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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Uma questão sobre ensino da filosofia e avaliação

Muitas das questões sobre o ensino da disciplina de filosofia devem ser colocadas e partilhadas nas escolas e nos grupos disciplinares. Ainda assim gostaria de alargar o âmbito desta questão / problema e colocá-la à discussão pelo menos no facebook do blogue. Como sabemos muitos professores de filosofia tem de lecionar por vezes 5 ou 6 ou mais turmas. Isso implica ter mais de 100 alunos por ano. Se um teste tiver duas páginas implica ter de ler e corrigir mais de 200 páginas por teste. Ora isso dá uma média de 1000 páginas por ano para avaliar (mais ou menos 5 testes não contando aqui com trabalhos ou ensaios). A questão é como fazer isto com o mínimo de rigor? Uma ideia é tornar os testes mais pequenos. Mas testes mais pequenos exigem que algumas questões tenham uma distribuição pouco equitativa de cotação de todo o teste. Como é que fazem? Testes mais pequenos? Se são longos, como organizam o tempo para a sua correção? Da minha parte, com dificuldade, tenho feito testes cada vez mais pequenos ou com muitas questões mas de resposta mais curta. Nunca fui a favor que o grupo de escolha múltipla tenha mais de 0,5 valores para cada questão, mas parece que o último exame nacional pretendeu mudar essa tendência. Se desejarem responder façam-no no Facebook do blogue. Obrigado.  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Dica para estudar filosofia

(foto minha)
Quando recebo alunos para apoio ao exame nacional, começo sempre por criar alguns atalhos que evitam desperdiçar tempo e poupam, assim, esforços desnecessários. Um deles é mostrar que, à parte a lógica, em todas as unidades a estudar, a filosofia anda sempre em volta de Problemas, Teorias e Argumentos. Assim, em questões de exame que nos surpreendam, devemos sempre começar por questionar: Que problema se está aqui a discutir? E que teorias conheço que o tentam resolver? Quais os principais argumentos de cada teoria?Quais as objeções possíveis a esses argumentos? 
Não resolve, mas ajuda. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

2º teste de Filosofia 2014/15 - Organização

No nosso segundo teste de filosofia são testados 2 tópicos da matéria:
- Ação humana.
- O problema do livre-arbítrio.
Relativamente ao primeiro tópico os conteúdos são mais ou menos simples. Envolve os seguintes conceitos principais:
Ação, acontecimento, intenção, crenças, desejos.
Para rematar estudamos um pouco a teoria do egoísmo psicológico que defende que todas as nossas ações são irremediavelmente egoístas e nada há mais a fazer. Contrastamos com as objeções altruístas, nomeadamente quando se referem a que o prazer obtido numa ação é consequência e não a causa da ação. Há mais para explorar, mas aqui apenas apresento a síntese.
Depois disto, e já com algumas definições de conceitos operacionais, partimos para o problema do livre-arbítrio. Estudamos as 3 respostas mais básicas ao problema: determinismo radical e libertismo como respostas incompatibilistas e determinismo moderado como resposta compatibilista. Para qualquer uma destas respostas estudamos os argumentos principais e as insuficiências que são apontadas a cada uma das teorias.
Como estudar então?
Uma vez ultrapassada a dúvida inicial de como é um teste de filosofia, estamos já na posição de pedir que se redija um pequeno ensaio* que manifeste a visão de cada um sobre os problemas, mas que a mesma seja fundamentada e discutida com a informação fornecida nas aulas. Assim, como tenho muitas vezes dito, os alunos que leram alguma coisa do recomendado, acabam sempre por estar em vantagem em relação aos restantes, já que adquiriram mais informação que os ajudará a compreender a estruturar a sua posição.

*Ensaio é um texto escrito no qual se faz uma tentativa de resposta ao problema, analisando os argumentos a favor e contra determinada teoria


Textos para estudar:
Compatibilismo, Robert Kane
Compatibilismo, W. T. Stace
O problema do livre-arbítrio, Andrew Brook e Robert J. Stainton

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Objetivos para o 1º teste

Aqui ficam os objetivos principais do primeiro teste desde ano (10º ano). Para fazer um bom teste é necessário dominar estes conteúdos:

