quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sigur Rós na filosofia da arte


Disse aos meus alunos que iria postar (principalmente após as aulas) alguns objectos artísticos que vale a pena conhecer (dado que notei em alguns alunos muitas ausências de referências artísticas ao leccionar a filosofia da arte). Começo com uma sugestão levezinha. Os Sigur Rós são uma banda de rapazes que, tal como nós, vivem numa ilha. A ilha deles é um país e também tem vivido recentemente a mesma crise económica que nós estamos a passar. É uma ilha que é um país. Um país com muito gelo, a Islândia (Iceland, a terra do gelo). A capital deste país chama-se Reykjavík e tem menos habitantes que a cidade do Funchal, onde fica a nossa escola. A música dos Sigur Rós é gelada como o país onde nasceu. Mas ao mesmo tempo revela-nos uma agradável sensação de conforto, uma beleza ternurenta. Vale a pena conhecer. Deixo um vídeo e a capa do disco que recomendo. 






terça-feira, 7 de maio de 2013

Manualidades e propostas de correcção


Hoje dediquei algum tempo a mais um manual de filosofia para o 10º ano. Trata-se, na minha opinião, de um manual confuso e fraco. Entre outras coisas, sintetizo aqui algumas ideias que merecem correcção.

1.      Afirma que “a filosofia e ciência se distinguem pelo método seguido, pela linguagem utilizada e pela natureza das perguntas que coloca.”

A primeira nota que faço é que o manual não apresenta qualquer proposta de método da filosofia, indicando somente uns métodos genéricos para estudar filosofia que também se pode aplicar a qualquer outra disciplina. Ora, de que vale num manual de filosofia elaborar um guia de estudo?

Mas o que há de errado na afirmação? Ora bem, um cientista também argumenta, também problematiza e conceptualiza. Tal não é exclusivo da filosofia. Se queremos apontar uma diferença entre ciência e filosofia é didacticamente mais rigoroso explicar que ao passo que a ciência, em geral, tem a possibilidade de apresentar resultados da sua investigação, tal não acontece em filosofia para a qual os problemas estão continuamente em aberto. Dizer que a filosofia se distingue da ciência por recorrer ao método racional e argumentativo é vago, pois tais capacidades são igualmente exploradas na biologia ou na física.

2. “São dedutivos os argumentos válidos em que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Infere-se de duas ou mais premissas gerais uma conclusão menos geral

Há aqui pelo menos dois erros. Primeiro um argumento dedutivo pode ter perfeitamente uma só premissa. Aliás, tem de ter no mínimo uma premissa. Depois porque um argumento dedutivo não tem de partir de premissas gerais para uma conclusão menos geral.

Exemplo de um argumento dedutivo, que é válido e não tem premissa mais geral que a conclusão.

A Joana é do Benfica e o Luís do Sporting
Logo, a Joana é do Benfica


3. Afirma-se no manual, após se ter apresentado um silogismo, que “O argumento é indutivo porque parte de premissas particulares para inferir uma proposição universal”

Vejamos agora o seguinte exemplo de uma indução por previsão bastante conhecida:

Todos os dias o sol nasceu
Logo, amanhã o sol vai nascer

Neste exemplo de indução vê-se bem que a premissa é universal ao passo que a conclusão não o é.
O manual faz ainda uma distinção pouco certa entre senso comum e filosofia, mas a certa altura refere: “problematizar é identificar e formular um problema filosófico contido numa experiência”. Uma experiência de senso comum, acrescento eu. Mais tarde, nas outras unidades, o manual sugere muitas vezes o recurso ao senso comum para abordagem aos problemas.

No manual levanta-se uma questão: “o que distingue, então, a filosofia dos restantes saberes?

