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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Porque é que há sociedades mais cultas que outras?


As imagens mostram a capa e índice de um livro que tenho aqui em casa do ensino secundário inglês. Trata-se de um livro preparado para adolescentes, um textbook. É certo que não tem imagens coloridas como os manuais portugueses. Mas fiz questão de passar no scanner o índice para que se veja o que os jovens andam a estudar em Inglaterra quando estudam filosofia e filosofia da religião. Se repararmos bem, os jovens ingleses discutem o problema da existência de deus. Se estudam o argumento do design inteligente, também estudam as objecções de David Hume a este argumento. Estudam o argumento ontológico, mas também estudam as objecções. E os nossos estudantes quando é que discutem estes problemas? O programa do secundário de filosofia tem um tema no 10º ano, de opção que se chama pomposamente : “Valores religiosos”. E à excepção de um ou outro manual que faz um trabalho mais sério, a esmagadora maioria dos estudantes vão aprender coisas tão profundas como saber distinguir entre o sagrado e o profano. Conclusão: os jovens estudantes em Portugal fazem o ensino todo sem algum dia terem, sequer, percebido que a coisa se pode discutir e argumentar usando uma faculdade muito humana, a razão. Deve ser isto que explica que a maioria das pessoas não sabe pura e simplesmente discutir religião, não sabe que o problema da existência de deus é um problema filosófico em aberto e que os filósofos desde sempre debateram estas coisas. Em contrapartida temos manuais cheios de fotos lindas e coloridas. Isto, do meu ponto de vista, é subestimar a inteligência dos nossos jovens. Já me faz lembrar aquela tese paternalista e muito na moda em Portugal que não devo ensinar os números e as letras ao meu filho senão ele quando chegar à escola se desinteressa pela escola. Pudera, um puto com a inteligência desenvolvida apercebe-se logo que a escola não lhe valerá de grande coisa para aprender.    

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Google love story. Como vender publicidade com a filosofia


