sábado, 4 de maio de 2013

Manuais 3


Haverá livros de filosofia ou de ciência sem erros? Haverá livros de história sem erros? Creio que a esmagadora maioria dos livros contêm erros. Os erros fazem parte da construção de uma obra. O que talvez possa ser apontado como defeito não é propriamente o erro que se comete, mas o facto de não se ter pensado muito bem no que se está a escrever e a tentar explicar. É a mesma coisa com a construção das casas em que habitamos: todas têm os seus defeitos, mas numas notamos que as coisas foram feitas sem grande precisão ou cuidado e rigor.

Estava a ler um pouco de um manual para o 10º ano e reparei que o mesmo afirma que o método das ciências naturais é a verificação. Não é. Basta pensar no que ensinamos de Popper para compreender que não é. Assim, de repente, ocorre-me citar parte da introdução do livro de divulgação científica (o próprio autor assim o classifica) do matemático português Jorge Buescu, O mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, Crónicas das fronteiras da ciência (Gradiva,3003):

Assim, nunca se pode provar nem afirmar que uma teoria científica é verdadeira. Quando muito, pode provar-se que é falsa – se se realizar um teste cujos resultados sejam contrários às suas previsões. P. 13

O que isto quer dizer é que a verificação empírica não é critério algum de cientificidade de uma teoria. Penso que os autores o que têm em mente é dizer que o método das ciências naturais é a experimentação e não a verificação, que são coisas diferentes pois quando o cientista experimenta não está a verificar nada, está só na tentativa de detectar erros na teoria para ver até que ponto ela resiste ou não aos testes que está a submeter a teoria. Seria praticamente impossível verificar totalmente uma teoria científica. Pelo menos desde David Hume que este problema começou a ser resolvido. Trata-se de um aspecto que deveria ser corrigido. E certamente desde Popper que a ciência não opera por verificação. O método científico é hipotético dedutivo e não verificacionista. Para ser mais rigoroso, o método científico é falsificacionista. E mesmo que seja discutível que seja falsificacionista (afinal, Popper pode estar errado), não é certamente verificacionista.

Mais adiante encontrei uma afirmação que me parece estar envolvida em confusão:

“já vimos que os argumentos são constituídos por proposições e estas por termos. Os termos, enquanto expressam conceitos, não devem em si reunir elementos contraditórios. É essa a regra que lhes preside. Devem sempre referir-se ao campo do possível. Uma vez que não afirmam nem negam, os termos não podem ser considerados verdadeiros nem falsos”.

Parece que os autores estão a pensar que só existe lógica proposicional e que as proposições são constituídas apenas por termos. Ora ambas as ideias são falsas. Por um lado é verdade que na lógica aristotélica as proposições incluem termos (maior, menor e médio), mas não são constituídas apenas por termos, como parece sugerir a passagem. Na lógica aristotélica as proposições incluem a cópula que tem um papel fundamental. A estrutura de uma proposição na lógica aristotélica é “S é P” em que S é sujeito, P o predicado e são unidos pela cópula “é”. Mas ainda assim não podemos afirmar de todo que a estrutura de uma proposição na lógica aristotélica se esgota aqui, pois pode ainda incluir uma negação.

Também não se vê com clareza a razão pela qual não pode incluir termos contraditórios. Só as proposições podem ser contraditórias. Tentemos ver melhor com um exemplo:

Nenhum mortal é imortal
Todas as divindades são imortais
Logo, nenhum mortal é uma divindade

Considerando que este silogismo é válido, acontece que tem 2 termos contraditórios, “mortal” e “imortal”. A passagem não me é de todo clara, mas atenção pois se é isto que se tem mente, então não pode estar certa.
Quando se diz na passagem que os termos se devem referir sempre ao possível, também não é claro ao que se refere. Talvez seja impossível que existam seres imortais.

