Um texto meu publicado no FN. AQUI
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
Propostas de reformulação de programa de filosofia
Este post serve para criar links às propostas que entretanto vão chegando às redes e canais online. Entretanto por erro meu publiquei duas vezes a minha proposta e acabei a eliminar sem querer um comentário com uma proposta de um colega e não consegui recuperar o comentário. Peço desculpa por isso. Foi sem intenção, pois todos os comentários são preciosos. Sem isso não conseguimos maior clareza nas nossas próprias propostas, pois é impossível, na minha opinião, elaborar uma qualquer proposta sem o reconhecimento de quem executa os programas de ensino, os professores.
Proposta do Domingos Faria, AQUI
Proposta do Aires Almeida, AQUI
Proposta de Rolando Almeida, AQUI
Assim que chegarem, mais propostas serão adicionadas.
Proposta do Domingos Faria, AQUI
Proposta do Aires Almeida, AQUI
Proposta de Rolando Almeida, AQUI
Assim que chegarem, mais propostas serão adicionadas.
Participação pública informal na reforma do programa de Filosofia
Alguns professores de filosofia têm manifestado nas redes
sociais ou nos fóruns ideias interessantes para a abordagem a uma eventual
reformulação do programa de filosofia. Muitos desses colegas não disponibilizam
canais para publicarem as suas ideias. Assim, disponibilizo este blogue para
quem quiser publicar a sua proposta. Assim, promovemos o debate mais alargado
enquanto continuamos as nossas vidas particulares. Peço apenas que me enviem
para o meu email os vossos textos para publicar com o respetivo nome de autor.
Não há qualquer requisito de formatação de texto.
Email: rolandotavaresalmeida@gmail.com
domingo, 20 de novembro de 2016
Uma proposta para reformulação do programa de filosofia
Recentemente saiu uma notícia no
Jornal Público sobre uma eventual revisão curricular dos ensinos básico e
secundário. Segundo foi noticiado o principal objetivo é dar razão a uma velha
reivindicação dos professores encurtando os conteúdos a explorar nos currículos
das diversas disciplinas. O lado menos bom da notícia citada é que algumas
entidades oficiais com responsabilidade na matéria estariam a ser ignoradas
pelo Ministério. Ora discordo que o Ministério decida sobre um programa
ignorando quer as associações instituídas ao nível científico, quer
profissional. Por isso mesmo um programa elaborado ou reformulado por apenas
uma parte é, quanto a mim, uma péssima ideia. Mas mantenho a esperança que as
coisas não se passem a esse nível e espero também que o resultado de uma
revisão do programa de filosofia seja o resultado do diálogo entre quem melhor
representa os professores e quem representa a disciplina academicamente. Neste momento
as instituições melhor posicionadas para esse efeito na disciplina de filosofia
são a APF e a SPF.
Pressupondo que os professores
gostam e querem ser ouvidos nesta matéria, enquanto professor quero deixar a
minha proposta. Ela é apenas uma ideia, feita com o tempo de que disponho e vai
ser montada sobre a proposta que Aires Almeida fez
aqui. Portanto vou trabalhar a partir do programa e da proposta do Aires.
Algumas ideias para começar.
Reformular em vez de destruir o
trabalho feito
Não defendo que se deva fazer um
programa novo. O programa atual tem pontos positivos e outros que podem ser
melhorados. E esta vai ser a linha condutora para a minha breve apresentação.
Pontos a manter no programa:
O programa de filosofia é
elaborado em torno de problemas e não de filósofos ou filosofias. E assim deve
ser mantido. Por um lado dá alguma liberdade ao professor, o que é sempre de
esperar num programa de ensino, pelo menos de filosofia. Por outro lado, o que
interessa na filosofia são mais os problemas e não propriamente a exposição das
teorias dos autores, ainda que não se satisfaça a primeira condição com a
ausência da segunda.
Pontos a reformular no programa:
Em primeiro lugar parece-me
urgente depurar toda a terminologia do programa. E tenho uma razão para assim
pensar. É que a linguagem do programa é transportada para os manuais, já que os
mesmos seguem naturalmente o programa. Ora, o indice dos manuais, diz-me a
experiência, é ilegível para os alunos e perdemos imenso tempo a traduzir. Ou então
ignoramos. Não há qualquer vantagem em traduzir. Se podemos chamar as coisas
com outros nomes e com o mesmo rigor, porque não adotar essa segunda opção com
a preocupação de tornar a tábua das matérias mais legível para os alunos? Dou aqui
apenas alguns exemplos:
Como aparece
no programa
|
Proposta de
substituição
|
Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar
|
O que é a filosofia?
