Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o
seu clube. Passa a ganhar cerca de 2 milhões de euros de salário por ano. Será
moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento
do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é
totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo
ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza
em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30
minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel. (se as legendas não arrancarem podem ser ativas no menú em definições)
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Argumentar
Um dos textos fruto da minha mais recente colaboração com o FN - Funchal Notícias. Pode ser lido AQUI.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Ação de formação para professores
Decorre entre 17 e 24 de outubro as inscrições para a seguinte ação de
formação:
– “Argumentação e pensamento crítico na sala de aula como
estratégia de resolver conflitos”, dinamizada pelo formador Rolando Almeida,
com a duração de 12 horas, a aguardar validação pela DRE, tendo como
destinatários os docentes de todos os grupos de recrutamento.
As inscrições decorrerão online, a partir das 09h00, do dia
17/10, AQUI ou na sede do Centro de Formação do SPM.
Aproveitamos para dar conta da seguinte informação: a 1ª.
prioridade de seleção abrange os sócios do SPM (gratuito) e a 2ª. prioridade de
seleção abrange os não sócios = 15€ (mediante vaga)
A ação de formação terá lugar na sede do SPM – Calçada da
Cabouqueira nº 22, Funchal.
domingo, 16 de outubro de 2016
Cogência
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Algumas vezes surgem confusões ligadas a esta noção da argumentação
filosófica. Um argumento é cogente quando, além de válido e com premissas
verdadeiras, persuade racionalmente, ou seja, é convincente.
A objeção mais habitual é que não faz sentido falar em tal coisa, pois em filosofia não há argumentos cogentes. Claro que há! Um argumento é filosoficamente cogente se as premissas forem mais plausíveis do que a conclusão, isto é, se nos levarem a aceitar uma conclusão que desconhecíamos. Diz-nos a noção de validade que um argumento é dedutivamente válido se em nenhuma das circunstâncias de verdade possíveis as premissas do argumento não possam ser verdadeiras e a conclusão falsa. |
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Eis um exemplo de dedução válida:
Este é um argumento válido e com premissas verdadeiras. Significa isto
que é sólido. Mas facilmente percebemos que a solidez não parece ser uma
noção suficiente, apesar de necessária, para persuadir alguém com um
argumento. Isto porque em filosofia temos premissas muito discutíveis. E,
apesar de serem muito discutíveis, tal não significa que não nos possam fazer
aceitar uma conclusão que, à partida, não estaríamos dispostos a aceitar, não
fossem aquelas premissas. Se as premissas forem mais plausíveis que a
conclusão, acabamos por aceitar uma conclusão que à partida não
defenderíamos. Isto é a cogência.
O exemplo dado não é um exemplo de cogência, pois na cogência o que queremos mostrar é que alguém não pode defender uma tese partindo de determinadas premissas, ou seja, que aquilo que já aceita – as premissas – implica necessariamente a conclusão que não quer aceitar e que nós defendemos. Assim, a definição de cogência é operacional para nos permitir compreender que não desejamos somente argumentos sólidos, mas, além disso, que convençam. Podemos ter argumentos sólidos, mas que não são persuasivamente fortes, necessitando de explicações adicionais para que se tornem convincentes. E daí a cogência. A cogência é igualmente aplicável a argumentos quer dedutivos quer indutivos. Nestes últimos, um argumento cogente não aponta necessariamente para uma conclusão verdadeira, mas é muitíssimo provável que o seja. A cogência vai mais além da mera sintaxe do argumento e é uma noção interessante precisamente quando não sabemos determinar a verdade das proposições. Claro que não precisamos de saber se as premissas de um argumento são verdadeiras ou falsas para saber se é válido. Precisamos apenas de saber que, se as premissas forem verdadeiras em alguma simulação de verdade, a conclusão não poderá ser falsa nessa mesma circunstância. Para saber isso, podemos aplicar um inspetor de circunstâncias.
Mas, ainda assim, temos muitos argumentos perfeitamente válidos que não
são persuasivos. Daí a importância da solidez. O problema é que nem sempre é
fácil determinar a solidez de um argumento, pois nem sempre sabemos da
verdade das premissas. Assim, falamos de cogência do argumento, isto é, da
plausibilidade das premissas para apoiar determinada conclusão.
