terça-feira, 14 de março de 2023
Jornadas de Matemática da Escola Secundária Jaime Moniz
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Escola inclusiva
Escola inclusiva. Situação hipotética 1: Aluno(a) de média excelente, um 18 por exemplo, no conjunto de todas as disciplinas. “É exemplar!!”. Não, não é! Na escola inclusiva ninguém é exemplo para outrem. Situação hipotética 2: Aluno irrequieto e com personalidade agitada e algo distraída. “É muito distraído e deve estar mais concentrado”. Depende. Se um traço de personalidade for hereditário até que ponto num ensino até ao secundário devemos limitar um aluno por características pelas quais ele não pode ser moralmente responsável? Os documentos que regulam o ensino básico e secundário apontam para competências (vide AE, Aprendizagens Essenciais). Elas vão desde competências sociais até intelectuais e físicas. E o seu peso varia consoante a disciplina. Mas o professor não tem de avaliar que competências o aluno já carrega, mas antes se consegue atingir ou não determinadas competências. Acontece que um aluno pode ser bem sucedido nas competências cognitivas porque é um “marrão”, mas essas podem não ter peso superior a 40% ou 50% da sua avaliação final. A avaliação é altamente complexa, mas no secundário ainda se anda muito desligado das competências. Basicamente são 3 anos penosos a arrancar médias para entrar nos cursos universitários. E isso parece gerar um enorme desinteresse pelo estudo com prazer, pela aprendizagem diferenciada e, pior que tudo, pela inclusão. Só se ouve por todo o lado falar de testes porque o modelo ainda tem os maiores estímulos concentrados nos testes: notas de testes para entrar na universidade. O pior de tudo é que um modelo demasiado concentrado em testes, além de ser bastante redutor, termina sempre numa enorme injustiça, a começar pelo exemplo de que o aluno X pode conseguir média 19 com o professor Y mas não passaria de um 15 com o professor Z, ainda que o aluno que aprendeu com o professor Z até possa ter desenvolvido melhor as suas competências cognitivas, por exemplo. Depois porque uma avaliação que vai de 0 a 20 e que menos de 9 é negativa implica necessariamente exclusão. Todos os alunos com classificações negativas são em certo sentido excluídos. O Ensino secundário ainda está ao serviço do mercado de entrada na universidade. E isso acarreta custos elevados para a inclusão. Creio que é necessária uma revolução para a chamada grey area no ensino secundário, na qual os testes não perdem o seu papel, mas deixam de ser a baliza entre os bons e os maus alunos. É que, em rigor, um ensino só é inclusivo se considerar uma premissa como verdadeira: Não há alunos fracos.
segunda-feira, 14 de novembro de 2022
Dia da filosofia. Mas a filosofia é útil?
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I
Talvez a melhor prova de que a filosofia não é tão necessária assim seja o facto de até precisar de um dia que assinale a sua necessidade. Será uma necessidade imposta? Talvez. Olho sempre com alguma relutância para aniversários como o Dia da Filosofia. E não costumo apreciar por aí além as dezenas ou centenas de textos que se publicam a exaltar a importância daquilo que a esmagadora maioria das pessoas se está nas tintas. Assim como a esmagadora maioria das pessoas se está nas tintas para milhares de outras coisas que as pessoas consideram muito úteis e necessárias. Haverá talvez um cunho mais pessoal na filosofia do que na matemática ou química para que se perceba a exortação da necessidade inevitável da filosofia. Mas basta ler o livro Como se transforma ar em pão? De Nuno Maulide, o químico português de renome internacional para perceber que as pessoas estão pelo menos tão rodeadas da química como da filosofia e nem por isso se interessam assim tanto por química, nem consta que os químicos se preocupem assim tanto com isso (na verdade Maulide até se preocupa daí ter escrito o livro). São hipóteses.