|
Dimensão discursiva do trabalho filosófico
|
Caixa de ferramentas da filosofia
|
A ação humana – Análise e compreensão do agir
|
Filosofia da ação
|
Os valores – Análise e compreensão da experiência
valorativa
|
Os valores
|
Valores e valoração- A questão dos critérios
valorativos
|
O problema da objetividade de juízos de valor
|
A dimensão ética-política – Análise e compreensão
da experiência convivencial
|
Filosofia política
|
Temas/ problemas do mundo contemporâneo
|
Problemas da filosofia
|
O quadro que apresento é apenas
uma demonstração da depuração que pode ser feita. Estou convencido que tem amplas
vantagens didáticas sem com isso criar qualquer prejuízo científico. Bem pelo
contrário. E outra opção que me parece ser igualmente válida é apresentar os
conteúdos como problemas. Assim, em vez de filosofia da ação, poderia constar:
O que é uma ação? Ou, Será que todos os acontecimentos são ações? Bem mas ainda
assim, isto pode ser igualmente feito mesmo com a proposta que apresento no
quadro, já que um tema da filosofia pode ser apresentado com diferentes
problemas.
Em relação à proposta do Aires,
uma alteração de fundo. A lógica desaparece do 11º ano e desaparece grandemente
de todo o programa da disciplina. Só faz sentido ensinar lógica como o Aires propõe se depois ela for
aplicada ao longo de todo o programa. Mas a avaliar pelos manuais isso quase
nunca acontece. O que me leva a pensar que uma grande maioria dos professores
não tem optado por ensinar filosofia da ciência ou do conhecimento no 11º ano
com as bases da lógica. E aqui penso que não vale a pena apresentar um programa
que só num ponto varre a maré toda. Depois há outro ponto que me parece
crucial. Vamos considerar que o professor pode ajustar mais ou menos a lógica que
o aluno aprende ao restante programa. E penso que esse deve ser o efeito do
ensino da lógica, caso contrário, empobrece o seu próprio ensino. Mesmo que um
professor tenha essa opção, como faz no 10º ano? Ensina filosofia da arte,
religião, ação sem esses conhecimentos e aplicação da lógica e depois no 11º
ano passa a usar essa ferramenta? Ou seja, ou a lógica aparece logo na tal “dimensão
discursiva do trabalho filosófico” no 10º ano ou não aparece em lado algum quer
do 10º, quer do 11º ou então, em última análise e que me parece ser a pior das
possibilidades, aparece apenas como mera curiosidade e para fornecer ao
estudante algum conhecimento de como se faz filosofia. Posto isto, qual a minha
proposta?
A minha proposta é que a lógica
saia do programa de filosofia, para dar lugar no 10º ano, a uma pequena
introdução à metodologia filosófica que pode e deve incluir breves noções de
lógica. Nessas breves noções, o que deve ser incluído? Vou elencar aqui, sem
grandes preocupações de fundo, o que me parece mais universal e essencial:
·
O que é um argumento?
·
Identificar argumentos
·
Composição de um argumento
·
Premissas e conclusão
·
Lógica formal e informal – validade dedutiva e
indutiva
·
Validade e verdade
·
Validade
·
Solidez
·
Cogência
·
Refutações
·
Definição de conceitos e sua importância
(vagueza e precisão)
Esta alteração implica já uma
reformulação quer ao programa, quer à proposta do Aires. Talvez o requisito
mais rígido que proponho para esta reforma seja o de que todo o programa, quer
de 10º, quer de 11º tem de andar em torno desta ideia:
1. Apresentação
de problemas
2. Defesa
de teorias
3. Discussão
de argumentos
Um aspeto que a proposta do Aires
não refere é a capacidade de execução didática do programa. Nem o programa é
muito centrado nessa preocupação. Se por um lado é verdade que esse é o
trabalho que os professores desenvolvem nos grupos disciplinares, também é
verdade que o programa se pode centrar aí. Afinal o que se pretende de um
programa não é somente o que se quer ensinar, mas a forma como se aprende o que
se pretende ensinar. Vou tentar aqui esboçar um pequeno exemplo:
Unidade: Filosofia da Arte
Problema: Pode a arte ser definida?
|
Estratégias a seguir
|
Conteúdos a explorar:
·
Teoria da imitação e refutações
·
Teoria da expressão e refutações
·
Teoria formalista e refutações
|
1. Apresentação
do problema
2. Tentativa
de encontrar soluções para o problema com a discussão das teorias propostas
pelos alunos. Como podem os alunos propor teorias?
·
Trabalho de grupo (20m de discussão)
·
Discussão individual (45 m)
·
Cada aluno tenta individualmente e em 20 m
escrever uma resposta ao problema elencando sempre as razões que justificam a
sua posição.
