segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Como é que ensino filosofia? Parte 5



As dificuldades


Como docente de filosofia assumo muitas dificuldades inerentes à profissão. Nem todas são explícitas para poder aqui postar no blog, mas entre as principais que deveriam ser incluídas em qualquer boa reforma do sistema educativo, destaco:


- Falta de actualização de conhecimentos em ciências da educação. A investigação que temos disponível em ciências da educação parece-me demasiado carregada pela ideologia, em sentido fraco. Trata-se de um estudo fortemente marcado pelo construtivismo. Não estou a defender que não se estude as teorias construtivistas aplicadas às ciências da educação, mas não faz qualquer sentido estudá-las como se fossem o supra sumo da teoria educativa ou fosse a única corrente pensada até aos dias de hoje. Há falta de discussão e diversificação de conhecimentos a este nível. As formações disponíveis relacionadas com as ciências da educação são, em regra, muito pobres e pouco dadas à discussão e aplicação de técnicas que possam ajudar o professor a ultrapassar as dificuldades. Mesmo não sendo a minha maior área de especialização é verdade que muitas das vezes sinto que os professores não sabem como dar respostas a muitas situações por ausência de conhecimentos que constituiriam a ferramenta essencial para ajudar a responder a situações mais complexas. São inúmeras as vezes em que as respostas não saem muito do senso comum.


- A quase total ausência de formação em filosofia em ensino é, do meu ponto de vista, trágico para o ensino da disciplina. E aqui creio que a culpa está directamente no ensino superior. Quem melhor está preparado para formar professores do secundário senão os “especialistas” do superior? Para além do mais seria essa uma forma de ir ao secundário recrutar alunos interessados nos cursos de filosofia. Não faz qualquer sentido que o ensino superior se desligue da realidade do mundo. O nosso ensino superior ainda anda de costas voltadas para os jovens e para o ensino secundário, com as consequências que se sabe. E neste ponto creio que não há responsabilidades políticas, parte das pessoas o interesse em construir a sua disciplina, trabalhar para o seu sucesso e interesse. Há todo um trabalho de divulgação junto das pessoas e das escolas a ser feito. Este descer à terra poderia ser decisivo e não implica tantos recursos quanto se possa pensar à partida. Em Portugal ainda se olha para o trabalho intelectual como se este fosse uma entidade sagrada, disponível só para alguns. O trabalho intelectual deve ser divulgado e estar disponível para os que menos acesso a ele têm.

domingo, 30 de agosto de 2009

Como é que ensino filosofia? Parte 4



O trabalho ao longo do ano exige alguma diversificação de estratégias. Normalmente não opto nem por trabalho de grupo, pelo menos no sentido habitual, nem por recursos extra aos textos de filosofia, como filmes, literatura, artes ou outros. O meu estilo de leccionação direcciona o trabalho todo em torno da discussão activa e da leitura activa dos textos. Nigel Warbuton tem um livro muito pequeno (nem 100 páginas tem), Philosophy: the essential study guide, (Routledge, 2004) que tem funcionado como um excelente guia para as minhas aulas. Segundo Warburton o trabalho de estudo em filosofia tem 4 componentes principais:


Leitura activa


Escuta activa


Discussão activa


Escrita activa


Identificamo-nos facilmente com estas 4 palavras: ler, Ouvir, discutir e escrever. Mas é na palavra “activa” que se estabelece a diferença específica do estudo filosófico. E tal resume-se de modo simples. Por “activa” o autor entende que se pensa no que se está a ler, a ouvir, a discutir e a escrever. È isto que um professor de filosofia pode esperar dos seus alunos, que deixem de ter uma atitude passiva perante os estímulos intelectuais e comecem a pensar seriamente nas coisas. Não vou aqui recensear o pequeno e útil livro de Warburton, mas é uma leitura muito boa para professores já que o autor dá exemplos práticos mostrando diferenças essenciais no trabalho de estudo em filosofia, por exemplo, com exemplos práticos, o autor mostra a diferença entre um trabalho plagiado do que se leu e um trabalho original. E mostra-o a vários níveis de desenvolvimento, isto é, desde o plágio descarado, passando por níveis intermédios de mescla entre o plágio e o original, até ao texto original.


Não podemos pedir aos nossos alunos que logo no primeiro teste sejam completamente originais e sustem bem as suas teses. É precisamente para isso que os estudantes estudam filosofia como formação geral no secundário. Temos 2 anos para ensinar os alunos a pensar pela sua própria cabeça e não faz sentido esperar que eles consigam fazer isso logo no primeiro período do 10º ano. Sobretudo há que ter consciência que os alunos progridem a ritmos muito diferentes uns dos outros. Alguns colegas dizem logo que fazem os testes diagnóstico que notam que os alunos não são capazes de raciocinar filosoficamente. Mas não há nada de espantoso nisto já que nós estamos nas escolas precisamente para lhes proporcionar essa ferramenta, a do pensamento autónomo.