Então vamos brincar com a suposta necessidade popular da filosofia para ver se funciona como pensamos que deve funcionar. Um dia estava eu a preparar o meu portátil para uma pequena aula/palestra, creio que precisamente no dia da filosofia e aparece uma menina dos seus 15 anos, aluna, que chegou mais cedo à sala. Pediu para entrar e enquanto eu me via ali atrapalhado com fios e ligações atira-me esta questão: “professor desculpe, mas quero fazer esta pergunta antes que chegue a minha professora: para que é que serve a filosofia que eu ainda não percebi muito bem?”. A minha resposta foi simples: “serve para eu ganhar um ordenado ao fim do mês”. A miúda ficou com um ar estarrecido. Mas eu ofereci uma justificação, enquanto me via ainda a braços com as ligações e os fios: “repara, eu tirei um curso de filosofia. Aprendi alguma filosofia. E com isso faço o meu ganha-pão, compreendes?”. Perante o ar incrédulo da miúda, lá fui desenvolvendo a questão: “Ora bem, a pergunta que fizeste pressupõe antes saber o que é a utilidade e se tudo terá de ter exatamente a mesma utilidade. Por exemplo, se um garfo serve para comer, será que a utilidade da filosofia é mais ou menos a mesma que poderá ter um garfo?”
Na verdade, a utilidade pressupõe ela mesmo uma pergunta para a qual precisamos de argumentos. O que é que faz com que o objeto x se torne útil? E eu não menti à aluna, a filosofia serve mesmo para que me paguem um ordenado ao fim do mês. É certamente uma utilidade. Que me serve a mim, apenas. Mas é uma utilidade. Num sentido mais global, em regra os patuscos elogios que vejo por aí à filosofia acabam sempre num lugar-comum: ética aplicada e sentido da vida. E em regra também me parecem forçar a utilidade da filosofia. Pois senão quando os leio penso sempre se sem filosofia as conclusões não seriam exatamente as propostas nesses textos? E em regra acabo sempre a assentir que sim, que mesmo alguém que não tivesse qualquer contacto com a filosofia, chegaria às mesmas conclusões. E por uma questão de ordem quero para já evitar a ideia de que todos somos filósofos. Seremos todos filósofos no mesmo sentido em que seremos matemáticos por fazer contas quando vamos às compras num supermercado. Isto é, não é verdade que todos sejamos filósofos no mesmo sentido que não é verdade que todos sejamos matemáticos. Mas é verdade que a filosofia tem muitos pontos de contacto com vários aspetos da realidade. Nunca contei, mas se calhar tem tantos ou menos que a matemática, a física ou a química. Uma outra possibilidade é a de considerar que pelo menos alguns problemas filosóficos são de interesse comum. Por exemplo apenas especialistas se preocupam com o problema dos universais, mas todas as pessoas se preocupam com a existência de Deus. Mas ainda assim considero que o mesmo se passa com quase todos os outros saberes que tem alguma base de ligação à experiência mais intuitiva. Portanto nem aí vejo algum estatuto especial para a filosofia.
II
Bem, poderia concluir então que a filosofia não merece um dia para se comemorar o seu exercício, história e estatuto ou pelo menos não o merece mais que qualquer outro saber. Sim, é mesmo isso que concluo. Mas não defendo que tal dia não deva existir. Talvez isso fosse o equivalente a considerar que também não deveriam existir prémios com a medalha Fields para a matemática, mesmo com as justas diferenças entre o prémio e o world philosophy day. O que defendo é outra coisa: é que independentemente de existir ou não um dia da filosofia, ela continuará viva enquanto alguém achar que ela é necessária e útil ou então enquanto ela mesma for objetivamente útil e haja alguém que se dê conta disso. Mas ela não é apenas útil para questionar o sentido da existência, até porque nem só apenas a filosofia o questiona. Ela é útil sobretudo pelo modo como o faz incomparável com outro saber ou disciplina, no modo como disciplina os argumentos e os esclarece, no modo como aplica a lógica no esventrar dos argumentos para desbravar novas questões e também no modo como cada vez mais se intersecta com todos os outros saberes não só na mais popular ética ou versão patusca do sentido da existência, mas nos problemas que se colocam em torno da inteligência artificial, as mais recentes descobertas nas neurociências e a relação com a epistemologia moderna, o problema metafísico dos universais e particulares, o lugar do livre-arbítrio, como se conserva a identidade pessoal e as relações com problemas mais práticos como os do aborto ou eutanásia, a criação de sociedades mais justas com problemas como os da redistribuição ou pobreza, e para a definição de conceitos tão fundamentais do modo como configuramos a nossa visão do mundo como o de utilidade.