- Distinguir entre definição explícita e implícita (condições necessárias e suficientes).
- Explicar por que razão não é possível uma definição explícita em filosofia.
- Explicar por que razão a definição etimológica é incompleta.
- Caracterizar a filosofia como: atividade crítica, tomada de posição e estudo a priori.
- Distinguir a filosofia da ciência: ao passo que os problemas da filosofia são a priori, os da ciência são empíricos (recurso à experiência como "método" de resolver problemas)
- Compreender que a filosofia anda em volta de problemas, teorias e argumentos.
- Distinguir um texto argumentativo de um não argumentativo.
- Saber o que são premissas e conclusão (composição de um argumento).
- Distinguir num argumento premissas de conclusão.
- Saber o que é uma proposição.
- Identificar se um argumento é válido distinguindo argumentos válidos de inválidos.
- Compreender as condições para um argumento ser um bom argumento: validade, solidez e cogência.
- Saber negar proposições universais, particulares e condicionais.
- Compreender que os conceitos são representações mentais. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Método de estudar filosofia


Um dia um pai perguntou-me como é que a filha deveria estudar filosofia. Respondi que o melhor a fazer seria ler atentamente os textos fornecidos pelo professor. O pai ripostou questionando: “ E se não compreender o que leu?”. Respondi: “Terá de ler outra vez”, ao que o pai retorquiu: “E se ainda assim não compreender?”. Respondi: “Tem de ler outra vez”.
Este episódio é real. Claro que não me fiquei por aqui, mas a conversa teve mesmo este início. Na verdade não existe qualquer magia para se estudar filosofia. Tudo o que há a fazer é ler. O maior obstáculo é que a maioria dos alunos praticamente aprendem o que se deu nas aulas sem fazer qualquer estudo de consolidação. E assim as coisas tornam-se muito mais difíceis e incompreensíveis, para além de passarem a ser uma maçada com pouco sentido na cabeça dos estudantes.

Estudar e aprender exige uma certa rotina. Ir às aulas e estar atento é, já por si, cansativo. O estudo em casa deve, num nível como o secundário, implicar pelo menos 20% do esforço. A melhor estratégia para começar a ter êxito é ler e compreender as teorias que os textos explicam. Em filosofia o ritmo é sempre o mesmo: Problema – teorias – argumentos: para cada problema há várias teorias em disputa. E cada uma delas apresenta os seus argumentos. Num período inicial os estudantes são confrontados com a forma de fazer filosofia. Depois estão aptos a fazê-la, lendo os argumentos e os textos propostos e discutindo-os. Esta ferramenta desenvolve capacidades extraordinárias nos estudantes, principalmente a de saber raciocinar com consequência sobre os problemas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Clorofila e resultados dos testes de filosofia

Nesta semana entreguei e fizemos a correção do primeiro teste de filosofia. Alguns alunos deslizaram e não conseguiram classificações positivas. O objetivo é que todos alcancem resultados positivos. Assim, funciona como uma ida ao médico. Quando estamos doentes vamos ao médico. Perante os sintomas o médico diagnostica a doença e aposta numa receita. A aposta da receita é o resultado do conhecimento do médico. E a receita nem sempre resulta. Mas nenhum médico deixa o paciente sem receita. Analogamente o professor tem de passar uma receita para alcançar o êxito. Há múltiplos fatores que concorrem para o resultado num teste, incluindo o fator sorte. Mas mesmo na invariabilidade toda, há alguns pontos que são seguros. Assim, estar atento nas aulas e participar ativamente nas mesmas, bem como ler e estudar são pontos mais seguros do que confiar na sorte cega. Certamente nenhum aluno consegue alcançar classificações altas confiando apenas na sorte.
Nas aulas tracei três pontos que devem ser seguidos por todos alunos para alcançar o êxito. Os dois primeiros são fáceis de conseguir e o último é o mais complicado. Os primeiros são:
1)      Atenção nas aulas
2)      Dedicar pelo menos uma hora de estudo por semana à disciplina
O último é o tal mais complicado:
3)      Mudar a nossa atitude perante o mundo e a própria vida
O ponto 3) é o mais difícil porque o mais certo é que vai chocar com as nossas crenças mais básicas que adquirimos ao longo da nossa vida. O exemplo que dei nas aulas é o que a seguir sintetizo.
Vamos supor que a Joana está no café a beber uma chávena de chá. De repente e sem intenção esbarra com um movimento do braço na chávena e ela cai da mesa e parte. O problema da Joana passa a ser a chávena partida e a chatice de ter de pagar outro chá. Se a Joana mudar o foco da suas crenças pode fazer uma questão mais elaborada: mas por que raio a chávena caiu para o chão? Afinal, porque caem os objetos sempre na direção do chão? Se a Joana quiser a resposta a este problema pode começar a estudar um pouco mais de física, conhecer Newton e saber como funciona a gravidade. E o mesmo acontece com a filosofia. O luís deu um pontapé ao João. O Francisco acha que o Luís fez justiça e a Maria acha que não. E discutem entre si as razões que cada um apresenta para conceber se o Luís foi justo ou não. Mas se quer o Francisco, quer a Maria forem curiosos, vão querer saber o que é que fundamenta as suas razões, isto é, vão querer saber o que é a justiça. E para saber isso vão estudar filosofia. É por isso que o terceiro ponto é o mais complicado, pois exige uma mudança do nosso comportamento no modo como olhamos para o mundo e confiamos nas nossas crenças.
Todos nós possuímos crenças em relação aos problemas básicos, mas nem todos temos curiosidade para ir mais além. Quando vamos mais além, somos movidos pela chave do sucesso, a saber, a paixão que nos move em direção ao conhecimento e à filosofia.

