sábado, 24 de abril de 2010

Reflexão provavelmente muito tosca


Uma das tendências actuais do sistema de educação é a abolição do chumbo, com a escolaridade obrigatória até ao termo do ensino secundário. Mais vale ter um mau aluno na escola a aprender alguma coisa que mandá-lo para casa, excluindo-o do sistema e onde dificilmente aprenderá mais do que estando na escola. Ora, a minha reflexão é esta: por que não aplicar este mesmo princípio aos professores? Aplicam-se todas as fórmulas do facilitismo à avaliação dos professores e inflacionam-se as classificações dos professores. Assim, podemos futuramente exibir vaidosamente as estatísticas que mostram que em poucos anos conseguimos não só ter alunos de alta qualidade como professores de alta qualidade. E já agora, na hipótese de aparecer um professor com classificação insuficiente, que é melhor fazer? Mandá-lo para casa onde ele jamais aprenderá a ser melhor professor ou aguentá-lo no sistema para que se torne um professor melhorzito?

terça-feira, 20 de abril de 2010

Novas Tags

A partir de agora vou incluir mais duas Tags: “10º” e “11º”. É uma pequena mudança, mas não fazia qualquer sentido que um blog destinado maioritariamente ao ensino secundário não tivesse estes acessos. 

domingo, 18 de abril de 2010

Philosophy Bites em livro

O Philosophy Bites é das ideias mais originais que vi nos últimos anos. Trata-se de um site de Nigel Warburton e David Edmonds, dois professores de filosofia, que entrevistam filósofos profissionais e colocam online poadcasts das entrevistas para quem quiser ouvir. É uma forma inovadora e muito interessante de divulgar e aprender filosofia. Agora parte desse trabalho mereceu edição em livro, do qual vos deixo aqui a capa. Enjoy.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Google love story. Como vender publicidade com a filosofia