Um outro aspecto que me parece de corrigir é que se aborda muitas vezes conteúdos da lógica proposicional, mas os exemplos dados remetem imediatamente para a lógica aristotélica. É muito mais simples para os alunos do 10º iniciar com proposições simples:

P – a neve é branca
Q – o céu azul

A neve é branca e o céu azul
Logo, a neve é branca

Facilmente se compreende que se a premissa for verdadeira, a conclusão também o é. E se a premissa for falsa, a conclusão também o é. E não se dá o caso da premissa ser verdadeira e ser possível a falsidade da conclusão. Didacticamente é muitíssimo mais fácil para o aluno compreender a noção de validade com exemplos destes do que a apresentar com silogismos, ainda que não seja de modo algum errado apresentar a noção de validade com um silogismo. Acontece que muito raramente o aluno vai analisar os textos silogisticamente, pela simples razão que raramente pensamos silogisticamente. No 10º ano, a minha sugestão é que se usem proposições aristotélicas, apenas para ensinar a negar proposições quantificadas, o que ocorre nos textos mais vezes. Claro, não esquecendo a negação das condicionais, que também ocorrem com bastante frequência nos argumentos, já que a maioria dos argumentos lida com hipóteses. Didacticamente as proposições simples e compostas traduzíveis na lógica proposicional torna mais simples a aplicação das noções iniciais nas unidades seguintes.

Que seja claro: inventou-se a lógica proposicional precisamente para ter maior ampliação da sua aplicação. Se ela é muitíssimo mais ampla que a sua mãe, a lógica aristotélica, então não temos grandes razões para fazer da lógica aristotélica o padrão de análise de argumentos. e se não tencionamos usar mais a lógica nas unidades seguintes, então não vale a pena gastar tempo a ensiná-la, pois os alunos vão ficar exactamente com a mesma ideia que muitos professores ainda tem da lógica: que ela aplicada à filosofia é estéril. E essa ideia não me parece possuir qualquer vantagem para o ensino da filosofia.

Finalmente uma sugestão: é didacticamente desajustado quando estamos a falar de juízo e proposição indiferenciadamente. Claro que para nós, professores, não há grandes problemas. Mas há problemas de compreensão para um aluno de 15 anos já que é imediatamente conduzido a pensar que se está a falar de coisas diferentes. E depois porque os alunos mais jovens tem muita dificuldade em perceber por que se está constantemente a usar palavras diferentes para nos referirmos ao mesmo. É uma questão didáctica e é por isso que não é fácil escrever para jovens, mas este aspecto deve ser corrigido:

1)      Ou estamos a falar de coisas diferentes e esclarecemos cada uma delas com clareza

2)      Se estamos a falar do mesmo referente não há qualquer necessidade de uma vez aparecer como proposição, outra como juízo

Outro aspecto que observo em alguns manuais, não só neste que aqui me refiro. Não me parece de todo obrigatório expor as objecções às teorias apresentadas. Mas se entendermos que o manual é o livro que o aluno vai usar para entrar na filosofia, questiono-me se não é relevante didacticamente fazer a sua exposição? Na minha opinião, é. E as objecções são tão relevantes quanto as teorias expostas. Se é um método recorrer á exposição das objecções, deveria ocorrer ao longo de todo o manual, oferecendo-lhe maior consistência. Ora, em alguns manuais, elas só ocasionalmente aparecem. Em algumas unidades aparecem umas pequenas objecções, noutras o método é meramente expositivo. A aprendizagem requer a interiorização de método e de persistência no método. Não faz sentido que o manual desoriente o aluno no seu estudo particular. 

E já agora, por que razão escolhi a foto que acompanha este post?

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Razões de Ser


Já tenho em mãos o Razões de Ser (Porto Editora). Como já esperava da parte dos autores e pelo trabalho que deles conheço, trata-se efectivamente de um bom manual de filosofia. Tal como foi destacado hoje ao fim da tarde na apresentação do manual, há nele uma preocupação enorme na clareza com que se expõem os conteúdos aos alunos. Sobretudo o manual é consistente no modo como apresenta a filosofia aos alunos, tem um método inicial que é continuado e remete sempre para as análises dos problemas a estudar. Além disso, a selecção de textos é criteriosa já que primam pela discussão dos problemas que levantam em sala de aula.