A ideia de que um aluno pode filosofar incorre também em confusões. Muitas vezes há a tendência a pensar que somente os grandes filósofos podem filosofar e aos restantes resta a possibilidade de estudar o que os grandes filósofos pensaram. Podemos compreender a falsidade desta tese se pensarmos nas outras disciplinas: será que um aluno quando está em laboratório de biologia não está a fazer biologia? Se não está a fazer e estudar biologia está no laboratório a fazer o quê? O que ele está a fazer é a compreender as teorias da biologia. Ainda que a um nível muito primário ele está a praticar e a fazer ciência. Por que razão um aluno de filosofia não pode filosofar? Por não ser um filósofo? Mas será que é preciso ser filósofo para fazer filosofia ou pensar filosoficamente? Não parece que assim seja. As aulas de filosofia existem precisamente para os alunos filosofarem. E podemos estar descansados que nenhum aluno vai roubar o estatuto a Hegel ou Kant.


O ensino tem valor pois dá as ferramentas aos mais jovens para compreenderem o funcionamento do mundo. Das melhores versões de compreensão do mundo que os seres humanos inventaram e descobriram são a ciência e a filosofia. Fazer com que as pessoas, especialmente os mais jovens, realizem as suas próprias descobertas, ainda que a níveis muito simples, não é um defeito, mas uma virtude. Qualquer ser saudável é capaz de se dedicar à discussão racional de uma forma organizada. Não se pretende muito mais que isso com o estudo da filosofia.


As aulas de filosofia não existem para dar a conhecer a obra de Ingmar Bergman, Rilke ou Salvador Dali. As aulas de filosofia existem para as pessoas aprender a discutir os problemas organizadamente, ainda que se possam usar os exemplos supracitados. Nem as aulas de filosofia servem para promover os meus gostos pessoais, as minhas preferências religiosas, etc.


As aulas de filosofia podem ser muito estimulantes e diversificadas só com a discussão e leitura activas. Não são necessários mais adereços. Apesar de não trabalhar muito em grupo, tenho no entanto algumas preferências para diversificar as minhas aulas. Gosto, por exemplo, de dar as aulas com powerpoint, pelo menos as mais expositivas. Prefiro o powerpoint aos quadros tradicionais de ardósia, já que detesto o pó largado pelo giz e tenho um pequeno problema: quando escrevo nos quadros de ardósia, como muitas vezes esses estão gastos pelo tempo, canso-me rapidamente no músculo do braço. Por essa razão comprei um netbook de 8,9 “(Asus, eeepc, 901) que me dá muito jeito e tem sido um autêntico companheiro de aulas. Um dos problemas é que nem sempre tenho o projector disponível e aqui é necessário algum jogo de cintura com o funcionário que leva o aparelho à sala de aula. No mercado começam a aparecer projectores portáteis, muito pequenos. Ainda são muito caros (cerca de 300€ para cima), mas talvez num futuro próximo estes projectores venham já incorporados nos computadores portáteis, como passou a acontecer com as webcams.


Ainda assim já me aconteceram imprevistos, como chegar à sala de aula, os estores serem fraquinhos e a lâmpada do projector estar parcialmente gasta, ou seja, não se vê nada. Aqui há que contar com a mudança de planos ou partir para o plano B. Em regra sou muito rápido a decidir estas coisas. Acontece-me com frequência fazer um powerpoint no intervalo de uma aula para a outra, em 15 minutos. Basta passar a aula que tenho planificada para o powerpoint.


No passado investi em alguns filmes e documentários, mas confesso que foram sempre experiências fracassadas, pois não soube muito bem articular o conteúdo desses materiais com o conteúdo filosófico. Talvez seja uma insuficiência minha já que conheci alguns colegas com ideias fantásticas e com experiências notáveis. Mas também é verdade que nunca conheci um professor de filosofia que conhecesse bem a filosofia analítica e o conseguisse fazer sem incorrer em vagueza incompreensível para a maioria dos alunos. A verdade é que nunca conheci muitos professores com alguma formação em filosofia analítica (o que não faz, note-se, de um professor melhor ou pior professor), pelo que tenho de dar aqui o benefício da dúvida. E, depois, claro, conheço aquelas experiências completamente falhadas como a que retratei da Formiga Z, proposta do manual mais adoptado no país para o 10º ano, Pensar Azul, (Texto Editora, 2007). Ver AQUI e AQUI o que escrevi sobre a Formiga Z.


