segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Lógica em português

Foi com surpresa que soube desta publicação. Surpresa porque o autor é desconhecido para mim e é um colega professor de filosofia do ensino secundário. Apesar da obra seguir mais ou menos a proposta do ensino da lógica no ensino secundário é um estudo apenas destinado a professores e quem queira algum aprofundamento no conhecimento da lógica proposicional. Está muito bem escrito, com excelentes reflexões pessoais, com um modo de expor a filosofia bastante cuidadoso não descurando aquilo que se destina, ou seja, ao conhecimento técnico da aplicação da lógica ao raciocínio e ao raciocínio filosófico em especial, onde a lógica tem terreno fértil. Que me tenha apercebido só é vendido pela Amazon. Comprei-o na Amazon espanhola após ter visto um pouco do elenco que compõe este livro. E mesmo que o autor o apresente como uma introdução, pelo nível de rigor é já um estudo semiavançado, na minha opinião. Recomendo, pois, especialmente para professores que assim podem não apenas aprofundar conhecimentos, mas também recolher técnicas e exemplos bem úteis para tornar as aulas mais diversificadas. E daqui seguem os parabéns ao autor, pois não é de todo fácil um professor do secundário meter mãos à obra para trabalho desta envergadura. 



António Mendes, Lógica Proposicional e Pensamento Crítico. Quem tem razão? (ed autor, 2023)


terça-feira, 27 de junho de 2023

Exame Nacional Filosofia 2023

 Acabei de publicar na secção "Exames" as duas versões do Exame + critérios de correção. 

sábado, 24 de junho de 2023

Luís Gottschalk, uma homenagem

O professor Luís Maria Gottschalk é um colega que esteve sempre presente desde a formação deste blogue. Muito do que aqui foi feito foi pelas suas sugestões. Ao mesmo tempo o Luís partilhou sempre com amabilidade tudo o que sabia. O Luís foi um professor muito à frente do seu tempo e nunca o vi movido pelo preconceito ou pela idade que foi pesando, mas, antes, pela curiosidade e inteligência. Também lhe devo a ele algo do professor que me fui transformado nestes anos. Um abraço forte e sempre com a saudade que me deixa a mim e à minha família. Com gratidão eterna. 



quarta-feira, 21 de junho de 2023

Exame de filosofia, como estudar?


Nesta altura recebo imensos pedidos de ajuda para a preparação do exame de filosofia. Bem, a única resposta possível é, estudar. Mas muitos estudantes sentem-se algo perdidos sem saber como organizar o estudo para exame. Em primeiro lugar tenho de saber quais as matérias testadas. E em segundo que materiais vou usar. Neste blogue há uma pequena secção que ajuda nessa organização. Acrescentei ainda as aulas no Youtube do Professor Manuel Cruz que gentilmente disponibiliza explicações on-line. Além disso as aulas que gravei para a RTP Madeira, por ocasião dos confinamentos da pandemia também ajudam em algumas matérias e estão disponíveis neste blogue na secção
 Teleensino.  Estes materiais são muito úteis. Para    além disso todos os estudantes devem procurar nas suas escolas que apoios são dados para    exame. Muitas escolas oferecem aulas específicas de preparação para    exame.  Bom exame a todos. 


quarta-feira, 10 de maio de 2023

Fazer pontes com raciocínios

Numa das minhas aulas recentes tinha como objetivo explicar aos alunos a diferença que Mill falou entre prazeres superiores e inferiores. Entre os superiores temos prazeres como os intelectuais, estéticos, morais ou espirituais. Ao passo que entre os inferiores temos os prazeres físicos ou sensoriais mais básicos, como comer ou dormir. Certo que muitos dos prazeres mais básicos se relacionam bem com prazeres de ordem superior. 


(Imagem do manual adotado)

Mas o objetivo aqui é o de mostrar a alunos de 15 anos que Mill não estava a inventar e que talvez tivesse feito uma divisão que merece a pena explorar quando relacionamos prazer com felicidade. Assim, comecei por exibir um pequeno vídeo da Sagrada Família de Gaudi, em Barcelona, a que se seguiu uma pequena conversa em que questionei se gostavam de ver a SF. Quando os alunos respondiam que sim, perguntei a razão. E as respostas andavam pelo esperado: porque é bonita. Estamos, pois, a falar de prazeres estéticos. 