Esta semana recebi um cheque de cerca de 75€ da Google, através do banco norte americano, City Bank, partindo da sua delegação europeia sediada na Irlanda. 75€ dão muito jeito e teria talvez motivos para estar feliz. Mas não estou. Pelo contrário, sinto-me verdadeiramente roubado, num roubo acarinhado pelo capitalismo. Passo a explicar o esquema. Para explicar o esquema vou provavelmente infringir algumas regras do contrato, mas estas infracções é também o preço da minha liberdade e o preço do meu trabalho e esforço. A Google, como todos sabemos, oferece cada vez mais serviços gratuitamente. Só que o gratuito é só a fachada já que o “grátis” tem aqui um preço muito caro, muito mais caro do que se tivéssemos de pagar cada serviço de forma justa. Há cerca de 2 anos e meio aderi ao ad-sense que é um serviço que a Google dispõe para colocar anúncios publicitários nos nossos espaços da internet. Cada clique num desses anúncios é publicidade que é paga à Google e eu acabo por ganhar uma percentagem muito pequena desses cliques. Onde é que eu sou escravizado? Tenho uma formação superior em filosofia e disponho gratuitamente na internet, há quase 6 anos, o meu conhecimento. O que seria da internet sem conteúdos? Ora, para que o meu conhecimento fosse bem pago, a Google teria de me pagar o que o Estado português me paga para eu trabalhar em exclusivo para eles. Mas isso ficar-lhes-ia muito caro. Então a Google disponibiliza-me gratuitamente um serviço de e-mail e uma plataforma para o blog e em troca em ofereço o meu conhecimento por uma pechincha (75€ de lucros em cerca de 2 anos e meio). No meio do meu trabalho aparece a publicidade que é paga a peso de ouro à gigante Google. Claro que não teria interesse algum fazer um blog só com anúncios publicitários. Há que oferecer algum conteúdo e meter a publicidade lá no meio para apanhar os mais incautos. E é esse o meu contrato com a Google: eu ofereço gratuitamente o meu trabalho e conhecimento e a Google oferece-me uma parte dos seus dividendos com a publicidade que aparece no meio dos meus posts. Não faço ideia de quanto a Google ganhou com o meu trabalho. Não tenho acesso a esses dados. O dinheiro que a Google me pagou não dá sequer para 2 meses de ligação à internet. Muitas das vezes ouço dizer que eu disponibilizaria na mesma de forma gratuita o meu conhecimento se não recebesse nada. E tal é verdade por uma razão: porque felizmente asseguro um ganha pão leccionando filosofia no ensino público português. E a Google aproveita-se disso. Também é verdade que promovo e divulgo a minha disciplina o que por si só me parece uma boa ideia. E também é verdade que se o meu trabalho fosse realmente acima da média, talvez a Google me contratasse a tempo inteiro pagando-me melhor que o Estado português garantindo-me uma subsistência com recurso ao meu conhecimento. Acontece que a Google não passa de uma agência publicitária e o seu interesse maior é vender publicidade e não filosofia.  
Este é o preço do capitalismo: sem publicidade eu não tinha a plataforma gratuita da Google. Mas a google não paga efectivamente o trabalho que eu tenho a escrevinhar para o blog. Se pagasse talvez existisse menos desemprego e a despesa pública com o desemprego provavelmente seria menor. Neste jogo, ganha o privado e perde o sector público. Mas para que o sector público possa ser mais justo é preciso fazer o contrário da Google e pagar os serviços directamente às pessoas sem publicidade pelo meio. O que ganharíamos com isso é que se as pessoas fossem realmente bem pagas pelo seu trabalho os monopólios como os da Google não seriam provavelmente tão gigantescos.
E também é verdade que o mercado para os publicitários e agentes de marketingue se expande nesta lógica capitalista. Mas então e os pequenos criadores? É que este sistema parece pagar bem somente a agentes financeiros e publicitários que controlam e exploram todo o trabalho dos criadores de conteúdos.
Este é também o preço do gratuito. Milhares de pessoas esmagam o comércio com a opção pelo grátis. Os gigantes podem oferecer os seus produtos que vão ter sempre patrocinadores publicitários, ao passo que os mais pequenos vão ter de oferecer também os seus produtos, mas viver de rendimentos paupérrimos. Vamos imaginar que existe um filósofo super famoso no mundo e que também tem um blog. Ao passo que eu tenho, por exemplo, ganhos de 3€ mensais, esse filósofo super famoso, terá 1000€. Para fazer o meu trabalho eu tenho de dar aulas e esse filósofo passaria a viver dos rendimentos da publicidade e dedicar-se a tempo inteiro a melhorar o seu trabalho ganhando cada vez mais. A Google financia este trabalho oferecendo produtos e uma pequena margem dos seus lucros com o nosso trabalho. Há também quem argumente que este sistema é justo, que afinal de contas eu, com muito esforço e aproveitando os recursos da Google também posso vir a tornar-me super famoso e viver dos rendimentos do meu trabalho on-line. Que é o mesmo que trabalhar para o Estado português. Ok, este argumento parece-me plausível. Mas então por que se fala em gratuito? Nada disto é gratuito. É pago e muito bem pago. É um sistema que não destrói os monopólios capitalistas, como defendem muitos partidários do free e do gratuito, mas aumenta-os ainda muito mais dando cabo cada vez mais dos mais pequenos. A Google não é assim a empresa que repõe a justiça no mundo levando o conhecimento a todos. Quem leva o conhecimento a todos são os assalariados mal pagos da Google, os novos escravos digitais, como eu, que trabalham para criar conteúdos gratuitamente para a Google vender publicidade. Onde é que está o grátis de tudo isto?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mais perguntas indiscretas


Se a filosofia é a disciplina base do desenvolvimento do pensamento argumentativo, por que razão esperar pela universidade para desenvolver esta capacidade? Pergunte-se a uma criança coisas como: Pode um robot sentir dor? Ou, é errado fazer experiências com animais? Ou ainda: se trocar o motor do meu carro ele continua a ser o mesmo carro? Certamente vão ficar surpreendidos com as respostas e rapidamente perceber que não é preciso ser muito crescido para pensar pela própria cabeça. Não estarão os nossos académicos da filosofia bastante míopes em relação a este aspecto?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Perguntas indiscretas