Ao longo do ano é verdade que não diversifico muito as aulas de filosofia (não vou por isso algum dia poder aspirar a ser professor titular). As minhas aulas são simples, directas e têm como preocupação central estimular os alunos a pensar sobre os problemas que proponho para discussão. É verdade que muitas das vezes tenho de me desviar um pouco dos conteúdos e problemas a estudar. Isto acontece particularmente quando tenho turmas de alunos muito calados, que raramente respondem, mesmo quando lhes pergunto directamente alguma coisa. Nestes momentos, que acorrem ocasionalmente durante alguns minutos de algumas aulas, questiono os alunos de como organizam o seu estudo, improviso uns pequenos ateliers na sala de aula sobre metodologia de estudo, proponho objectivos de curto prazo, tipo semana a semana, para os alunos cumprirem e claro que muitas destas vezes a conversa resvala um pouco para os problemas dos adolescentes, das suas angústias pessoais, etc. Sigo duas regras nestas ocasiões: aumentar a auto estima dos jovens promovendo uma ideia de que são mais capazes do que o que pensam (e regra geral penso que é assim mesmo) e, a segunda regra, é a de não alimentar exageradamente estas conversas. A segunda regra resulta da experiência passada. No meu passado profissional detinha-me um pouco a tentar compreender as dificuldades dos jovens, mas comecei a aperceber-me de que quando o faço não ajudo mais os meus alunos do que se lhes ensinar e insistir e exigir deles. Exigir deles e do seu trabalho é também fomentar uma cultura de responsabilidade e rigor. É claro que devemos uma vez mais usar do bom senso e saber interromper a aula para os ouvir. Mas qualquer cedência feita resulta em pedidos de mais cedências, pelo que não devemos pensar que algum dia podemos eliminar por completo alguma tensão que existe entre um professor que exige aos seus alunos e os alunos que querem mais facilidades.


Finalmente, uma sugestão.


As escolas estão atolhadas de horas para distribuir aos professores sem saber bem o que lhes há-de pôr a fazer. Apercebi-me dessa realidade e a verdade é que gasto muito do meu tempo particular a expor dúvidas por mail aos alunos. No início de cada ano apresento projectos à escola nesse âmbito, fazendo incluir esse trabalho no meu horário anual. Por vezes esses projectos são aceites, dependendo das escolas. È uma sugestão que ajuda a rentabilizar o nosso tempo para a nossa disciplina. É que isto de conseguir tempo para trabalhar na disciplina é cada vez mais uma luta já que os últimos governos, especialmente o último conseguiu fazer com que os professores passem a maior parte do tempo nas escolas com tarefas inúteis.


Ainda continua.... amanhã.

sábado, 29 de agosto de 2009

Estudar filosofia

9780415341806 Se alguém lhe disser que nunca teve qualquer dificuldade em acompanhar a discussão de um artigo ou livro de filosofia, ou está a mentir ou a mentir a si mesmo. A filosofia pode ser desafiadora. Ela incide em grande parte sobre problemas abstractos. Isso pode tornar difícil a tarefa de acompanhar a cadeia de argumentação. Ler filosofia não é uma questão de interpretação de factos, mas sim de lidar com ideias que podem parecer muito obscuras. Se o trabalho que está a ler foi escrito há algum tempo atrás, as ideias podem estar expressas numa linguagem arcaica. É provável que inclua termos técnicos ou palavras conhecidas usadas de maneira diferente. E, verdade seja dita, nem todos os filósofos que estudamos escreveram de forma clara. Alguns até parece deleitar-se na obscuridade da sua escrita.

 

Nigel Warburton, Philosophy: the essential study guide, Routledge, 2004, p.11 (Tradução e adaptação minha).

Como é que ensino filosofia? Parte 3


Introdução ao programa

Até aqui foi só aquecer. Agora, talvez já na terceira aula, o trabalho é sério e para andar para a frente. Neste momento o estudante já reúne informação sobre como vai ser avaliado em filosofia e quais os principais pontos do programa. As primeiras aulas do 11º ano passamos muito tempo a recorrer a pré conhecimentos, mas se eles estiverem bem sólidos vamos recuperar com muita facilidade esse tempo. Por exemplo, se as primeiras aulas do 10º estamos a ensinar os instrumentos lógicos do pensamento, com as noções de proposição, premissa, conclusão, etc. no 11º é de esperar que os alunos tenham já uma noção sólida desses conhecimentos e, nesse caso, avançamos directamente para a acção. No caso do 11º ano há uma série de noções que temos de expor antes de avançar para a discussão filosófica propriamente dita já que iniciamos com o ensino a lógica. Mas em qualquer ano, 10º ou 11º convém o quanto antes passar para a discussão propriamente dita dos problemas já que é esse o objectivo da disciplina.

Este trabalho é muito variável já que ele depende também, e muito, dos alunos que temos pela frente. Por essa razão percebemos logo nesta fase inicial que vamos ter de fazer alguns ajustes nos programas de ensino (já que eles oferecem essa possibilidade).

Um dos melhores métodos que conheço para ensinar logo nesta fase inicial é passar o maior parte do tempo da aula que podemos com perguntas. Em vez de darmos uma definição de premissa perguntamos aos alunos se sabem o que é uma premissa. Podemos fazer perguntas espontaneamente, tais como:


“podem existir premissas sem conclusão?”,


“pode existir mais que uma conclusão para várias premissas?”,


“será que um argumento pode ter somente premissas?”,


“qual a necessidade de uma conclusão num argumento?”,


etc.