E dá como resposta que “a filosofia formula questões mais gerais e fundamentais acerca do pensamento, da natureza e da sociedade.” Logo de seguida para exemplificar uma ciência particular dá o exemplo da física. Acontece que a física faz questões muito gerais e fundamentais, como a questão da origem do universo, da teoria de tudo, teoria das cordas, etc.. e a física não se confunde, no entanto, com filosofia. Isto acontece porque a filosofia não se distingue da física por fazer questões mais gerais, mas porque por suposto os problemas da física terão uma resposta testável empiricamente, ainda que tal resposta possa estar suspensa para muitas das suas questões que são, ora mais ora menos gerais ou fundamentais que as da filosofia. Também me parece vago afirmar que a filosofia faz questões fundamentais sobre a sociedade. Certamente algumas áreas podem ter maior relação com alguns aspectos da sociedade, como o caso dos problemas da filosofia política abordados no 10º ano. Só que as questões não são mais fundamentais sobre a sociedade do que muitas questões colocadas pelos sociólogos, por exemplo.

Finalmente, o manual refere como características da filosofia a autonomia, a universalidade, a radicalidade e historicidade. Para o professor que queira brincar um pouco aos manuais, pode sempre colocar esta questão: será que a biologia não possui a sua autonomia, a sua universalidade, a sua radicalidade e a sua historicidade? Facilmente se percebe que sim. Nesse caso estas características não são específicas da filosofia.

Li muitas afirmações incoerentes. Ocorre-me uma em que se afirma que o no senso comum prevalece a crença e a opinião. Que é acrítico e subjectivo. Ora, tirando o “acrítico”, todas as outras características estão presentes na filosofia. Primeiro porque a filosofia, tal como qualquer saber (e não apenas o senso comum) se faz de crenças iniciais. Segundo porque qualquer filosofia tem aspectos relacionados com a opinião dos filósofos. E também porque a filosofia envolve muitas vezes mais subjectividade que objectividade. Basicamente são distinções indistintas e que nada servem ao estudante para compreender o que é a filosofia.

Como tenho insistido escrever bons manuais não é fácil. Não basta escrever. É preciso também ser muito rigoroso. E a melhor forma de ser rigoroso é ser claro. Para ser claro é preciso saber. Avaliar a qualidade da escrita de um manual é importante por isto mesmo. 

sábado, 4 de maio de 2013

Termos menor, maior e comentários anónimos


Em relação ao post anterior, um pequeno esclarecimento: O termo menor é por definição o termo sujeito da conclusão. E o termo menor só pode aparecer numa das premissas, que por definição é a premissa menor. Mas a premissa menor tanto pode ser a primeira como a segunda premissa.

Assim, basta mudar a ordem das premissas do silogismo dado e o exemplo servirá perfeitamente para esclarecer o que pretendi esclarecer.

Todas as divindades são imortais
Nenhum mortal é imortal
Logo, nenhum mortal é uma divindade

É uma confusão muito comum, pensar que a premissa menor tem de ser a segunda. Não tem. A ordem das premissas é irrelevante. E o que define uma premissa como menor ou maior não é o facto de ser a primeira ou a segunda, mas antes o facto de ter ou não o termo menor. E o termo menor é por definição o termo sujeito da conclusão.

O que define a premissa como menor é o facto de conter o termo menor.
Espero ao mesmo tempo ter esclarecido os comentadores anónimos. 

Manuais 3


Haverá livros de filosofia ou de ciência sem erros? Haverá livros de história sem erros? Creio que a esmagadora maioria dos livros contêm erros. Os erros fazem parte da construção de uma obra. O que talvez possa ser apontado como defeito não é propriamente o erro que se comete, mas o facto de não se ter pensado muito bem no que se está a escrever e a tentar explicar. É a mesma coisa com a construção das casas em que habitamos: todas têm os seus defeitos, mas numas notamos que as coisas foram feitas sem grande precisão ou cuidado e rigor.

