Disse aos meus alunos que iria postar (principalmente após as
aulas) alguns objectos artísticos que vale a pena conhecer (dado que notei em
alguns alunos muitas ausências de referências artísticas ao leccionar a
filosofia da arte). Começo com uma sugestão levezinha. Os Sigur Rós são uma
banda de rapazes que, tal como nós, vivem numa ilha. A ilha deles é um país e
também tem vivido recentemente a mesma crise económica que nós estamos a passar.
É uma ilha que é um país. Um país com muito gelo, a Islândia (Iceland, a terra
do gelo). A capital deste país chama-se Reykjavík e tem menos habitantes que a
cidade do Funchal, onde fica a nossa escola. A música dos Sigur Rós é gelada
como o país onde nasceu. Mas ao mesmo tempo revela-nos uma agradável sensação
de conforto, uma beleza ternurenta. Vale a pena conhecer. Deixo um vídeo e a
capa do disco que recomendo.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Manualidades e propostas de correcção
Hoje dediquei algum tempo a mais um manual de filosofia para
o 10º ano. Trata-se, na minha opinião, de um manual confuso e fraco. Entre
outras coisas, sintetizo aqui algumas ideias que merecem correcção.
1.
Afirma
que “a filosofia e ciência se distinguem
pelo método seguido, pela linguagem utilizada e pela natureza das perguntas que
coloca.”
A primeira nota que faço é que o manual não apresenta
qualquer proposta de método da filosofia, indicando somente uns métodos
genéricos para estudar filosofia que também se pode aplicar a qualquer outra
disciplina. Ora, de que vale num manual de filosofia elaborar um guia de
estudo?
Mas o que há de errado na afirmação? Ora bem, um cientista
também argumenta, também problematiza e conceptualiza. Tal não é exclusivo da
filosofia. Se queremos apontar uma diferença entre ciência e filosofia é
didacticamente mais rigoroso explicar que ao passo que a ciência, em geral, tem
a possibilidade de apresentar resultados da sua investigação, tal não acontece
em filosofia para a qual os problemas estão continuamente em aberto. Dizer que
a filosofia se distingue da ciência por recorrer ao método racional e
argumentativo é vago, pois tais capacidades são igualmente exploradas na
biologia ou na física.
2. “São dedutivos os
argumentos válidos em que é impossível as premissas serem verdadeiras e a
conclusão falsa. Infere-se de duas ou mais premissas gerais uma conclusão menos
geral”
Há aqui pelo menos dois erros. Primeiro um argumento dedutivo
pode ter perfeitamente uma só premissa. Aliás, tem de ter no mínimo uma
premissa. Depois porque um argumento dedutivo não tem de partir de premissas
gerais para uma conclusão menos geral.
Exemplo de um argumento dedutivo, que é válido e não tem
premissa mais geral que a conclusão.
|
A Joana é do
Benfica e o Luís do Sporting
Logo, a Joana é do
Benfica
|
3. Afirma-se no manual, após se ter apresentado um silogismo,
que “O argumento é indutivo porque parte
de premissas particulares para inferir uma proposição universal”
Vejamos agora o seguinte exemplo de uma indução por previsão
bastante conhecida:
|
Todos os dias o
sol nasceu
Logo, amanhã o sol
vai nascer
|
Neste exemplo de indução vê-se bem que a premissa é universal
ao passo que a conclusão não o é.
O manual faz ainda uma distinção pouco certa entre senso
comum e filosofia, mas a certa altura refere: “problematizar é identificar e formular um problema filosófico contido
numa experiência”. Uma experiência de senso comum, acrescento eu. Mais
tarde, nas outras unidades, o manual sugere muitas vezes o recurso ao senso
comum para abordagem aos problemas.
No manual levanta-se uma questão: “o que distingue, então, a filosofia dos restantes saberes?”
E dá como resposta que “a
filosofia formula questões mais gerais e fundamentais acerca do pensamento, da
natureza e da sociedade.” Logo de seguida para exemplificar uma ciência
particular dá o exemplo da física. Acontece que a física faz questões muito
gerais e fundamentais, como a questão da origem do universo, da teoria de tudo,
teoria das cordas, etc.. e a física não se confunde, no entanto, com filosofia.