Há professores muito imaginativos no modo como colocam as perguntas, outros obedecem mais aos cânones e aos manuais, outros ainda navegam com tal facilidade na filosofia que inventam problemas e questões a toda a hora. Talvez a melhor regra a seguir nesta situação seja aquela que nos diz que o ensino não é uma tarefa mecânica de despejo de conhecimentos dos outros, mas um laboratório vivo de conhecimento e por isso temos de ser muito criativos. Nem sempre é muito fácil ser criativo. Ao fim de duas aulas seguidas de 90 minutos, se a turma que vier a seguir for muito barulhenta ocorre muitas vezes termos de deixar os alunos a ler em silêncio para nosso descanso também. Não há problema nenhum nisso. É bom para eles que raramente pegam num livro para ler e bom para o professor que está um pouco mais cansado nessa altura.

Mas a lição principal é esta, a mesma que aprendemos com Sócrates: temos de estar permanentemente a colocar problemas e questões. Não precisamos de mostrar erudição, mostrar que lemos 1000 livros na vida e dominamos grego e alemão. Quanto muito, essa atitude só vai criar reverência nos alunos e progressivo desinteresse pela disciplina. É aqui que o professor tem a oportunidade de mostrar o que é ser informal, mas sério e exigente. O professor de filosofia não conquista os seus alunos atirando-lhes palavras em grego para o caderno. O professor de filosofia tem oportunidades soberanas para cativar os estudantes a gostar e estimar a disciplina. Para tal, basta que tenha um gesto tão simples como virar-se para o aluno com ar intrigado e perguntar: “mas que razão ou razões te levam a pensar assim?”. Se relermos os diálogos de Sócrates – e todos os professores leram parte desses diálogos – notamos que Sócrates conduz a discussão na descoberta de respostas. Na maioria dos diálogos Sócrates passa mais tempo calado que os seus interlocutores. E isto acontece, como sabemos, porque Sócrates conduz o seu aluno numa descoberta que tem de ser auto descoberta. E estas primeiras aulas são decisivas para colocar em prática este desempenho filosófico. Claro que temos de ter consciência que a performance de um professor pode variar muito, razão pela qual temos também de contar com a nossa espontaneidade e experiência.

Mesmo com a minha experiência que já vai quase em década e meia de ensino, são ainda algumas vezes aquelas em que falho na aplicação do método nas primeiras aulas. Estudei no ensino formal, em que o professor é que dita a matéria a estudar. Aliás, nem habituo os meus alunos a chamar “matéria a estudar” em filosofia, mas antes “problemas a discutir”. Também eu ainda sofro de uma tendência a passar muito tempo a falar, muito expositivo. Mas é precisamente isto que é necessário corrigir e é bom estarmos conscientes que não corrigimos todos os defeitos num ano. Vamos corrigindo e aprendendo. A graça de um trabalho criativo como ensinar filosofia é precisamente essa.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Como é que ensino filosofia? Parte 2



Inteirar-me das turmas e horário – preparar as primeiras aulas com critérios de avaliação e regras gerais de funcionamento da aula e da disciplina.


Tomar conhecimento das turmas e anos que vou leccionar é o passo seguinte. Logo no primeiro dia de aulas posso inserir mais dados no portfólio e organizar as turmas nas folhas de cálculo. Durante as primeiras semanas de aulas esta é uma tarefa quase diária uma vez que leva algum tempo até que as turmas se organizem completamente. Há alunos que desistem, outros que são transferidos, etc.

A primeira aula pode ser decisiva. Durante todos estes anos de ensino ouvi as mais variadas histórias sobre a primeira abordagem aos alunos. Estou consciente que não existe um método que acerte completamente e um mesmo método pode ser bom nuns casos e falhar noutros. Mas seja qual for o método não há nenhum que acerte completamente, nem outro que falhe completamente. Para esta primeira abordagem conto também com a minha personalidade. Cada professor deve seguir a sua.Parece-me mau mostrar uma personalidade que não se tem. A informalidade, mas séria e com método pode ser a linha principal orientadora. O objectivo é iniciar um trabalho de leccionação com estudantes adolescentes e, acima de tudo, convém ser firme, mas saber contornar a firmeza em alguns momentos. Mas não se pode de alguma forma quebrar a firmeza nos critérios de avaliação. Passo os primeiros 90 minutos com cada turma a clarificar muito bem como vão ser avaliados ao longo do ano e, em regra, marco logo as datas dos testes para o ano inteiro. Explico muito bem, fazendo-me acompanhar de uma grelha aprovada em grupo, do que se avalia em filosofia e como se avalia. Explicito o que é que se avalia nas atitudes e valores numa aula de filosofia. Pode-se recorrer a uma margem relativa de negociação e o próprio programa deve contemplar essa margem, mas em última instância cabe ao professor decidir e não aos alunos sob pena de se instalar a confusão. A experiência diz-me que os alunos não gostam nem de professores demasiado autoritários, nem demasiado permissivos, pelo que encontrar o meio termo é a tarefa destas primeiras aulas.

Em alguns casos consigo cumprir com este ponto em metade do tempo da aula e, nesses casos, avanço logo para a ficha diagnóstico. Com esta ficha começo a ter uma primeira ideia da capacidade de cada aluno em aplicar técnicas de raciocínio. Em regra faço esta ficha com pequenos exercícios de raciocínio e algumas questões de resposta curta. No 10º ano temos adoptado o Arte de Pensar que é um manual que rentabilizo muito mais que qualquer outro e, nesse caso, recorro à ficha que vem com o manual.