Se o ensino passa a ser obrigatório até ao 12º ano, não pode ser a instituição escola a que mais contribui para excluir jovens da lei geral, chumbando-os. Quer isto significar que cada vez mais a progressão dos alunos é contínua e é o adeus definitivo ao chumbo. Daqui a uns anos já não vamos ouvir mais da boca dos professores “não serve para os estudos, que vá trabalhar”. Vamos certamente ter professores mais proactivos e estas velhas frases vão ser substituídas por outras, tais como: “temos de aplicar a estratégia X para que este aluno consiga atingir os objectivos universais”.
Perante este estado de coisas, a minha pergunta indiscreta é: sendo a progressão contínua, para que raio passam os professores tanto tempo metidos em cada vez mais reuniões de avaliação? É que tal coisa deixa de fazer sentido. Ou estou a ver mal a coisa?

domingo, 4 de abril de 2010

Leitura até altas horas aproveitando uma interrupção de actividades lectivas

Já circulou pelo blog na edição inglesa, mas é bom saber que posso reler em português com a sempre cuidada e inteligente tradução de Vitor Guerreiro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Moralidades 1


Hoje mesmo, ia eu a passear numa cidade do continente português e a minha esposa parou perante uma imagem religiosa (já que vivemos a altura da Páscoa) e ficou a observar, com o meu filho de 2 anos e meio, uma figura de Cristo todo ensanguentado a carregar com uma cruz gigante com ar de sofrimento total. Eu disse à minha esposa que podia chegar a casa e deixar o meu filho ver um filme de terror, com mortes, que o efeito não seria muito diferente. Provavelmente vivemos cheios de símbolos moralmente dispensáveis e, com efeito, usámo-los para os fins que consideramos como bens morais numa comunidade. Será moralmente aceitável exibir publicamente imagens de um homem ensanguentado com expressão de sofrimento?

Moralidades 2


Um pequeno artigo na revista Visão de 1 de Abril notícia que os conteúdos da Google já foram bloqueados em 25 países, incluindo Espanha e Brasil. Na Turquia, por exemplo, é crime difamar o fundador do Estado, Kemal Atarturk, ou ridicularizar a «condição turca», seja lá o que isso for. Por isso, a Google proibiu o acesso, no You Tube, a vídeos que Ancara classificou como ilegais. Tanto na Alemanha, como na França ou Polónia é ilícito publicar material pró-nazi ou que negue o holocausto. Na Tailândia é proibido denegrir a monarquia. O recente caso de censura da Google pelo governo Chinês é exemplo de censura a determinados conteúdos que um Estado pode considerar ilegais, incluindo até conteúdos como os que criticam o Estado por considerar ilegais determinados conteúdos. Os governos de muitos países fazem cada vez mais investidas para controlar o uso da internet e a disseminação de muitos conteúdos considerados ilegais. A Google, por outro lado, pretende organizar a informação no mundo e torná-la universalmente acessível e útil. Estamos pois perante um problema de liberdade de expressão.
Vamos tentar começar a arrumar as coisas pensando um pouco nelas. Talvez um exemplo caseiro seja um bom ponto de partida. Este problema da disponibilidade de informação coloca-se também nas nossas casas. Um miúdo de 10 anos facilmente acede a conteúdos pornográficos, por exemplo. Claro que ainda dispomos de meios físicos para controlar esse acesso, colocando, por exemplo, um só PC ligado à net em casa e num lugar frequentado por todos, na sala. Acontece que o futuro da internet é quase certamente o da portabilidade total, isto é, qualquer ser humano pode transportar um pequeno gadget no qual tem acesso à internet sem restrições. Por outro lado, hoje em dia é muito fácil encontrar software de desbloqueio às restrições. Nem o Governo chinês consegue controlar esse software. Parece que é quase impossível impor restrições no acesso à informação disponível na internet. Mas este medo pode ser um velho medo. Mesmo quando vivíamos, até há poucos anos atrás, em pequenas comunidades, era característico das comunidades o medo e desconfiança pelo desconhecido. E isto acontece em comunidades que hoje vivem com acesso praticamente total à internet.
Aqui há um problema que cria conflito: por um lado parece que a proibição de conteúdos na internet é uma violação da liberdade de expressão individual, mas por outro a ideia de disponibilizar conteúdos, por exemplo, pornográficos a uma criança de 10 anos parece levantar alguns problemas.