Uma nota que tenho observado em alguns projectos (que não este que aqui falo) de manuais. Parece que longe vai o tempo em que se rotulava manuais como o Arte de Pensar como analíticos. Nesta nova leva de manuais é notória na maioria deles (falta-me conhecer uns 2, creio) a influência do Arte de Pensar. Mesmo com o descaramento da literal cópia em alguns momentos, ainda bem que assim é, pois lentamente deixa-se para trás os rótulos e os autores, bem como editores, passaram a reconhecer as potencialidades do manual A Arte de Pensar (primeira edição de 2003). O maior problema é que alguns manuais ficaram ainda mais confusos, pois resultam de um híbrido entre o trabalho já feito e a novidade que foi observada primariamente no Arte de Pensar. Na minha opinião, é uma lenta reforma saudável. Faço aqui um reconhecimento aos autores que compreenderam as potencialidades didácticas de concentrar o ensino da filosofia numa abordagem que prima pelo rigor e pela clareza.

É sempre interessante reflectir como as melhores mudanças nunca nos chegam de cima, do poder político, mas de baixo, das pessoas que conhecem a realidade com que trabalham e que o fazem de forma séria e rigorosa. Hoje todos os editores tem o seu Arte e, alguns deles, com personalidade própria, como são os casos do Filosofia 10 (Santillana), Diálogos (Texto Editora) ou este Razões de Ser (Porto Editora). Não hesito em pensar que o Arte de Pensar foi a mais relevante reforma no ensino da filosofia dos últimos anos, razão pela qual criou tantas resistências à mudança (e ainda cria, pois).

Paula Mateus e Pedro Galvão estiveram na origem do Arte de Pensar e foram ambos autores do Arte. 

António Lopes, Pedro Galvão, Paula Mateus, Razões de Ser, Porto Editora (2013) 

Nota: alguns colegas perguntam como costumo fazer para analisar os manuais. Escrevi 2 posts com recomendações (um pouco pessoais, é certo) para a análise de manuais (aqui e aqui). para este post o que fiz foi ler 2 capítulos do Razões de Ser, bem como 2 capítulos do outro projecto do mesmo editor. Entre os manuais que considero melhores vou comparando algumas unidades. Por exemplo, esta semana estive cerca de 1 hora a comparar a filosofia da religião no 50 Lições de filosofia (uma proposta que me parece realmente nova e interessante do ponto de vista didáctico) e no Diálogos. Ambos me pareceram bons, com enquadramentos diferentes, sendo que no 50 Lições a unidade é de longe mais acessível que a mesma unidade no Diálogos. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mais filosofia no verão - no Porto


No seguimento das actividades filosóficas promovidas pelas universidades, aqui se apresenta mais uma, desta feita no Porto. Em tempo de crise é um modo barato de aproveitar bem alguns dias de férias.  Mais informações AQUI

Escola de Verão - Filosofia da Ciência


É de iniciativas como a que aqui apresento que a filosofia precisa. Divulga a filosofia e leva-a junto das pessoas. Vale mesmo a pena. É assim que a s universidades podem e devem cooperar com o ensino secundário. É também assim, com trabalho aturado e paciente que se cativa os mais jovens para o saber fascinante que é a filosofia.  Mais informações AQUI

Olimpíadas Nacionais de Filosofia


A PROSOFOS - Associação para a Promoção da Filosofia, tem como objetivo essencial promover atividades de valorização da Filosofia no Ensino Secundário junto das entidades públicas e privadas nacionais, bem como junto do público interessado, nomeadamente através de:
 - Realização de Olimpíadas Nacionais de Filosofia (ONF);
 - Promoção de palestras, encontros, colóquios, pareceres e outras atividades que sejam aprovadas pelos órgãos sociais da PROSOFOS.

Esta foto é dos vencedores deste ano. É dignificante para a disciplina de filosofia e é importante a promoção deste prémio.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A filosofia não se reduz à lógica



A questão levantada neste post não é, sequer, uma questão debatida entre os filósofos, uma vez que se trata de uma falsa questão. Ainda assim, é uma questão que surge algumas vezes entre quem ensina filosofia no ensino secundário.

Praticamente todos os filósofos ou criaram o seu sistema lógico, ou usaram algum sistema lógico, desde Aristóteles, Leibniz, Heidegger, Husserl ou Plantinga. Claro que nem todos desenvolveram a lógica como Aristótles, Frege ou Kripke, mas todos, sem excepção, utilizaram conhecimentos de lógica para desenvolverem os seus sistemas filosóficos.