Se for o caso desta ficha passar para a segunda aula dou somente metade da aula para a sua realização e aproveito a outra metade para fazer a primeira abordagem ao programa. De um modo muito superficial informo os alunos sobre as unidades a estudar.

Nestas primeiras aulas surgem questões habituais dos alunos. Se o professor é exigente nas notas finais, se faz testes difíceis e, para as turmas do 10º ano, se a disciplina é difícil. Também para estas respostas é necessário recorrer ao bom senso. Em regra respondo sempre que me considero um professor exigente comigo mesmo, pelo que é natural que exija trabalho e empenho dos alunos para alcançarem bons resultados. Em relação aos testes informo os alunos que eles não são difíceis já que não recorro às famosas ratoeiras. O teste não é para apanhar o aluno em falso, mas é um momento importante da sua avaliação, o momento em que o aluno pode mostrar que conhece as matérias e que sabe pensar sobre elas. Mas também é verdade que o bom senso indica-me que devo desdramatizar um pouco os testes. Como é que o faço? Os nossos alunos estão habituados a que os testes difíceis representem algumas coisas, nomeadamente:


- Perguntas rasteira;


- Dezenas, muitas vezes chega a uma centena, de páginas para ler;


- Decorar o que estão a ler.


E é aqui que a minha intervenção começa a desdramatizar os testes. Não vai ser necessário ler centenas de páginas, nem decorar o manual, muito menos as perguntas rasteira. Não podemos esquecer que os estudantes tem 4 ou 5 disciplinas que lhes pede mais tempo de estudo. Se cada uma delas remeter para 70 ou 90 páginas de estudo para a realização de um só teste, isso significa que a maioria dos estudantes não têm sequer tempo de compreender e assimilar conteúdos. Os professores queixam-se habitualmente que os alunos não têm hábitos de leitura formados. Ora, é contra producente pedir a quem não tem grandes hábitos de leitura, que leia cerca de 50 páginas para um só teste. Isto multiplicado por 5 disciplinas, por exemplo, dá 250 páginas. É muito? Não. Mas é igualmente verdade que jovens que não tem os tais hábitos de leitura não se vão pôr a ler 250 páginas para realizar os primeiros testes. É mais sensato remeter no máximo o estudo de umas 20 páginas por teste. Isto se tivermos presente que compreender um conteúdo leva demasiado tempo a um jovem. O que se pede ao estudante é que trabalhe um pouco, passo a passo e sobretudo consiga aplicar as técnicas do raciocínio filosófico. Para além de tudo um dos momentos de avaliação, no terceiro período, é a redacção do ensaio argumentativo e aí sim o aluno vai ter de ler mais alguma coisa (ainda que muito longe da centena de páginas).


Estas são dificuldades que enfrentamos no início do ano. Os alunos estão habituados a ter de ler para decorar. Ora, estudar não é isso, ainda que tal seja o resultado de um ensino que ainda carrega o peso do formalismo do passado, pelo menos nos cursos gerais. Nestas primeiras aulas é necessário muito cuidado para explicar pacientemente aos alunos como se estuda e trabalha em filosofia. Muitas das vezes, quando tal se faz sentir necessário, há que aplicar aqui uma estratégia que traz sempre bons resultados. Arranja-se um bom texto argumentativo, acessível a estudantes de secundário e leva-se para a aula. Começa-se por explicar que se vai ensinar a estudar filosofia. Aí já se pode começar a trabalhar a tese, razões que apoiam a tese e a conclusão, que são pequenos elementos indispensáveis a um bom ensino da filosofia e que muitos estudantes não dominam. Para alunos do 10º ano esta tarefa tem enormes vantagens. É que os alunos começam desde cedo a perceber que não vão decorar textos, mas sim discutir problemas, aqueles que os textos levantam. É certo que não é do pé para a mão que se motiva logo no início uma turma de 20 alunos, mas nós somos professores, não somos profetas e como tal não os podemos salvar a todos. E também devo considerar que aparecem muitos contra tempos principalmente no início: alunos chico espertos que interrompem para mandar piadas marginais, outros que pedem para ir à casa de banho a ver se cola e outros ainda que querem é falar e tentam desviar o assunto para aquilo que lhes interessa. A regra a seguir sempre é a da firmeza e atacar logo estes problemas na 1ª aula. Ninguém vai à casa de banho (a experiência mostra-me que os pedidos de ida à casa de banho ocorrem com muita frequência nas primeiras semanas de aula e ao fim de 1 mês desaparecem quase por completo se o professor for firme) e aos chico espertos já lhes explicamos que as atitudes e valores a avaliar em filosofia é o saber ouvir o outro, sem o ironizar no mau sentido e sobretudo saber participar activamente nas discussões. Ainda há outros contra tempos que me lembro, como aqueles alunos que estão com o caderno novo e esferográfica na mão e ficam zangados se o professor não passar metade da aula a ditar apontamentos. O ensino não tem só coisas boas e muitas mais vezes que as desejáveis, cria maus hábitos nas pessoas.

O próximo post mostra como entro no trabalho duro. Fica para amanhã.

