sábado, 8 de setembro de 2018

Bom ano letivo com mais mudanças

(foto da minha autoria)

Antes tudo o desejo de um bom ano letivo 2018-19 que agora se inicia. Este ano é – mais uma vez – de mudanças. Só que desta vez, como aqui já escrevi, as mudanças afetam a filosofia. Como também já matutei aqui algumas mudanças são bem vindas. Outras, cheiram a mais do mesmo e sobram, como quase sempre, problemas evitáveis para resolver. Se houve alguma urgência em alterar conteúdos programáticos – com alterações justas entre os conteúdos do 10º e 11º ano arrumando melhor a casa – já a operacionalização desses conteúdos fica a nadar num mar de dúvidas. Desde as articulações propostas entre conteúdos da filosofia e matemática A,  esquecendo que muitos alunos nem sequer têm a disciplina de matemática A, até formações pagas e com uma eficácia apenas regional, manuais que ficam parcialmente desatualizados a meio do percurso (provando talvez que os manuais são cada vez mais dispensáveis, menos para o seu próprio comércio) e sugestões para operacionalização dos conteúdos que conseguem tocar o extremo do vago para não dizer, do impraticável. A cereja no topo do bolo com um Ministério que consegue homologar tudo isto apenas a dias de início de ano letivo, com uma discussão praticamente inexistente.
Mas os problemas para resolver não se ficam por aqui. Outras questões de reorganização deixam muitas mais dúvidas no ar, a começar pelos tempos letivos da disciplina que ora são de aulas com 50 minutos, ora de 90 minutos, como se esta divisão de tempos em diferentes escolas fosse algo claro quando se tem por objetivo um exame com o mesmo tempo e conteúdos para todos. 
E também (como se não chegasse já) as questões profissionais dos professores. Parece que professores e governos insistem na ideia do que está em causa é o interesse central dos alunos. Da minha parte (e, já agora, da parte de todos) não teria interesse algum pelos alunos se além de os ensinar essa minha atividade não fosse remunerada, que é a principal compensação motivadora de qualquer profissão. E não há, creio, profissionais motivados num ambiente de permanente desconfiança, de perda de qualidade do trabalho que se faz, com escolas onde escasseiam as tecnologias que tanto se apregoam como um dos principais fatores do nervo de uma aula, formações adequadas que cheguem a todos com boas condições para serem realizadas e participadas, com pequenos grupos de interesse instalados que se aproveitam sistematicamente do contexto, com um eterno problema de estabilidade na colocação de professores, distribuição de serviço, com uma gritante falta de equidade dentro das escolas e ainda com um controlo mediático que lança a cada dia que passa a suspeita sobre os professores como se estes fossem a causa dos maus resultados quando acontecem e nunca a dos bons.   
Por fim, se os professores são competentes para organizar localmente as estratégias, não se percebe a insistência em impor nacionalmente os conteúdos. Isto soa a qualquer coisa como: podem abrir os restaurantes que quiserem, mas todos vão ter de servir bacalhau à Gomes de Sá porque eu sou o principal vendedor de bacalhau no país. Não se percebe de todo se os professores são produtores de conhecimento ou apenas consumidores de conhecimento. Se a definição é a de professores consumidores, então venha de lá o bacalhau e a receita. Se são produtores, então, por favor, venha de lá o incentivo a cada um formular a sua receita sem qualquer prejuízo de uma receita mais universal, mesmo acarretando todos os riscos que qualquer que seja a conceção acaba por implicar. Mas parece existir de muitos ventos resistências para que os professores sejam os arquitetos do ensino. Embora se lhes reconheça esse lado apenas para acartar tijolos. E assim mais uma vez será de todo fácil daqui a mais uns 2 ou 3 anos os acusar de não saberem exercer a sua função de arquitetos. Afinal, pouco mais podem fazer do acartar tijolos, tal é o asfixiamento das suas reais funções. 
Esta é a nossa realidade e essa realidade traduz o exercício de ensino que 2018-19 nos aguarda. Sempre, claro, a pensar no melhor para os nossos alunos. 
O meu primeiro gesto – o único que até agora consegui ter – para esta aventura anual – foi carregar o meu pão de forma de material de escrita. 
Feliz ano letivo a todos. 

