terça-feira, 30 de março de 2010
Uma falsidade abusada
Estou solidário com a greve dos enfermeiros, mas hoje tenho acompanhado as notícias e há uma falsidade que tem sido usada abusivamente, até pela parte dos enfermeiros, a de que todos os licenciados da função pública ganham acima dos 1200€. Isso é falso. Eu trabalho há 14 anos e ganho pouco mais do que isso, mas em início de carreira, um professor licenciado ganha mais ou menos o mesmo que um enfermeiro. Não está aqui em causa se os enfermeiros ganham mais ou menos. Dá-me igual e espero que consigam os seus objectivos e que melhorem as suas perspectivas de carreira profissional, mas não se percebe por que razão uma falsidade é usada de forma sistemática sem que seja desmentida. Tal pode ser consultado AQUI. Um professor Licenciado e Profissionalizado, o que implica em regra 5 ou 6 anos de estudo (no meu foram 6), sendo que a profissionalização é quase obrigatória na maioria dos grupos disciplinares, ganha 1056€ líquidos. Como é que vem agora os sindicatos dos enfermeiros afirmar que o mínimo que ganha um licenciado em carreira especial na função pública é de 1200€? E isto tem sido tão afirmado que até coloco a hipótese de me estar a escapar algum dado especial. Stuart Mill, em Sobre a Liberdade, afirmou que uma falsidade de tanto ser afirmada, passava por verdade. Com efeito não é, ainda assim, uma verdade.
sábado, 27 de março de 2010
Filosofia em foco
Enquanto por cá vamos pensando em acabar de vez com a filosofia, noutras paragens ela é motivo de horário nobre e auditórios numerosos e aplicados.
Julian Baggini no México
Julian Baggini no México
sexta-feira, 26 de março de 2010
Definições em filosofia
Em filosofia usamos recorrentemente definições nos argumentos. Por exemplo, no problema moral do aborto, recorremos quase sempre à definição de ser humano. É por essa razão que para fazer filosofia temos de saber definir conceitos. Uma boa definição reúne condições necessárias e suficientes. AQUI encontra-se em língua portuguesa uma boa explicação do que é uma boa definição.
quarta-feira, 24 de março de 2010
O que é a arte? Semana da História na Gonçalves Zarco
Esta foi a base da minha apresentação do problema da definição da arte na Semana da História na escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, no Funchal. Claro que o mais importante era a discussão das teorias com o auditório, mas tive um tempo de apresentação mais limitado que o esperado. Ainda assim a primeira parte teve participação activa.
Agradeço ao Grupo de História a oportunidade para mais uma vez, expor publicamente uma discussão filosófica. Gostava, uma vez mais, de agradecer em especial aos colegas David Leça, António José Mascarenhas e Gorete Teixeira pelas aturadas tardes e manhãs de trabalho, intercaladas por discussões profissionais e não só com as quais tenho aprendido muito.
Agradeço ao Grupo de História a oportunidade para mais uma vez, expor publicamente uma discussão filosófica. Gostava, uma vez mais, de agradecer em especial aos colegas David Leça, António José Mascarenhas e Gorete Teixeira pelas aturadas tardes e manhãs de trabalho, intercaladas por discussões profissionais e não só com as quais tenho aprendido muito.
O Que é A Arte Semana Da HistóRia
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sexta-feira, 19 de março de 2010
A objecção ao utilitarismo do Carlos Silva
Há uns dias atrás, o Carlos Silva deixou na caixa de comentários um problema interessante. Voltei a ele agora.