Publicado originalmente Aqui
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sábado, 15 de outubro de 2016
Filosofia da Religião, em antologia de luxo
Deus está filosoficamente vivo e bem vivo. Que o diga a
filosofia analítica contemporânea que ressuscitou a filosofia da religião com
um vigor nunca antes alcançado. Para muitas pessoas ligadas á filosofia isso é
surpreendente, já que erradamente viam na abordagem analítica pouco mais que
artifício e formalismo técnico de análise da linguagem. A prova de que as
coisas não são bem assim é o volume que aqui apresento. É impressionante a
qualidade intelectual do que se produziu nos últimos 50 anos sobre filosofia da
religião. Filosofia das Religiões, Uma
Antologia, é a tradução da edição de 2003 de Philosophy of Religion, An Anthology, da Blackwell, uma editora com
grande tradição e empenho na edição deste tipo de obras. Aliás, editoras
académicas em regra publicam com alguma regularidade obras do género. Estes volumes
são uma espécie de best of de uma área de estudos, autor ou
problema. São volumes extensos e que compilam textos dispersos, clássicos ou
contemporâneos, mas, no caso da filosofia (e creio que nas outras áreas é o
mesmo) que sejam relevantes no debate contemporâneo. Mas vamos ao interior.
Deparamo-nos com duas pequenas dificuldades na edição portuguesa e que o editor
pode melhorar em futuras edições. A primeira é que o índice vem no final. É um
pouco discutível esta opção, mas num livro tão volumoso (a edição portuguesa é
mais extensa que o original com mais de 800 páginas) e cuja finalidade é em
grande parte a consulta, o índice no início facilita o manuseio e apresenta logo
a tábua dos artigos. A segunda é que a edição portuguesa não apresenta no índice
o nome do autor de cada artigo. Temos de abrir cada artigo na página
correspondente para, aí sim, verificar quem é o autor do artigo. Isto dificulta
bastante, pois a procura de um artigo pode também ser feita pelo autor e, como
está, torna-se bastante menos prática essa busca. Não tenho o original para
comparar, mas, à parte isto e uma pequena introdução dos autores compiladores,
nada mais é apresentado. Creio que aqui segue o original, muito embora todas as
antologias da Blackwell que possuo em língua inglesa apresentam um pequeno Index. Nesta edição portuguesa não
aparece tal Index. Não posso
confirmar se tal aparece na edição original, mas tratando-se de um livro de
estudo e fortemente dirigido a um público académico, este tipo de ferramentas
revela-se quase sempre de enorme utilidade, já que em tanta página os atalhos
facilitam bastante.
O livro é organizado em 8 partes.
Parte 1: A identidade
religiosa
Três artigos a abrir a antologia, que acabam por constituir
uma apresentação do fenómeno religioso. O que faz com que uma crença religiosa
seja religiosa e distinta de outras crenças? Quais as principais crenças
religiosas?
Parte 2: Teísmo e
atributos divinos
Nesta parte, que arranca com um famoso artigo de Richard
Swinburne, “God” (1996), explora-se
as principais características e atributos de Deus, entre outras como, as de omnipotência
e omnisciência.
Parte 3: Explicações de
religião
O início desta parte é empolgante. Em poucas páginas 3
autores disputam a partir de uma parábola, o estatuto da crença religiosa. São eles
Anthony Flew, R. M. Hare e Basil Mitchell. E já que estamos na parte das
explicações da religião ou religiões, então é ocasião para explorar o que tem a
psicologia a dizer sobre o problema. A inclusão desta parte é interessante já
que, na minha opinião pessoal, tornar-se-ia incompleta sem a apresentação desta
abordagem pois parece que a crença religiosa tem uma forte componente
psicológica. É aqui também, como de resto seria de esperar, que Freud é
abordado, em pelo menos 2 artigos. Mas também é nesta parte que se aborda o relevante
problema da ética da crença, com um artigo do já traduzido entre nós, William
Clifford (Ética
da Crença, Org. Desidério Murcho, Bizâncio, 2010). Mas também é nesta
parte que temos a defesa da crença
religiosa como apropriadamente básica, na conhecida formulação de Alvin
Plantinga.
