Peter Singer é o filósofo da atualidade que suscita maiores
hostilidades em relação às suas ideias, ou pelo menos à caricatura que habitualmente
delas se faz. Isto acontece não pela radicalidade dos seus argumentos (há
filósofos mais radicais, mas que raramente são mencionados nas frentes mais
hostis), mas antes pela sua popularidade. A que se deve a popularidade de
Singer? À forma pouco comum como expõe os argumentos que os torna acessíveis mesmo
aos leitores filosoficamente menos informados. Juntando isso aos temas e
problemas que aborda (moralidade do aborto, eutanásia, etc…) temos os
ingredientes necessários para conservadores hostis destilarem os mais variados
insultos. O irónico é que Singer aceita o aborto ou a eutanásia com muitas
restrições, o que até faz dele, em certo sentido, algo conservador. Mais conservador
talvez é ainda em relação à defesa dos direitos morais dos animais não humanos,
uma das mais radicais teses de Singer. Curiosamente os hostis costumam estar-se
nas tintas para os animais e não pegam neste ponto com Singer. Do meu ponto de
vista a popularidade de Singer passa por uma certa injustiça, provavelmente
própria de toda e qualquer popularidade, a de ser superficial. Por essa razão
os ataques dos hostis são todos sem exceção vagos e absurdos, para além de
revelarem manifesta ignorância em relação aos argumentos do filósofo
australiano, professor nos EUA. A melhor forma de conhecer os ataques a Singer
que estão para além dos insultos gratuitos é conhecer a obra de filósofos como David
S. Oderberg, tendo duas obras publicadas em português. Uma delas, Ética
Aplicada, Uma abordagem não utilitarista (Principia, 2009, Trad. M
José Figueiredo), é um ataque ao utilitarismo de Singer. Espero que esta
nova tradução em português, do qual se apresenta aqui a capa, motive mais a
discussão racional que o orgulho irracional. De resto como se espera de toda a
atividade filosófica. A edição é das Ed.70.
quinta-feira, 27 de abril de 2017
sexta-feira, 7 de abril de 2017
Citações polémicas
Muitas das afirmações dos filósofos são polémicas. Todas elas
são, por natureza do saber e conhecimento, arriscadas. E por isso, em regra,
pouco consensuais com a nossa visão comum do mundo e das coisas. Mas será que
entre essas citações não haverão outras ainda mais arriscadas, verdadeiramente
polémicas contrariando-se até a si mesmas? É isso que este livro recém-chegado
ao mercado português promete oferecer, uma boa coleção de citações verdadeiramente
polémicas. Do autor Victor Correia, com edição da Verso da Kapa. Mais informações
AQUI.
À venda nas livrarias a partir do dia 13 deste mês.
terça-feira, 14 de março de 2017
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
O conhecimento como relação entre um sujeito e um objeto
A percepção é o modo como tomamos consciência dos objectos, em especial daquilo que nos é dado pelos sentidos. A pergunta que muitos filósofos colocam acerca da percepção é a seguinte: será que o facto de percepcionarmos objectos é suficiente para justificar a existência desses objectos fora da nossa consciência? A distinção entre aparência e realidade parece indicar que há diferença entre aquilo que as coisas são e a maneira como tomamos consciência delas, isto é, a maneira como as percepcionamos. O modo como funciona a percepção dá lugar a grandes disputas filosóficas e é um tema central nas discussões acerca da natureza do conhecimento. Há três grandes teorias da percepção, com diferentes implicações em termos epistemológicos: o realismo directo, o realismo representativo e o idealismo. Ver também realismo crítico e realismo ingénuo. (Aires Almeida)"
in. DEFnarede
in. DEFnarede
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Reler Hilary Putnam
Hilary Putnam deve ser dos filósofos, senão mesmo o filósofo
de expressão em língua inglesa da segunda metade do século xx, mais
amplamente traduzido para português. Possivelmente por ser um caso isolado em
matéria de tradução, e não fazendo escola a tradução de livros dos seus pares,
muitas das vezes os conceitos são mal traduzidos, o que acaba por confundir não
só a compreensão como também o estilo do próprio autor. Seja como for, num país
com uma escala filosófica bastante reduzida (pelo menos antes da internet, já
que uma boa parte destas traduções é anterior ao acesso generalizado á rede e
ao consumo online) é salutar ter acesso na nossa língua a uma variedade
considerável de livros de Putnam. Eles aparecem por via da publicação de diferentes
editoras.
A produção de Putnam foi enormíssima com contributos para
diferentes áreas da filosofia. É difícil delimitar uma área de maior
intervenção, muito embora o maior conjunto dos seus trabalhos sejam nas áreas
da filosofia da mente, ação, epistemologia e metafísica. Sempre foi um filósofo que produziu muito e mudou muitas vezes de argumentos e interesse. Deixo aqui a
referência a algumas das traduções que ainda se encontram à venda nas
livrarias. E com algum esforço ainda se encontram as traduções da D. Quixote, já dos anos 90 do século xx.