Esta semana recebi um cheque de cerca de 75€ da Google, através do banco norte americano, City Bank, partindo da sua delegação europeia sediada na Irlanda. 75€ dão muito jeito e teria talvez motivos para estar feliz. Mas não estou. Pelo contrário, sinto-me verdadeiramente roubado, num roubo acarinhado pelo capitalismo. Passo a explicar o esquema. Para explicar o esquema vou provavelmente infringir algumas regras do contrato, mas estas infracções é também o preço da minha liberdade e o preço do meu trabalho e esforço. A Google, como todos sabemos, oferece cada vez mais serviços gratuitamente. Só que o gratuito é só a fachada já que o “grátis” tem aqui um preço muito caro, muito mais caro do que se tivéssemos de pagar cada serviço de forma justa. Há cerca de 2 anos e meio aderi ao ad-sense que é um serviço que a Google dispõe para colocar anúncios publicitários nos nossos espaços da internet. Cada clique num desses anúncios é publicidade que é paga à Google e eu acabo por ganhar uma percentagem muito pequena desses cliques. Onde é que eu sou escravizado? Tenho uma formação superior em filosofia e disponho gratuitamente na internet, há quase 6 anos, o meu conhecimento. O que seria da internet sem conteúdos? Ora, para que o meu conhecimento fosse bem pago, a Google teria de me pagar o que o Estado português me paga para eu trabalhar em exclusivo para eles. Mas isso ficar-lhes-ia muito caro. Então a Google disponibiliza-me gratuitamente um serviço de e-mail e uma plataforma para o blog e em troca em ofereço o meu conhecimento por uma pechincha (75€ de lucros em cerca de 2 anos e meio). No meio do meu trabalho aparece a publicidade que é paga a peso de ouro à gigante Google. Claro que não teria interesse algum fazer um blog só com anúncios publicitários. Há que oferecer algum conteúdo e meter a publicidade lá no meio para apanhar os mais incautos. E é esse o meu contrato com a Google: eu ofereço gratuitamente o meu trabalho e conhecimento e a Google oferece-me uma parte dos seus dividendos com a publicidade que aparece no meio dos meus posts. Não faço ideia de quanto a Google ganhou com o meu trabalho. Não tenho acesso a esses dados. O dinheiro que a Google me pagou não dá sequer para 2 meses de ligação à internet. Muitas das vezes ouço dizer que eu disponibilizaria na mesma de forma gratuita o meu conhecimento se não recebesse nada. E tal é verdade por uma razão: porque felizmente asseguro um ganha pão leccionando filosofia no ensino público português. E a Google aproveita-se disso. Também é verdade que promovo e divulgo a minha disciplina o que por si só me parece uma boa ideia. E também é verdade que se o meu trabalho fosse realmente acima da média, talvez a Google me contratasse a tempo inteiro pagando-me melhor que o Estado português garantindo-me uma subsistência com recurso ao meu conhecimento. Acontece que a Google não passa de uma agência publicitária e o seu interesse maior é vender publicidade e não filosofia.  
Este é o preço do capitalismo: sem publicidade eu não tinha a plataforma gratuita da Google. Mas a google não paga efectivamente o trabalho que eu tenho a escrevinhar para o blog. Se pagasse talvez existisse menos desemprego e a despesa pública com o desemprego provavelmente seria menor. Neste jogo, ganha o privado e perde o sector público. Mas para que o sector público possa ser mais justo é preciso fazer o contrário da Google e pagar os serviços directamente às pessoas sem publicidade pelo meio. O que ganharíamos com isso é que se as pessoas fossem realmente bem pagas pelo seu trabalho os monopólios como os da Google não seriam provavelmente tão gigantescos.
E também é verdade que o mercado para os publicitários e agentes de marketingue se expande nesta lógica capitalista. Mas então e os pequenos criadores? É que este sistema parece pagar bem somente a agentes financeiros e publicitários que controlam e exploram todo o trabalho dos criadores de conteúdos.
Este é também o preço do gratuito. Milhares de pessoas esmagam o comércio com a opção pelo grátis. Os gigantes podem oferecer os seus produtos que vão ter sempre patrocinadores publicitários, ao passo que os mais pequenos vão ter de oferecer também os seus produtos, mas viver de rendimentos paupérrimos. Vamos imaginar que existe um filósofo super famoso no mundo e que também tem um blog. Ao passo que eu tenho, por exemplo, ganhos de 3€ mensais, esse filósofo super famoso, terá 1000€. Para fazer o meu trabalho eu tenho de dar aulas e esse filósofo passaria a viver dos rendimentos da publicidade e dedicar-se a tempo inteiro a melhorar o seu trabalho ganhando cada vez mais. A Google financia este trabalho oferecendo produtos e uma pequena margem dos seus lucros com o nosso trabalho. Há também quem argumente que este sistema é justo, que afinal de contas eu, com muito esforço e aproveitando os recursos da Google também posso vir a tornar-me super famoso e viver dos rendimentos do meu trabalho on-line. Que é o mesmo que trabalhar para o Estado português. Ok, este argumento parece-me plausível. Mas então por que se fala em gratuito? Nada disto é gratuito. É pago e muito bem pago. É um sistema que não destrói os monopólios capitalistas, como defendem muitos partidários do free e do gratuito, mas aumenta-os ainda muito mais dando cabo cada vez mais dos mais pequenos. A Google não é assim a empresa que repõe a justiça no mundo levando o conhecimento a todos. Quem leva o conhecimento a todos são os assalariados mal pagos da Google, os novos escravos digitais, como eu, que trabalham para criar conteúdos gratuitamente para a Google vender publicidade. Onde é que está o grátis de tudo isto?

sábado, 13 de março de 2010

Mas afinal há ou não filosofia em Portugal?

Abstract


Se o Rolando diz que não há filosofia em Portugal e o Rolando não tem estatuto académico, logo Há filosofia em Portugal.


Se o José Gil diz que não há filosofia em Portugal e o José Gil tem estatuto académico, logo Não há filosofia em Portugal.