Estava a ler um pouco de um manual para o 10º ano e reparei que o mesmo afirma que o método das ciências naturais é a verificação. Não é. Basta pensar no que ensinamos de Popper para compreender que não é. Assim, de repente, ocorre-me citar parte da introdução do livro de divulgação científica (o próprio autor assim o classifica) do matemático português Jorge Buescu, O mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, Crónicas das fronteiras da ciência (Gradiva,3003):

Assim, nunca se pode provar nem afirmar que uma teoria científica é verdadeira. Quando muito, pode provar-se que é falsa – se se realizar um teste cujos resultados sejam contrários às suas previsões. P. 13

O que isto quer dizer é que a verificação empírica não é critério algum de cientificidade de uma teoria. Penso que os autores o que têm em mente é dizer que o método das ciências naturais é a experimentação e não a verificação, que são coisas diferentes pois quando o cientista experimenta não está a verificar nada, está só na tentativa de detectar erros na teoria para ver até que ponto ela resiste ou não aos testes que está a submeter a teoria. Seria praticamente impossível verificar totalmente uma teoria científica. Pelo menos desde David Hume que este problema começou a ser resolvido. Trata-se de um aspecto que deveria ser corrigido. E certamente desde Popper que a ciência não opera por verificação. O método científico é hipotético dedutivo e não verificacionista. Para ser mais rigoroso, o método científico é falsificacionista. E mesmo que seja discutível que seja falsificacionista (afinal, Popper pode estar errado), não é certamente verificacionista.

Mais adiante encontrei uma afirmação que me parece estar envolvida em confusão:

“já vimos que os argumentos são constituídos por proposições e estas por termos. Os termos, enquanto expressam conceitos, não devem em si reunir elementos contraditórios. É essa a regra que lhes preside. Devem sempre referir-se ao campo do possível. Uma vez que não afirmam nem negam, os termos não podem ser considerados verdadeiros nem falsos”.

Parece que os autores estão a pensar que só existe lógica proposicional e que as proposições são constituídas apenas por termos. Ora ambas as ideias são falsas. Por um lado é verdade que na lógica aristotélica as proposições incluem termos (maior, menor e médio), mas não são constituídas apenas por termos, como parece sugerir a passagem. Na lógica aristotélica as proposições incluem a cópula que tem um papel fundamental. A estrutura de uma proposição na lógica aristotélica é “S é P” em que S é sujeito, P o predicado e são unidos pela cópula “é”. Mas ainda assim não podemos afirmar de todo que a estrutura de uma proposição na lógica aristotélica se esgota aqui, pois pode ainda incluir uma negação.

Também não se vê com clareza a razão pela qual não pode incluir termos contraditórios. Só as proposições podem ser contraditórias. Tentemos ver melhor com um exemplo:

Nenhum mortal é imortal
Todas as divindades são imortais
Logo, nenhum mortal é uma divindade

Considerando que este silogismo é válido, acontece que tem 2 termos contraditórios, “mortal” e “imortal”. A passagem não me é de todo clara, mas atenção pois se é isto que se tem mente, então não pode estar certa.
Quando se diz na passagem que os termos se devem referir sempre ao possível, também não é claro ao que se refere. Talvez seja impossível que existam seres imortais.

Um outro aspecto que me parece de corrigir é que se aborda muitas vezes conteúdos da lógica proposicional, mas os exemplos dados remetem imediatamente para a lógica aristotélica. É muito mais simples para os alunos do 10º iniciar com proposições simples:

P – a neve é branca
Q – o céu azul

A neve é branca e o céu azul
Logo, a neve é branca

Facilmente se compreende que se a premissa for verdadeira, a conclusão também o é. E se a premissa for falsa, a conclusão também o é. E não se dá o caso da premissa ser verdadeira e ser possível a falsidade da conclusão. Didacticamente é muitíssimo mais fácil para o aluno compreender a noção de validade com exemplos destes do que a apresentar com silogismos, ainda que não seja de modo algum errado apresentar a noção de validade com um silogismo. Acontece que muito raramente o aluno vai analisar os textos silogisticamente, pela simples razão que raramente pensamos silogisticamente. No 10º ano, a minha sugestão é que se usem proposições aristotélicas, apenas para ensinar a negar proposições quantificadas, o que ocorre nos textos mais vezes. Claro, não esquecendo a negação das condicionais, que também ocorrem com bastante frequência nos argumentos, já que a maioria dos argumentos lida com hipóteses. Didacticamente as proposições simples e compostas traduzíveis na lógica proposicional torna mais simples a aplicação das noções iniciais nas unidades seguintes.