É uma falsa questão pois a filosofia não foi nunca reduzida à lógica, nem pelos filósofos, nem nos manuais de filosofia. Há certamente muitos modos de expressão filosófica já que a filosofia expressa-se na linguagem usada. E a linguagem é sujeita a múltiplos factores que não só a lógica. Assim, só mesmo o estudo da lógica se reduz à lógica e somente os estudos dos lógicos estão reduzidos (pelo menos de uma forma explícita) à lógica.

Uma parte significativa da obra de Aristóteles é de lógica. Será que Aristóteles reduziu a sua filosofia à lógica?

Outra questão que quem defende esta falsa ideia tem de responder é a seguinte: mesmo que fosse verdade que a filosofia se reduz à lógica, que alternativa é proposta? A que é que a filosofia se deve reduzir? Ou não se deve reduzir a nada e tudo vale? Se fosse verdade que a filosofia não tem de ter qualquer restrição intelectual (considerando erradamente que a lógica restringe intelectualmente) e que qualquer metodologia pode ser filosófica, então, temos de aceitar que uma filosofia que fosse reduzida à lógica (e não existe tal coisa) seria tão filosófica como uma filosofia que não se reduzisse à lógica para se reduzir a qualquer outra coisa.

O erro da proposição “a filosofia não se deve reduzir à lógica” percebe-se quando questionamos quem defende esta ideia, sobre então a que se deve reduzir a filosofia. Em regra a resposta (quando há) é vaga e pouco dignificante da filosofia. Isto acontece porque na base a afirmação é errada.

A explicação

A lógica é usada filosoficamente (pelo menos desde Aristóteles) para ampliar intelectualmente a capacidade da argumentação filosófica. Tal como um biólogo usa o microscópio. Pode-se fazer investigação em biologia sem o microscópio? Creio que não falharei se afirmar que sim, que pode. E pode até chegar-se a insights brilhantes fazendo biologia sem recorrer ao microscópio. Daí não se segue que quem usa o microscópio esteja a reduzir a biologia ao microscópio. Tal seria como pensar que quando se vai para uma aula de biologia se vai estudar o microscópio, que ele seja o objecto de estudo da biologia. Claro que isto seria um disparate. Mas não será em lugar algum disparatado se o microscópio for usado para ajudar os estudantes a ver melhor a realidade da vida e dos organismos observados. Ajuda? Quem o nega?  

Assim, quem afirma que “a  filosofia não se reduz à lógica” não está a dizer nada de novo. Seria como dizer que “ a biologia não se reduz ao microscópio”. Sim, qualquer biólogo e estudante atento compreende isso sem grande esforço. Mas também não se reduz aos tubos de ensaio, nem à classificação das espécies ou organismos, etc… mas não falamos certamente de biologia se não soubermos usar todas essas ferramentas em laboratório.

Em igual modo, a filosofia não se reduz nem à lógica, nem à língua francesa, inglesa ou alemã, nem ao facto de se ser homem ou mulher, ou de se pertencer à universidade X ou Y. Com efeito ninguém pode negar que é necessário saber lógica para compreender bem filosofia, que é necessário saber ler em inglês para saber ler o que se vai publicando na filosofia mais avançada que se faz nos nossos dias e que é preciso ter a sorte de frequentar uma boa universidade para ter uma boa formação em filosofia.

E já agora: a matemática também não se reduz aos números. Para se saber fazer matemática são necessárias outras condições, como saber raciocinar e calcular, ter saúde, etc… pode-se ensinar matemática sem números? Na minha opinião, sim. No entanto, os números parecem ser uma linguagem adequada para ensinar a raciocinar matematicamente. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma nota histórica sobre o ensino da lógica


Em conversa com um colega, este disse-me que há manuais que usam muito a lógica. Praticamente só durante os anos do famigerado eduquês é que a lógica foi parcialmente abandonada dos manuais e passou a ser muito mal vista no ensino da filosofia. Uma vez publiquei aqui uma pequena nota, onde me dava conta de um manual de filosofia de 1962. Na altura salientava o facto de mais de metade do manual ser de lógica pura e dura. Portanto, somente durante o período em que se reduziu a filosofia a uma conversa estéril, ao ponto de ter estado em cima da mesa dos governos da altura para acabar de vez com a disciplina, é que a lógica foi vista como a evitar no ensino da filosofia. Ainda hoje vivemos as consequências desastrosas desse período, sendo que uma das principais é que não há praticamente filosofia no 12º ano. A inclusão da lógica no ensino da filosofia não é, portanto, uma invenção recente.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Filosofia em 50 Lições


É pública a minha preferência pelo sucessor do Arte de Pensar, o 50 Lições de Filosofia que hoje me chega às mãos. Não é inteira surpresa para mim este belíssimo manual de filosofia já que nele há uma pequena parte de mim e do meu trabalho, apesar de modesta. Assim, pude conhecer antecipadamente alguns capítulos que tive o prazer de ler, aprender e sugerir algumas alterações.