Parte 4: Argumentos
teístas
Nesta parte discute-se a apresentam-se os principais
argumentos de justificação da existência de Deus. A novidade aqui é que são apresentados,
cada um deles, num artigo diferente. Duas entradas para Swinburne e Mackie com
o argumento cosmológico. E, com uma falha da tradução, o argumento teleológico
de David Hume (e não teológico). Ainda são explorados em artigos diferentes, o
ontológico e do desígnio.
Parte 5: Religiões não
teístas
Confesso que é para mim a parte mais estranha, já que não
tenho grande conhecimento nesta matéria e ainda não explorei convenientemente
os artigos aqui incluídos. Mas temos 4 artigos que apresentam perspetivas
budistas, feministas, Darsana, Anviksiki, entre outras. A explorar.
Parte 6: Coisas más e
coisas boas
Como seria de esperar, o problema do mal explorado em 8
artigos. Para citar os mais relevantes encontramos aqui artigos de William Rowe
(do qual já temos traduzida a excelente Introdução
à filosofia da Religião, Verbo, Trad. Vitor Guerreiro), Brian Davies e
Peter Van Inwagen.
Parte 7: Os valores
religiosos
Esta parte pode interessar aos professores do secundário já
que a bibliografia para abordar este tema é, em regra, escassa e difusa, muitas
das vezes mesmo inapropriada à finalidade que se destina. Há aqui, portanto, um
recurso indesculpável. Encontramos os problemas comuns: o problema da
tolerância religiosa, religião e moralidade, pluralismo religioso, etc.
Encontramos também o artigo de Swinburne “A
possibilidade da encarnação” que tem sido divulgado entre nós por Domingos Faria. Espaço ainda também
para a famosa “aposta” de Pascal.
Parte 8: Identidade
Pessoal e morte
Finalmente, um típico problema associado às religiões, o da
morte e dos milagres. Dos 5 artigos incluídos, um é de um dos organizadores
desta antologia, Taliaferro e foi incluído também o texto de David Hume sobre
os milagres, incluído ao seu ensaio de Investigação
Sobre o Entendimento Humano.
Conclusão da análise
A quem se destina esta antologia? Fortemente a estudantes
universitários. Mas também a professores do ensino secundário e ainda a
curiosos que gostem de aprender lendo. Para estes últimos o livro tem a
vantagem de conter artigos de autores experientes numa escrita clara. Para além
disso o mero curioso, leitor sem formação em filosofia, tem aqui uma rica apresentação
do problema do fenómeno religioso, exposto sob muitas variantes.
Como é habitual neste tipo de artigos incluídos em antologias
académicas, no final de cada artigo, em regra, é apresentada não só uma
bibliografia geral, como uma recomendada para aprofundar o tema ou problema apresentado
no artigo.
Uma nota final. Muitas vezes em países academicamente mais
pequenos como Portugal, os problemas da religião são abordados apenas pela
Religião católica e Cristã, o que acaba por afastar o interesse de muitas
pessoas, já que se habituam a associar estes problemas apenas ao interesse das instituições
religiosas. Independentemente do mérito ou desmérito do trabalho dessas
instituições é fundamental perceber que a análise do fenómeno religioso está
muito para além da instituição religiosa. Ele é um tema amplo de estudos
filosóficos e científicos. A publicação e divulgação deste tipo de obras entre
nós (principalmente entre nós) é um bom sinal para arrancar a filosofia desse
espectro e devolvê-la ao exercício crítico que tão bem a caracteriza na busca
da verdade.
Charles Taliaferro e Paul J. Griffiths, Filosofia das Religiões, Uma antologia, Tradução de Luís Couceiro Feio, Editora Piaget, 2006
Esta obra pode ser comprada AQUI
Agradeço à Editora Piaget o envio deste livros para análise e divulgação.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Boas introduções são necessárias
As boas introduções são um bem
maior para entrar num domínio mais sofisticado. Sem elas é muito mais difícil
trilhar caminhos futuros numa aprendizagem. Existem introduções muito
elementares e básicas que servem de mapa para quem deseje, em pouco tempo,
apanhar algumas pontas de uma determinada área. Essas, apesar de essenciais,
muitas das vezes deixam escapar algumas subtilezas básicas sem as quais não se
chega a compreender verdadeiramente a relevância de uma aprendizagem. Mas existem
introduções que são um pouco mais sofisticadas sem deixar de lado esse caráter
introdutório. Tanto servem aos neófitos como a estudantes, professores ou até
estudantes de cursos universitários. É nesta última categoria que se insere a
introdução de Stephen Hetherington, Realidade
e Conhecimento, Uma Introdução à Metafísica e à Epistemologia, publicado
pela Piaget e traduzido por Jorge
Pinheiro no ano de 2007, sendo a tradução do original datado de 2003.