3. Discussão
de cada teoria da filosofia. Por exemplo, uma aula para cada uma.
Aqui poderia continuar a apresentar sugestões de
trabalho. Desde como se apresentam refutações, etc. O aluno pode pesquisar
nos materiais de aula (manual, sites de internet, etc… ).
|
Mais uma vez não tenho aqui
preocupações de fundo no elenco que apresento de estratégias, mas espero com
este modelo, que se perceba a minha proposta. Para cada página de conteúdos, 10
de estratégias. E por que razão defendo isto? Por uma razão simples. Com 10
páginas de conteúdos o professor vai passar as aulas a expor matéria. Com 10
páginas de estratégias, o aluno vai passar as aulas com tarefas delimitadas e a
trabalhar. Por conseguinte, a progredir. E o professor consegue trabalhar melhor e
gestão não só do programa como das aulas e das aprendizagens.
Vou então detalhar um pouco
quanto aos conteúdos e usar o trabalho do Aires como base:
10º ano
Alterações:
Como já referi, alteraria o
primeiro módulo. Provavelmente teria de alterar também os tempos de lecionação.
Mas todo o primeiro módulo seria o da apresentação da lógica como referi acima.
E, claro, aumentaria os tempos letivos nesta unidade para poder trabalhar
textos pequenos para alunos de 15 anos, mas textos de filósofos nos quais se
tenha de trabalhar premissas, conclusão, defesa de teorias, etc… as outras
unidades que aparecem neste quadro, não as alteraria.
Acho aceitável a mudança da
Estética e Religião para o 11º ano. A vantagem que vejo é a da gestão do tempo
de lecionação do programa. Mas alteraria substancialmente a unidade VI. Ao contrário
do que sugere o Aires estas aulas deviam ser destinadas a:
1º aprender como se redige um
pequeno ensaio
2º Distribuir bibliografia
(pequenos textos de 20 pp a cada aluno)
3º Oficina de redação do ensaio
4º Apresentação oral individual
de todos os ensaios
A redação do ensaio é já proposta
no programa. A vantagem de aprenderem a redigir pequenos ensaios é enorme. Além
de aprenderem a defender ideias e teorias, dão os primeiros passos para
elaborarem trabalhos académicos como pequenos artigos. Em vez daqueles trabalhos
sem pés nem cabeça em que mais ou menos o aluno acaba a copiar qualquer coisa
do google e colocar uma capa, índice, bibliografia, etc…, coisa que já nem
sequer se usa em lado algum, estas últimas aulas (que tem de ser mais de 8)
destinavam-se a criar uma oficina na qual os alunos estão a elaborar os seus
próprios ensaios de 2 páginas no máximo. Como fazer isto num manual? Não se
faz. Mas os editores podem preparar bibliografias pequenas que ajudem os alunos
a decidir. Por exemplo, os alunos podem servir-se de livros como os de Nigel
Warburton e fazer um ensaio de filosofia da religião a partir do capítulo sobre
Deus. Tenho ideias concretas neste ponto, pois é assim que trabalho, mas não me
vou alongar mais, pois o que pretendo aqui é deixar algumas sugestões práticas
para a reforma de um programa de filosofia. Além disso este ensaio teria
ajudado imensos alunos a fazer a última questão do último grupo do mais recente
Exame Nacional de Filosofia. No final do ano é já desejável que os alunos
consigam defender as suas ideias sobre alguns problemas da filosofia.
11º ano
Como disse não tive a preocupação
do Aires em fazer a contagem das aulas, pelo que algumas coisas que aqui vou
apontando poderiam cair por terra (a verdade é que todas vão cair pois eu nada
decido sobre programas). Mas mesmo assim, seguindo a minha proposta, toda a
primeira unidade desaparecia do programa do 11º ano. Sempre defendi que a
filosofia da mente seria interessante, pelo que a introdução de alguns
problemas desta área de forma direta (e não indireta como o caso do problema do
livre-arbítrio que aparece na introdução aos valores e ação humana) talvez não
fosse de descartar. O que menos me agrada nesta proposta do Aires é a última
unidade. A ideia do tema livre deve ser substituída, uma vez mais, talvez, pela
minha ideia já aplicada no 10º ano. O aluno no final do ano deve mostrar que é
capaz de defender publicamente ideias. E isso pode fazer-se com a oficina de
filosofia e a elaboração dos ensaios. Não referi ainda, mas o ensaio deve ser
matéria de avaliação tal como qualquer outro teste e deve ter o mesmo peso na
avaliação final. Por isso o ensaio elaborado no 10º ano pode ser aqui retomado
e reelaborado sem qualquer prejuízo. Isto dá uma liberdade enorme aos alunos. E
aprendem enquanto fazem as coisas que é muito mais interessante que ouvir o
tempo todo e depois terem de passar horas a fio a ler tudo o que ouviram no
sentido de tentar não esquecer para o teste.
