 2). :

“os valores são referências para o agir, na medida em que o ser humano é orientado por valores nas escolhas que faz. No entanto, o ser humano é o detentor do seu próprio projecto de liberdade, porquanto tem a capacidade de reinventar valores ou de lhes atribuir novos significados ao longo da história”

Repare-se na definição de valores dada no manual e na definição dada da tese objectivista de valores:

“O objectivismo dos valores (ou objectivismo axiológico), que enfatiza o valor, independentemente do sujeito avaliador – o valor reside no objecto e o sujeito tem apenas de reconhecê-lo”

Isto é interessante pois se o objectivismo dos valores fosse o que se refere na definição, não seria sequer um problema filosófico. Seria um problema científico, pois teríamos de investigar empiricamente as propriedades dos objectos que revelam os valores. Um aluno médio é perfeitamente capaz de levantar este problema e ver por si mesmo que o manual está a inventar.

Mas a questão 2) é esta:

2)      Como compatibilizar a definição objectivista dos valores com a acepção dada no manual? É que se o objectivismo (tal como é definido) for uma tese verdadeira, então por que razão se diz que o ser humano pode reinventar valores? Não poderia, pois os valores são propriedades dos objectos e não produto do raciocínio dos sujeitos, por exemplo.

As definições de subjectivismo e objectivismo estão erradas. Já demonstrei no post anterior a distinção que deve ser feita. Note-se que podem existir valores objectivos e muitas pessoas pura e simplesmente avaliarem subjectivamente. Se tal acontecer isso significa somente que a avaliação das pessoas está errada. E isso é igual para valores morais, estéticos, políticos ou outros.

Ao contrário do que sugere o manual, quer se trate da tese objectivista, quer da subjectivista, há sempre um sujeito que avalia, que atribui valor às coisas e ao mundo.

A caracterização dada dos valores (polaridade, absolutividade ou relatividade, hierarquia e historicidade) além de irrelevante para a discussão dos problemas, nem sequer é correcta.

Vamos pegar na questão da polaridade. O manual aponta que:

“Os valores, por expressarem preferências, estão associados a um contravalor ou desvalor, que representa o lado negativo….”

1º se a tese objectivista for verdadeira e tal como erradamente está definida neste manual, então há pelo menos uma possibilidade em que os valores não são expressão das preferências dos sujeitos, mas propriedades dos objectos. E nesse caso pelo menos alguns valores (e não todos como sugere a definição de objectivismo do manual) não possuem quaisquer pólos positivos e negativos.

Em relação á “absolutividade / relatividade” (é assim que aparece no manual) dos valores, não há qualquer necessidade de se expor este ponto, pois se fosse dada uma explicação correcta da tese objectivista e subjectivista, perceber-se-ia de modo muito simples que se a tese subjectivista for verdadeira, todos os valores são subjectivos (e  aí introduzir-se-ia o relativismo). Se a tese subjectivista for falsa, então há pelo menos alguns valores que não são relativos, nem subjectivos (atenção que pode haver valores subjectivos sem serem relativos – eu posso atribuir valor a estimar as vacas, não as comendo, numa comunidade que valoriza muito comer carne de vaca; eu posso valorizar dar tratamento igual de género, numa comunidade que não o valoriza assim, etc…).

Quanto à hierarquia dos valores, não sei sinceramente para que se aborda isto num manual de filosofia. Que problema filosófico levanta? Que discussão propõe? Nem sequer é uma questão discutida entre filósofos? Que pergunta de filosofia relevante se pode fazer sobre a hierarquia dos valores?

A historicidade é a mesma coisa. Além disso a explicação dada é absolutamente vulgar. Os valores também têm uma história. Fixe. Ponto.

Uma outra correcção que é válida para este como para muitos outros manuais. Tenho lido esta distinção:
Os juízos de valor são descritivos e os juízos de valor são “avaliativos”

Ora, esta distinção também não é correcta. Se é certo que os juízos de facto são descritivos, não é verdade que os de valor não o sejam. Segundo os objectivistas, alguns juízos de valor além de “valorativos” (como aparece em alguns manuais) podem ser ou não descritivos. Mas o mais curioso no manual que aqui analiso é que segundo a sua definição de objectivismo, jamais poderia ignorar que os juízos de valor sejam descritivos, pois se a beleza do Requiem do Mozart fosse uma propriedade do objecto, então quando eu digo “O Requiem do Mozart é belo”, nada mais estou a fazer que uma descrição.