Deixo aqui também uma pequena reflexão que publiquei em privado numa das redes sociais:

Do que podemos saber nos nossos dias, a educação é a melhor aposta para a garantia de uma sociedade de pessoas livres e mais ricas. Sabemos que os menos qualificados são sempre os primeiros a serem afetados pelas crises e pela pobreza. E por isso faz sentido encarar a educação básica como cada vez mais completa. É desse modo que - e bem - nos últimos anos vimos num país como em Portugal a escolaridade passar a ser obrigatória até aos 18 anos. Mas para que tal seja possível é preciso dotar as escolas de melhores condições e dar mais e melhores condições a todos os intervenientes no sistema educativo. Segue-se daí que neste contexto é politicamente incompreensível a forma como governos uns atrás dos outros têm tratado os professores, sobrecarregando-os cada vez mais de maiores pressões profissionais ao mesmo tempo que se degrada as suas condições profissionais. A desculpa é a de sempre, a de que o interesse primordial é a da educação das crianças. Acontece que exatamente por isso também não se consegue perceber o desleixo político em relação à profissão de professor. E é lamentável toda a manipulação mediática em torno desta questão. Na verdade se eu não estivesse do lado de dentro, provavelmente também me soaria que os professores estão a ser demasiado exigentes com o país. Acontece que a realidade é completamente oposta àquela que tem sido veiculada nos media. E nestas questões algum bom senso racional é sempre bem-vindo para não incorrer em opiniões mal formadas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Filosofia e flexibilidade curricular, o processo

(Ribeira, Porto)

Regresso um pouco mais cedo que o prometido. Em altura de férias há mais tempo disponível para algumas pesquisas e reorganização do blogue. Para tal criei uma nova página neste blogue dedicada à flexibilidade curricular e às novas orientações para 2018-19. É dado adquirido que a flexibilidade curricular é para entrar já este ano letivo pelos currículos adentro. Mas os documentos produzidos até agora e que implicam alterações nos programas ainda são provisórios. E tenho dúvidas que este trabalho esteja já preparado na maioria senão mesmo em todas as escolas do país. Também, mais uma vez, não se sabe (pelo menos de modo oficial) os autores de tais alterações. Já se sabe que estas alterações muitas das vezes refletem visões e interesses particulares e já andamos há tempo suficiente nisto para perceber como alterações a currículos podem beneficiar interesses privados e particulares. 
No caso da filosofia as alterações não são radicais (o que produziria grande berraria, por certo, se o fossem). São alterações de “surdina”. A que produz maiores modificações é a introdução da lógica proposicional como obrigatória logo no 10º ano. Há naturalmente razões que ficam por esclarecer, até porque nada se pode esclarecer com autores anónimos e ministérios autistas que apenas colocam documentos sob auscultação geral para inglês ver e afirmar uma pseudodemocracia. Uma das principais razões é a dos manuais. Então e agora os manuais adotados ficam desautorizados para lecionação? Nada grave, pois apenas a lógica tem de merecer atenção. Mas noutros tempos, pequenos erros, imprecisões, etc de manuais também não deveriam ser graves, certo? Ao mesmo tempo as associações de filosofia promovem algumas formações pagas sobre o assunto e disponibilizam de forma algo confusa documentos que mais não são do que as sínteses e resumos dessas formações. Algumas das formações acenam com a bandeira da flexibilidade e das alterações curriculares, mas depois o conteúdo, ainda que de qualidade, nada tem que ver, pelo menos em parte, com as alterações ou a própria flexibilidade.  Mas pelo menos pela primeira vez nos últimos anos temos as duas principais associações ligadas ao ensino da filosofia unidas para um mesmo fim. Só temos todos a ganhar. Os que outrora se criticaram agora estão a trabalhar conjuntamente. A vida é assim e neste caso para bem de todos. Isto apesar que devo recordar que as “zangas” de outrora foram provocadas exatamente por diferendos em alterações a currículos, alterações essas que de um lado e de outro, tanto arrastavam razões pedagógicas como interesses particulares. 
Do meu ponto de vista, pedagogicamente estas alterações são bem vindas, mas vão acabar por ter mais implicações no trabalho de meia dúzia de pessoas do que no ensino da filosofia de um modo geral. Dá igual que se ensine a lógica ou uma suposta diferença entre juízo de facto e de valor se a forma de ensinar e a prática pedagógica for exatamente a mesma. Não estou a defender que sendo assim nada se deva alterar. Estou apenas a supor que as alterações curriculares acabam por beneficiar mais um pequeno grupo de pessoas e os seus interesses (mais ou menos honestos, como tudo) do que o ensino da filosofia. E a sobra de estranheza é que mesmo vindo de quem muitas vezes é critico em relação a trabalho feito em cima do joelho, a forma como a flexibilidade é “imposta” ´é em cima do joelho. Posso supor que não haveria outra forma de “melhorar” um pouco as coisas. E o problema é exatamente esse: é que apenas posso supor. Não posso saber nada, a não ser que de um dia para o outro as coisas vão mudar na minha sala de aula. Felizmente estou preparado. Aliás, mesmo sem qualquer projeto rápido de flexibilidade e alteração a currículo, já estava preparado. 
O que é que se ganha com estas minhas considerações? Em boa verdade apenas registo a indignação de mais uma vez verificar que tudo se faz igual, com os mesmos processos, as mesmas tiranias e golpes de outrora. Tudo na boa fé da preocupação pedagógica de sempre. Mas isso é o que todos defendem. Portanto, na filosofia, tudo continua igual por igual com igual. Apenas se mudam os postos de controlo. Mas ninguém tem de engolir a seco, pois afinal o lugar crítico da razão parece escassear em qualquer lugar, mesmo onde ele mais se apregoa. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Até Setembro com BD

