sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vampiros especistas



Hoje reparei na notícia sobre a histeria juvenil em torno do filme “Lua Nova”, o sucessor de “Crepúsculo”. Não li os livros, mas tive curiosidade no verão passado em ver o filme “Crepúsculo”. A história do filme pareceu-me pouco intensa, mas julgo ter percebido a sedução junto dos adolescentes, sempre sedentos de histórias de romances cheios de obstáculos, mas verdadeiros e genuínos. Para quem não conhece, a história é a de um rapaz vampiro, muito justo e bondoso, que mantém um romance com uma rapariga, simples mortal. A ideia é que seria algo contraditório um rapaz vampiro bondoso e que mata pessoas para beber o seu sangue, já que os vampiros alimentam-se de sangue. Fiquei mesmo sem palavras quando no filme o vampiro jovem, bonito e bondoso revela que é um vampiro vegetariano. Nesse momento para mim o filme acabou, já que eu gosto de vampiros assustadores, como o Bela Lugosi e não de vampiros betinhos. Mas o que me leva aqui a escrever umas linhas sobre o assunto é que os vegetais não têm sangue. É que o jovem vampiro considera-se (pelo menos no filme) vegetariano porque só bebe sangue de animais como ovelhas e coelhos, matando-os para se alimentar. A encrenca aqui é que este vampiro teen é especista já que desconsidera  moralmente os interesses dos animais, ainda por cima matando-os a sangue frio, provocando-lhes sofrimento. Mas é estranho que um filme destinado a um público maioritariamente jovem revele uma posição destas. Não sei no entanto se nos livros o vegetarianismo do vampiro consiste em matar indiscriminadamente animais para lhes sugar o sangue.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dia mundial da filosofia

Hoje comemora-se o dia mundial da filosofia. Como é dia de festa, não escrevo nada e deixo o link para um pequeno texto que merece a nossa leitura.
AQUI.

domingo, 15 de novembro de 2009

Filosofia e metodologia

Frequentemente alunos meus que tiveram aulas de filosofia com outros professores, confessam-me que, apesar da matéria ser a mesma, a metodologia de ensino é muito distinta. Por exemplo, algumas vezes, alunos do 10º ano que estão a repetir o ano dizem que não deram as noções de validade, verdade, argumento, premissas e conclusão, mas que deram “o que é a filosofia?” durante praticamente todo o 1º período. Nessas circunstâncias, pergunto a esses alunos se deram as características da filosofia (aquela coisa bizarra da historicidade, radicalidade, etc…), e se estiveram todo o 1º período a ler textos que procuram definir a filosofia. A resposta é sempre afirmativa. Seguidamente pergunto se tinham de escrever muito nos testes e respondem também afirmativamente.
Quando isto acontece não é preciso grande esforço para perceber que estamos perante duas formas de abordar a filosofia e o seu ensino. O próprio programa da disciplina promove esta liberdade de ensino, ainda que a promova mais vincadamente sob a versão descrita pelos alunos. Mas é pena que assim seja. E é pena por dois motivos principais:
1)      Porque o programa deveria sofrer os upgrades necessários à disciplina e dotá-la dos mais modernos métodos. Ensinar filosofia como sugere o programa é pensar que os seus métodos não apresentaram qualquer progresso, o que é falso. A ética, arte, política, metafísica, mente, são áreas que foram repensadas à luz dos mais recentes métodos e das descobertas de investigação feitas na lógica.
2)      Porque raramente se ensina segundo o método descrito sem incorrer em erros. Por exemplo, a história das características da filosofia não tem pés nem cabeça. Na verdade elas são tanto características da filosofia como da biologia ou da ciência em geral, pelo que é falso que historicidade, radicalidade, universalidade e autonomia caracterizem a filosofia em específico.
Finalmente, se temos opções de ensino mais rigorosas, pedagogicamente mais correctas, qual a razão de persistir em modelos que em nada têm dignificado a disciplina? Não existe qualquer razão para deixar cair a disciplina no desinteresse geral, nem é bom que tal aconteça. Devemos ser nós, profissionais da filosofia a mostrar o valor da nossa disciplina e a revelar as suas capacidades formativas, revelando também a sua pertinência como matéria de estudo para jovens adolescentes. Sem isso, tanto vale ter como não ter filosofia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Finalmente já o temos