Isto acontece porque a filosofia não se distingue da física por fazer questões
mais gerais, mas porque por suposto os problemas da física terão uma resposta
testável empiricamente, ainda que tal resposta possa estar suspensa para muitas
das suas questões que são, ora mais ora menos gerais ou fundamentais que as da
filosofia. Também me parece vago afirmar que a filosofia faz questões fundamentais
sobre a sociedade. Certamente algumas áreas podem ter maior relação com alguns
aspectos da sociedade, como o caso dos problemas da filosofia política
abordados no 10º ano. Só que as questões não são mais fundamentais sobre a
sociedade do que muitas questões colocadas pelos sociólogos, por exemplo.
Finalmente, o manual refere como características da filosofia
a autonomia, a universalidade, a radicalidade e historicidade. Para o professor
que queira brincar um pouco aos manuais, pode sempre colocar esta questão: será
que a biologia não possui a sua autonomia, a sua universalidade, a sua
radicalidade e a sua historicidade? Facilmente se percebe que sim. Nesse caso
estas características não são específicas da filosofia.
Li muitas afirmações incoerentes. Ocorre-me uma em que se
afirma que o no senso comum prevalece a crença e a opinião. Que é acrítico e
subjectivo. Ora, tirando o “acrítico”, todas as outras características estão
presentes na filosofia. Primeiro porque a filosofia, tal como qualquer saber (e
não apenas o senso comum) se faz de crenças iniciais. Segundo porque qualquer
filosofia tem aspectos relacionados com a opinião dos filósofos. E também
porque a filosofia envolve muitas vezes mais subjectividade que objectividade. Basicamente
são distinções indistintas e que nada servem ao estudante para compreender o
que é a filosofia.
Como tenho insistido escrever bons manuais não é fácil. Não basta
escrever. É preciso também ser muito rigoroso. E a melhor forma de ser rigoroso
é ser claro. Para ser claro é preciso saber. Avaliar a qualidade da escrita de
um manual é importante por isto mesmo.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
sábado, 4 de maio de 2013
Termos menor, maior e comentários anónimos
Em relação ao post anterior, um pequeno esclarecimento: O
termo menor é por definição o termo sujeito da conclusão. E o termo menor só
pode aparecer numa das premissas, que por definição é a premissa menor. Mas a
premissa menor tanto pode ser a primeira como a segunda premissa.
Assim, basta mudar a ordem das premissas do silogismo dado e
o exemplo servirá perfeitamente para esclarecer o que pretendi esclarecer.
Todas as divindades
são imortais
Nenhum mortal é
imortal
Logo, nenhum mortal é
uma divindade
É uma confusão muito
comum, pensar que a premissa menor tem de ser a segunda. Não tem. A ordem das
premissas é irrelevante. E o que define uma premissa como menor ou maior não é
o facto de ser a primeira ou a segunda, mas antes o facto de ter ou não o termo
menor. E o termo menor é por definição o termo sujeito da conclusão.
O que define a
premissa como menor é o facto de conter o termo menor.
Espero ao mesmo tempo
ter esclarecido os comentadores anónimos.
Manuais 3
Haverá livros de filosofia ou de ciência sem erros? Haverá livros
de história sem erros? Creio que a esmagadora maioria dos livros contêm erros. Os
erros fazem parte da construção de uma obra. O que talvez possa ser apontado
como defeito não é propriamente o erro que se comete, mas o facto de não se ter
pensado muito bem no que se está a escrever e a tentar explicar. É a mesma
coisa com a construção das casas em que habitamos: todas têm os seus defeitos,
mas numas notamos que as coisas foram feitas sem grande precisão ou cuidado e
rigor.