Uma palavra final
Sei que estes
apontamentos são ainda uma proposta em muitos aspetos vaga. E sei que o Aires
justificou muito melhor os conteúdos. Porque, nos seus aspetos mais gerais, até
concordo com as justificações do Aires, procurei aqui explorar mais como é que
se pode explorar um programa de filosofia e executá-lo.
Não acho que um
programa tenha de ser um documento muito complexo ou profundo. Profundos são os
conteúdos. Um programa é um guia e deve ser de fácil leitura e muito pragmático.
Afinal de contas os professores não passam o ano a olhar para o programa. Os professores
olham para os manuais e restante material de apoio às aulas. E o programa deve
ser um guia que permita que todos esses materiais possam ser elaborados com
rigor.
Espero que esta
proposta possa, sei lá como, contribuir pelo menos para alguma discussão pois,
como muito bem referiu o Aires, já que está em discussão eu devo também
discutir porque sou parte interessada.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Será moralmente aceitável cobrar mais impostos ao que ganha o Ronaldo?
Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o
seu clube. Passa a ganhar cerca de 2 milhões de euros de salário por ano. Será
moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento
do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é
totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo
ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza
em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30
minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel. (se as legendas não arrancarem podem ser ativas no menú em definições)
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Argumentar
Um dos textos fruto da minha mais recente colaboração com o FN - Funchal Notícias. Pode ser lido AQUI.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Ação de formação para professores
Decorre entre 17 e 24 de outubro as inscrições para a seguinte ação de
formação:
– “Argumentação e pensamento crítico na sala de aula como
estratégia de resolver conflitos”, dinamizada pelo formador Rolando Almeida,
com a duração de 12 horas, a aguardar validação pela DRE, tendo como
destinatários os docentes de todos os grupos de recrutamento.
As inscrições decorrerão online, a partir das 09h00, do dia
17/10, AQUI ou na sede do Centro de Formação do SPM.
Aproveitamos para dar conta da seguinte informação: a 1ª.
prioridade de seleção abrange os sócios do SPM (gratuito) e a 2ª. prioridade de
seleção abrange os não sócios = 15€ (mediante vaga)
A ação de formação terá lugar na sede do SPM – Calçada da
Cabouqueira nº 22, Funchal.
domingo, 16 de outubro de 2016
Cogência
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Algumas vezes surgem confusões ligadas a esta noção da argumentação
filosófica. Um argumento é cogente quando, além de válido e com premissas
verdadeiras, persuade racionalmente, ou seja, é convincente.
A objeção mais habitual é que não faz sentido falar em tal coisa, pois em filosofia não há argumentos cogentes. Claro que há! Um argumento é filosoficamente cogente se as premissas forem mais plausíveis do que a conclusão, isto é, se nos levarem a aceitar uma conclusão que desconhecíamos. Diz-nos a noção de validade que um argumento é dedutivamente válido se em nenhuma das circunstâncias de verdade possíveis as premissas do argumento não possam ser verdadeiras e a conclusão falsa. |
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Eis um exemplo de dedução válida:
Este é um argumento válido e com premissas verdadeiras. Significa isto
que é sólido. Mas facilmente percebemos que a solidez não parece ser uma
noção suficiente, apesar de necessária, para persuadir alguém com um
argumento. Isto porque em filosofia temos premissas muito discutíveis. E,
apesar de serem muito discutíveis, tal não significa que não nos possam fazer
aceitar uma conclusão que, à partida, não estaríamos dispostos a aceitar, não
fossem aquelas premissas. Se as premissas forem mais plausíveis que a
conclusão, acabamos por aceitar uma conclusão que à partida não
defenderíamos. Isto é a cogência.
O exemplo dado não é um exemplo de cogência, pois na cogência o que queremos mostrar é que alguém não pode defender uma tese partindo de determinadas premissas, ou seja, que aquilo que já aceita – as premissas – implica necessariamente a conclusão que não quer aceitar e que nós defendemos. Assim, a definição de cogência é operacional para nos permitir compreender que não desejamos somente argumentos sólidos, mas, além disso, que convençam. Podemos ter argumentos sólidos, mas que não são persuasivamente fortes, necessitando de explicações adicionais para que se tornem convincentes. E daí a cogência. A cogência é igualmente aplicável a argumentos quer dedutivos quer indutivos. Nestes últimos, um argumento cogente não aponta necessariamente para uma conclusão verdadeira, mas é muitíssimo provável que o seja. A cogência vai mais além da mera sintaxe do argumento e é uma noção interessante precisamente quando não sabemos determinar a verdade das proposições. Claro que não precisamos de saber se as premissas de um argumento são verdadeiras ou falsas para saber se é válido. Precisamos apenas de saber que, se as premissas forem verdadeiras em alguma simulação de verdade, a conclusão não poderá ser falsa nessa mesma circunstância. Para saber isso, podemos aplicar um inspetor de circunstâncias.