Anarquia, Estado e Utopia, uma das obras centrais da filosofia política contemporânea, acaba de ser publicado em Portugal, pelas Edições 70. A tradução é de Vitor Guerreiro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Instrumentalização ideológica

Fico por isso sempre desconfiado sempre que se instrumentaliza o ensino. Do meu ponto de vista, a razão de ser do ensino é o valor intrínseco do que é ensinado. É importante ensinar filosofia, música, biologia, história, arqueologia, engenharia, e tudo o mais, porque essas coisas são importantes e porque muitos alunos têm talento para essas coisas e não o descobrirão se não contactarem com essas coisas na escola. Que essas coisas têm, depois, por vezes, aplicações sociais importantes é óbvio; queremos ter médicos competentes, e políticos, e engenheiros. Mas estaremos a construir sociedades totalitaristas se só houver competência técnica, mas não houver autonomia intelectual. Se das escolas saírem autómatos que sabem repetir, mas não pensar. Que são incapazes de pôr em causa, por si mesmos, as ideias feitas da sua sociedade, partido, religião, classe social ou etnia. Que só sabem repetir fórmulas matemáticas ou da biologia, teses filosóficas ou históricas, ideias sociológicas ou económicas, sendo totalmente incapazes de as pôr em causa.

Desidério Murcho, in. http://criticanarede.com/html/autonomia.html

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lógica em discussão

A Unidade I&D Lif - Linguagem, Interpretação e Filosofia (Universidade 
de Coimbra) vai promover um colóquio internacional subordinado ao tema:
O Lugar da Lógica e da Argumentação nos Programas de Filosofia do 
Ensino Secundário
Este decorrerá a 4 e 5 de Dezembro na Faculdade de Letras da 
Universidade de Coimbra:
Consulte o Programa:
http://www1.ci.uc.pt/lif/UserFiles/Image/prog_c.pdf
A Inscrição é gratuita e está disponível on-line:
http://www1.ci.uc.pt/lif/UserFiles/Image/ficha.pdf

Não aprecio de todo o programa, mas aprecio e muito a iniciativa. Creio até ser algo urgente a discussão do que se deve e como se deve ensinar na e com a lógica nos programas de filosofia do ensino secundário. E, já agora, deixo aqui a minha sugestão:

- Eliminar definitivamente a lógica aristotélica. Não faz qualquer sentido ensinar uma lógica que tem um âmbito de aplicação muito reduzido quando temos já disponível uma lógica com um âmbito de aplicação muito mais alargado e completa. A lógica aristotélica só tem interesse como história da lógica e não faz qualquer sentido ensiná-la no secundário.

- A lógica, enquanto ferramenta do pensamento crítico, deve ser ensinada no início do percurso e não a meio, pelo que me parece correcta a ideia de a introduzir logo no 10º ano e não no 11º ano.

- Os conteúdos principais a ensinar, seriam: distinção entre argumentos dedutivos e não dedutivos, validade, verdade, inspectores de circunstâncias, negação de proposições, argumentos sólidos e cogentes. Creio também ser necessário ensinar já nesta fase os testes de derivadas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

António Sérgio

0d8fb326 Apesar de nada ter a ver com a filosofia e a minha formação em filosofia, não podia deixar em claro o meu pesar sobre o desaparecimento de António Sérgio, um dos homens que, mesmo sem o saber, mais influenciou a minha vida pessoal. António Sérgio foi singular na forma como divulgou as músicas alternativas e o rock mais marginal em Portugal. Ainda hoje guardo gravações que fazia em cassete, quando tinha apenas 15 anos, do mítico Som da Frente, um dos muitos programas que manteve activo na Rádio Comercial de então. Pelas mãos dele conheci discos tão cheios de arte como, só para citar de cor, American Music Club, california, Spaceman 3, Playing with fire, My Bloody Valentine, isn`t anything, entre centenas de outros. No tempo em que a internet e a difusão do conhecimento de massas era uma utopia, foi António Sérgio quem diariamente me trouxe novidades musicais. Cada música divulgada é um pedaço de prazer tão elevado que só tenho mesmo que guardar uma imensa admiração por este homem e pelo trabalho de divulgação que deixou.