Depois coloquei uma experiência de pensamento aos alunos: imaginem duas hipóteses: ou vocês são de tal maneira bonitos e bonitas que todos os rapazes ou raparigas da escola rastejam aos vocês pés. Mas tem um senão: são muito limitados em termos intelectuais, “burrinhos”. Ou então, segunda hipótese, são normais, vão ter alegrias e sofrimentos amorosos, a vida amorosa nem sempre vos será fácil, mas são inteligentes. E a pergunta é: quem prefere a primeira hipótese. Ninguém levantou a mão. “Estão a ver!!!, a vossa vida intelectual é algo que estimam mais que os vossos prazeres sensoriais mais imediatos. Depois mostrei o vídeo que está abaixo, do filme de Charles Chaplin, “O Homem dos tempos modernos”. A maioria dos alunos do 10º ano ou não fazem ideia quem foi Chaplin ou, os que já ouviram falar, associam a um comediante. Não faziam ideia que se podia ser bastante crítico a fazer comédia. A pergunta, no final, foi a de tentar saber se Chaplin, no retrato daquele filme, seria um homem feliz, ao que os alunos responderam que não pois tem tarefas apenas repetitivas e que tal não o faz feliz. Bem, aproveitei para dar o contexto. “Vão lá à Wikipédia pesquisar de onde é Chaplin e quando viveu”. Pois, inícios do sec xx. Ainda a a Inglaterra, país de Chaplin, vivia nas suas cinzentas cidades com o clima da revolução industrial. Foi assim que fomos até ao aborrecimento da vida e à necessidade de criar espaços criativos que nos façam felizes. Pois então!! Isto é ser humano. E foi assim que lhes dei o exemplo da múisca da cinzenta Manchester dos anos 80 e lhes falei e mostrei Joy Division, uma espécie de grito no meio da cinzenta Manchester de outrora. E foi assim também que compreendemos como a Inglaterra de hoje já não é apenas a da cinzenta industrialização que durou até à era da globalização e da transferência da indústria para países emergentes. Uma aula em que construímos pontes com o raciocínio analítico. E crescemos culturalmente. Tudo para compreender apenas um conceito explorado por um filósofo, o da felicidade em Mill. Já agora, esta aula não teria sido possível sem um computador, uma conexão à banda larga e um quadro eletrónico que me permitiu, a mim e aos alunos, em boas condições, visualizar os vídeos. Terminamos a aula com um pequeno quiz para    testar os conhecimentos adquiridos. É importante também salientar que à medida que exploramos os materiais compreendemos o que Mill nos queria dizer nesta passagem:


«É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.»

John Stuart MillUtilitarismo, Porto Editora, 2005, p. 78.



quarta-feira, 3 de maio de 2023

E como funcionam os imperativos em Kant?

Se para Kant a vontade de agir não decorre de mobiles externos, de onde vem, então? Só pode decorrer de algo interno, no caso, da própria razão que, uma vez autónoma, dá uma ordem a si mesma para agir. Ora, Kant chama a isto imperativo categórico, que é o imperativo da ação por dever, a ação moral propriamente dita. E contrasta com o imperativo hipotético, que é quando a vontade é mobilizada por algo externo. Por exemplo, se Pedro ajuda o pobre apenas para ficar bem visto, o que motiva a sua ação não é a razão, mas o ser bem visto. Quer dizer, ainda que a decisão seja sempre racional, não depende exclusivamente da razão. E para Kant uma ação moral depende exclusivamente da razão. Isto é assim pois a ação é um fim em si mesma e não um meio. No meu exemplo, se desaparecer a aprovação social da ação, a ação desaparece e por isso Pedro faz apenas aquilo que é conforme o dever, mas não por dever. Se Pedro agir por dever não interessa nada se recebe ou não aprovação de terceiros. Outra maneira de compreender a ação moral para Kant é perguntar o que é que está a motivar a ação. Se o que está a motivá-la é algo externo à própria ação, então a ação não é por puro respeito ao dever, mas por respeito a algo mais além do dever. E por isso se chama conforme ao dever e não por dever. Fica aqui uma imagem que contrasta os dois imperativos que são como que dois comandos da ação. 





quarta-feira, 29 de março de 2023

O blogue chega ao twitter

Criei um twitter especialmente dedicado aos alunos do secundário com questões fáceis,  mas de respostas complexas que visam estimular a criatividade e a análise crítica e filosófica. Apesar de ser pensado para    os alunos e para    os alunos em concreto do autor deste blogue, todos estão convidados a seguir e participar. 