Que seja claro: inventou-se a lógica proposicional precisamente para ter maior ampliação da sua aplicação. Se ela é muitíssimo mais ampla que a sua mãe, a lógica aristotélica, então não temos grandes razões para fazer da lógica aristotélica o padrão de análise de argumentos. e se não tencionamos usar mais a lógica nas unidades seguintes, então não vale a pena gastar tempo a ensiná-la, pois os alunos vão ficar exactamente com a mesma ideia que muitos professores ainda tem da lógica: que ela aplicada à filosofia é estéril. E essa ideia não me parece possuir qualquer vantagem para o ensino da filosofia.

Finalmente uma sugestão: é didacticamente desajustado quando estamos a falar de juízo e proposição indiferenciadamente. Claro que para nós, professores, não há grandes problemas. Mas há problemas de compreensão para um aluno de 15 anos já que é imediatamente conduzido a pensar que se está a falar de coisas diferentes. E depois porque os alunos mais jovens tem muita dificuldade em perceber por que se está constantemente a usar palavras diferentes para nos referirmos ao mesmo. É uma questão didáctica e é por isso que não é fácil escrever para jovens, mas este aspecto deve ser corrigido:

1)      Ou estamos a falar de coisas diferentes e esclarecemos cada uma delas com clareza

2)      Se estamos a falar do mesmo referente não há qualquer necessidade de uma vez aparecer como proposição, outra como juízo

Outro aspecto que observo em alguns manuais, não só neste que aqui me refiro. Não me parece de todo obrigatório expor as objecções às teorias apresentadas. Mas se entendermos que o manual é o livro que o aluno vai usar para entrar na filosofia, questiono-me se não é relevante didacticamente fazer a sua exposição? Na minha opinião, é. E as objecções são tão relevantes quanto as teorias expostas. Se é um método recorrer á exposição das objecções, deveria ocorrer ao longo de todo o manual, oferecendo-lhe maior consistência. Ora, em alguns manuais, elas só ocasionalmente aparecem. Em algumas unidades aparecem umas pequenas objecções, noutras o método é meramente expositivo. A aprendizagem requer a interiorização de método e de persistência no método. Não faz sentido que o manual desoriente o aluno no seu estudo particular. 

E já agora, por que razão escolhi a foto que acompanha este post?

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Razões de Ser


Já tenho em mãos o Razões de Ser (Porto Editora). Como já esperava da parte dos autores e pelo trabalho que deles conheço, trata-se efectivamente de um bom manual de filosofia. Tal como foi destacado hoje ao fim da tarde na apresentação do manual, há nele uma preocupação enorme na clareza com que se expõem os conteúdos aos alunos. Sobretudo o manual é consistente no modo como apresenta a filosofia aos alunos, tem um método inicial que é continuado e remete sempre para as análises dos problemas a estudar. Além disso, a selecção de textos é criteriosa já que primam pela discussão dos problemas que levantam em sala de aula.