Como é que ensino filosofia? Parte 1


Vou dar início a uma série de pequenos posts onde tentarei mostrar como ensino filosofia no ensino secundário. Vou postando por partes. Esta primeira parte obedece a um trabalho ainda prévio à leccionação propriamente dita. Espero que este trabalho ajude os colegas que visitam o blog.



Portfólio – trabalho prévio



Praticamente no início de mais um ano lectivo, ainda que esteja a gozar os últimos dias das férias, aproveito para organizar o portfólio para o próximo ano, subdividido em várias secções. Desde já, a primeira dificuldade é não saber com que anos e turmas vou trabalhar. Esse trabalho, provavelmente o mais importante de todos, muitas das vezes acaba a ser feito em cima da hora, com as imperfeições naturais que daí decorrem. Para o portfólio utilizo uma daquelas pastas da Ambar com micas agregadas. Lá coloco, numa ordem que já uso há uns anos, horário do professor (deixo uma mica vazia até o ter em mãos), os critérios de avaliação, turmas e grelhas de classificação, textos e materiais extra e um plano prévio de actividades (normalmente de continuação já que ando há uns anitos na mesma escola). Na qualidade de delegado de grupo, uma das propostas que fiz inicialmente ao grupo foi a de fazer planificações que coubessem no máximo em duas folhas. Assim é de fácil consulta e andamos com as planificações sempre à mão. Planificações de 15 páginas significa que são arquivadas e nunca mais ninguém olha para o documento. A portabilidade foi um dos critérios que o meu grupo de trabalho adoptou.

Uso o portfólio em versão digital e imprimo somente o material estritamente necessário para andar comigo dentro da pasta no portfólio fisíco. Estes portfolios da Ambar tem a vantagem de terem no interior da capa dois lugares para cd. Isso permite-me, no final de cada ano, gravar tudo em cd e arquivar. Não se espere daqui que tudo esteja na sua organização perfeita. Não existem métodos ideais e durante o ano são muitos os documentos que vou acumulando, de modo que passado uns anos trabalhar com o portfólio nem sempre é tarefa fácil. E com a burocracia cada vez maior nas escolas, ainda mais complicado é. Por essa razão também mando muita coisa para o lixo, ainda que tenha sempre receio de enviar para o lixo material que possa vir a fazer falta.

Como tenho alguma prática de ensino neste momento não estou ainda a trabalhar directamente nos programas já que nem sei bem quais os anos e turmas que vou leccionar. Esta tarefa é tanto mais complicada quanto menos anos de ensino temos e é um erro que as escolas deviam ter a preocupação de corrigir. Claro que muitos professores só querem saber do horário cedo para reclamar que queriam esta ou aquela tarde livre, mas cada vez mais os professores necessitam dos horários atempadamente para aproveitar a primeira semana de Setembro para preparar os programas. Se, por exemplo, me couber em má sorte leccionar Psicologia A ou B, terei de passar um fim de semana inteiro a preparar a primeira unidade já que nunca leccionei esses conteúdos. E isto porque os horários são entregues aos professores pouco tempo antes do ano arrancar. No ano seguinte ao meu estágio fui parar a uma cidade distante do interior do país e entregaram-me um horário com filosofia do 10º ano, 11º e Psicologia e pediram para começar a trabalhar nesse mesmo dia. Nunca tinha leccionado Psicologia na vida. No ano seguinte fui parar a uma Vila do interior e apresentei-me na escola às 9h da manhã e meia hora depois estava já dentro de uma sala de aula. Assim é mais complicado realizar o trabalho prévio de estudar os programas, preparar as aulas a partir do manual, etc. isto para já não referir a probabilidade de termos um mau manual adoptado e nesse caso ter de fazer um autêntico trabalho de pesquisa, corte e costura ao longo do ano lectivo. Fazer isto para 3 disciplinas diferentes (em muitos casos é mais) é uma tarefa complexa e uma circunstância conhecida só por quem está bem por dentro da realidade que é uma escola, os professores.

Este é o trabalho que ando a realizar neste momento, portanto toda a gente já sabe o que ando a fazer. Os passos que seguem é o que irei fazer a seguir ao portfólio. Nada disto, entretanto, tem muito a ver com ensinar filosofia, mas mais com o ensinar em geral. Mas sem este trabalho prévio, mais ou menos elaborado, é impossível chegar a uma sala de aula. Esta é também uma parte importante do que aprendem a fazer os futuros professores nos estágios. Com a experiência este trabalho torna-se mais organizado, mais fácil de fazer. É mais fácil pois já temos um conjunto de materiais organizados e temos também experiência. Mas este trabalho é enorme para um professor nos primeiros anos de profissão que anda de terra em terra com a casa às costas e é obrigado a mudar de escola vezes sem conta. É que cada escola tem os seus métodos de trabalho próprios. Há escolas mais burocráticas, outras menos, grupos de trabalho mais activos e outros menos. Para além disso existe a mania de empurrar todo o trabalho burocrático para os mais novos (também já fui vitima disso) e, como tal, quanto menos anos de serviço tem um professor, mais embaraçado pode ficar com os inícios de anos lectivos. Resta ainda dizer, pelo menos para os leitores não professores, que 90% se não mesmo 100% deste trabalho é realizado em casa, razão pela qual a sala do meu T2 está transformada numa biblioteca / escritório.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O desejo de ser engenheiro