Mas o 50 Lições ainda assim é uma surpresa a vários níveis. Primeiro porque é uma reinvenção do Arte de Pensar. Quem quer que pense que aqui vai encontrar mais do Arte, esqueça. O manual foi completamente reescrito e tem alterações de peso e de fundo. A primeira e que mais se destaca é que é muito mais simples para os alunos, uma meta que até eu pensava ser difícil de concretizar.

Uma das qualidades que mais me impressiona no Arte de Pensar e que aqui é mantida no 50 Lições, é que com este manual o professor tem não somente o prazer de ensinar filosofia, mas também de a aprender. E isto porque o manual se distancia de uma abordagem presente em muitos manuais de filosofia que está mais próxima de um híbrido entre filosofia, cultura e sociologia, para se centrar numa abordagem estritamente filosófica. Para tal serve-se muitas das vezes de filósofos actuais que têm oferecido à filosofia importantes e significativos avanços.

É mais difícil escrever com rigor um manual de filosofia do que um livro introdutório à filosofia. Isto porque um manual de filosofia se destina a um público jovem, nem sempre muito hábil na leitura. Aliar rigor a facilidade de escrita não é tarefa fácil e exige certamente muita preparação dos autores. O 50 Lições é provavelmente o manual que melhor consegue este efeito (ainda não conheço até este momento todos os manuais). Avanço um pequeno exemplo de como se pode apresentar os problemas filosóficos de um modo directo e simples, sem “morder” a qualidade filosófica: Na Lição 29, na Dimensão Estética, questionando o problema da objectividade ou subjectividade do gosto, os problemas levantados são apresentados com estes títulos:

É belo porque gosto ou gosto porque é belo?”
Gosto porque é belo
A beleza é coisa que se veja?”

Outro exemplo, para comparar a teoria de Kant com a de Stuart Mill:

Cumprir um dever ou maximizar a felicidade?”
Intenções ou consequências?”

Claro que são apenas as questões a abordar, mas a forma como são colocadas não levanta dificuldades na interpretação dos alunos daquilo que se pretende discutir.

Até agora concentrei este meu pequeno texto nas vantagens para o aluno. Mas creio que é relevante destacar em que é que este manual pode ser uma boa adopção para os professores. Claro está que o manual é escrito para os alunos. Afinal de contas, será o seu primeiro livro de filosofia. Com efeito um manual pode também melhorar muito a qualidade das aulas, evitando a dispersão e concentrando mais o trabalho baseado num método. Neste aspecto o 50 Lições tem uma opção, quanto a mim, muito feliz. Divide o manual em 50 lições de cerca de 3 páginas cada, destinadas a aulas de 45 minutos. Ou seja, para o professor basta seguir as lições para manter alguma organização no seu trabalho. Facilita, Sem dúvida a planificação.

Os professores de filosofia têm de dominar muitas áreas da filosofia. Ao longo de um ano leccionam filosofia da acção, mas também filosofia da arte ou filosofia moral. Assim, não é de estranhar se um professor dominar melhor um tema que outro. O 50 Lições apresenta um útil livro do professor onde dá indicações e sugestão de lecionação lição a lição. Trata-se de um guia muito útil para organizar as aulas. Os tempos de leccionação estão também pensados de modo a possibilitar ao professor uma bolsa com alguma folga para organizar leitura de textos, debates, exibição de filmes, etc.. de modo a trabalhar as aulas de acordo com o perfil de cada turma.