Hetherington é um filósofo australiano. A Austrália é um bom país para a
filosofia. Da última leva destaco relevantes filósofos como Peter Singer, David
Oderberg ou David Chalmers e, claro, o próprio autor aqui destacado. Logo no
título do livro vemos um pequeno apontamento na tradução, já que no original o
título começa por ser qualquer coisa como: Reality?
Knowledge? Philosophy!. E a pontuação, omitida na tradução portuguesa, não
estará lá por acaso. Pesquisei e notei que o tradutor espanhol também não foi
de todo fiel ao original. Felizmente este apontamento não prejudica, segundo a
minha opinião, o conteúdo que se segue. Na verdade, tanto a metafísica como a
epistemologia são já territórios filosóficos bastante amplos. Claro que vamos
encontrar problemas relacionados com a filosofia moral ou o sentido da
existência. Aqui são tratados pelo autor nos seus aspetos metafísicos mais
gerais, bem como nas relações de proximidade com a filosofia do conhecimento
que tomo como sinónimo de epistemologia.
O livro está organizado em 12
capítulos e como quase todas as introduções à filosofia, podem ser lidos ou
consultados em separado, de acordo com os interesses e curiosidade do leitor. Além
disso, como acontece em todas as boas introduções, está organizado como um
manual de aprendizagem com pequenos questionários nos finais de capítulos e
subcapítulos. Esses questionários são bastante úteis para estimular as
aprendizagens. Para além disso, em todos os capítulos é apresentada uma
bibliografia que funciona como atalho para uma exploração mais aprofundada.
Todos os capítulos apresentam
várias teorias, por vezes bastante opostas, como ensaios de resposta aos
problemas propostos.
Um pequeno itinerário do livro:
Capitulo I: a aprendizagem começa pelo famoso problema da
conservação da identidade pessoal ao longo do tempo. O que é que faz com que
uma pessoa seja a mesma ao longo do tempo? Que propriedades são constituintes
dessa identidade?
Capitulo II: apresenta o problema do livre arbítrio. Como é que num
universo causalmente determinado e explicado racionalmente pela causalidade,
podemos afirmar que a nossa liberdade individual escapa a essa causalidade? Se
escapa então pelo menos a nossa liberdade não está sujeita ao determinismo
causal e se não escapa, então a liberdade individual não passa de uma ilusão da
mente. E nesse caso, levantam-se outros e relevantes problemas, como o da
responsabilidade individual pelas ações.
Capítulo III: neste capítulo é abordado mais um problema de
compatibilidade, neste caso, entre a existência de um Deus sumamente bom e com
poderes ilimitados e um mundo criado por Ele onde existe mal. Como resolver
esta aparente incompatibilidade? A passagem de Sócrates, no seu diálogo com
Eutifron, não escapa à análise do problema proposta por Hetherington.
Capítulo IV: O problema do sentido da existência? O que é que
confere sentido à nossa existência? Propõe-se um encontro com as passagens mais
clássicas para análise do problema, deste o mito de Sísifo até à máquina de
experiências de Nozick.
Capítulo V: poderá a morte constituir uma ameaça assustadora ao
sentido da vida? Como lidar com a finitude? Neste capítulo são explorados
argumentos de autores contemporâneos como Jeff McMahan ou Thomas Nagel, mas
também os clássicos Epicuro e Lucrecio.
Capítulo VI: como é que duas mesas brancas partilham de uma mesma
propriedade como a brancura? Será que a “brancura” partilhada é uma propriedade
independente dos objetos? Ou pertence aos objetos enquanto sua propriedade? Como
definir o que é uma propriedade se tal for sequer possível? Existem propriedades
que definam, por exemplo, o que é ser uma pessoa?
Capítulo VII: A toda a hora falamos em verdade por oposição a
falsidade. Mas como é que é possível falar em tal coisa? O que é que
caracteriza a verdade? Se houver múltiplos conceitos de verdade, então parece
ser impreciso falar de tal coisa. Mas pelo contrário, se o conceito não é múltiplo,
então o que o caracteriza? São aqui analisadas algumas das mais recentes
teorias, de uma forma geral, mas correta e filosoficamente robusta, entre as
quais, a teoria coerentista da verdade e a teoria da verdade como
correspondência.