Uma boa estratégia para passar a investigar as questões básicas filosofando é recordarmos as perguntas que fazíamos quando fomos crianças. O exemplo que vos dei foi a pergunta do João Francisco, o meu filho, de 5 anos, quando ainda ontem me perguntou: “pai, por que é que as plantas precisam de água?”. Esta é uma questão científica, mas não tarda nada e o João vai fazer questões filosóficas. Todas as pessoas fazem. Mas nem todas são levadas pelo impulso da curiosidade. Saber o que aconteceu à curiosidade, o que a matou, é já um outro problema. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Testes Intermédios 2013


Clicar nos links para aceder aos testes. As análises chegarão quando sobrar um tempinho para esse efeito, já que este ano é de manuais e há sempre qualquer coisa a dizer sobre o assunto



quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ensaios filosóficos 2013


Os problemas para os ensaios filosóficos são os que se seguem. Vão ser avaliados com entrega do ensaio por e-mail e na apresentação oral (5 a 8 minutos). Os critérios de avaliação são os que foram expostos na aula e que vos enviei por e-mail. Podem consultar alguns exemplos de ensaios de alunos neste LINK. 


  • Será que temos obrigação moral de ajudar os mais pobres?
  • Será o aborto eticamente permissível?
  • Podemos ter uma definição de arte?
  • Será que Deus existe?
  • Qual a forma mais justa para distribuir a riqueza?
  • Será que os animais não humanos devem ter direitos morais?




BOM TRABALHO E DIVIRTAM-SE COM SERIEDADE. 