Em conclusão. Este manual sofre do mesmo erro que muitos outros manuais. Tem muito texto sem qualquer interesse cognitivo. O estudante fica com uma ideia muito fraca do que é discutir filosofia, para além de ficar agarrado a uma série de incoerências que em nada ajudam a edificar uma ideia correcta do que seja a filosofia e o filosofar. 

Ainda há manuais muito maus


Apesar de existir muita bibliografia disponível, é inaceitável como é que encontro nos novos manuais de filosofia incompreensões que são básicas. Entre elas, a de saber com correcção o que é um argumento. Acabei de ler num manual que um argumento “consiste em sustentar racionalmente uma tese”. Como exemplos de argumentos o manual sugere dois:

“O altruísmo promove o progresso da humanidade”
“O altruísmo contribui para o progresso da humanidade”

Estes são os dois exemplos de argumentos apresentados no manual. Bastaria fazer umas questões aos alunos no próprio manual para perceber que as mesmas não teriam qualquer resposta possível. Então vamos lá?

1.      Indique a ou as premissas do primeiro argumento?
2.      Qual a conclusão do primeiro argumento?
3.      Qual a tese defendida no segundo argumento?
4.      Quais a ou as razões apresentas no segundo argumento para a defesa da tese nele enunciada?

Como se verifica, só entrando no reino da engenharia fantasista é que daríamos respostas a estas questões. Isto porque as afirmações apresentadas no manual não são argumentos.

Até aqui o manual indica que se deve saber distinguir um texto jornalístico de um texto filosófico. Não percebi bem a relevância da distinção feita, mas ela assenta no seguinte:

“Enquanto o texto jornalístico tem por função informar, descrevendo o que aconteceu, o texto filosófico pretende provocar o debate e a reflexão crítica”

Nem sei muito bem se o que está mais errado é não se perceber o que é a filosofia ou o texto jornalístico, até porque no texto jornalístico pode-se perfeitamente provocar o debate e reflexão crítica. Quando abrimos os jornais nos dias de hoje, o que não falta são textos jornalísticos de reflexão crítica e debate em torno da crise financeira e social. E não são textos filosóficos pois não tratam de problemas da filosofia.

Depois refere o manual que na dimensão discursiva do texto filosófico se devem distinguir dois pólos: o leitor e o texto. Queria evitar a ironia nestas observações que tenho feito aos manuais, pois a minha intenção é ajudar a corrigir para fazer melhor. Mas confesso que não sei como expressar a vagueza deste tipo de explicação de outra forma: então e que tal acrescentar outros pólos à dimensão discursiva, como o facto de necessitarmos de olhos, de luz, etc… para a dimensão discursiva. Qual a relevância de indicar aos alunos que para analisar um texto filosoficamente precisamos de dois pólos: o texto e o leitor? Isso parece elementar e pouco filosófico, não? Os autores indicam que a leitura do texto filosófico é dinâmica. Mas qualquer leitura é dinâmica. O que creio que os autores querem dizer, mas não dizem (não sei por quê) é que em filosofia fazemos uma leitura activa uma vez que estamos a investigar problemas e não a ler romances, o que é uma coisa completamente diferente de afirmar que na leitura do texto filosófico existem dois pólos, o leitor e o texto.

No caso deste manual cada linha escrita é um deslize gigante. Diz logo a seguir que “um cientista tem de garantir a adequação da sua tese e aquilo que pode ser cientificamente comprovado”. Afirma-se isto mesmo sem ter qualquer consideração pela investigação em filosofia da ciência que se vai ensinar no 11º ano. Se o critério da ciência fosse a comprovação (penso que empírica, a que é referida) a esmagadora maioria das teorias científicas não estariam comprovadas. Mas, já agora, não estariam, é, ainda falsificadas.
Momentos antes o manual sugere uma distinção entre filosofia espontânea e filosofia sistemática. Esta distinção não existe, sequer. O que existe é filosofia. Do facto das pessoas fazerem as contas quando vão às compras não se segue que estejam a fazer matemática. Do facto das pessoas dizerem as tolices que quiserem acerca da moralidade do casamento homossexual, não se segue que sejam filósofas ou estejam a fazer filosofia.

O manual refere que:

“Quando se inicia a leitura de um texto filosófico, deve-se ser capaz de identificar alguns aspectos:
O tema em questão
O problema abordado
A(s) tese(s) defendida(s) pelo autor

De seguida, deve-se procurar identificar os argumentos utilizados pelo autor para sustentar a sua tese”

Logo aqui parece surgir de novo a incompreensão do que é um argumento. O argumento não é algo separado da tese do autor. A tese é uma parte da argumentação. Noutras palavras que o manual procura sempre evitar: é a conclusão do argumento.