Saliento que são 3 páginas sugeridas por cada 45 minutos. Ou seja, o professor pode aproveitar até para ler os textos na aula com os alunos, isto para os professores que apreciam este exercício. Caso não o deseje assim fazer, pode organizar a lição segundo o caderno de lições no Livro do Professor.
O Livro do Professor apresenta ainda um conjunto de testes e exercícios e justifica as razões por que se deve optar por um tipo de exercício e não outro, garantindo ao mesmo tempo liberdade de opção da parte do professor.
Mas as vantagens para o professor não acabam aqui. É mais fácil dar aulas com este manual porque tudo está já feito, planificado, organizado e simplificado. É só chegar à aula, e “falar”. O resto está feito! E tal não invalida ao mesmo tempo que não se possa aprofundar os temas, para os professores que o desejam ou trabalhem com turmas que possibilitem maior aprofundamento.

Um dos problemas de muitos manuais é que limitam grandemente a leccionação do professor, ao ponto de ter de, sistematicamente, recorrer a materiais extra. No 50 Lições não há essa necessidade, apesar de não a limitar.

O suplemento do aluno reúne algumas sugestões que facilitam tanto a tarefa do professor, como do aluno.

1.      Do aluno porque tem sempre persente consigo uma mini história da filosofia e uma sumária biografia dos filósofos que vai encontrar no manual. Porque tem um útil glossário e um guia de como escrever um ensaio filosófico, que pode e deve servir de guia para um trabalho final, tal como é sugerido no programa.

2.      Do professor porque pode sempre fazer uma abordagem biográfica dos filósofos sem ter de recorrer a outros materiais. Porque o aluno terá sempre presente as sugestões dadas pelo professor de como estudar filosofia. E finalmente porque o professor passa a ganhar um importante guia para orientar correctamente um trabalho do aluno, em vez de desorientar o aluno pedindo-lhe um trabalho que muitas das vezes não passará de um copy past da internet.

Um outro ponto é que o manual segue em rigor não só o programa, bem como as Orientações de 2011 para avaliações externas, contemplando as teses e respectivas objecções.

Finalmente uma palavra final para a qualidade gráfica do livro, que é leve e até com um custo abaixo de alguns dos seus congéneres. A capa apresenta um pensador de Rodin como se fosse um jovem adolescente.

O 50 Lições tornou o Arte mais leve, até no peso do manual, mais intuitivo, mais fresco, mais adequado aos alunos e à sua capacidade de aprendizagem.

Não será a única boa opção para este ano, mas é certamente uma escolha muito competente que dignifica o ensino da filosofia e que o apresenta como um estudo pertinente, actual e, sobretudo, com sentido e muito mérito.

Uma sugestão: a todos os professores que não apreciaram o trabalho desenvolvido no Arte convido a ler um pouco deste novo projecto. Muitas das suas críticas e sugestões foram rigorosamente atendidas pelos autores.

Duas palavras para descrever este projecto: simples e eficaz. 
Mais informações AQUI

Aires Almeida, Desidério Murcho, Célia Teixeira, 50 Lições de Filosofia, Didáctica, 2013

domingo, 28 de abril de 2013

Manuais 2013 – como escolher um bom manual 2


Dou aqui mais algumas sugestões que podem constituir um pequeno e modesto guia para orientar a adopção do manual de filosofia para os próximos anos.

1º Não existe qualquer relevância filosófica em enunciar características da filosofia como a historicidade, universalidade, radicalidade e autonomia. Não caracterizam mais a filosofia que qualquer outro saber ou ciência. Isto é desnecessário didacticamente se pensarmos que em sua substituição podemos caracterizar a filosofia como um saber a priori e, dada a natureza dos problemas que estuda, recorrendo à argumentação. Trata-se de uma explicação mais limpa, mais próxima do que se pretende com a disciplina e mais fiel ao espírito da filosofia. É didacticamente mais adequada até porque é com isso que o aluno se vai confrontar ao longo do seu estudo e não com a historicidade, autonomia, universalidade e radicalidade.

2º Não há qualquer relevância filosófica quando tratamos alguns problemas do ponto de vista sociológico. E é errado pressupor que assim tornamos o ensino da filosofia mais apelativo pois não estamos, sequer, a ensinar filosofia. Seria o mesmo que explicar aos alunos o que é a grande muralha da China, para concluir que foram necessários muitos cálculos de matemática e dizer que isso é ensinar matemática. Não é.