Estava a ler um pouco de um manual para o 10º ano e reparei
que o mesmo afirma que o método das ciências naturais é a verificação. Não é. Basta
pensar no que ensinamos de Popper para compreender que não é. Assim, de
repente, ocorre-me citar parte da introdução do livro de divulgação científica
(o próprio autor assim o classifica) do matemático português Jorge Buescu, O mistério do Bilhete de Identidade e Outras
Histórias, Crónicas das fronteiras da ciência (Gradiva,3003):
Assim, nunca se pode provar nem afirmar que uma teoria científica é verdadeira. Quando muito, pode provar-se que é falsa – se se realizar um teste cujos resultados sejam contrários às suas previsões. P. 13
O que isto quer dizer é que a verificação empírica não é
critério algum de cientificidade de uma teoria. Penso que os autores o que têm
em mente é dizer que o método das ciências naturais é a experimentação e não a
verificação, que são coisas diferentes pois quando o cientista experimenta não
está a verificar nada, está só na tentativa de detectar erros na teoria para
ver até que ponto ela resiste ou não aos testes que está a submeter a teoria. Seria
praticamente impossível verificar totalmente uma teoria científica. Pelo menos
desde David Hume que este problema começou a ser resolvido. Trata-se de um
aspecto que deveria ser corrigido. E certamente desde Popper que a ciência não
opera por verificação. O método científico é hipotético dedutivo e não
verificacionista. Para ser mais rigoroso, o método científico é
falsificacionista. E mesmo que seja discutível que seja falsificacionista (afinal,
Popper pode estar errado), não é certamente verificacionista.
Mais adiante encontrei uma afirmação que me parece estar
envolvida em confusão:
“já vimos que os argumentos são constituídos por proposições e estas por termos. Os termos, enquanto expressam conceitos, não devem em si reunir elementos contraditórios. É essa a regra que lhes preside. Devem sempre referir-se ao campo do possível. Uma vez que não afirmam nem negam, os termos não podem ser considerados verdadeiros nem falsos”.
Parece que os autores estão a pensar que só existe lógica
proposicional e que as proposições são constituídas apenas por termos. Ora ambas
as ideias são falsas. Por um lado é verdade que na lógica aristotélica as
proposições incluem termos (maior, menor e médio), mas não são constituídas
apenas por termos, como parece sugerir a passagem. Na lógica aristotélica as
proposições incluem a cópula que tem um papel fundamental. A estrutura de uma
proposição na lógica aristotélica é “S é P” em que S é sujeito, P o predicado e
são unidos pela cópula “é”. Mas ainda assim não podemos afirmar de todo que a
estrutura de uma proposição na lógica aristotélica se esgota aqui, pois pode
ainda incluir uma negação.
Também não se vê com clareza a razão pela qual não pode
incluir termos contraditórios. Só as proposições podem ser contraditórias. Tentemos
ver melhor com um exemplo:
Nenhum mortal é
imortal
Todas as divindades
são imortais
Logo, nenhum mortal é
uma divindade
Considerando que este silogismo é válido, acontece que tem 2
termos contraditórios, “mortal” e “imortal”. A passagem não me é de todo clara,
mas atenção pois se é isto que se tem mente, então não pode estar certa.
Quando se diz na passagem que os termos se devem referir
sempre ao possível, também não é claro ao que se refere. Talvez seja impossível
que existam seres imortais.
Um outro aspecto que me parece de corrigir é que se aborda
muitas vezes conteúdos da lógica proposicional, mas os exemplos dados remetem
imediatamente para a lógica aristotélica. É muito mais simples para os alunos do
10º iniciar com proposições simples:
P – a neve é branca
Q – o céu azul
A neve é branca e o
céu azul
Logo, a neve é branca
Facilmente se compreende que se a premissa for verdadeira, a
conclusão também o é. E se a premissa for falsa, a conclusão também o é. E não
se dá o caso da premissa ser verdadeira e ser possível a falsidade da
conclusão. Didacticamente é muitíssimo mais fácil para o aluno compreender a
noção de validade com exemplos destes do que a apresentar com silogismos, ainda
que não seja de modo algum errado apresentar a noção de validade com um
silogismo. Acontece que muito raramente o aluno vai analisar os textos
silogisticamente, pela simples razão que raramente pensamos silogisticamente. No
10º ano, a minha sugestão é que se usem proposições aristotélicas, apenas para
ensinar a negar proposições quantificadas, o que ocorre nos textos mais vezes. Claro,
não esquecendo a negação das condicionais, que também ocorrem com bastante frequência
nos argumentos, já que a maioria dos argumentos lida com hipóteses. Didacticamente
as proposições simples e compostas traduzíveis na lógica proposicional torna
mais simples a aplicação das noções iniciais nas unidades seguintes.