Uma nota que tenho observado em alguns projectos (que não este que aqui falo) de manuais. Parece que longe vai o tempo em que se rotulava manuais como o Arte de Pensar como analíticos. Nesta nova leva de manuais é notória na maioria deles (falta-me conhecer uns 2, creio) a influência do Arte de Pensar. Mesmo com o descaramento da literal cópia em alguns momentos, ainda bem que assim é, pois lentamente deixa-se para trás os rótulos e os autores, bem como editores, passaram a reconhecer as potencialidades do manual A Arte de Pensar (primeira edição de 2003). O maior problema é que alguns manuais ficaram ainda mais confusos, pois resultam de um híbrido entre o trabalho já feito e a novidade que foi observada primariamente no Arte de Pensar. Na minha opinião, é uma lenta reforma saudável. Faço aqui um reconhecimento aos autores que compreenderam as potencialidades didácticas de concentrar o ensino da filosofia numa abordagem que prima pelo rigor e pela clareza.

É sempre interessante reflectir como as melhores mudanças nunca nos chegam de cima, do poder político, mas de baixo, das pessoas que conhecem a realidade com que trabalham e que o fazem de forma séria e rigorosa. Hoje todos os editores tem o seu Arte e, alguns deles, com personalidade própria, como são os casos do Filosofia 10 (Santillana), Diálogos (Texto Editora) ou este Razões de Ser (Porto Editora). Não hesito em pensar que o Arte de Pensar foi a mais relevante reforma no ensino da filosofia dos últimos anos, razão pela qual criou tantas resistências à mudança (e ainda cria, pois).

Paula Mateus e Pedro Galvão estiveram na origem do Arte de Pensar e foram ambos autores do Arte. 

António Lopes, Pedro Galvão, Paula Mateus, Razões de Ser, Porto Editora (2013) 

Nota: alguns colegas perguntam como costumo fazer para analisar os manuais. Escrevi 2 posts com recomendações (um pouco pessoais, é certo) para a análise de manuais (aqui e aqui). para este post o que fiz foi ler 2 capítulos do Razões de Ser, bem como 2 capítulos do outro projecto do mesmo editor. Entre os manuais que considero melhores vou comparando algumas unidades. Por exemplo, esta semana estive cerca de 1 hora a comparar a filosofia da religião no 50 Lições de filosofia (uma proposta que me parece realmente nova e interessante do ponto de vista didáctico) e no Diálogos. Ambos me pareceram bons, com enquadramentos diferentes, sendo que no 50 Lições a unidade é de longe mais acessível que a mesma unidade no Diálogos. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mais filosofia no verão - no Porto


No seguimento das actividades filosóficas promovidas pelas universidades, aqui se apresenta mais uma, desta feita no Porto. Em tempo de crise é um modo barato de aproveitar bem alguns dias de férias.  Mais informações AQUI

Escola de Verão - Filosofia da Ciência


É de iniciativas como a que aqui apresento que a filosofia precisa. Divulga a filosofia e leva-a junto das pessoas. Vale mesmo a pena. É assim que a s universidades podem e devem cooperar com o ensino secundário. É também assim, com trabalho aturado e paciente que se cativa os mais jovens para o saber fascinante que é a filosofia.  Mais informações AQUI

Olimpíadas Nacionais de Filosofia


A PROSOFOS - Associação para a Promoção da Filosofia, tem como objetivo essencial promover atividades de valorização da Filosofia no Ensino Secundário junto das entidades públicas e privadas nacionais, bem como junto do público interessado, nomeadamente através de:
 - Realização de Olimpíadas Nacionais de Filosofia (ONF);
 - Promoção de palestras, encontros, colóquios, pareceres e outras atividades que sejam aprovadas pelos órgãos sociais da PROSOFOS.

Esta foto é dos vencedores deste ano. É dignificante para a disciplina de filosofia e é importante a promoção deste prémio.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A filosofia não se reduz à lógica



A questão levantada neste post não é, sequer, uma questão debatida entre os filósofos, uma vez que se trata de uma falsa questão. Ainda assim, é uma questão que surge algumas vezes entre quem ensina filosofia no ensino secundário.

