1. Os resultados não são bons. A ideia é melhorar e não piorar. Não vale a pena dourar a realidade nem procurar justificações para tudo. Se há uma coisa que os resultados nos dizem é que há problemas que temos de enfrentar.
2. Mas os resultados não são exclusivos de Portugal. E, por isso, a ideia de que é necessário “rolar cabeças” de políticos é, no mínimo, uma simplificação grosseira. Portugal não vive isolado e os resultados educativos pioraram em muitos países. É também um pouco escusada esta ideia de que, quando alguma coisa corre mal, a culpa é sempre do Estado-Pai e dos políticos. Os governos têm responsabilidades, evidentemente, mas a sociedade também se faz de pessoas, de famílias, de escolas, de professores, de alunos e de muitas outras instituições.
3. Sendo os resultados um fenómeno que ultrapassa Portugal e estando Portugal relativamente próximo de vários dos seus congéneres europeus, talvez seja altura de refletirmos sobre o que andamos a fazer enquanto sociedade e sobre aquilo que desejamos da escola. O que esperamos dela? Que seja um trampolim social? Que garanta melhores empregos? Que compense desigualdades sociais? Que eduque, instrua e forme cidadãos? Tudo isto ao mesmo tempo? E qual é a responsabilidade que atribuímos às famílias, aos alunos e à própria sociedade nesse processo?
4. O PISA não é um boletim de avaliação dos professores portugueses. É um instrumento de avaliação de determinadas competências dos alunos de 15 anos e os seus resultados são influenciados por uma multiplicidade de fatores. Os exames e as avaliações são instrumentos necessários: precisamos de indicadores que nos permitam perceber onde estamos e onde precisamos de melhorar. Mas nenhum indicador conta toda a história. O contexto em que os resultados são produzidos é fundamental. Por isso, os resultados devem servir para identificar problemas e melhorar, não para alimentar a competição entre escolas ou para permitir que uns se apresentem como “melhores” do que os outros.
5. É um facto que determinados usos da tecnologia podem prejudicar a atenção e a capacidade de concentração. Mas também é um facto que a utilização adequada da tecnologia pode facilitar aprendizagens, diversificar estratégias pedagógicas e preparar os alunos para um mundo cada vez mais tecnológico. Portanto, transformar “a tecnologia” no bode expiatório é demasiado fácil. A questão não é tecnologia sim ou tecnologia não. É perceber que tecnologia, para quê, quando e como.
6. Os professores e quem os representa têm razão quando pedem mais meios e recursos. Sou professor e sinto isso na pele. A realidade escolar é hoje muito complexa. E continuamos, em muitos aspetos, a trabalhar com estruturas e recursos pensados para uma realidade de há décadas. Um diretor de turma tem hoje responsabilidades muito mais numerosas e complexas do que tinha há 30 anos, enquanto os meios humanos disponíveis não acompanharam essa transformação.
Há umas décadas, a psicologia escolar tinha uma presença muito mais reduzida. Hoje, é difícil imaginar uma escola que não necessite de um trabalho muito mais próximo com psicólogos. Eu diria que a esmagadora maioria das escolas deveria ter condições para garantir um acompanhamento psicológico muito mais próximo dos seus alunos. Há escolas onde existe um psicólogo para centenas de alunos, por vezes para perto de mil. É difícil imaginar que, nessas condições, possa existir um acompanhamento verdadeiramente próximo e continuado.
E não se trata de substituir o professor pelo psicólogo. Trata-se precisamente do contrário: permitir que cada profissional faça aquilo para que está preparado.
7. O trabalho escolar necessário para garantir o sucesso exige também capacidade para contextualizar, interpretar e tratar dados. Precisamos de saber quem são os nossos alunos, quais são as suas características sociais, onde estão os problemas, que padrões existem, que medidas funcionam e quais não funcionam. E precisamos de fazer isso com conhecimento técnico e não apenas com boa vontade.
Eu não conheço praticamente nenhuma escola que disponha de uma verdadeira estrutura técnica de análise sociológica e estatística da sua realidade. Há certamente trabalho de grande qualidade que é feito por professores, direções e serviços centrais, mas isso não significa que não precisemos de mais especialização.
8. Quase todo o trabalho nas escolas continua a ser feito por professores. E, ao longo dos anos, uma parte significativa do trabalho dos professores foi-se desviando do seu foco principal — ensinar a sua disciplina e acompanhar pedagogicamente os alunos — para uma multiplicidade de tarefas técnicas, administrativas, burocráticas e sociais para as quais o professor não recebeu necessariamente formação especializada.
O professor faz, porque tem de fazer. Faz com profissionalismo, dedicação e, muitas vezes, com enorme carolice. Mas isso não significa que seja a melhor solução.
É como colocar mecânicos a trabalhar terrenos agrícolas ou trabalhadores agrícolas a reparar motores. Dá-se um jeito. Resolve-se. Mas não é assim que se organiza uma sociedade que acredita na especialização profissional.
9. Uma analogia para terminar: o mundo do futebol, que todos tanto apreciamos.
Um jogador profissional tem treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, psicólogos, analistas de desempenho e toda uma estrutura à sua volta destinada a criar as melhores condições possíveis para o seu desempenho.
E nem assim o sucesso está garantido.
Não estou a defender que a escola tenha de reproduzir o modelo do futebol profissional. Mas talvez possamos aprender alguma coisa com o desporto que tanto gostamos: quando uma tarefa é complexa, tendemos a recorrer a diferentes profissionais especializados.
Na educação, por vezes, esperamos que uma única profissão resolva praticamente tudo.
10. E não, não estou a dizer que, de repente, o Estado tenha de colocar um psicólogo por turma e um sociólogo em cada escola.
Há certamente muito trabalho de qualidade que já é feito e muitos profissionais extraordinários nas nossas escolas e nos serviços educativos.
O que estou a dizer é que a realidade atual está ainda muito distante daquela que poderíamos considerar ideal.
Se uma escola com mil alunos tem dois psicólogos, o acompanhamento será necessariamente limitado. Se um organismo público tem um departamento de sociologia ou uma equipa de análise de dados, isso é positivo. Mas há também uma diferença fundamental: quem trabalha num gabinete pode analisar a realidade através dos dados; o professor está diariamente dentro dela.
O professor conhece os alunos, as famílias, os conflitos, as dificuldades e as pequenas mudanças que os números muitas vezes não conseguem captar.
Mas o professor não é psicólogo, não é sociólogo, não é estatístico, não é assistente social e não é um especialista em tudo.
E talvez uma das formas de melhorar a escola seja precisamente esta: deixar os professores ensinar e criar à sua volta uma equipa de profissionais que os ajude a fazer melhor aquilo que só eles podem fazer.
E talvez seja também importante que nós, professores, tenhamos consciência de uma última coisa: quando dizemos constantemente aos nossos alunos que a escola está “em ruínas”, que “esta geração está perdida” ou que “isto nunca esteve tão mal”, não estamos apenas a descrever uma realidade. Estamos também a construir a relação desses alunos com a escola.
Podemos ser críticos. Devemos ser críticos.
Mas entre o otimismo ingénuo e o catastrofismo permanente, há uma coisa chamada responsabilidade.
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