Mas, ainda assim, temos muitos argumentos perfeitamente válidos que não
são persuasivos. Daí a importância da solidez. O problema é que nem sempre é
fácil determinar a solidez de um argumento, pois nem sempre sabemos da
verdade das premissas. Assim, falamos de cogência do argumento, isto é, da
plausibilidade das premissas para apoiar determinada conclusão.
Publicado originalmente Aqui
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sábado, 15 de outubro de 2016
Filosofia da Religião, em antologia de luxo
Deus está filosoficamente vivo e bem vivo. Que o diga a
filosofia analítica contemporânea que ressuscitou a filosofia da religião com
um vigor nunca antes alcançado. Para muitas pessoas ligadas á filosofia isso é
surpreendente, já que erradamente viam na abordagem analítica pouco mais que
artifício e formalismo técnico de análise da linguagem. A prova de que as
coisas não são bem assim é o volume que aqui apresento. É impressionante a
qualidade intelectual do que se produziu nos últimos 50 anos sobre filosofia da
religião. Filosofia das Religiões, Uma
Antologia, é a tradução da edição de 2003 de Philosophy of Religion, An Anthology, da Blackwell, uma editora com
grande tradição e empenho na edição deste tipo de obras. Aliás, editoras
académicas em regra publicam com alguma regularidade obras do género. Estes volumes
são uma espécie de best of de uma área de estudos, autor ou
problema. São volumes extensos e que compilam textos dispersos, clássicos ou
contemporâneos, mas, no caso da filosofia (e creio que nas outras áreas é o
mesmo) que sejam relevantes no debate contemporâneo. Mas vamos ao interior.
Deparamo-nos com duas pequenas dificuldades na edição portuguesa e que o editor
pode melhorar em futuras edições. A primeira é que o índice vem no final. É um
pouco discutível esta opção, mas num livro tão volumoso (a edição portuguesa é
mais extensa que o original com mais de 800 páginas) e cuja finalidade é em
grande parte a consulta, o índice no início facilita o manuseio e apresenta logo
a tábua dos artigos. A segunda é que a edição portuguesa não apresenta no índice
o nome do autor de cada artigo. Temos de abrir cada artigo na página
correspondente para, aí sim, verificar quem é o autor do artigo. Isto dificulta
bastante, pois a procura de um artigo pode também ser feita pelo autor e, como
está, torna-se bastante menos prática essa busca. Não tenho o original para
comparar, mas, à parte isto e uma pequena introdução dos autores compiladores,
nada mais é apresentado. Creio que aqui segue o original, muito embora todas as
antologias da Blackwell que possuo em língua inglesa apresentam um pequeno Index. Nesta edição portuguesa não
aparece tal Index. Não posso
confirmar se tal aparece na edição original, mas tratando-se de um livro de
estudo e fortemente dirigido a um público académico, este tipo de ferramentas
revela-se quase sempre de enorme utilidade, já que em tanta página os atalhos
facilitam bastante.
O livro é organizado em 8 partes.
Parte 1: A identidade
religiosa
Três artigos a abrir a antologia, que acabam por constituir
uma apresentação do fenómeno religioso. O que faz com que uma crença religiosa
seja religiosa e distinta de outras crenças? Quais as principais crenças
religiosas?
Parte 2: Teísmo e
atributos divinos
Nesta parte, que arranca com um famoso artigo de Richard
Swinburne, “God” (1996), explora-se
as principais características e atributos de Deus, entre outras como, as de omnipotência
e omnisciência.
Parte 3: Explicações de
religião
O início desta parte é empolgante. Em poucas páginas 3
autores disputam a partir de uma parábola, o estatuto da crença religiosa. São eles
Anthony Flew, R. M. Hare e Basil Mitchell. E já que estamos na parte das
explicações da religião ou religiões, então é ocasião para explorar o que tem a
psicologia a dizer sobre o problema. A inclusão desta parte é interessante já
que, na minha opinião pessoal, tornar-se-ia incompleta sem a apresentação desta
abordagem pois parece que a crença religiosa tem uma forte componente
psicológica. É aqui também, como de resto seria de esperar, que Freud é
abordado, em pelo menos 2 artigos. Mas também é nesta parte que se aborda o relevante
problema da ética da crença, com um artigo do já traduzido entre nós, William
Clifford (Ética
da Crença, Org. Desidério Murcho, Bizâncio, 2010). Mas também é nesta
parte que temos a defesa da crença
religiosa como apropriadamente básica, na conhecida formulação de Alvin
Plantinga.