Que seja claro: inventou-se a lógica proposicional precisamente para ter maior ampliação da sua aplicação. Se ela é muitíssimo mais ampla que a sua mãe, a lógica aristotélica, então não temos grandes razões para fazer da lógica aristotélica o padrão de análise de argumentos. e se não tencionamos usar mais a lógica nas unidades seguintes, então não vale a pena gastar tempo a ensiná-la, pois os alunos vão ficar exactamente com a mesma ideia que muitos professores ainda tem da lógica: que ela aplicada à filosofia é estéril. E essa ideia não me parece possuir qualquer vantagem para o ensino da filosofia.
Que seja claro: inventou-se a lógica proposicional precisamente para ter maior ampliação da sua aplicação. Se ela é muitíssimo mais ampla que a sua mãe, a lógica aristotélica, então não temos grandes razões para fazer da lógica aristotélica o padrão de análise de argumentos. e se não tencionamos usar mais a lógica nas unidades seguintes, então não vale a pena gastar tempo a ensiná-la, pois os alunos vão ficar exactamente com a mesma ideia que muitos professores ainda tem da lógica: que ela aplicada à filosofia é estéril. E essa ideia não me parece possuir qualquer vantagem para o ensino da filosofia.
Finalmente uma sugestão: é didacticamente desajustado quando
estamos a falar de juízo e proposição indiferenciadamente. Claro que para nós,
professores, não há grandes problemas. Mas há problemas de compreensão para um
aluno de 15 anos já que é imediatamente conduzido a pensar que se está a falar
de coisas diferentes. E depois porque os alunos mais jovens tem muita
dificuldade em perceber por que se está constantemente a usar palavras
diferentes para nos referirmos ao mesmo. É uma questão didáctica e é por isso
que não é fácil escrever para jovens, mas este aspecto deve ser corrigido:
1)
Ou
estamos a falar de coisas diferentes e esclarecemos cada uma delas com clareza
2)
Se
estamos a falar do mesmo referente não há qualquer necessidade de uma vez
aparecer como proposição, outra como juízo
Outro aspecto que observo em alguns manuais, não só neste que
aqui me refiro. Não me parece de todo obrigatório expor as objecções às teorias
apresentadas. Mas se entendermos que o manual é o livro que o aluno vai usar
para entrar na filosofia, questiono-me se não é relevante didacticamente fazer
a sua exposição? Na minha opinião, é. E as objecções são tão relevantes quanto
as teorias expostas. Se é um método recorrer á exposição das objecções, deveria
ocorrer ao longo de todo o manual, oferecendo-lhe maior consistência. Ora, em
alguns manuais, elas só ocasionalmente aparecem. Em algumas unidades aparecem
umas pequenas objecções, noutras o método é meramente expositivo. A aprendizagem
requer a interiorização de método e de persistência no método. Não faz sentido
que o manual desoriente o aluno no seu estudo particular.
E já agora, por que razão escolhi a foto que acompanha este post?
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Razões de Ser
Já tenho em mãos o Razões
de Ser (Porto Editora). Como já esperava da parte dos autores e pelo
trabalho que deles conheço, trata-se efectivamente de um bom manual de
filosofia. Tal como foi destacado hoje ao fim da tarde na apresentação do
manual, há nele uma preocupação enorme na clareza com que se expõem os
conteúdos aos alunos. Sobretudo o manual é consistente no modo como apresenta a
filosofia aos alunos, tem um método inicial que é continuado e remete sempre
para as análises dos problemas a estudar. Além disso, a selecção de textos é criteriosa
já que primam pela discussão dos problemas que levantam em sala de aula.
Uma nota que tenho observado em alguns projectos (que não
este que aqui falo) de manuais. Parece que longe vai o tempo em que se rotulava
manuais como o Arte de Pensar como analíticos.