Capítulo VIII: quais são os critérios que nos permite defender que
uma teoria está mais bem fundamentada que uma outra teoria rival? Um gato passa
no outro lado da rua. Maria, que tem algumas dificuldades de visão e até
cognitivas, mas não tem noção disso, formula a crença de que um gato passou no
outro lado da rua. Joana, que tem uma visão e perceção sensorial apurada, mesmo
que não saiba disso, vê um gato passar no outro lado da rua. Ambas têm a mesma
crença. Mas como é que podemos confiar que uma crença é mais conhecimento que
outra? Temos boas razões para confiar mais na crença de Joana do que na crença
de Maria se as suas crenças fossem diferentes? Esta relação da confiança no
conhecimento verdadeiro é explorada neste capítulo.
Capítulo IX: O que é que está na base do conhecimento? Isto é, o
que é que fundamenta o conhecimento? Será que ao desejarmos explicar x entramos
num movimento de regressão infinita de explicações? Neste capítulo, claramente
debruçado sobre epistemologia, são analisados textos clássicos de Platão e
Gettier.
Capítulo X: sabemos coisas porque as percecionamos sensorialmente.
Mas a perceção sensorial é suficiente para um conhecimento sólido? O empirismo
e David Hume em forte análise neste capítulo.
Capítulo XI: Depois do empirismo, o racionalismo. Será o
conhecimento de verdades racionais, como as matemáticas, o fundamento de todo o
conhecimento? Como é que é que podemos saber apenas pelo raciocínio
determinadas verdades? Será fiável?
Capítulo XII: Depois da análise do empirismo e do racionalismo, faz
todo o sentido a exploração do ceticismo. Neste capítulo explora-se a fase cética
de Descartes e o ceticismo de Hume, assim como as várias respostas mais
conhecidas ao ceticismo e à possibilidade do conhecimento.
Quem quer que inicie o estudo de
filosofia por este livro considere-se com sorte. O livro apresenta os problemas
tal qual eles são hoje em dia explorados e na melhor tradição da boa filosofia,
é escrito de uma forma muito clara, sem perder o norte do rigor que a filosofia
exige.
Não recomendo este livro para
estudantes do ensino secundário. Mas é altamente recomendável para professores
de filosofia do ensino secundário. Isto porque por um lado muitos dos problemas
coincidem com o programa ministrado no ensino em Portugal e depois porque podem
aproveitar muitos exemplos e partes do livro para explorar nas aulas, uma vez
que está engenhosamente bem escrito e apresenta exemplos muito interessantes
para os alunos. Seleciono apenas uma pequena passagem que pode ser aproveitada
para apresentar o problema do livre arbítrio nas aulas:
Cap. II:
“imagine-se que uma pedra parte a nossa janela. Que mais deve incluir
esta história? Dada a forma do mundo físico, assim que a pedra se aproximou, a
janela não teve hipóteses de sobreviver intacta: o seu estilhaçamento foi
provocado pelo impacte da pedra. Assim, em alguma fase da história do mundo, a
fractura da janela tornou-se inevitável. Isso foi assim apenas quando a chegada
da pedra se tornou iminente? Ou, cem anos antes, o mundo já estava a caminhar
inexoravelmente para esse momento em que a dita pedra partiu a janela? Algures
no passado, algo ocorreu para que sucedesse a morte da janela.”
p. 31
Ou, no Cap. IX
“Se não sabemos em que consiste o conhecimento, talvez não saibamos
qual das nossas opiniões é conhecimento. Um ponto de vista não é conhecimento apenas
por ser opinião de alguém. Nem todas as opiniões pessoais profundas são
conhecimento; e ser-se culturalmente respeitado não é garantia da opinião de
alguém ser conhecimento. Nem uma opinião é conhecimento apenas porque queremos
que seja ou porque acreditamos ou afirmamos que é. Nem todos os pontos de vista
são especialmente conhecíveis. Que garantia temos de o nosso ponto de vista
pessoal ser bom nesse aspecto?”
p. 135
Qualquer uma destas passagens é
muito útil para, numa aula, lançar os problemas. Claro que dependendo das
opções de cada professor, depois pode-se selecionar alguns pontos das teorias e
argumentos dos filósofos que exploram ensaios de resposta aos problemas.