O que é que se passa com estes argumentos? Estamos a aceitar a autoridade sem pensar realmente pela nossa cabecinha. Acontece que as autoridades podem também afirmar falsidades, o que até nem é o caso.
No blog Telegrapho de Hermes, vejo uma citação do professor José Gil (também fui aluno dele), em que este afirma que não existe comunidade filosófica em Portugal pois as pessoas não estão interessadas em discutir os problemas e vivem academicamente isoladas, cada um para si. Isto foi precisamente o conteúdo que afirmei AQUI no blog de ex alunos de Évora, O Café Filosófico de Évora. Na altura os ex alunos de Évora tiveram reacções de protesto face aos meus comentários, sendo alguns até com uma dose de violência que me fez ripostar algumas vezes com igual tom. Mas há aqui uma questão curiosa e que penso que deve ser posta a nú: o que eu contestei na altura é precisamente o que está a ser feito pelo Telegrapho, um blog da autoria de um dos ex alunos de Évora, ou seja, a citar alguém acriticamente. O que é que me faz pensar que a citação é acrítica? Porque foi o professor José Gil a proferi-la. Tenho toda a consideração pelo Renato que tem feito um apreciável trabalho com o Telegrapho, mas que raio de coerência existe em reagir como reagiu quando eu afirmei aquilo que agora o professor José Gil afirma? O que o Renato faz é exactamente aquilo que o José Gil diz que não se deve fazer, sob pena de matarmos de vez (se alguma vez esteve viva) a possibilidade de termos filosofia nas universidades portuguesas, isto é, cita-se porque é o José Gil, porque tem estatuto académico. Claro que o estatuto académico é relevante em certa medida, mostra pelo menos o que um indivíduo faz ao longo da vida por uma determinada área, mas será que isso por si só é condição suficiente para que um individuo com estatuto académico seja citado sem qualquer objecção? Sem que passe o resto da vida sem fazer afirmações palermas?
Parece certo que eu estou mais de acordo com José Gil do que o Renato, mas valia a pena aqui repor alguma justiça no que se passou nos mais de 200 comentários neste post.
Não estou propriamente ressabiado pelo que se passou já há algum tempo na discussão que tive como Renato e com o David no Café Filosófico, mas a verdade é que cheguei a ser acusado (creio que nesse post) de ser seguidista dos analíticos somente porque defendi a ideia de que não existe filosofia feita nas universidades portuguesas, por muitas palestras umbiguistas que nelas se façam. Portanto, esta não é uma resposta pessoal, mas um aproveitamento para voltar a afirmar que não temos filosofia nas universidades portuguesas pela razão apontada pelo José Gil: as pessoas não tem uma cultura de discussão do seu trabalho e fazem-no de forma isolada. Ora precisamente a filosofia é um saber cuja vitalidade depende directamente do trabalho de discussão activa.
Recordo que , entre outros argumentos, um dos argumentos usados pelo Renato e pelo David é que eu não devia falar do curso de filosofia em Évora já que é uma realidade que desconheço pois não estudei em Évora. Já agora, e o professor José Gil o que é que sabe do curso de filosofia dos Açores para poder afirmar o que afirmou?
Bem, e claro que o Renato pode ter citado o José Gil sem no entanto concordar com ele. Pode ser mesmo que a Universidade de Évora tivesse produzido filósofos com discussão activa no panorama internacional.
Já sei que isto me vai dar uma chatice do caraças, mas paciência.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A aldrabice da avaliação dos professores