Parte 4: Argumentos
teístas
Nesta parte discute-se a apresentam-se os principais
argumentos de justificação da existência de Deus. A novidade aqui é que são apresentados,
cada um deles, num artigo diferente. Duas entradas para Swinburne e Mackie com
o argumento cosmológico. E, com uma falha da tradução, o argumento teleológico
de David Hume (e não teológico). Ainda são explorados em artigos diferentes, o
ontológico e do desígnio.
Parte 5: Religiões não
teístas
Confesso que é para mim a parte mais estranha, já que não
tenho grande conhecimento nesta matéria e ainda não explorei convenientemente
os artigos aqui incluídos. Mas temos 4 artigos que apresentam perspetivas
budistas, feministas, Darsana, Anviksiki, entre outras. A explorar.
Parte 6: Coisas más e
coisas boas
Como seria de esperar, o problema do mal explorado em 8
artigos. Para citar os mais relevantes encontramos aqui artigos de William Rowe
(do qual já temos traduzida a excelente Introdução
à filosofia da Religião, Verbo, Trad. Vitor Guerreiro), Brian Davies e
Peter Van Inwagen.
Parte 7: Os valores
religiosos
Esta parte pode interessar aos professores do secundário já
que a bibliografia para abordar este tema é, em regra, escassa e difusa, muitas
das vezes mesmo inapropriada à finalidade que se destina. Há aqui, portanto, um
recurso indesculpável. Encontramos os problemas comuns: o problema da
tolerância religiosa, religião e moralidade, pluralismo religioso, etc.
Encontramos também o artigo de Swinburne “A
possibilidade da encarnação” que tem sido divulgado entre nós por Domingos Faria. Espaço ainda também
para a famosa “aposta” de Pascal.
Parte 8: Identidade
Pessoal e morte
Finalmente, um típico problema associado às religiões, o da
morte e dos milagres. Dos 5 artigos incluídos, um é de um dos organizadores
desta antologia, Taliaferro e foi incluído também o texto de David Hume sobre
os milagres, incluído ao seu ensaio de Investigação
Sobre o Entendimento Humano.
Conclusão da análise
A quem se destina esta antologia? Fortemente a estudantes
universitários. Mas também a professores do ensino secundário e ainda a
curiosos que gostem de aprender lendo. Para estes últimos o livro tem a
vantagem de conter artigos de autores experientes numa escrita clara. Para além
disso o mero curioso, leitor sem formação em filosofia, tem aqui uma rica apresentação
do problema do fenómeno religioso, exposto sob muitas variantes.
Como é habitual neste tipo de artigos incluídos em antologias
académicas, no final de cada artigo, em regra, é apresentada não só uma
bibliografia geral, como uma recomendada para aprofundar o tema ou problema apresentado
no artigo.
Uma nota final. Muitas vezes em países academicamente mais
pequenos como Portugal, os problemas da religião são abordados apenas pela
Religião católica e Cristã, o que acaba por afastar o interesse de muitas
pessoas, já que se habituam a associar estes problemas apenas ao interesse das instituições
religiosas. Independentemente do mérito ou desmérito do trabalho dessas
instituições é fundamental perceber que a análise do fenómeno religioso está
muito para além da instituição religiosa. Ele é um tema amplo de estudos
filosóficos e científicos. A publicação e divulgação deste tipo de obras entre
nós (principalmente entre nós) é um bom sinal para arrancar a filosofia desse
espectro e devolvê-la ao exercício crítico que tão bem a caracteriza na busca
da verdade.
Charles Taliaferro e Paul J. Griffiths, Filosofia das Religiões, Uma antologia, Tradução de Luís Couceiro Feio, Editora Piaget, 2006
Esta obra pode ser comprada AQUI
Agradeço à Editora Piaget o envio deste livros para análise e divulgação.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Boas introduções são necessárias
As boas introduções são um bem
maior para entrar num domínio mais sofisticado. Sem elas é muito mais difícil
trilhar caminhos futuros numa aprendizagem. Existem introduções muito
elementares e básicas que servem de mapa para quem deseje, em pouco tempo,
apanhar algumas pontas de uma determinada área. Essas, apesar de essenciais,
muitas das vezes deixam escapar algumas subtilezas básicas sem as quais não se
chega a compreender verdadeiramente a relevância de uma aprendizagem. Mas existem
introduções que são um pouco mais sofisticadas sem deixar de lado esse caráter
introdutório. Tanto servem aos neófitos como a estudantes, professores ou até
estudantes de cursos universitários. É nesta última categoria que se insere a
introdução de Stephen Hetherington, Realidade
e Conhecimento, Uma Introdução à Metafísica e à Epistemologia, publicado
pela Piaget e traduzido por Jorge
Pinheiro no ano de 2007, sendo a tradução do original datado de 2003.