Mas logo a seguir indica-se que:

“Referimos que não existe um método único para a análise  do texto filosófico. Qualquer método de interpretação de textos filosóficos é sempre limitado e incompleto, podendo ser válido para um determinado texto e não o ser para o outro”

E a justificação dada é que na filosofia o texto “deve ser aberto á colaboração do autor”. Remata-se isto com um texto de Konrad Lorenz que, como sabemos foi um zoólogo. Ou seja, propõe-se ao aluno que analise um texto filosófico com um texto não filosófico. O interessante é que o texto desmente tudo aquilo que se disse anteriormente, pois apesar de não tratar qualquer problema filosófico, contém nele um argumento. Trata-se de um texto sobre os problemas dos aglomerados populacionais nas grandes cidades e das consequências sociais desse fenómeno.

Do primeiro capítulo, nenhum aluno fica sequer com a menor ideia do que seja filosofar.

Vou escrevendo estas linhas à medida que avanço no manual. Saltei umas páginas à sorte e fui parar a uma célebre distinção entre juízos de facto e juízos de valor. Os juízos de valor são definidos como subjectivos, não tendo valor de verdade e normativos e avaliativos. Nenhuma destas caracterizações é correcta. Antes disso pensei de imediato: se o manual indica os juízos de valor como subjectivos, então não deve abordar o problema da subjectividade / objectividade dos valores, pois se a tese objectivista for verdadeira e se for verdade que é errado matar seres humanos inocentes, por exemplo, então um juízo de valor como “é errado matar seres humanos inocentes” tem de ser verdadeiro e objectivo. Em todo o caso, o manual aponta a distinção entre objectivismo dos valores e subjectivismo. Já lá iremos.

A caracterização dos juízos de facto está errada porque:

1)      Se alguns valores forem objectivos, é falso que os juízos de valor são subjectivos
2)      Se alguns valores forem objectivos, alguns juízos de valor têm valor de verdade
3)      Nem todos os juízos de valor são normativos. Um juízo sobre uma obra de arte é um juízo de valor que não sugere qualquer normatividade.

No manual a caracterização de juízos de facto também é errada. Diz-se que os juízos de facto são objectivos porque existe uma correspondência directa entre o que é afirmado e a realidade. Não é ser ou não objectivo que caracteriza um juízo de facto, mas sim a sua possibilidade de ser verdadeiro ou falso.

Assim, uma caracterização correcta e sem confusões será como:

Juízos
Tem valor de verdade?
De facto
Sim
De valor
Sim ou não


Isto até se compreende muito bem se pensarmos num juízo de facto como: “Há vida em marte”. É um juízo de facto porque podemos saber investigando se há ou não vida em marte, isto é, podemos saber se é verdadeiro ou falso, ainda que não saibamos se o é ou não. Enunciamos muitos juízos de facto que podem ser falsos. Podemos afirmar “O João está presente na aula” só porque nos enganamos e de facto ser falso o juízo, pois o facto é que o João está a faltar.

Para o objectivismo axiológico, a explicação apresentada é que os valores têm uma existência concreta, nos objectos, independentes do sujeito. Ora isto está completamente errado. Primeiro porque é trivial que há valores subjectivos. Por essa razão é que os objectivistas defendem que alguns valores têm valor de verdade. Ter valor de verdade não significa que são dependentes ou independentes do sujeito que avalia. Significa antes que podem ser verdadeiros ou falsos. Mas não são verdadeiros ou falsos em consequência de estarem presentes nos objectos da avaliação. Podem ser verdadeiros ou falsos dependendo do raciocínio. No caso de juízos morais é isso que acontece. Um valor é verdadeiro ou falso dependendo do raciocínio moral, mas não porque, como diz no manual, os valores tenham uma existência concreta. Além de confuso é muito complicado expor coisas como estas aos alunos de 15 anos.

A definição da tese do objectivismo dada no manual é incompatível com o que se diz logo a abrir este capítulo. No início refere-se que é o ser humano que exprime valores. Mais adiante elenca-se algumas objecções ao subjectivismo e expõe-se de modo abreviado o objectivismo, sem elencar qualquer objecção. Mas define-se objectivismo como a posição filosófica que defende que os valores dependem de propriedades concretas dos objectos.