sábado, 21 de abril de 2012

Primeiras impressões sobre o teste intermédio de Filosofia – 11º



    Sempre fui um entusiasta dos exames e das avaliações externas. Sinto que o meu trabalho alcança outro valor. Mas já me habituei a exames mal feitos e que questionam o que é deslocado e central nas disciplinas.               Mesmo nada sabendo dos programas de Geologia / Biologia, esta semana estive de serviço com uma turma de estudantes do 10º ano para realizarem o teste intermédio dessa disciplina. Ao ler o enunciado rapidamente me apercebi que grande parte das perguntas eram mais de interpretação de português do que de biologia ou geologia, isto para além da estrutura do teste meter algum dó. Constituído por 4 grupos, todos eles exactamente com a mesma estrutura, como se fossem 4 testes independentes, mas para 90m. Mas deixo este trabalho de análise para os professores da disciplina. Agora quero apenas centrar-me numa primeira análise ao teste intermédio de filosofia.
     O primeiro aspecto criticável neste teste é que pede demasiada interpretação de texto e não pede uma só vez que o aluno pense os problemas filosóficos, que é o núcleo da disciplina. O mesmo Ministério que pede aos professores para inovarem e saírem do mero ensino expositivo que exige somente a repetição acrítica, depois quando faz o seu trabalho, nada mais faz senão do que repetir velhas fórmulas. E a velha fórmula, neste caso, é pedir ao estudante que vá a textos e os interprete e ao mesmo tempo que recorra à memória para aplicar conhecimentos, que o estudante pode ter memorizado mesmo sem compreender. Uma cabeça bem pensante pode não acertar neste teste. E um professor que se tenha dedicado mais a discutir e ensinar a discutir os problemas vê agora os seus estudantes confrontados com um teste que lhes exige algo contrário. Adiante.
     O percurso B do grupo ii, pede um exercício para testar a validade de um argumento. Contrariamente ao que indica as informações prévias de conteúdos para este teste, a disjunção que aparece na primeira premissa é exclusiva e não inclusiva, mas depois nos critérios de correcção a sugestão é a resolução com uma inclusiva. Ainda que possa ser pouco relevante para a validade do argumento não vejo qualquer necessidade de confundir mais um pouco as coisas. Depois pede que se teste a validade pelo método de tabelas de verdade. Ora os inspectores de circunstâncias usam tabelas de verdade, mas o que ali se devia pedir era um teste pelo inspector de circunstâncias. Aconselho a ver no DEF as definições para Inspectores de Circunstâncias e Tabelas de Verdade.
    De notar ainda que não se percebe como é que a filosofia tem um património tão rico de textos e depois as opções dos textos para estes testes são tão pobres. É o caso do texto de Delfim Santos. Confesso que quando li a questão, a primeira do Grupo iii, nem percebi bem o que se pede ali. E ainda agora, após já ter lido algumas vezes o texto, se me posicionar como examinado, pura e simplesmente ficaria perdido, sem saber o que responder.  A questão pede que esclareça o sentido de uma frase. Não pede mais nada. Ora, pensando que se trata de uma questão dirigida aos conteúdos a explorar na Estrutura do Acto de conhecer, questiono-me onde ficaram questões centrais como a tese CVJ de Platão ou as objecções de Gettier, os tipos de conhecimento, etc… Na minha opinião há aqui uma cedência à dispersão de maneiras de ensinar este capítulo que até muitas vezes confunde modelos de conhecimento, como a fenomenologia, com a estrutura do acto de conhecer, como lhe chama o programa. A verdade é que há professores que não ensinam a tese de Platão ou os tipos de conhecimento e é igualmente verdade que o programa não o pede de forma explícita. Então há que colocar uma questão na qual caiba lá tudo. Mas não há razão para o disparate obscurantista que nada dignifica o exame, quando antes se elaborou uma informação exame na qual se deveria ter especificado bem os conteúdos a testar.
     As questões sobre Hume e Descartes são pedidos de comparação e de explicitação, nada mais.
    Não sei avaliar se este teste é difícil ou fácil, nem penso que essa questão deva ser colocada para testes ou exames, já que isso envolve outras questões. Mas é claro que o teste não é um teste de filosofia.
    Uma palavra final. Se por um lado é bom responsabilizar todo o sistema de ensino com avaliações externas utilizando testes e exames, por outro não se percebe a razão pela qual se elaboram ainda exames com um nível abaixo do desejável. Mas prefiro para já insistir com a minha eventual ingenuidade ao pensar que com tempo e experiência se melhoram estas práticas. Espero...
Mais apreciações AQUI e AQUI e AQUI e AQUI e AQUI e AQUI.
Para ver o exame clicar aqui. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Teste Intermédio 11º ano


Já aqui havia publicado, mas para os mais distraídos clicar AQUI para aceder aos conteúdos a serem testados no Teste Intermédio de Filosofia para o próximo dia 20.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

1ªs impressões sobre o exame intermédio de filosofia – 2011


Esta manhã realizou-se o primeiro exame intermédio de filosofia. Como é público, o GAVE emitiu uma informação prévia na qual  se adiantavam os temas a serem testados. Com efeito, tal como no programa, pouco se disse em relação aos conteúdos, anotando somente, em nota de rodapé, que os autores preferenciais, na ética, seriam Kant e Stuart Mill. Isto é, ainda assim, esse documento não tornou vinculativos esses autores. Mesmo que fosse certo que praticamente todos os professores fossem lá parar, aqueles que planificaram outros autores e que trabalham com manuais que não referem estes autores ficaram com algumas questões para resolver, nomeadamente:

a)       Reformular o programa já o ano avançava;
b)      Abandonar o manual adoptado se é que esse não refere Kant e Stuart Mill ou somente um deles.