Este é o argumento do Carlos:
| Aproveito para levantar uma questão relacionada com o tema da "Necessidade da fundamentação da moral", nomeadamente o fundamento utilitarista dos actos. Em termos gerais, o utilitarismo faz residir nas consequências dos actos o seu valor e fundamento, defendendo que é boa a acção que maximize a felicidade. Ora, o manual do 10.º ano, "A Arte de Pensar" de Desidério Murcho, Aires de Almeida e outros faz alusão, na página 166, à seguinte situação imaginária: "A Sara é uma cirurgiã especializada na realização de transplantes. No hospital em que trabalha enfrenta uma terrível escassez de órgãos - cinco dos seus pacientes estão prestes a morrer devido a essa escassez. Onde poderá ela encontrar os órgãos necessários para salvá-los? O Jorge está no hospital a recuperar de uma operação. A Sara sabe que o Jorge é uma pessoa solitária - ninguém vai sentir a sua falta. Tem então a ideia de matar o Jorge e usar os seus órgãos para realizar os transplantes, sem os quais os seus pacientes morrerão." Mais adiante, o referido manual sustenta que um utilitarista "tem de pensar que nada há de errado em matar o Jorge" e que " a opção de matá-lo permitirá salvar cinco pessoas que de outro modo morrerão" para concluir que "se o utilitarismo fosse verdadeiro seria permissível (e até obrigatório) a Sara matar o Jorge (...) mas fazer tal coisa não é permissível. Logo, o utilitarismo é falso." Pergunto: será que o utilitarismo defende mesmo tal posição (que a Sara deve matar o Jorge para salvar 5 pacientes)? Se o fundamento dos actos para um utilitarista reside nas suas consequências (maior felicidade global), podemos encontrar uma falha no argumento da Sara (ver CAVE, Peter, Duas Vidas Valem Mais que Uma?, páginas 26 e 27): os indivíduos saudáveis sentir-se-iam extremamente inseguros se existisse um procedimento de os raptar e matar para lhes tirar os órgãos. Dado que os que beneficiam do tratamento também podem tornar-se vítimas e, devido a esta insegurança, a felicidade total pode muito bem diminuir numa sociedade que abarque tais cirurgiões, desde que as pessoas saibam desse procedimento. Assim, conclui-se que matar o Jorge pode não maximizar a felicidade, antes pelo contrário, logo, um utilitarista opor-se-ia à morte do referido Jorge. Este contra-argumento estará certo?!” |
Na altura ensaiei algumas respostas ao contra argumento do Carlos, mas quando hoje voltei a pensar nele, penso se o contra argumento do Carlos não mostra realmente algumas insuficiências do utilitarismo. A verdade é que a objecção do Carlos parece mostrar que o utilitarismo legitima acções imorais, como a de tirar a vida a um inocente para salvar outros. Mas podemos sempre colocar a concorrer a tese do utilitarismo negativo. Segundo este o que está em causa não é somente a maior felicidade para a maioria das pessoas, mas minimizar o sofrimento das pessoas. O utilitarista negativo continua a defender uma ética das consequências, mas já com algumas reservas em relação ao princípio geral, que parece não funcionar em casos como os que o Carlos falou.
Finalmente deixo a sugestão da leitura do texto “uma crítica ao utilitarismo” de Bernard Williams, incluído na antologia de textos, Textos e problemas da filosofia, Plátano, 2006 (Org. Aires Almeida e Desidério Murcho)
Gostaria que se algum leitor tiver alguma coisa a acrescentar à discussão, o fizesse.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Bullshit
Este pequeno livro merecia amplo debate académico e não só. Uma das preocupações centrais dos nossos dias, tanto no uso quotidiano como na investigação académica ou no discurso político, consiste em saber separar a seriedade da treta. Talvez o livrito de Frankfurt nos faça parar para pensar outra vez e constatar que 90% do que dizemos e da informação que consumimos não passa da treta. O título “treta” parece coisa para brincar, mas este livro toca num dos aspectos fundamentais da cultura contemporânea.
Semana da História da EBSGZ
Na próxima quarta feira, dia 24, vou estar pelas 11:40h, na sala de sessões da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco a dar uma aula pública sobre o problema filosófico da definição da arte. Esta sessão é integrada na Semana da História da escola, este ano com o tema: “Arte e Cultura”. A sessão de abertura conta com a presença do Secretário Regional de Educação e do Presidente da Câmara Municipal do Funchal. Após a sessão publicarei aqui o powerpoint da minha live session.