As férias começam aqui no FES. Regressamos em Setembro certamente com muito trabalho em cima do joelho para que o ano vá avançando com poucos atropelos a bem da filosofia, do seu ensino e sobretudo do gosto em aprender.Mas as férias são também um tempo ideal para algumas leituras. Deixo a recomendação desta BD publicada há semanas na Gradiva, Hereges. E deixo também uma foto de sol e mar que são os motivos das férias do verão para quem ensina e quem estuda.




quarta-feira, 18 de julho de 2018

Materiais úteis à operacionalização da flexibilidade curricular e Aprendizagens Essenciais em Filosofia

Aqui estão disponíveis os materiais que são o resultado do recente encontro de professores de filosofia em Aveiro. São materiais a ter em atenção. De um modo pessoal chamo a atenção para a apresentação do professor João Pires. Mesmo sem ter assistido presencialmente às apresentações, a do professor João é de uma sensatez pedagógica invulgar, o que me parece muito bem. Para a leccionação da Lógica proposicional o documento produzido por Aires Almeida é muito bom, tal como recentemente recomendei a colegas na minha ação de formação que dei sobre o ensino da lógica proposicional na Escola Secundária Francisco Franco.
Todos os materiais podem ser vistos AQUI



segunda-feira, 16 de julho de 2018

Aprendizagens Essenciais em Filosofia

Como se lê na página oficial:

As Aprendizagens Essenciais (AE) são documentos de orientação curricular base na planificação, realização e avaliação do ensino e da aprendizagem, e visam promover o desenvolvimento das áreas de competências inscritas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória.
Neste sentido, foram concebidos documentos orientadores para todos os níveis de educação e ensino: educação pré-escolar e ensino básico e secundário.
A componente do referencial curricular designada por Aprendizagens Essenciais expressa a tríade de elementos — conhecimentos, capacidades e atitudes — ao longo da progressão curricular, explicitando:
(a) o que os alunos devem saber (os conteúdos de conhecimento disciplinar estruturado, indispensáveis, articulados concetualmente, relevantes e significativos);
(b) os processos cognitivos que devem ativar para adquirir esse conhecimento (operações/ações necessárias para aprender);
(c) o saber fazer a ele associado (mostrar que aprendeu), numa dada disciplina — na sua especificidade e na articulação horizontal entre os conhecimentos de várias disciplinas —, num dado ano de escolaridade.”

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Formação em lógica proposicional - Madeira

Nos próximos dias 2,3 e 4 de Julho, irei dar uma formação a professores de filosofia sobre lógica proposicional nos programas de filosofia. Inscrições e informação AQUI.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Desigualdades

Hoje mesmo a imprensa em Portugal noticiava que os gestores de empresas ganham muito mais que os trabalhadores base. Harry Frankfurt apresenta neste livrinho, publicado na Gradiva, um excelente argumento para justificar a desigualdade que não necessariamente esta desigualdade que as notícias revelam. 

Pequena bibliografia em português para estudar o problema moral da eutanásia



Peter Singer, Ética Prática
Peter Singer, Ética no Mundo Real
David Oderberg, Ética Aplicada, Uma abordagem não consequencialista
Pedro Galvão, Ética com razões
V/A, Eutanásia









Como compreender o exame de filosofia comparando com a realidade da matemática e da física?