Hetherington é um filósofo australiano. A Austrália é um bom país para a
filosofia. Da última leva destaco relevantes filósofos como Peter Singer, David
Oderberg ou David Chalmers e, claro, o próprio autor aqui destacado. Logo no
título do livro vemos um pequeno apontamento na tradução, já que no original o
título começa por ser qualquer coisa como: Reality?
Knowledge? Philosophy!. E a pontuação, omitida na tradução portuguesa, não
estará lá por acaso. Pesquisei e notei que o tradutor espanhol também não foi
de todo fiel ao original. Felizmente este apontamento não prejudica, segundo a
minha opinião, o conteúdo que se segue. Na verdade, tanto a metafísica como a
epistemologia são já territórios filosóficos bastante amplos. Claro que vamos
encontrar problemas relacionados com a filosofia moral ou o sentido da
existência. Aqui são tratados pelo autor nos seus aspetos metafísicos mais
gerais, bem como nas relações de proximidade com a filosofia do conhecimento
que tomo como sinónimo de epistemologia.
O livro está organizado em 12
capítulos e como quase todas as introduções à filosofia, podem ser lidos ou
consultados em separado, de acordo com os interesses e curiosidade do leitor. Além
disso, como acontece em todas as boas introduções, está organizado como um
manual de aprendizagem com pequenos questionários nos finais de capítulos e
subcapítulos. Esses questionários são bastante úteis para estimular as
aprendizagens. Para além disso, em todos os capítulos é apresentada uma
bibliografia que funciona como atalho para uma exploração mais aprofundada.
Todos os capítulos apresentam
várias teorias, por vezes bastante opostas, como ensaios de resposta aos
problemas propostos.
Um pequeno itinerário do livro:
Capitulo I: a aprendizagem começa pelo famoso problema da
conservação da identidade pessoal ao longo do tempo. O que é que faz com que
uma pessoa seja a mesma ao longo do tempo? Que propriedades são constituintes
dessa identidade?
Capitulo II: apresenta o problema do livre arbítrio. Como é que num
universo causalmente determinado e explicado racionalmente pela causalidade,
podemos afirmar que a nossa liberdade individual escapa a essa causalidade? Se
escapa então pelo menos a nossa liberdade não está sujeita ao determinismo
causal e se não escapa, então a liberdade individual não passa de uma ilusão da
mente. E nesse caso, levantam-se outros e relevantes problemas, como o da
responsabilidade individual pelas ações.
Capítulo III: neste capítulo é abordado mais um problema de
compatibilidade, neste caso, entre a existência de um Deus sumamente bom e com
poderes ilimitados e um mundo criado por Ele onde existe mal. Como resolver
esta aparente incompatibilidade? A passagem de Sócrates, no seu diálogo com
Eutifron, não escapa à análise do problema proposta por Hetherington.
Capítulo IV: O problema do sentido da existência? O que é que
confere sentido à nossa existência? Propõe-se um encontro com as passagens mais
clássicas para análise do problema, deste o mito de Sísifo até à máquina de
experiências de Nozick.
Capítulo V: poderá a morte constituir uma ameaça assustadora ao
sentido da vida? Como lidar com a finitude? Neste capítulo são explorados
argumentos de autores contemporâneos como Jeff McMahan ou Thomas Nagel, mas
também os clássicos Epicuro e Lucrecio.
Capítulo VI: como é que duas mesas brancas partilham de uma mesma
propriedade como a brancura? Será que a “brancura” partilhada é uma propriedade
independente dos objetos? Ou pertence aos objetos enquanto sua propriedade? Como
definir o que é uma propriedade se tal for sequer possível? Existem propriedades
que definam, por exemplo, o que é ser uma pessoa?
Capítulo VII: A toda a hora falamos em verdade por oposição a
falsidade. Mas como é que é possível falar em tal coisa? O que é que
caracteriza a verdade? Se houver múltiplos conceitos de verdade, então parece
ser impreciso falar de tal coisa. Mas pelo contrário, se o conceito não é múltiplo,
então o que o caracteriza? São aqui analisadas algumas das mais recentes
teorias, de uma forma geral, mas correta e filosoficamente robusta, entre as
quais, a teoria coerentista da verdade e a teoria da verdade como
correspondência.