domingo, 8 de janeiro de 2017
Bibliografia breve da identidade
Este mês ficou marcado na filosofia com o desaparecimento de
Derek Parfit, o filósofo inglês. No meu tempo de Universidade nunca ouvi falar
em tal nome. Conheci-o muito mais tarde e ainda só o conheço quase por
referências indiretas. A vida de um professor de secundário dificilmente se
compatibiliza com o estudo aturado de um só autor ou problema. Além disso há
poucas traduções de Parfit em português. Assim, só se fica a saber que que se
trata de um influente filósofo, mas sem perceber muito bem por quê. Bem, para o
mero curioso não profissional da filosofia, talvez isso seja suficiente. Eu também
não percebo a relevância de todas as teorias científicas que vou aprendendo,
mas começo por aceitar alguma autoridade dos autores de bons livros de
divulgação. Para colmatar essa lacuna e investir um pouco mais, vou aqui
resumir uma pequena bibliografia para que se compreenda um pouco melhor um
problema do qual Parfit se ocupou e avançou novos argumentos. Estou a falar do
problema da identidade pessoal. Melhor que as minhas palavras é ler alguma
coisa e ficar mais informado. Assim, e do que está disponível em português:
James Rachels, Problemas
da Filosofia, Gradiva, Trad. Pedro Galvão. Todo o capítulo 5 é dedicado ao
problema e segue de perto o seminal Reasons
and persons de Derek Parfit. Melhor e mais clara introdução que esta, em
língua portuguesa, não conheço.
Earl Conee e Theodore Sider, Enigmas da Existência, Uma visita guiada à metafísica, Bizâncio,
Trad. Vítor Guerreiro. O capítulo 1 é uma boa introdução ao problema. A par com
a de James Rachels forma o melhor duo em língua portuguesa para começar a
matutar no problema.
Pedro Galvão fez-nos o favor de traduzir o primeiro artigo
de Parfit sobre o problema da identidade pessoal, que podemos encontrar aqui: TRADUÇÃO
Existe um excerto muito interessante para ler na Crítica
traduzido por Galvão, de Reasons and
Persons, AQUI.
E temos aqui este vídeo que está muito divertido e claro. Basta acionar as legendas. Não são muito boas, mas entende-se mais ou menos sem atropelos:
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Editora Piaget com Grandes Noções da Filosofia
Se há dado que temos consumado é
a divisão da filosofia a partir dos finais do século xix naquela que ficou
entretanto conhecida por filosofia analítica por oposição à chamada filosofia
continental. Não interessa aqui entrar de novo nesse debate já muito
escrutinado. Se aplicássemos aqui vagamente as ideias de Kuhn relativamente à
história da ciência, diríamos que provavelmente a filosofia atravessa a fase da
“guerra” de paradigmas. Isto vem ao caso porque em regra esta divisão também acaba
por se refletir e muito quando pegamos em livros de caráter mais geral, como
dicionários, histórias da filosofia, etc… arrisco a afirmar que hoje em dia
essas obras quando chegadas da tradição analítica falham menos que as da
tradição continental. Isto é, as da tradição analítica são mais abrangentes. E a
isto não está alheio o sucesso em matéria de investigação, se quisermos, do seu
“paradigma”, para abusar dos termos de Kuhn. Este mote serve para a minha
pequena apresentação deste extenso volume publicado pela Piaget no ano de 2003
e sendo o original em francês do ano anterior. Independentemente do conteúdo
que não me é possível comentar de todo (é uma obra de consulta com mais de 1200
páginas na edição portuguesa), vale a pena apresentar em algumas palavras a sua
organização. Assim, para começar, as
grandes noções mencionadas no título da obra, são as clássicas: consciência,
direito, estado, história, imaginação, tempo, ciência, moral, metafísica, arte,
linguagem, etc.. Cada tema corresponde a um capítulo e cada capítulo está
organizado não só com a habitual exploração do subtema, como com os textos
clássicos comentados. Para quem, como eu, está já acostumado com o modo de
fazer filosofia da tradição analítica, não espere destes textos a clareza de
exploração dos problemas no sistema de: problema,
teorias, argumentos, objeções. Nem espere grandes análises aos problemas
pelo binóculo da lógica. Não se segue daí, com efeito, que os textos fossem
escritos por uma quantidade de discípulos de Nietzsche recorrendo a uma
linguagem demasiado fechada e hermética. Aliás, por sinal, isto também acontece
não raras vezes com filósofos da tradição analítica. Embora seja evidente que
prezam muito mais a clareza da exposição nem todos, ainda assim, o conseguem
fazer devido mais ao estilo da escrita do que à confusão argumentativa.
E a quem interessa este livro?
A todos, menos àqueles cujo contato
com a filosofia passa apenas por uma ou duas pequenas introduções, já que no
mercado português existe essa oferta.
Uma nota final
Pese embora o que comecei por
esboçar neste pequeno texto de apresentação, não se pense que os autores
presentes nesta coletânea revelam uma qualquer postura de ignorância
relativamente aos cozinhados da tradição analítica. Nem pensar. Como se revela
na leitura de pelo menos alguns dos artigos, são autores informados. Mas ao
mesmo tempo é bem verdade que apenas pontualmente alguns estudos mais recentes
sobre os problemas analisados são citados. E, na minha opinião, deviam ter
maior lugar de destaque. Não dou aqui qualquer exemplo específico, já que esta
circunstância está presente em todos os capítulos do livro. Alem de que as
bibliografias citadas revelam esse mesmo esquecimento que, na minha opinião,
empobrece a exploração dos problemas.
A edição portuguesa é de capa
dura e num formato físico muito resistente. O que favorece a obra. Um belo livro de filosofia, portanto.
Agradeço ao editor o envio desta
obra para análise e opinião.
Autores Vários, As Grandes Noçõesda Filosofia, Ed Piaget, 2003, Tradução de Ana Rabaça, Coleção Pensamento e
Filosofia (Direção de António Oliveira Cruz)
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