Para seguir basta procurar por @filosofiaes100, clicar ou clicar na imagem.




terça-feira, 14 de março de 2023

Jornadas de Matemática da Escola Secundária Jaime Moniz

Em 2016 fui pela primeira vez convidado para participar nas jornadas de matemática da ESJM. Na altura a ideia foi a de apresentar como se aplica a lógica a argumentos e se traduz argumentos na linguagem natural para a linguagem lógica. As jornadas realizam-se de dois em dois anos e em 2018 o convite foi renovado e fui abordar a questão de como com algoritmos construímos realidades. Interrompidas pela pandemia as jornadas regressaram este ano. Desta vez fui falar de como um mau aluno a matemática olha mais tarde para a matemática fazendo o meu próprio percurso de vida. Pelo meio falei ainda de ChatGPT e automação, ontologia da matemática e realismo ontológico e ainda tive tempo de falar um pouco de lógica para além de ter deixado uma mão cheia de sugestões para motivação dos alunos para a matemática. Agradeço a todos os meus colegas de matemática da minha escola, bem como a nossa Presidente e em especial o professor e amigo João Viveiros, professor de matemática na escola. Esta sessão foi muito bem apresentada pelas alunas Eleonora e Francisca. Um obrigado também à sua dedicação.







quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Escola inclusiva


Escola inclusiva. Situação hipotética 1: Aluno(a) de média excelente, um 18 por exemplo, no conjunto de todas as disciplinas. “É exemplar!!”. Não, não é! Na escola inclusiva ninguém é exemplo para outrem.   Situação hipotética 2: Aluno irrequieto e com personalidade agitada e algo distraída. “É muito distraído e deve estar mais concentrado”. Depende. Se um traço de personalidade for hereditário até que ponto num ensino até ao secundário devemos limitar um aluno por características pelas quais ele não pode ser moralmente responsável? Os documentos que regulam o ensino básico e secundário apontam para competências (vide AE, Aprendizagens Essenciais). Elas vão desde competências sociais até intelectuais e físicas. E o seu peso varia consoante a disciplina. Mas o professor não tem de avaliar que competências o aluno já carrega, mas antes se consegue atingir ou não determinadas competências. Acontece que um aluno pode ser bem sucedido nas competências cognitivas porque é um “marrão”, mas essas podem não ter peso superior a 40% ou 50% da sua avaliação final. A avaliação é altamente complexa, mas no secundário ainda se anda muito desligado das competências. Basicamente são 3 anos penosos a arrancar médias para entrar nos cursos universitários. E isso parece gerar um enorme desinteresse pelo estudo com prazer, pela aprendizagem diferenciada e, pior que tudo, pela inclusão. Só se ouve por todo o lado falar de testes porque o modelo ainda tem os maiores estímulos concentrados nos testes: notas de testes para entrar na universidade. O pior de tudo é que um modelo demasiado concentrado em testes, além de ser bastante redutor, termina sempre numa enorme injustiça, a começar pelo exemplo de que o aluno X pode conseguir média 19 com o professor Y mas não passaria de um 15 com o professor Z, ainda que o aluno que aprendeu com o professor Z até possa ter desenvolvido melhor as suas competências cognitivas, por exemplo. Depois porque uma avaliação que vai de 0 a 20 e que menos de 9 é negativa implica necessariamente exclusão. Todos os alunos com classificações negativas são em certo sentido excluídos. O Ensino secundário ainda está ao serviço do mercado de entrada na universidade. E isso acarreta custos elevados para a inclusão. Creio que é necessária uma revolução para a chamada grey area no ensino secundário, na qual os testes não perdem o seu papel, mas deixam de ser a baliza entre os bons e os maus alunos. É que, em rigor, um ensino só é inclusivo se considerar uma premissa como verdadeira: Não há alunos fracos.


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Dia da filosofia. Mas a filosofia é útil?



I

Talvez a melhor prova de que a filosofia não é tão necessária assim seja o facto de até precisar de um dia que assinale a sua necessidade. Será uma necessidade imposta? Talvez. Olho sempre com alguma relutância para aniversários como o Dia da Filosofia. E não costumo apreciar por aí além as dezenas ou centenas de textos que se publicam a exaltar a importância daquilo que a esmagadora maioria das pessoas se está nas tintas. Assim como a esmagadora maioria das pessoas se está nas tintas para milhares de outras coisas que as pessoas consideram muito úteis e necessárias. Haverá talvez um cunho mais pessoal na filosofia do que na matemática ou química para que se perceba a exortação da necessidade inevitável da filosofia. Mas basta ler o livro Como se transforma ar em pão? De Nuno Maulide, o químico português de renome internacional para perceber que as pessoas estão pelo menos tão rodeadas da química como da filosofia e nem por isso se interessam assim tanto por química, nem consta que os químicos se preocupem assim tanto com isso (na verdade Maulide até se preocupa daí ter escrito o livro). São hipóteses.  