Capítulo VIII: quais são os critérios que nos permite defender que
uma teoria está mais bem fundamentada que uma outra teoria rival? Um gato passa
no outro lado da rua. Maria, que tem algumas dificuldades de visão e até
cognitivas, mas não tem noção disso, formula a crença de que um gato passou no
outro lado da rua. Joana, que tem uma visão e perceção sensorial apurada, mesmo
que não saiba disso, vê um gato passar no outro lado da rua. Ambas têm a mesma
crença. Mas como é que podemos confiar que uma crença é mais conhecimento que
outra? Temos boas razões para confiar mais na crença de Joana do que na crença
de Maria se as suas crenças fossem diferentes? Esta relação da confiança no
conhecimento verdadeiro é explorada neste capítulo.
Capítulo IX: O que é que está na base do conhecimento? Isto é, o
que é que fundamenta o conhecimento? Será que ao desejarmos explicar x entramos
num movimento de regressão infinita de explicações? Neste capítulo, claramente
debruçado sobre epistemologia, são analisados textos clássicos de Platão e
Gettier.
Capítulo X: sabemos coisas porque as percecionamos sensorialmente.
Mas a perceção sensorial é suficiente para um conhecimento sólido? O empirismo
e David Hume em forte análise neste capítulo.
Capítulo XI: Depois do empirismo, o racionalismo. Será o
conhecimento de verdades racionais, como as matemáticas, o fundamento de todo o
conhecimento? Como é que é que podemos saber apenas pelo raciocínio
determinadas verdades? Será fiável?
Capítulo XII: Depois da análise do empirismo e do racionalismo, faz
todo o sentido a exploração do ceticismo. Neste capítulo explora-se a fase cética
de Descartes e o ceticismo de Hume, assim como as várias respostas mais
conhecidas ao ceticismo e à possibilidade do conhecimento.
Quem quer que inicie o estudo de
filosofia por este livro considere-se com sorte. O livro apresenta os problemas
tal qual eles são hoje em dia explorados e na melhor tradição da boa filosofia,
é escrito de uma forma muito clara, sem perder o norte do rigor que a filosofia
exige.
Não recomendo este livro para
estudantes do ensino secundário. Mas é altamente recomendável para professores
de filosofia do ensino secundário. Isto porque por um lado muitos dos problemas
coincidem com o programa ministrado no ensino em Portugal e depois porque podem
aproveitar muitos exemplos e partes do livro para explorar nas aulas, uma vez
que está engenhosamente bem escrito e apresenta exemplos muito interessantes
para os alunos. Seleciono apenas uma pequena passagem que pode ser aproveitada
para apresentar o problema do livre arbítrio nas aulas:
Cap. II:
“imagine-se que uma pedra parte a nossa janela. Que mais deve incluir
esta história? Dada a forma do mundo físico, assim que a pedra se aproximou, a
janela não teve hipóteses de sobreviver intacta: o seu estilhaçamento foi
provocado pelo impacte da pedra. Assim, em alguma fase da história do mundo, a
fractura da janela tornou-se inevitável. Isso foi assim apenas quando a chegada
da pedra se tornou iminente? Ou, cem anos antes, o mundo já estava a caminhar
inexoravelmente para esse momento em que a dita pedra partiu a janela? Algures
no passado, algo ocorreu para que sucedesse a morte da janela.”
p. 31
Ou, no Cap. IX
“Se não sabemos em que consiste o conhecimento, talvez não saibamos
qual das nossas opiniões é conhecimento. Um ponto de vista não é conhecimento apenas
por ser opinião de alguém. Nem todas as opiniões pessoais profundas são
conhecimento; e ser-se culturalmente respeitado não é garantia da opinião de
alguém ser conhecimento. Nem uma opinião é conhecimento apenas porque queremos
que seja ou porque acreditamos ou afirmamos que é. Nem todos os pontos de vista
são especialmente conhecíveis. Que garantia temos de o nosso ponto de vista
pessoal ser bom nesse aspecto?”
p. 135
Qualquer uma destas passagens é
muito útil para, numa aula, lançar os problemas. Claro que dependendo das
opções de cada professor, depois pode-se selecionar alguns pontos das teorias e
argumentos dos filósofos que exploram ensaios de resposta aos problemas.
Hoje em dia temos no mercado
português boas introduções. Deixo apenas a recomendação à Piaget que continue a
publicar estes livros tão bem-vindos ao público de língua portuguesa. Sem este
tipo de obras disponíveis, o acesso ao conhecimento é muitíssimo mais limitado.
Agradeço à Editora Piaget que
gentilmente enviou este livro para a minha apreciação.
Para comprar o livro: AQUI
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