Esta semana foi finalmente assinado um acordo entre sindicatos de professores e ME para o ECD e a avaliação dos professores.
Em primeiro lugar é corrente a ideia de que os professores precisam de ser avaliados, mas nunca percebi muito bem como é que esta é uma verdade estabelecida. De tantas vezes repetida, acho que se tornou uma verdade inviolável. Não percebi muito bem por uma razão especial: o antigo ECD prevê a intervenção da escola quando encontram professores menos bons a leccionar. Se não o fazem, qual o sentido de intervir no processo de avaliação? O problema é a falta de aplicação.
Depois porque sinceramente nem me vejo a avaliar colegas nem percebo por que raio tenho de me sujeitar a avaliações de colegas. Além disso vou ser avaliado em situações profissionais que nem sempre escolho, ao passo que outros colegas são avaliados em situações profissionais que escolhem. Por exemplo: este ano sou professor num curso CEF. A prática lectiva e o professor que sou no CEF nada tem que ver com o professor que sou quando lecciono filosofia no secundário. Leccionar CEF não foi uma circunstância profissional que eu tenha escolhido, ao passo que há colegas, pela graduação profissional, que têm prioridade nas suas escolhas para leccionação e leccionam o que mais gostam. Na minha posição profissional, todos os anos tenho turmas novas e cursos diferentes. Ou seja, há anos a fio que, para além de ter níveis de ensino muito diferentes, me vejo a braços com ter de preparar programas aos quais, no ano seguinte, já não dou continuidade. Será esta uma situação profissional, a exemplo, que possa ser avaliada nas mesmas circunstâncias de um professor que escolhe os níveis, tem anos seguidos de experiência de leccionação nos mesmos níveis, etc.? Ou terei de escrever todas estas coisas num relatório final? Sinceramente não me apetece desculpar a minha avaliação, mas, na prática, é isto que acontece com a avaliação que os sindicatos que representam os professores assinaram em acordo.
Mas vamos a outro exemplo: em dois momentos da avaliação, a progressão é travada por quotas. Mas como é que existe equidade na avaliação entre um docente de matemática e um outro de educação física, por exemplo? Não digo que uma seja mais fácil que outra (para ser sincero acho mesmo que as disciplinas tem à partida níveis de exigência na leccionação diferentes, para além de todos os problemas pontuais que ensinar a uma turma levanta), mas não é suposto existirem diferenças? Acontece que um professor de educação física considerado excelente não é o mesmo que um de filosofia considerado excelente. Há requisitos diferentes. Mas ambos concorrem para as mesmas cotas.
Há muito, muito mesmo, a dizer sobre este modelo de avaliação. Os sindicatos foram imprudentes a assinar o acordo. E nem me apetece aqui falar das promessas eleitorais do principal partido da oposição.
Mas a procurar uma frase síntese que em segundos explique a avaliação docente a quem de fora me pergunte o que penso do assunto, ela será: “avaliação? Qual avaliação?”. Não tenho qualquer dúvida que qualquer curandeiro disfarçado de professor de filosofia obterá melhor classificação que muitos professores de filosofia que ensinam com rigor e aplicação. E isto não é avaliação, nem distingue os mais aplicados, nem contribui para um melhor sistema de ensino. E a vida continua. Como sempre.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Freedom of speech

parental-advisory--explicit-lyrics Publiquei um texto sobre a liberdade de expressão aplicada ao caso do último livro de Saramago no blog da Crítica. Ler AQUI.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Manuais certificados


Saiu hoje o despacho 22025/2009 sobre o procedimento de avaliação dos manuais escolares.. Há uns tempos escrevi sobre isso. Na altura imputei fortemente a responsabilidade aos professores do ensino superior. Reli o texto (que publico como o original), mas mudaria algumas coisas. A principal, é que a responsabilidade da feitura e avaliação de manuais deve ser de quem com eles escolhe trabalhar, os professores. Também tenho de fazer outro reparo: ainda não conheço toda a legislação, pelo que não sei como vão ser constituídas as equipas para certificação de manuais. Se mudo estes aspectos, qual a razão que me faz ainda acreditar no que escrevi? É que o essencial mantém-se. Não faz qualquer sentido a existência de leis para certificar manuais. Só este aspecto merece ainda manter o que defendi no texto que a seguir apresento. Bem, retiraria o tom carregadamente pessoal do texto. Para já fica como foi escrito, até que mais algum tempo disponível me permita aqui regressar.


Manuais certificados por quem?



No início de mais um ano lectivo dou-me conta de legislação incumprida relativamente aos manuais escolares. A lei da certificação dos manuais está pronta, mas os manuais continuam sem certificação. Não posso saber o que se passa na realidade para que os manuais não estejam certificados, mas tenho uma forte suspeita que não estão porque pura e simplesmente o Ministério da Educação não tem os meios necessários para a certificação. O que cabe aqui anotar em apontamento é um esboço de resposta para as questões seguintes:

1) Precisam os manuais de serem certificados como prova de qualidade?

2) Se sim quem deve certificar os manuais?

3) Se não, como podemos auferir da qualidade de um manual?

E a minha resposta a 1) é claramente Não. Os manuais não precisam de certificados como os vinhos para serem bons manuais e, a serem certificados, são os profissionais de cada área quem os deve certificar e não o Ministério da Educação. E esta é também a minha resposta à questão 3): Quem deve aferir da qualidade dos manuais de uma disciplina são os profissionais dessa disciplina e não o Ministério. Ou então o Ministério se pretende exercer o controlo de qualidade deve remeter a análise dos manuais para os profissionais da área, isto, claro, se os profissionais da área quiserem realmente ter um papel importante na decisão do rumo futuro da sua disciplina. Caso contrário a certificação de manuais fica ao critério arbitrário do Ministério. É claro que para uma maioria de pessoas mais vale entregar essa maçada para o Ministério, mesmo que essa maioria se assuma com as competências para avaliar cientificamente manuais escolares e como se avaliar cientificamente manuais escolares se tratasse de uma tarefa para a qual a única competência exigida fosse uma licenciatura acabada há 10 anos.