DSCF0369 Aproveitei o mês de férias em Agosto para renovar os meus cartões de identificação e tirar o cartão do cidadão. Quem me atendeu foi um jovem adolescente de 15 anos. Achei curioso o jovem estar ali a trabalhar e perguntei como é que estava ali a realizar tal trabalho. Respondeu-me que pediu a um familiar para poder estar ali a aprender durante as férias já que era melhor para ele do que estar em casa a ver TV. Devo registar que todo o trabalho dele estava a ser acompanhado por um adulto. Mas é verdade que o jovem fez o trabalho todo direitinho e fiquei contente com o atendimento (provavelmente por estar tão habituado a comunicar com jovens desta idade). Claro que não resisti a colocar as habituais questões sobre a sua vida escolar e as suas expectativas futuras. Quando lhe disse que era professor de filosofia, o jovem parou as tarefas e olhou para mim perguntando: “mas o que vou estudar em filosofia?”. Ora esta é uma questão que não me assusta e tenho um enorme prazer em responder. Quando dei a resposta mais curta, mas mais clara que me foi possível, o jovem ficou uns segundos com ar pensativo e respondeu: “acho que vou gostar, pois gosto das disciplinas que me fazem pensar”, ao que eu ripostei: “então deves gostar de ciência, por exemplo. Queres ser cientista?” Mas o jovem respondeu que não quer ser cientista. O que ele quer é ser engenheiro de informática. Mas quando questionei o jovem sobre a razão pela qual ele quer ser engenheiro de informática, notei que ele tem uma imagem distorcida do que pode fazer um engenheiro de informática. Tem uma ideia ainda muito elementar. Até aqui nada de grave já que ainda é muito jovem e não se espera que tenha já uma ideia consistente sobre o que é a engenharia. O que me parece mais grave é a ideia que o ensino lhe vai incutir até à conclusão do ciclo de ensino do secundário, do que é a informática. A grande maioria dos nossos alunos pensam que a informática é dominar o Word, o Windows e fazer um blog. Raramente nessa disciplina usam a inteligência e o raciocínio. Não aprendem, por exemplo, técnicas básicas de programação, não se confrontam com problemas. Ora, o engenheiro é aquele que cria engenhos e para tal é um pensador que aplica o seu raciocínio numa área específica. Mas os alunos que concluem o secundário não fazem pálida ideia que um engenheiro de informática possa ser tal coisa. O nosso ensino é assim. Há a tendência pela nossa parte, profissionais da filosofia, a pensar que é uma realidade que afecta a filosofia, mas tal não é verdade. O mau ensino não é exclusivo da nossa disciplina e atravessa-as a todas, com piores e menos piores efeitos.


Nota: a fotografia lá a cima é mais uma obra de arte minha :-)

Felicidade

DSCF0251 Ao pegar no último capítulo do livro de James Rachels recentemente publicado entre nós, Problemas da filosofia (Gradiva), li que a felicidade não tem uma relação directa com a riqueza e a posse de dinheiro. Já tinha lido esta tese com uma evidencia forte em Peter Singer , Como havemos de viver? (Dinalivro). Parece que há estudos que comprovam esta tese. De modo até muito intuitivo concordo com a tese (até porque a mesma me conforta quando tenho pouco dinheiro). Mas também li que alguém que acredita que a sua actividade tem valor tem mais possibilidade de ser feliz. Singer faz uma distinção útil entre valor intrínseco e valor extrínseco. Segundo esta distinção a riqueza material, o dinheiro só possui valor extrínseco, isto é, funciona como um meio para valores intrínsecos. De um modo mais claro, o dinheiro possibilita que alguém possa ajudar os menos favorecidos com acções humanitárias. Segundo ainda esta tese, só actividades com valor intrínseco são fortes no sentido de fazer alguém mais feliz. Mas será mesmo assim? Será que o dinheiro não tem valor intrínseco? Em que sentido uma acção como ajudar alguém a viver melhor faz alguém mais feliz do que ter dinheiro? Será que ter a acumular dinheiro não pode ser uma actividade com valor intrínseco, valor por si mesma? Por quê? Será que a posse de dinheiro não pode fazer a vida de alguém uma vida com sentido? O que pensa o leitor?

sábado, 22 de agosto de 2009

Encontro nacional de professores de filosofia

Já está mais que divulgado nos canais conhecidos, mas não poderia deixar passar em branco este importante acontecimento. Infelizmente nunca consigo estar presente, mesmo considerando que as datas são as mais adequadas e as melhores segundo o calendário escolar português. Este ano o encontro conta com uma participação de peso, Richard Swinburne, um dos mais importantes filósofos actuais da filosofia da religião. É uma boa oportunidade para presencialmente aprender e discutir os problemas desta área ainda tão estudada da filosofia. Se alguém se oferecer como repórter para o FES fico desde já agradecido. A organização é da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Reverência linguística e filosofia