Algumas comparações injustas surgem por vezes em relação ao exame de filosofia. Vou tentar aqui explicar o ponto da situação.. As escolas vão disponibilizando dados estatísticos para que alguns aspetos da realidade se compreendam e melhorem. Ao mesmo tempo o ministério da educação também fornece dados a este respeito. Mas não tenho aqui disponibilidade de tempo para apresentar resultados analisando todos estes dados. Como profissional da área o meu interesse aqui é disponibilizar alguns apontamentos que devem ser tomados em consideração por quem que deseje falar do exame, principalmente quando o compara com outros exames. 

1º Apesar de se manter estável há já uns anos, ainda assim o exame de filosofia é o mais instável de todos, pois é o primeiro a desaparecer quando um governo aprecia pouco os exames e regressa quando um outro governo os aprecia. Comparativamente nenhum governo teria coragem para fazer desaparecer um exame de matemática, mas vários fizeram desaparecer o exame de filosofia. Isto afeta – e de que maneira – a forma como se concebe toda uma estrutura de ensino.

2º Os alunos que fazem o exame de filosofia são em menor número do que os que fazem os exames de física ou de matemática, ainda que esse número venha a aumentar de ano para ano. A razão deste aumento é a consolidação do exame ao longo dos últimos anos. Basta que o exame desapareça durante um ou dois anos para este trabalho demorar outra vez a surtir efeitos no número de inscritos a exame.

3º Os melhores alunos seguem cursos de ciências na procura de futuros profissionais com maior estabilidade. E esses alunos recorrem mais aos exames de física, biologia ou matemática do que de filosofia, ainda que o exame de matemática seja obrigatório para os alunos desses cursos. 

4º Existe um imenso mercado de explicações particulares para matemática e física principalmente. Mas esse mercado é muito tímido para filosofia. Existe ainda pouca experiência de explicadores para filosofia uma vez que dar aulas particulares de filosofia não permite ainda rendimentos como aulas particulares de física ou matemática e daí a falta de interesse nos profissionais de filosofia por esse mercado. Por outro lado ao mesmo tempo que os exames de física e matemática nunca desapareceram, o mesmo não se tem passado com o de filosofia, como expliquei mais acima. 

5º A disciplina de filosofia não tem gozado do prestígio social das disciplinas de matemática ou física. Recordo que ministros anteriores até deram a possibilidade de muitas escolas reajustarem os seus horários, acabando algumas por retirar tempos letivos a disciplinas como filosofia para aumentar tempos a matemática e física. Ou seja, perante o mesmo exame, há no país alunos que se podem propor com uma carga letiva ao longo do ano bem menor que outros, o que até os coloca numa situação de injusta desigualdade. 

6º Muitos alunos começam a preparar o exame de matemática ou física logo no início do ano. Basta conhecer a realidade do mercado de explicações para perceber que as salas estão cheias antes mesmo do ano começar. Mas essa não é ainda a realidade para o exame de filosofia. 

7º Ainda que este aspeto seja transversal a todas as disciplinas de ensino, a média interna não tem de modo algum de corresponder de todo à média de exame. Se por exemplo se usar a medida de 70% internamente para testes e os outros 30% para medir atitudes, trabalhos de grupo, participação oral, etc... isso significa que um aluno com média de testes de 8, por exemplo, pode perfeitamente obter 10 no final do ano. E um aluno de 8 muito provavelmente vai a exame tirar uma nota de 5 ou 7. Além disso, dado que a maioria dos alunos que fazem exame de filosofia não recorrem a explicadores particulares como a maioria dos que fazem de matemática ou física, segue-se que a média dos alunos que fazem exame de filosofia, neste aspeto, seria muito mais próxima da realidade do que a dos alunos que fazem exame de matemática ou física, já que a sua média depende grandemente do mercado de explicações que tem uma dimensão bastante ampla.

Espero que estas notas ajudem a compreender melhor a realidade para desse modo poder comparar o incomparável.  

Novidades também em Banda Desenhada

Duas novidades de assinalar, ambas pela Gradiva. A primeira é uma colectânea de pequeníssimos textos introdutórios que dão uma ideia do que e do como se trata na filosofia ao longo da sua história. A segunda ainda não lhe tomei contacto direto, mas adivinho o seu interesse, pelo menos aqui para o escriba que sempre apreciou os livros em quadradinhos.