Mas é ainda conveniente esclarecer mais alguns pequenos pontos. O primeiro de todos é que é uma ilusão pensar que um qualquer sistema elimina de vez os manuais maus. Existem maus manuais como existe “maus” em todas as coisas, maus profissionais, cafés mal tirados, aulas más, etc. A ideia a defender é que exista um ambiente que possa premiar os bons manuais e progressivamente fazer com que os maus manuais se tornem melhores manuais. E isto não se faz nem com decretos de lei, nem com golpes publicitários dos editores. A forma mais justa para este procedimento é a crítica pública num ambiente de liberdade de discussão e verdadeira democracia. A crítica de manuais vai, publicamente, ou pelo menos na comunidade da disciplina em causa, apontar limitações e erros entre pares que mais tarde poderão ser reparados e corrigidos. Um exemplo muito simples: vamos supor que o manual X sai numa primeira edição com os erros y e w. Se for sujeito à crítica dos pares, os autores desse manual podem, numa segunda edição corrigir esses erros melhorando significativamente o seu trabalho. Isto devia ser comum em todas as disciplinas, mas muito mais na filosofia, pelo menos a acreditar que todos levamos muito a sério quando dizemos nas nossas aulas que a filosofia é o exercício crítico da razão. Essa frase indica-nos que o lugar crítico da razão, o laboratório onde experimentamos os nossos argumentos, é a praça pública, tal como o foi para Sócrates e é para todos os filósofos que façam filosofia. Para os profissionais da filosofia, a crítica devia ser algo habitual e desejável. No caso dos manuais não o é. Mas depois vemos sistematicamente uns autores roubarem outros autores sem qualquer diálogo. Quanto a mim este exercício é uma prova da falta de cultura de boa convivência em comunidade. Infelizmente aprendemos logo isto nas universidades. Quando temos pouca ginástica mental o mais imediato que nos surge é arranjar uns inimigos a abater, para mostrar que também somos gente no mundo. A psicologia deve explicar este comportamento como um mecanismo de defesa face ao sintoma do medo.

Um outro aspecto da realidade dos manuais escolares, pelo menos dos de filosofia, nos últimos dois anos, é que os editores anteciparam-se ao próprio Ministério e passaram a ter os seus manuais certificados com algum nome, em regra, o nome de algum professor universitário mais ou menos consagrado. Isto apareceu com a sigla de «Revisor científico». Mas o mais interessante é que nem assim a maioria dos manuais passaram a ser melhores manuais apresentando erros que, em muitos casos, são erros grosseiros, o que indicia que os professores universitários se estão nas tintas para a realidade do secundário e que a estratégia pouco mais foi que um golpe publicitário dos editores. Ainda assim estou certo que para os editores seria melhor que os revisores fizessem o seu trabalho. Mas como é que é possível que um catedrático de filosofia deixe passar em claro uma coisa como esta (só a citar de memória): “a lógica formal existe para as ciências exactas e a lógica informal para a filosofia”. Algo estranho aqui se passou: 1) ou o professor universitário é incompetente, 2) ou se esteve nas tintas para o manual, só emprestou o nome e não tem vergonha na cara para se expor desta forma. Esta realidade não é a de um caso isolado. Isto acontece em mais de metade dos manuais em opção para cada um dos dois anos em que se lecciona filosofia no secundário. Mas isto revela ainda um outro dado interessante: é que muitos dos professores universitários se estão nas tintas para o secundário, mas não deviam, pois o secundário é a porta de entrada dos alunos para o superior. Se não tivermos um ensino de qualidade no secundário é de esperar que os cursos no ensino superior venham a ter cada vez menos alunos. Bom, como são catedráticos também se devem estar nas tintas para esta realidade. E é bem possível que assim seja uma vez que só abandonam o poleiro filosófico quando partirem para debaixo da terra, de modo que não existe qualquer motivação para se ser bom profissional e se trabalhar bem. Associada a estas razões existe ainda outra que me corre e que creio ter relativo peso neste comportamento dos universitários face aos manuais: o estatuto social. Pensa-se que emprestar o nome é já uma garantia para vender bem o livro, mas quanto a trabalhar, isso está fora de questão. Um universitário não vai sujar as mãos no secundário, nesse nível baixo de se fazer filosofia. O contra exemplo desta realidade são nomes como os de Nigel Warburton, Thomas Nagel, Eliott Sober ou Stephen Law que publicam para o público jovem e editam manuais de filosofia contribuindo de forma decisiva para que o interesse na filosofia aumente. Bem isto para não falar em nomes como Richard Dawkins, Roger Penrose, Stephen Hawking e o mestre de todos, Carl Sagan, em outras áreas do conhecimento. O que se passa é que estas pessoas em vez de seguir os bons exemplos, para não se darem ao trabalho, a única coisa que lhes ocorre fazer é dizer mal de quem trabalha. Daí as acusações de que os divulgadores são filósofos levezinhos, sem peso nenhum na história da filosofia, etc. e tal.