III
Por enquanto para mim a filosofia serve para duas coisas: ganhar um ordenado e não ficar completamente cego quanto às questões que se possam levantar acerca daquilo que o mundo é.
Bom dia da filosofia a todos. (este ano comemora-se a 17 de Novembro)
terça-feira, 28 de junho de 2022
segunda-feira, 27 de junho de 2022
Atualização de páginas
Olá a todos. Este blogue está organizado por abas, que são páginas para uma navegação mais acessível. Na página "Exames Nacionais" tens todas as orientações básicas para o exame nacional de filosofia. Na página "Aprendizagens Essenciais" tens os documentos orientadores com os conteúdos que são testados em exame. Esta secções são habitualmente atualizadas.
Bom estudo
E bom exame
quinta-feira, 19 de maio de 2022
sexta-feira, 11 de março de 2022
Ação de Formação - Lógica e pensamento crítico no ensino
Muito em breve aplicarei na Escola Secundária Jaime Moniz a ação de formação para professores sobre Lógica e pensamento crítico no ensino. Inscrições e informações AQUI
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
Os livros do ano
Porque o tempo de um professor não é muito e prefiro elaborar a tradicional lista de discos do ano, a ser publicada aqui, fica aqui uma foto de alguns dos livros do ano. Uns são mais especiais que outros, como o Humanidade do Bregman que foi provavelmente o livro que mais me influenciou e transformou algo da minha visão dos outros e do mundo. Faltam ler uns dois, como o do Brennan que me chegou às mãos ao mesmo tempo que outros livros como o do Pinker que estou a terminar. E ainda faltam os livros que compro em formato digital. De todos destacaria o do A C Grayling que estou também a ler neste momento. Mas fica aqui a foto para lembrar alguns dos livros que fui lendo ao longo deste ano, mas sobretudo para lembrar que ler e pensar são atividades que nos faz bem e que não devemos abandonar. Boas festas a todos.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
João Carlos Silva, Vida examinada
Vale a pena assinalar a publicação de mais um livro de João Carlos Silva. Por várias razões que até se ligam, algumas, a este blog. Uma delas e a principal é que o João é professor de filosofia no ensino secundário. Ser professor no secundário e conseguir publicar mais de 500 páginas de filosofia é, caso raro. Tal só se explica de uma maneira: um grande amor à filosofia. Aliás, esse é um dos títulos de um dos seus 4 volumes de ensaios. Não é, de facto, coisa pouca. Senão vejamos:
2010, A natureza das coisas do ponto de vista do universo, 367 pp
2010, Também aqui moram os deuses, 269 pp
2015, Por um amor à sabedoria, investigações filosóficas sobre o todo e todas as coisas, 498 pp
2021, Vida Examinada, a responsabilidade moral do professor de filosofia e outros ensaios, 546 pp
Tudo bem somado dá a módica quantia de 1680 páginas impressas. Se a isto somarmos alguns textos de ocasião e artigos que vai publicando online e que não tiveram espaço nestes livros, rapidamente percebemos da capacidade do João para se dedicar à escrita. Não esquecendo que pelo meio o João publicou também alguns livros que não são de filosofia, pelo menos um.
O volume deste ano, publicado pela Lisbon International Press, reúne mais de 50 ensaios que percorrem várias áreas filosóficas que, penso poder afirmá-lo, correspondem aos interesses do autor. Assim, desde a eutanásia, existência de deus, epistemologia e ciência, política, etc.… intersectando áreas como cinema, história, questões pessoais, etc. muitos são os temas ali presentes e que podem ser lidos não na ordem apresentada no índice.