Então vamos brincar com a suposta necessidade popular da filosofia para ver se funciona como pensamos que deve funcionar. Um dia estava eu a preparar o meu portátil para uma pequena aula/palestra, creio que precisamente no dia da filosofia e aparece uma menina dos seus 15 anos, aluna, que chegou mais cedo à sala. Pediu para entrar e enquanto eu me via ali atrapalhado com fios e ligações atira-me esta questão: “professor desculpe, mas quero fazer esta pergunta antes que chegue a minha professora: para que é que serve a filosofia que eu ainda não percebi muito bem?”. A minha resposta foi simples: “serve para eu ganhar um ordenado ao fim do mês”. A miúda ficou com um ar estarrecido. Mas eu ofereci uma justificação, enquanto me via ainda a braços com as ligações e os fios: “repara, eu tirei um curso de filosofia. Aprendi alguma filosofia. E com isso faço o meu ganha-pão, compreendes?”. Perante o ar incrédulo da miúda, lá fui desenvolvendo a questão: “Ora bem, a pergunta que fizeste pressupõe antes saber o que é a utilidade e se tudo terá de ter exatamente a mesma utilidade. Por exemplo, se um garfo serve para comer, será que a utilidade da filosofia é mais ou menos a mesma que poderá ter um garfo?”

Na verdade, a utilidade pressupõe ela mesmo uma pergunta para a qual precisamos de argumentos. O que é que faz com que o objeto x se torne útil? E eu não menti à aluna, a filosofia serve mesmo para que me paguem um ordenado ao fim do mês. É certamente uma utilidade. Que me serve a mim, apenas. Mas é uma utilidade. Num sentido mais global, em regra os patuscos elogios que vejo por aí à filosofia acabam sempre num lugar-comum: ética aplicada e sentido da vida. E em regra também me parecem forçar a utilidade da filosofia. Pois senão quando os leio penso sempre se sem filosofia as conclusões não seriam exatamente as propostas nesses textos? E em regra acabo sempre a assentir que sim, que mesmo alguém que não tivesse qualquer contacto com a filosofia, chegaria às mesmas conclusões. E por uma questão de ordem quero para já evitar a ideia de que todos somos filósofos. Seremos todos filósofos no mesmo sentido em que seremos matemáticos por fazer contas quando vamos às compras num supermercado. Isto é, não é verdade que todos sejamos filósofos no mesmo sentido que não é verdade que todos sejamos matemáticos. Mas é verdade que a filosofia tem muitos pontos de contacto com vários aspetos da realidade. Nunca contei, mas se calhar tem tantos ou menos que a matemática, a física ou a química. Uma outra possibilidade é a de considerar que pelo menos alguns problemas filosóficos são de interesse comum. Por exemplo apenas especialistas se preocupam com o problema dos universais, mas todas as pessoas se preocupam com a existência de Deus. Mas ainda assim considero que o mesmo se passa com quase todos os outros saberes que tem alguma base de ligação à experiência mais intuitiva. Portanto nem aí vejo algum estatuto especial para a filosofia. 

 

II

Bem, poderia concluir então que a filosofia não merece um dia para se comemorar o seu exercício, história e estatuto ou pelo menos não o merece mais que qualquer outro saber. Sim, é mesmo isso que concluo. Mas não defendo que tal dia não deva existir. Talvez isso fosse o equivalente a considerar que também não deveriam existir prémios com a medalha Fields para a matemática, mesmo com as justas diferenças entre o prémio e o world philosophy day. O que defendo é outra coisa: é que independentemente de existir ou não um dia da filosofia, ela continuará viva enquanto alguém achar que ela é necessária e útil ou então enquanto ela mesma for objetivamente útil e haja alguém que se dê conta disso. Mas ela não é apenas útil para questionar o sentido da existência, até porque nem só apenas a filosofia o questiona. Ela é útil sobretudo pelo modo como o faz incomparável com outro saber ou disciplina, no modo como disciplina os argumentos e os esclarece, no modo como aplica a lógica no esventrar dos argumentos para desbravar novas questões e também no modo como cada vez mais se intersecta com todos os outros saberes não só na mais popular ética ou versão patusca do sentido da existência, mas nos problemas que se colocam em torno da inteligência artificial, as mais recentes descobertas nas neurociências e a relação com a epistemologia moderna, o problema metafísico dos universais e particulares, o lugar do livre-arbítrio, como se conserva a identidade pessoal e as relações com problemas mais práticos como os do aborto ou eutanásia, a criação de sociedades mais justas com problemas como os da redistribuição ou pobreza, e para a definição de conceitos tão fundamentais do modo como configuramos a nossa visão do mundo como o de utilidade. 

 

III

Por enquanto para mim a filosofia serve para duas coisas: ganhar um ordenado e não ficar completamente cego quanto às questões que se possam levantar acerca daquilo que o mundo é. 

 

Bom dia da filosofia a todos. (este ano comemora-se a 17 de Novembro)

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