E se as nossas crenças estiverem erradas?
I would never die for my beliefs because i might be wrong.
Bertrand Russell
quarta-feira, 17 de março de 2010
Uma introdução à metafísica
Este livrinho é pura e simplesmente a melhor introdução à metafísica que li, acessível, divertida e rigorosa. Agora temo-lo em língua portuguesa. Brevemente à venda.
Informação da editora:
Título: Enigmas da Existência
Autor(es):Conee, Earl
Sider, Theodore
Pág.: 272
Número: 6
ISBN: 978-972-53-0450
Ano: 2010
Preço de Capa: €14
Preço Online: €12.6
Autor(es):Conee, Earl
Sider, Theodore
Pág.: 272
Número: 6
ISBN: 978-972-53-0450
Ano: 2010
Preço de Capa: €14
Preço Online: €12.6
«Uma introdução à metafísica acessível, competente e apaixonante, escrita por dois filósofos de primeira linha.»
The Times
O que é o tempo? Serei realmente livre ao agir? O que faz de mim a mesma pessoa que era em criança? Porque há algo em vez de nada? Será que sou realmente livre, ou tudo está determinado desde antes do meu nascimento? Se alguma vez deu consigo a fazer algumas destas perguntas, este livro é para si. Tratando ainda da existência de Deus e da constituição última da realidade, eis um guia para quem gosta de raciocinar cuidadosamente sobre estes e outros temas — incluindo o problema de saber o que é afinal a própria metafísica.Enigmas da Existência torna a metafísica genuinamente acessível e até divertida. O seu estilo vívido e informal dá fulgor aos enigmas e mostra como pode ser estimulante pensar sobre eles. Não se exige qualquer formação filosófica prévia para desfrutar deste livro: qualquer pessoa que queira pensar sobre as questões mais profundas da vida considerará esta obra, um livro provocador e aprazível.
The Times
O que é o tempo? Serei realmente livre ao agir? O que faz de mim a mesma pessoa que era em criança? Porque há algo em vez de nada? Será que sou realmente livre, ou tudo está determinado desde antes do meu nascimento? Se alguma vez deu consigo a fazer algumas destas perguntas, este livro é para si. Tratando ainda da existência de Deus e da constituição última da realidade, eis um guia para quem gosta de raciocinar cuidadosamente sobre estes e outros temas — incluindo o problema de saber o que é afinal a própria metafísica.Enigmas da Existência torna a metafísica genuinamente acessível e até divertida. O seu estilo vívido e informal dá fulgor aos enigmas e mostra como pode ser estimulante pensar sobre eles. Não se exige qualquer formação filosófica prévia para desfrutar deste livro: qualquer pessoa que queira pensar sobre as questões mais profundas da vida considerará esta obra, um livro provocador e aprazível.
Coisas muito muito estranhas
Sou um daqueles professores (como há muitos) que gostam de ensinar. Cada obstáculo para mim resulta numa experiência de aprendizagem. Não tenho medo em publicar que o que me agrada mais ensinar é a filosofia. Nela sinto-me como um peixe na água. E gosto mais de a ensinar que outras disciplinas porque penso que o seu interesse para os estudantes é de longe maior que o de disciplinas como sociologia, psicologia, área de integração ou cidadania. Já conheci colegas professores muito bons, outros mais ou menos e um ou outro a fazer um mau trabalho. Converso com as pessoas e noto que esta circunstância é igual tanto no ensino como fora dele, nas empresas, privadas ou públicas. Sobretudo conheço professores que são bons numas coisas e não tão bons em outras. Whatever? Infelizmente nos últimos anos tem passado a ideia para a opinião pública que os professores são piores que os outros profissionais. No coment!