O manual, Um outro olhar sobre o mundo, da Asa, por exemplo, refere Epicuro e Kant e não Stuart Mill. (estou a ciar de memória dado que não disponho comigo do manual, mas quando fiz a análise em 2007 creio que foi isso que verifiquei)
Mas vamos ao que está menos certo: no Grupo I, pergunta 3. Aí coloca-se uma questão sobre as objecções ao determinismo radical. Ora, não é certo, porque não é vinculativo no programa (o que é vinculativo é leccionar o determinismo e liberdade na acção humana – Ponto II. 1. 1.2.), que o determinismo radical seja sequer abordado e, no caso de o ser, não é ainda assim certo que as objecções tivessem sido trabalhadas. Aliás, o que vem explicitamente mencionado no programa é aquela coisa do determinismo e das condicionantes físico-biológicas e histórico-culturais). Falta ainda conhecer os critérios de correcção emanados pelo Gave, mas estou curioso para saber quais as objecções correspondentes ao critério de resposta.
No grupo II cita-se David Oderberg, um deontologista e opositor das teses utilitaristas, como as de Singer, por exemplo. As questões feitas são vagas. Primeiro pede-se ao estudante que relacione a “noção de preferência valorativa” com a situação descrita no texto. Trata-se de tentar que a resposta reflicta conhecimento sobre o que são valores e como os mesmos podem entrar em conflito. Mas isto pouco interessa à filosofia e acredito também que muitos professores que fazem um trabalho sério, tenham dado pouca importância a este aspecto. O interessante é que nada aparece sobre um dos mais apetitosos debates filosóficos em torno do problema dos valores, que tem que ver com a objectividade / subjectividade dos valores. E questões sobre este problema podem-se fazer aos estudantes de forma clara, mas estimulante. Aí sim, seria interessante pedir ao estudante que analisasse um qualquer exemplo. Este ano não lecciono 10º ano, mas se leccionasse acredito que os meus alunos pura e simplesmente não soubessem responder a este tipo de questões. Mas a verdade é que é certo que o programa de filosofia do 10º ano, menciona (ponto II. 1.2.): “Reflexão sobre a riqueza da diversidade dos valores, reconhecendo a necessidade de encontrar critérios trans-subjectivos de valoração, bem como a importância do  diálogo intercultural.  CONCEITOS ESPECÍFICOS NUCLEARES : valor, preferência valorativa, critério valorativo, cultura". É certo que o conteúdo da filosofia da objectividade e subjectividade dos valores é ignorado pelo próprio programa e, em seu lugar, deve-se ensinar a “reconhecer a necessidade de encontrar critérios trans-subjectivos de valoração”(Programa de Filosofia, p. 28). Ele há coisas!!! 

A questão de opção 2.4. pouco ou nada tem a ver com a filosofia. Nela pede-se aos estudantes para indicarem a opção correcta, para determinar o que é que o diálogo entre culturas implica. Ora esta questão está claramente fora do âmbito do que se estuda em filosofia e não é necessário saber uma pitada de filosofia para lhe responder, pelo que não testa qualquer conhecimento de matérias filosóficas. Qualquer estudante que saiba ler e interpretar com correcção português, responde a questões deste nível sem sequer algum dia ter aberto um livro de filosofia ou ter assistido a uma aula de filosofia. É grave? Se fosse num teste de um professor talvez não fosse assim tão grave, mas vindo do GAVE e num teste nacional não devia acontecer. Mas também é inteiramente certo que o programa de filosofia refere (ponto 2. 2.2.): “Valores e cultura - a  diversidade  e  o diálogo de culturas” não mencionando qualquer conteúdo filosófico específico.
Na questão 1.1, do grupo iii, não é seguro que tenha sido a opção de muitos professores fazer a distinção entre imperativo categórico e hipotético em Kant, já que tal conhecimento não é vinculativo. Seria uma questão adequada caso o programa ou as orientações de teste intermédio tivessem mencionado esse conteúdo. Se o que interessa é que o estudante reflicta em torno de duas perspectivas éticas, é perfeitamente aceitável que seja opção do professor excluir os conceitos mais técnicos e ainda assim ensine os pressupostos da ética kantiana. Na minha opinião, esta questão não devia ter aparecido no exame.
Finalmente no último grupo, a questão 2, parece-me demasiado vaga. Quase que pede ao estudante para discorrer sobre tudo o que decorou sobre Kant e Mill. Teria sido muito mais interessante colocar um caso prático e pedir ao estudante que o ajuizasse objectando até as teses expostas, apoiando-se no estudo feito de Kant e Mill.
De um modo geral o teste é muito fraquinho só ao de leve testando conhecimentos da disciplina. Mas era expectável que assim fosse, já que é de todo impossível fazer bons testes ou exames quando não temos sequer conteúdos precisos no programa da disciplina. O programa tem de ser revisto para se fazerem bons testes e exames que ao mesmo tempo testem de forma rigorosa os conhecimentos dos estudantes, mas não atraiçoem o trabalho dos professores.
E agora, venha o debate. E que alguma coisa boa se faça com ele.