O manual rejeita liminarmente algumas teorias (algumas delas nem são filosóficas) para apresentar outras como verdadeiras (e algumas delas também não são sequer filosóficas), o que é claramente incorrecto e traiçoeiro para um ensino da filosofia com o mínimo de seriedade e qualidade.
E fiquei por aqui na leitura deste manual. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Ética e política nos manuais - esclarecimento



Recentemente um colega colocou-me uma questão sobre alguns manuais que não abordam na unidade de ética e política o problema da natureza do estado com John Locke e Aristóteles. A resposta é muito simples, apesar de alguns professores aparentemente ainda a desconhecer: porque não é um problema vinculativo, quer no programa oficial, quer no documento datado de 2011 com indicações mais precisas sobre os conteúdos a abordar no exame de filosofia. Esta confusão deriva do facto de se pensar ainda que as Orientações para a Leccionação da Filosofia estão homologadas. Acontece que essas orientações foram suspensas em 2006 (ver aqui o documento oficial que as suspende), pelo que não há qualquer imposição de conteúdo das mesmas. Sendo assim, alguns autores optaram por outros percursos, enquanto outros conservaram o mesmo conteúdo outrora vinculado nas orientações. Creio que seria mais fácil até para um autor não alterar nada e deixar como está. Mas por outro lado até vejo como positivo aproveitar a liberdade que o programa dá e traçar um percurso original. Entre esses manuais que optaram por percursos diferentes e, na minha opinião, que até poupam algum tempo aos professores, são o Diálogos (Texto Editora), Filosofia 10 (Santillana), 50 Lições (Didáctica) e Razões de Ser (Porto).
Em conclusão, nenhum professor pode em boa fé recusar um manual (seja ele qual for) baseado no argumento de que não aborda o problema da natureza do estado.
Obs: dada a limitação de tempo e querendo com alguma urgência responder a um colega aqui no blogue, não fui verificar os manuais citados. Fi-lo de cor. Se por acaso errei, agradeço a correcção que farei de imediato. De memória, são os manuais citados aqueles que optaram por percursos diferentes. 

No blogue oficial do manual de filosofia 50 Lições, tem um útil esclarecimento sobre o uso do conceito “proposição” e a opção na vez de “Juízo”. A imagem apresentada é material do manual presente no blogue.


Um objectivista não defende que todos os valores são objectivos


Por uma questão de organização do grupo disciplinar, tenho de ler a unidade sobre os Valores em todos os novos manuais do 10º ano. Tendo iniciado essa tarefa há umas horas atrás, posso desde já adiantar uma limitação que encontrei em alguns manuais e que merece algum reparo. No que respeita à discussão entre o objectivismo e subjectivismo dos valores, diz-se, por vezes, que os objectivistas defendem que todos os valores são objectivos. Ora, isto não pode estar certo. Como é que provamos este erro? Alguns manuais ensinam o estudante a negar proposições universais. Para tal usamos o quadro das oposições de Aristóteles. Assim, a negação de “todos os valores são subjectivos” que é a tese defendida pelos subjectivistas, não pode ser “nenhum valor é subjectivo”, mas antes, “alguns valores não são subjectivos”. O que é que isto significa? Significa que alguém que defenda o objectivismo dos valores não está a defender que todos os valores são objectivos, mas que alguns valores são objectivos. E trata-se de um erro afirmar que os objectivistas defendem que todos os valores são objectivos precisamente porque ao mesmo tempo se afirma que subjectivismo e objectivismo são teses opostas. Ora, não faz sentido afirmar que “todos os valores são objectivos” é a tese oposta de “nenhum valor é objectivo”.
Outra incorrecção é afirmar que os valores são objectivos e por isso absolutos e perenes. A distinção a apresentar é que se alguns valores são objectivos (tese objectivista) então possuem valor de verdade, ao passo que se não são objectivos não possuem valor de verdade.

Mas nenhum filósofo se atreveria a defender a tese altamente implausível de que todos os valores são objectivos. 

Seria também necessário esclarecer o que se quer dizer com "absoluto". Se por absoluto o estudante entender que é aceite por todas as pessoas, então não se pode estar a falar do objectivismo dos valores, pois tal propriedade (a objectividade) estaria ainda dependente da preferência dos sujeitos. Uma ideia funcional é explicar aos estudantes que se fala em absoluto por oposição a relativo. E assim o estudante percebe mais facilmente do que se está a falar. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Filosofia 10, Uma boa opção


Hoje dediquei algum tempo ao manual de Luís Rodrigues, Filosofia 10 (Plátano, 2013). A primeira impressão que tive quando recebi o livro é que estava perante um manual que me fazia lembrar “Onde está o Wally?”, já que me pareceu carregado de informação, o que conduziria a alguma dispersão. Após ter lido um pouco de alguns capítulos do manual esta ideia desapareceu. De facto, o manual tem páginas demasiado carregadas de texto. Já vi isto em alguns manuais americanos. Esta minha primeira impressão parece lateral, mas não o é assim tanto se pensarmos que estamos perante um livro para ser lido por jovens adolescentes, de apenas 15 anos e chegados a uma disciplina nova. Com efeito, o livro que tenho em mão é o do professor que tem barras laterais carregadas de informações para melhorar e apoiar a leccionação. Se retirar estas barras (como irá ser a edição do aluno) o manual fica bem mais leve.