É verdade que já conheci professores a sofrer de stress. Têm filhos, complicações na vida, familiares doentes e 5 ou 6 turmas de crianças que não são propriamente uns doces. Sem tecer juízos sobre o assunto, a verdade é que, daquilo que dizem ser o stress na profissão eu não tenho padecido. Vou sempre bem disposto para a escola, mesmo nas fases menos boas da minha vida. Nas escolas, dou-me bem com funcionários, colegas, direcções executivas, alunos, pais, etc. Em 14 anos de ensino - felizmente e com alguma sorte à mistura - nunca mandei um aluno para a rua (para fora da sala de aula), nem nunca corri atrás dos directores de turma para me resolverem conflitos pontuais. Nunca tive um recurso de nota, contam-se pelos dedos de uma mão as faltas que tenho por doença, quando o meu filho nasceu só tirei 5 dias úteis dos quase 20 dias que tinha direito (acho que era isto, não?), tenho em minha casa um autêntico escritório montado com impressora, papel, canetas, computadores, internet, etc. que uso a 90% de proveito escolar, enfim, entre mais outras coisitas. Com esta lista não quero dizer que sou o melhor professor do mundo. Gosto de errar que é para poder aprender. Estou na fila da frente quando se trata de assumir as imperfeições da formação. Esta lista mostra outra coisa: mostra que gosto das escolas, gosto de lá andar, gosto de ensinar e gosto das salas de aula. Ora, toda a minha vida ouvi a versão que gostar daquilo que se faz é o segredo do sucesso. Se esta tese for verdade, então eu tenho um bom desempenho como professor.
Apesar de tudo isto que acima relatei há um ponto estranho, mesmo muito estranho na minha relação com a profissão. É que nunca me identifiquei minimamente com o Ministério da Educação nem com as suas políticas educativas. E o mais bizarro é que os professores mais empenhados que tenho encontrado nas escolas também não se identificam com o Ministério. Todos os dias vejo colegas que se queixam dos pais, dos alunos, da sociedade. Convenço-me que o fazem com fortes razões. No meu caso especial – de certeza de acordo com o que pensam milhares de professores – tenho identificado como principal obstáculo ao desenvolvimento do meu trabalho, o Ministério da Educação. Penso se não devia ser ao contrário, se não podia identificar-me mais com o ME e o próprio ME é que me ajudava e incentivava a melhorar o desempenho das escolas, dos alunos, da relação com os pais, etc? Este ano lecciono difíceis turmas de CEF. Já passei por muitas experiências de ensino. Ainda assim nunca me senti pressionado pelos alunos, pelos pais ou pelas escolas, muito menos pelos colegas. Não são esses os agentes que constituem obstáculo ao desenvolvimento do meu trabalho, mas sim o ME. São as leis, as reformas, as burocracias, o mal tratar da classe, os cortes sucessivos do vencimento (sim, eu não como ar, ainda tenho de fazer compras para comer e viver), a lei que surge em Dezembro para entrar em vigor ontem, a que sai em Janeiro a dizer que a de Dezembro não está em vigor, para entrar outra vez em vigor em Março a dizer que afinal a de Dezembro é que estava bem. Ninguém se entende mais nas escolas. E o bizarro é que a culpa não é dos alunos cada vez mais difíceis (talvez porque percebam a balda), não é dos pais (cada vez mais a aproveitar a fragilidade do sistema), nem dos colegas (cada vez mais fartos, pois), mas sim do Ministério da Educação.
É por isso que já há muito tempo que concluí que não preciso do Ministério da Educação para nada para ser bom professor e se o privado me der mais liberdade de trabalho, então que venha o privado que eu estou-me nas tintas para a educação pública. É simples: se o poder político é incapaz de governar, então que entregue essa tarefa às pessoas e que as deixem em paz. Eu gosto muito de ensinar, mas estou verdadeiramente cansado do principal obstáculo a que eu seja ainda melhor profissional, o ME. E se alguém se queixar do meu trabalho, já não terei papas na língua em responder: “mande o ME abaixo à martelada que aquilo não serve para nada”
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