DSCF1659 Uma das coisas que menos gosto de fazer é divulgar aqui no blog textos, principalmente os da revista Crítica, já que assumo que o meu blog vive na sombra do trabalho imenso da Crítica. A diferença é que a Crítica é uma revista profissional de filosofia, ao passo que o meu blog não passa de apontamentos breves e pessoais, enriquecido com variadas referências bibliográficas e afins. Como participo no blog da Crítica e faço assistência editorial à Crítica já pensei mesmo em extinguir este blog. Mas por coincidência na altura em que pensei tal coisa notei que o blog estava de viva saúde em termos de afluência diária. Cerca de 300 visitas diárias é muita fruta para um blog de filosofia. Entretanto perdi a conta mas creio que neste momento o blog está com menos visitas, mas em Agosto a maioria dos leitores estão deitados na areia de uma das muitas praias da costa portuguesa. Serve isto para justificar, espero que bem, que algumas vezes não resisto a citar um ou outro texto publicado na Crítica. O último deles, A traição aos gregos, de Gonçalo Armijos Palácios é um toque directo e claro na ferida. Recordo que durante o meu curso de licenciatura imensos estudantes viviam oprimidos com a ideia de terem de – como eles afirmavam – pensar em alemão ou grego. Para tal organizavam-se seminários de leitura do texto filosófico em grego e alemão na faculdade. E não era raro os professores ostentarem as suas edições no original. Nada disto seria problema, até porque também me parece uma vantagem ler as obras no original, não fosse a ideia maluca de que pensar a sério teria de ser em grego ou alemão. Quem não dominasse alemão ou grego era coxo para a filosofia, mesmo que não soubesse o raio de um modus ponens. Ah, e o francês era obrigatório e lá iam os estudantes à Marquês de Tomar comprar as edições em francês que depois ostentavam debaixo do braço. Edições portuguesas eram para os pobres de espírito. Carl Sagan não sendo filósofo, não passava de um mero divulgador de ciência. Russell era um filósofo menor do circulo de Viena (observe-se o erro). Esta atitude universitária motivava 3 ou 4 alunos por turma a estudar grego e alemão e a ler as investigações lógicas de Husserll. Ou então motivava 2 ou 3 alunos a ler a passagem da crítica da razão pura para a prática e passarem a vida com 30 páginas de texto com análises que não lembra a ninguém. Para dar um ar de intelectual engraçado, alguns relacionavam a Mafaldinha com Descartes, elaborando teses em volta de um conceito que atribuíam a Descartes, mas que mais ninguém via esse conceito a não ser o iluminado. Nem o próprio Descartes topou tal coisa! A maioria dos estudantes eram atirados directamente para o desinteresse pelo curso e acumulavam toneladas de apontamentos das aulas que reproduziam as palermices dos professores e completavam o seu estudo com a história da filosofia de Nicola Abagnano, um autor italiano e uma das histórias da filosofia que mais facilmente e mais baratas se encontrava nas livrarias. Grande parte destes estudantes eram absolutas máquinas reprodutoras e passaram a interessar-se somente na conclusão do curso com a melhor média possível. Foi assim que muitos destes estudantes enganaram os mestres e acabaram as suas licenciaturas com médias mais elevadas. Ainda hoje não é raro encontrar nas escolas públicas espécimes dos que classifiquei atrás, os tais que liam – ou diziam ler – em alemão ou grego. Cheguei a observar a situação caricata de um professor que tinha um livro de filosofia em edição brasileira, mas encapou-o e colocou na capa, à mão, o título da obra em alemão. Ah, e o grosso dos estudantes, os tais que liam o Abagnano, jamais podiam levar esses livros para a faculdade debaixo do braço. Tal era sinal de repulsa pelos mais iluminados pela mão divina de Heidegger.

Mas a língua sempre me pareceu uma questão, apesar de importante, secundária (no sentido em que há outras técnicas que tem de ser aprendidas e que não se aprendem) para se poder pensar filosoficamente. Mas, afinal, não se pensou já com muito rigor, em grego, latim, francês, alemão ou inglês? E o que leva um filósofo como Descartes a escrever em latim? Será porque o que escreveu em latim é mais relevante do que o que escreveu em francês? Ou teriam sido outras razões que levaram Descartes a escrever em latim? Acaso as obras em latim de Descartes são mais importantes do que as escritas em francês? Afinal qual é a vantagem de nos nossos dias um estudante ler inglês? Mais acesso à bibliografia central. Nada mais. De resto o mesmo estudante se tiver que pensar filosoficamente tanto o faz bem em português, como em inglês ou alemão.

O texto publicado na Crítica toca nestes aspectos de forma muito clara. O autor defende que não existe qualquer boa razão para pensar a superioridade filosófica de uma língua em relação a outra, a não ser razões imaturas de reverência pelos que se consideram ser autoridade.

Vale a penaler o texto. Publicado AQUI.

Nota: a foto lá em cima é da minha autoria e o candeeiro encontra-se nos Prazeres, ilha da Madeira