sábado, 31 de outubro de 2009

Confusões e ridículo no ensino

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A burocracia que tem assolado o sistema de ensino é no mínimo caricata. De um ano para outro passei a ver os professores preocupados com burocracia e pouco com o miolo das aulas, que é prepararem as lições. Tenho-me deparado com situações caricatas. Vou aqui dar um pequeno exemplo. Para leccionar uma turma (vou pegar no exemplo de uma turma de cidadania, nos cefs) pedem-me 3 tipos de planificação: uma anual, uma trimestral e uma aula a aula. Concentremo-nos agora na planificação anual e trimestral. Em primeiro lugar temos de definir para que serve uma planificação e de modo muito simples ela serve para guia das aulas do professor, isto é, é pela leitura da planificação que o professor pode saber quantas aulas tem para a unidade X, que recursos tem e que estratégias pode aplicar. Logo à partida, para um sistema de ensino que se pretende contextualizado a diferentes realidades, uma planificação aparece como castradora. Mas não vou pegar por aqui. Afinal uma planificação é um conjunto de intenções que deve ser flexível, simples e aplicável. O professor para planificar uma aula tem de ter à sua frente os materiais (que pode ser o manual, por exemplo) e a planificação. Se tem uma planificação anual e uma outra trimestral, com qual planificação deve o professor trabalhar? Supostamente qualquer planificação tem de mencionar pelo menos dois pontos na tabela: os tempos e os conteúdos. Nesse caso tanto a planificação anual como a trimestral, que as escolas parecem cada vez mais apostadas em exigir, dizem exactamente o mesmo. Então para que se quer uma planificação trimestral? Não bastaria a anual? Além do mais sejamos práticos e simples a pensar. Um professor vai preparar uma aula. Senta-se, abre o manual, faz pesquisa na sua biblioteca pessoal e depois enfrenta 3 planificações. Para qual olha? Seja qual for a sua opção uma coisa é certa: das 3 planificações vai ter de ignorar duas. Nesse caso para que servem tantas planificações? Para nada, rigorosamente nada. Serve para fazer arquivo, aumentar dispêndio de recursos e apresentar produtividade zero. Mas há ainda um aspecto curioso a considerar: o próprio Ministério da Educação tutela e produz os programas. Os programas contêm já uma planificação. Ou seja, a conta é simples: o professor tem a planificação que consta no programa, mais 3 planificações que o grupo disciplinar produz. Para quê tanta planificação? Qual é o objectivo de tanta planificação?

Mas vamos ainda mais longe: uma das coisas que a planificação anual pode conter é precisamente a divisão dos conteúdos por períodos. Nos programas oficiais essa divisão já está feita. Ou seja, se esta divisão está já feita nos planos anuais, qual o sentido de impor planificações trimestrais? A realidade é que não existe qualquer diferença substancial entre uma planificação anual e uma trimestral. 3 planificações trimestrais fazem uma anual e esta é uma conta que qualquer criança é perfeitamente capaz de realizar. Não se percebe então o que se passa na cabeça das pessoas que são mais papistas que o papa e pedem planificações anuais e trimestrais. Isto é realmente brincar ao trabalho e não trabalho efectivo e real.

E isto para não pegar no facto de muitas planificações anuais terem mais de 20 páginas. Ou seja, são feitas para inglês ver já que são tudo menos práticas e úteis. E é triste perceber que se perde tanta energia nestas tarefas burocráticas quando depois este material vai direito para o lixo. Pior que isto não conheço. Se algum colega leitor tiver melhor explicação que a minha, agradeço que a deixe na caixa de comentários.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Freedom of speech

parental-advisory--explicit-lyrics Publiquei um texto sobre a liberdade de expressão aplicada ao caso do último livro de Saramago no blog da Crítica. Ler AQUI.