A leitura que fiz deu-me, no entanto, uma outra ideia deste projecto. Gostei especialmente da forma correcta como se apresenta ao estudante a filosofia e as suas ferramentas. A linguagem é directa e a exposição consegue alcançar um bom nível de rigor. O que gostei especialmente é que praticamente todos os temas / problemas mereceram uma cuidada introdução com casos práticos onde os problemas são levantados. Este esforço é comum em muitos manuais, mas poucos conseguem fazer com que os textos remetam para as teorias a discutir. Muitas vezes fica-se com uma ideia muito vaga nestas introduções. Este projecto consegue com que tal desvio quase nunca aconteça. Faço aqui um convite ao professor que leia uma destas introduções e observe por si mesmo a consistência directa com a exposição teórica que logo se lhes segue.

Vejo a exposição das objecções às teorias principais como uma parte importante do trabalho filosófico. As objecções são importantes pois são o modelo que o aluno segue para compreender ao longo de todo o 10º ano como se faz filosofia, como se constrói a filosofia e principalmente, percebe a relevância da discussão em filosofia. Ora, este projecto nem sempre dá o devido destaque às objecções. É certo que o programa da disciplina e as indicações para o exame limitam um pouco os autores. E também é certo que o professor pode usar uma teoria como objecção a outra teoria rival (como acontece com Kant e Mill). Mas, mesmo que o programa aponte para a “comparação” de teorias, o trabalho verdadeiramente filosófico não é de comparação (ainda que necessário), mas de discussão. A discussão envolve, pois, a refutação. Neste aspecto gostei da proposta do manual de Paulo Ruas, Diálogos (Texto, 2013), já que aplica em permanência o método proposto nas páginas iniciais. Não é um trabalho fácil de fazer, mas a verdade é que um número precioso de manuais ensinam os alunos, entre outras operações, a negar proposições, mas depois não se lhes pede uma única negação ao longo de todo o livro. Não posso garantir que tal não aconteça no manual de Luís Rodrigues, mas não é, pelo menos, comum que tal aconteça. Aliás, pouquíssimos manuais o fazem, pois os autores em regra estão concentrados na exposição das teorias e não tanto na aplicação do método. Com efeito, estou convencido que a aplicação do método traz imensas vantagens didácticas.

Uma das tarefas que peço aos meus alunos ao longo do ano lectivo é a formalização dos argumentos dos filósofos. Além disso vou mais longe: peço a formalização das suas próprias posições e teorias. É isto que vulgarmente se chama em filosofia como “fundamentar a sua posição”. Fundamenta-se expondo com clareza as razões (premissas) do que o aluno defende (da sua conclusão). Peço igualmente inúmeras vezes para algum aluno na sala refutar a tese do colega. Para refutar a tese é necessário saber negar proposições, por exemplo. Ou aplicar contra exemplos. Ou simplesmente mostrar de outras maneiras que a premissa X é menos plausível que a conclusão que se está a defender. No ensaio argumentativo de final de ano (faço 2 ao longo do ano mais elaborados) peço também algum exercício de formalização. Este aspecto é, quase na totalidade dos manuais, ignorado. É minha opinião que se perde uma vantagem didáctica.

Em conclusão, o manual de Luís Rodrigues é, na minha opinião, dos melhores manuais que apreciei (faltando-me apenas um que acidentalmente ainda não consegui ter em mãos).

O manual é ainda acompanhado de uma autêntica enciclopédia de materiais para o professor que, na esmagadora maioria dos casos, é muito útil, incluindo testes, provas globais, fichas, etc.. para além do autor disponibilizar centenas (sem exagero) de materiais on-line como powerpoints, textos, etc…

Luís Rodrigues, Filosofia 10, Plátano, 2013

Observação: o que tenho publicado sobre os manuais resulta de uma apreciação que merece sempre ainda uma leitura mais cuidada. São apontamentos simples que, espero, possam auxiliar os colegas nas suas apreciações. Não são de modo algum apontamentos conclusivos que merece uma análise mais detalhada. Dado o tempo disponível é o possível para livros que têm entre 200 a 350 pp, para além de todos os extras.