Nesta nova leva de manuais é notória na maioria deles (falta-me conhecer uns 2,
creio) a influência do Arte de Pensar. Mesmo com o
descaramento da literal cópia em alguns momentos, ainda bem que assim é, pois
lentamente deixa-se para trás os rótulos e os autores, bem como editores,
passaram a reconhecer as potencialidades do manual A Arte de Pensar
(primeira edição de 2003). O maior problema é que alguns manuais ficaram ainda
mais confusos, pois resultam de um híbrido entre o trabalho já feito e a
novidade que foi observada primariamente no Arte de Pensar. Na minha opinião,
é uma lenta reforma saudável. Faço aqui um reconhecimento aos autores que
compreenderam as potencialidades didácticas de concentrar o ensino da filosofia
numa abordagem que prima pelo rigor e pela clareza.
É sempre interessante reflectir como as melhores mudanças
nunca nos chegam de cima, do poder político, mas de baixo, das pessoas que
conhecem a realidade com que trabalham e que o fazem de forma séria e rigorosa.
Hoje todos os editores tem o seu Arte e, alguns deles, com personalidade própria,
como são os casos do Filosofia
10 (Santillana), Diálogos
(Texto Editora) ou este Razões de Ser (Porto Editora). Não hesito em pensar que
o Arte de Pensar foi a mais relevante reforma no ensino da filosofia dos
últimos anos, razão pela qual criou tantas resistências à mudança (e ainda
cria, pois).
Paula Mateus e Pedro Galvão estiveram na origem do Arte de Pensar e foram ambos autores do Arte.
Paula Mateus e Pedro Galvão estiveram na origem do Arte de Pensar e foram ambos autores do Arte.
António Lopes, Pedro Galvão, Paula Mateus, Razões
de Ser, Porto Editora (2013)
Nota: alguns colegas perguntam como costumo fazer para analisar os manuais. Escrevi 2 posts com recomendações (um pouco pessoais, é certo) para a análise de manuais (aqui e aqui). para este post o que fiz foi ler 2 capítulos do Razões de Ser, bem como 2 capítulos do outro projecto do mesmo editor. Entre os manuais que considero melhores vou comparando algumas unidades. Por exemplo, esta semana estive cerca de 1 hora a comparar a filosofia da religião no 50 Lições de filosofia (uma proposta que me parece realmente nova e interessante do ponto de vista didáctico) e no Diálogos. Ambos me pareceram bons, com enquadramentos diferentes, sendo que no 50 Lições a unidade é de longe mais acessível que a mesma unidade no Diálogos.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Mais filosofia no verão - no Porto
No
seguimento das actividades filosóficas promovidas pelas universidades, aqui se
apresenta mais uma, desta feita no Porto. Em tempo de crise é um modo barato de
aproveitar bem alguns dias de férias. Mais
informações AQUI.
Escola de Verão - Filosofia da Ciência
É de iniciativas
como a que aqui apresento que a filosofia precisa. Divulga a filosofia e leva-a
junto das pessoas. Vale mesmo a pena. É assim que a s universidades podem e devem cooperar com o ensino secundário. É também assim, com trabalho aturado e paciente que se cativa os mais jovens para o saber fascinante que é a filosofia. Mais informações AQUI.
Olimpíadas Nacionais de Filosofia
A PROSOFOS -
Associação para a Promoção da Filosofia, tem como objetivo essencial promover
atividades de valorização da Filosofia no Ensino Secundário junto das entidades
públicas e privadas nacionais, bem como junto do público interessado,
nomeadamente através de:
- Realização de Olimpíadas Nacionais
de Filosofia (ONF);
-
Promoção de palestras, encontros, colóquios, pareceres e outras atividades que
sejam aprovadas pelos órgãos sociais da PROSOFOS.
Esta foto é dos vencedores deste ano. É dignificante para a
disciplina de filosofia e é importante a promoção deste prémio.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
A filosofia não se reduz à lógica
A questão levantada neste post não é, sequer, uma questão
debatida entre os filósofos, uma vez que se trata de uma falsa questão. Ainda
assim, é uma questão que surge algumas vezes entre quem ensina filosofia no
ensino secundário.