3º Não é mais fácil fugir à lógica com o argumento de que se facilita o ensino da filosofia. A lógica é, aliás, a única matéria que não exige qualquer pressuposto de contexto social e familiar. Um aluno de um contexto pobre precisa - para aprender a pensar com lógica - do mesmo equipamento que um aluno de um contexto rico: um cérebro saudável. Ao passo que interpretar textos, pode revelar-se mais fácil para o aluno de um contexto onde foi habituado desde cedo aos livros.

4º É errado pressupor que alunos de 15 anos compreendem melhor a filosofia a partir de textos de filósofos como Nietzsche, Heidegger, Deleuze ou Paul Ricoeur. Não se questiona aqui o contributo que cada um deles deu à filosofia, mas são em regra autores demasiado especializados para serem abordados num estudo que é ainda de nível básico e introdutório. Claro que há autores difíceis que não se pode fugir, tanto pelas exigências das avaliações externas como pela sua centralidade na discussão de alguns problemas da filosofia. 

5º É errado afirmar que num argumento dedutivo se parte de premissas mais gerais para menos gerais e num não dedutivo se passa o contrário. E também é completamente descabido afirmar que um argumento dedutivo tem de ter mais que uma premissa. Premissas são razões e podemos ter tanto uma, como várias.

6º Não se consegue conduzir o estudo do aluno para o espírito crítico se não lhe for mostrado no seu único e primeiro livro de filosofia como a filosofia se faz, isto é, com a discussão activa de argumentos. É por isso didacticamente mais acertado que o livro do aluno (o manual) tenha as teses que procuram resolver os problemas propostos, mas também tenham as principais refutações a essas teses. Sem as refutações bem claras, não se percebe a razão pela qual se afirma no início que a filosofia é a discussão de problemas.

7º Não se deve confundir duas coisas: frases e proposições. As proposições não são frases. As frases são convenções formadas por caracteres inscritas no papel, por exemplo. As proposições são conteúdos de pensamento expresso nas frases e com valor de verdade. Se as proposições fossem o mesmo que as frases, até uma frase interrogativa teria de ser uma proposição. Estes conhecimentos parecem insignificantes, mas não são. É da sua clarificação que vamos conseguir ensinar filosofia com eficácia ao longo de 2 anos aos alunos.

8º Parece-me uma opção correcta avançar logo para a discussão de argumentos filosóficos sem explicitar minimamente a caixa de ferramentas da filosofia. Hoje em dia temos imensos livros que o fazem de forma eficaz. Mas o programa impõe limitações e os autores optam por explicitar algumas regras do discurso filosófico logo no início dos manuais. Mas não é correcto explicar o que são premissas, conclusão, argumentos, validade e verdade e não mais usar essas ferramentas ao longo do manual. Se perdemos tempo a explicá-las, não é porque sejam um problema filosófico, mas porque devem ser usadas quando partimos para a acção de filosofar. Há quem argumente que a filosofia não se reduz à validade dos argumentos. No entanto nenhum bom manual reduz a filosofia a estas ferramentas. Mas um bom manual quando as propõe ao aluno, usa-as na análise dos argumentos. Caso contrário para quê perder tempo a ensiná-las? Didacticamente não tem qualquer relevância, pois se forem ensinadas sem serem usadas não têm qualquer aplicabilidade prática. 

Mais sugestões AQUI

sábado, 27 de abril de 2013

O que é a arte?


Este ano vou leccionar filosofia da religião. Mas como tenho uma turma de artes decidimos que seria melhor nessa turma leccionar a filosofia da arte. Acabou de sair um influente ensaio de filosofia da arte de Lev Tolstói na nossa língua. Mais informações sobre este livro AQUI. Para Tolstói,

 “A arte autêntica é acessível a todos e define-se pela sua capacidade de comunicar sentimentos que contribuam para a união das pessoas e para o aperfeiçoamento moral de toda a comunidade. Estas são as bases da teoria da arte que veio a ser conhecida como «teoria expressivista», assente numa definição funcionalista da arte. Teorias que continuam a ser estudadas e discutidas pelos filósofos interessados nos problemas da definição e do valor da arte.


A edição é da Gradiva Tradução do russo de Ekaterina Kucheruk
Revisão científica e introdução de Aires Almeida