Praticamente todos os filósofos ou criaram o seu sistema lógico, ou usaram algum sistema lógico, desde Aristóteles, Leibniz, Heidegger, Husserl ou Plantinga. Claro que nem todos desenvolveram a lógica como Aristótles, Frege ou Kripke, mas todos, sem excepção, utilizaram conhecimentos de lógica para desenvolverem os seus sistemas filosóficos.

É uma falsa questão pois a filosofia não foi nunca reduzida à lógica, nem pelos filósofos, nem nos manuais de filosofia. Há certamente muitos modos de expressão filosófica já que a filosofia expressa-se na linguagem usada. E a linguagem é sujeita a múltiplos factores que não só a lógica. Assim, só mesmo o estudo da lógica se reduz à lógica e somente os estudos dos lógicos estão reduzidos (pelo menos de uma forma explícita) à lógica.

Uma parte significativa da obra de Aristóteles é de lógica. Será que Aristóteles reduziu a sua filosofia à lógica?

Outra questão que quem defende esta falsa ideia tem de responder é a seguinte: mesmo que fosse verdade que a filosofia se reduz à lógica, que alternativa é proposta? A que é que a filosofia se deve reduzir? Ou não se deve reduzir a nada e tudo vale? Se fosse verdade que a filosofia não tem de ter qualquer restrição intelectual (considerando erradamente que a lógica restringe intelectualmente) e que qualquer metodologia pode ser filosófica, então, temos de aceitar que uma filosofia que fosse reduzida à lógica (e não existe tal coisa) seria tão filosófica como uma filosofia que não se reduzisse à lógica para se reduzir a qualquer outra coisa.

O erro da proposição “a filosofia não se deve reduzir à lógica” percebe-se quando questionamos quem defende esta ideia, sobre então a que se deve reduzir a filosofia. Em regra a resposta (quando há) é vaga e pouco dignificante da filosofia. Isto acontece porque na base a afirmação é errada.

A explicação

A lógica é usada filosoficamente (pelo menos desde Aristóteles) para ampliar intelectualmente a capacidade da argumentação filosófica. Tal como um biólogo usa o microscópio. Pode-se fazer investigação em biologia sem o microscópio? Creio que não falharei se afirmar que sim, que pode. E pode até chegar-se a insights brilhantes fazendo biologia sem recorrer ao microscópio. Daí não se segue que quem usa o microscópio esteja a reduzir a biologia ao microscópio. Tal seria como pensar que quando se vai para uma aula de biologia se vai estudar o microscópio, que ele seja o objecto de estudo da biologia. Claro que isto seria um disparate. Mas não será em lugar algum disparatado se o microscópio for usado para ajudar os estudantes a ver melhor a realidade da vida e dos organismos observados. Ajuda? Quem o nega?  

Assim, quem afirma que “a  filosofia não se reduz à lógica” não está a dizer nada de novo. Seria como dizer que “ a biologia não se reduz ao microscópio”. Sim, qualquer biólogo e estudante atento compreende isso sem grande esforço. Mas também não se reduz aos tubos de ensaio, nem à classificação das espécies ou organismos, etc… mas não falamos certamente de biologia se não soubermos usar todas essas ferramentas em laboratório.

Em igual modo, a filosofia não se reduz nem à lógica, nem à língua francesa, inglesa ou alemã, nem ao facto de se ser homem ou mulher, ou de se pertencer à universidade X ou Y. Com efeito ninguém pode negar que é necessário saber lógica para compreender bem filosofia, que é necessário saber ler em inglês para saber ler o que se vai publicando na filosofia mais avançada que se faz nos nossos dias e que é preciso ter a sorte de frequentar uma boa universidade para ter uma boa formação em filosofia.

E já agora: a matemática também não se reduz aos números. Para se saber fazer matemática são necessárias outras condições, como saber raciocinar e calcular, ter saúde, etc… pode-se ensinar matemática sem números? Na minha opinião, sim. No entanto, os números parecem ser uma linguagem adequada para ensinar a raciocinar matematicamente.