Praticamente todos os filósofos ou criaram o seu sistema lógico,
ou usaram algum sistema lógico, desde Aristóteles, Leibniz, Heidegger, Husserl
ou Plantinga. Claro que nem todos desenvolveram a lógica como Aristótles, Frege
ou Kripke, mas todos, sem excepção, utilizaram conhecimentos de lógica para
desenvolverem os seus sistemas filosóficos.
É uma falsa questão pois a filosofia não foi nunca reduzida à
lógica, nem pelos filósofos, nem nos manuais de filosofia. Há certamente muitos
modos de expressão filosófica já que a filosofia expressa-se na linguagem
usada. E a linguagem é sujeita a múltiplos factores que não só a lógica. Assim,
só mesmo o estudo da lógica se reduz à lógica e somente os estudos dos lógicos
estão reduzidos (pelo menos de uma forma explícita) à lógica.
Uma parte significativa da obra de Aristóteles é de lógica.
Será que Aristóteles reduziu a sua filosofia à lógica?
Outra questão que quem defende esta falsa ideia tem de
responder é a seguinte: mesmo que fosse verdade que a filosofia se reduz à
lógica, que alternativa é proposta? A que é que a filosofia se deve reduzir? Ou
não se deve reduzir a nada e tudo vale? Se fosse verdade que a filosofia não
tem de ter qualquer restrição intelectual (considerando erradamente que a
lógica restringe intelectualmente) e que qualquer metodologia pode ser
filosófica, então, temos de aceitar que uma filosofia que fosse reduzida à
lógica (e não existe tal coisa) seria tão filosófica como uma filosofia que não
se reduzisse à lógica para se reduzir a qualquer outra coisa.
O erro da proposição “a filosofia não se deve reduzir à
lógica” percebe-se quando questionamos quem defende esta ideia, sobre então a
que se deve reduzir a filosofia. Em regra a resposta (quando há) é vaga e pouco
dignificante da filosofia. Isto acontece porque na base a afirmação é errada.
A explicação
A lógica é usada filosoficamente (pelo menos desde
Aristóteles) para ampliar intelectualmente a capacidade da argumentação
filosófica. Tal como um biólogo usa o microscópio. Pode-se fazer investigação
em biologia sem o microscópio? Creio que não falharei se afirmar que sim, que
pode. E pode até chegar-se a insights
brilhantes fazendo biologia sem recorrer ao microscópio. Daí não se segue que
quem usa o microscópio esteja a reduzir a biologia ao microscópio. Tal seria
como pensar que quando se vai para uma aula de biologia se vai estudar o
microscópio, que ele seja o objecto de estudo da biologia. Claro que isto seria
um disparate. Mas não será em lugar algum disparatado se o microscópio for
usado para ajudar os estudantes a ver melhor a realidade da vida e dos
organismos observados. Ajuda? Quem o nega?
Assim, quem afirma que “a
filosofia não se reduz à lógica” não está a dizer nada de novo. Seria
como dizer que “ a biologia não se reduz ao microscópio”. Sim, qualquer biólogo
e estudante atento compreende isso sem grande esforço. Mas também não se reduz
aos tubos de ensaio, nem à classificação das espécies ou organismos, etc… mas
não falamos certamente de biologia se não soubermos usar todas essas
ferramentas em laboratório.
Em igual modo, a filosofia não se reduz nem à lógica, nem à língua
francesa, inglesa ou alemã, nem ao facto de se ser homem ou mulher, ou de se
pertencer à universidade X ou Y. Com efeito ninguém pode negar que é necessário
saber lógica para compreender bem filosofia, que é necessário saber ler em
inglês para saber ler o que se vai publicando na filosofia mais avançada que se
faz nos nossos dias e que é preciso ter a sorte de frequentar uma boa
universidade para ter uma boa formação em filosofia.
E já agora: a matemática também não se reduz aos números. Para
se saber fazer matemática são necessárias outras condições, como saber
raciocinar e calcular, ter saúde, etc… pode-se ensinar matemática sem números?
Na minha opinião, sim. No entanto, os números parecem ser uma linguagem
adequada para ensinar a raciocinar matematicamente.
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