Hoje em dia temos no mercado
português boas introduções. Deixo apenas a recomendação à Piaget que continue a
publicar estes livros tão bem-vindos ao público de língua portuguesa. Sem este
tipo de obras disponíveis, o acesso ao conhecimento é muitíssimo mais limitado.
Agradeço à Editora Piaget que
gentilmente enviou este livro para a minha apreciação.
Para comprar o livro: AQUI
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Ao aluno
Os adultos
pensam que cada mudança geral da vossa vida deve ser acompanhada por uma
mudança de ciclo de estudos. Sabemos bem que os adultos nunca vos perguntaram
se se sentem bem com essa mudança. Temos de admitir que talvez os adultos
tenham algumas boas razões para vos propor uma mudança de ciclo nos estudos, o
que implica também uma mudança nas vossas vidas. A mudança de ciclo na qual vos
aparece a filosofia é a do ensino básico para o ensino secundário. Os adultos
agora pedem-vos que comecem a desligar-se da vossa infância e que comecem a
pensar exatamente as mesmas coisas que até aqui pensaram, mas com outras
disposições. As disposições da filosofia aparecem agora na vossa vida. Este salto
soa-vos quase sempre estranho. É a vossa entrada no mundo das pessoas maduras,
a maturidade do saber. A partir de agora os vossos professores vão esperar de
vós, que tenhais opiniões políticas, estéticas, morais ou científicas da vida e
do mundo que vos rodeia. Claro que em termos psicológicos nem todos vós estais
munidos da mesma disposição para este desafio. Por isso mesmo a filosofia pode
funcionar nas vossas vidas como um despertador. Uma coisa parece ser mais ou
menos certa: quando acordarem vão gostar. Faz parte do crescer. E é para isso
que nós, professores, aparecemos nas vossas vidas. Quem se apaixonar pelo que a
vossa própria biologia vos oferece, a possibilidade de pensar, vai gostar da
aventura.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Viver a aula de filosofia como no primeiro dia
No primeiro
dia de aulas entro na sala com uma enorme expetativa. Quem são os meus colegas?
Quem é o meu ou minha professor(a)? O que vou aprender em filosofia? Há
uns 2 ou 3 anos iniciei assim o ano na primeira aula: Ouvi com os alunos esta composição da
rapper do Porto, Capicua. E a lição é esta: na filosofia, para aprender bem, eu
quero que todas as aulas sejam como a do primeiro dia. Cheias de expetativa! O
que vai acontecer? Que respostas dou aos problemas que me são colocados? Será
que quando sair da aula ainda penso as mesmas coisas que pensava quando entrei?
Bom ano a todos.
domingo, 18 de setembro de 2016
Novo ano letivo - 2016-17
Dou as boas vindas a este blogue aos alunos das turmas 4,6,
31 e 32 do 10º ano da Escola Secundária Jaime Moniz. Aqui podem encontrar
informações, sugestões, esclarecimento de dúvidas, listas de materiais para
estudo e livros ou links adequados para estudo bem como informações relativas
ao Exame Nacional de Filosofia. Espero que tenham um bom ano e que cheguem a
gostar tanto de filosofia como eu gosto. Bom ano a todos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Desidério Murcho, Todos os sonhos do mundo, 2016
Um livro de filosofia que atravessa áreas como epistemologia,
moralidade, ciência, religião e metafísica. Pode funcionar como uma introdução
à filosofia, mas é um pouco mais que isso já que leva a marca do autor em cada
tese defendida. Para os leitores familiarizados com a filosofia escusado será
indicar o interesse. Para o leitor menos habituado a lidar com a filosofia,
este livro tem um poder decisivo, o de desfazer eventuais confusões entre
aquilo que pensa que pode ser a verdade e a verdade. Atenção que não resolve
qualquer problema mais imediato relacionado com a verdade, nem possui, enquanto
livro de filosofia, essa intenção. A ideia aqui é apenas uma: mostrar como as
questões funcionam quando queremos raciocinar ou pensar criticamente. E sabendo
como elas funcionam, claro está, dispomo-nos a argumentar com maior rigor as
nossas posições.
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