Bem, na verdade o João comete ocasionalmente esta maldade, a de nos roubar o tempo para ler a sua prosa que tem tanto de instruída como muitas vezes bem-humorada e surpreendente.
Quero aqui expressar de modo pessoal os meus parabéns ao João pelo trabalho que tem feito e o meu respeito pelo mesmo.
terça-feira, 2 de novembro de 2021
A escola inclusiva inclui ou exclui?
A escolaridade foi alargada até aos 18 anos (por lei) e para tentar que os alunos consigam estudar até ao 12º ano. Uma maneira de fazer com que isto aconteça é reduzir os conteúdos ou minimizá-los por vezes ao absolutamente superficial e banal. Outra é a escola inclusiva que consiste basicamente em arranjar maneiras de fazer com que o aluno transite de ano. Ora tudo isto não se ajusta muito bem a um modelo de aprendizagem em que o aluno tem de estudar para fazer bons testes nos quais escreve bem e mostra que realmente conhece os conteúdos e até, os que vão mais longe, já conseguem pensar sobre as matérias que aprendem. E honestamente não estou a ver como se pensa nas matérias sem mergulhar nelas, não estou a ver como se pensa o problema do conhecimento sem pelo menos mergulhar um pouco nas teorias de Hume ou Descartes, por exemplo. Discordo dos argumentos de muitos colegas que acham que tal é possível. Esses colegas tiveram a oportunidade de mergulhar nessas teorias e honestamente não compreendo como acham que os seus alunos são capazes de realizar aprendizagens sem fazer esse mesmo mergulho. Pressupor que existe uma escola agora que é inclusiva é ao mesmo tempo presumir que até aqui ela foi exclusiva. E eu não sei o que é mais exclusivo, se uma escola que chumba os alunos quando eles não são capazes de dominar conteúdos ou se passa por cima dos conteúdos para fazer alunos passar de ano. Dizem-me também os mais entusiastas que a escola inclusiva consiste em avaliar de maneira diferente, de acordo com as necessidades de cada aluno, uma espécie de fato por medida. A questão que aqui se coloca é se o aluno que aprende Descartes fazendo um exercício diferente de um teste escrito, depois pode falhar redondamente no teste alegando que não se ajusta ao seu modelo de aprendizagem?
Também não me parece que o modelo de avaliação demasiado centrado no teste sumativo seja o mais adequado e até concebo um sistema de ensino sem qualquer teste. A questão aqui é a de como formar se transforma em avaliar? O que é que vamos fazer? Afinal de contas o aluno que consegue um 15 a filosofia de média final de secundário tem ou não a obrigação de ter êxito no exame? Obviamente não possuo aqui quantificações para poder responder com dados a estas questões. Nem sei se tais dados existem. Mas posso pelo menos manter a suspeita como forma de alerta de que os alunos que apesar de não estarem num modelo de testes vão a exame final e conseguem boas classificações, se estudassem numa escola com o modelo dos testes seriam na mesma bons alunos. Significa isto que se a minha hipótese for aproximada à verdade, então e uma vez mais a escola inclusiva falha o alvo e não passa de propaganda política.
A minha profissão é um quebra-cabeças e educar é um verdadeiro quebra-cabeças. Mas a experiência vai-me dizendo que cada vez mais, mais alunos apenas frequentam a escola. De facto, chumbar a falta de esforço e empenho ou o simples “não conseguir” pode não ser a melhor solução. Mas ainda tenho dificuldade em compreender como a melhor resposta tenha de ser a de “passar com falta de esforço e empenho ou o simples não conseguir”.
Os otimistas da escola inclusiva parecem estar a levar a melhor. Só não percebo ainda como é que convivem pacificamente com uma avaliação que vai de 0 a 20 e de 0 a 9 o aluno não transita de ano. Não faria sentido que o seu otimismo ao mesmo tempo constituísse o fim da escala até 9?