Em conclusão: podem-se inventar dezenas de sistemas de avaliação de manuais, o mais justo de todos será sempre aquele que permitir maior liberdade de actuação aos indivíduos. Se os professores reúnem capacidades científicas para avaliar e analisar manuais, façam-no, pois é a eles quem compete a certificações de manuais. Deixar que o Ministério o faça é o mesmo que lançar os manuais que usamos para ensinar nas nossas aulas, aos lobys habituais. Analisar um manual dá trabalho e eu sei-o bem, mas essa é a nossa tarefa, cuidar da nossa disciplina e sermos responsáveis por tudo o que nela se passa. Se, sem qualquer crítica, deixamos passar maus manuais para os nossos alunos estamos a passar atestados de irresponsabilidade a nós mesmos. Deixar que o Ministério decida com leis o que devemos e não ensinar é colocar o nosso saber nas mãos dos que não sabem e contribuir para um ambiente educativo cada vez menos livre.


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Saber vender livros

O colega Daniel deixou um comentário sobre os escaparates de filosofia. Recordo aqui um texto meu já publicado. Hoje mudaria alguns tópicos, mas manteria o essencial.

SABER VENDER LIVROS i

É dado seguro que o mercado livreiro em Portugal é limitado. Há várias razões que podem explicar esta realidade, entre as quais, julgo ser uma das principais, o espaço geográfico e cultural no qual se fala a língua portuguesa. Uma das outras razões, que pode ser considerada principal, é o facto dos consumidores comprarem poucos livros. Mas essa é a realidade que acontece com muitos outros produtos. Para que os produtos se vendem é necessário passar pelas regras elementares do marketing e da comunicação no sentido de fazer chegar o produto aos consumidores.


A maior parte dos consumidores não possuem autonomia suficiente para procurar o livro x ou y, a menos que se trate da sua área específica de formação. E o chamado público geral como é que chega ao conhecimento dos livros que lhe são destinados? Só mesmo preparando uma boa montra para os livros. Neste sentido defendo que é possível vender mais livros se alguns erros elementares de venda forem evitados. Os dados que aqui vou comentar referem-se somente à minha experiência dentro das livrarias e do modo de actuação dos livreiros em Portugal, não possuindo qualquer estudo que me permita tecer comentários mais sustentados. Com efeito estou consciente que não são necessárias leis nem estudos científicos para perceber determinados aspectos da realidade e que nos podemos orientar somente pela prática e experiência. Um desses erros perante o qual sou muito crítico prende-se com o modo como os livreiros expõem os livros ao chamado público geral. Por público geral entendo aquela massa de pessoas que sentem necessidade de ler e conhecer livros acessíveis e bem escritos sobre uma determinada área mas que, não sendo a sua área de conhecimentos, se sentem perdidos em como encontrar as leituras adequadas ao seu nível de compreensão. Entre esse público geral também podemos classificar aqueles grupos de pessoas que habitualmente não compram livros, mas que essa necessidade pode ser criada com uma divulgação ampla e adequada de livros. Claro que a divulgação de livros se merecesse por parte dos media ampla divulgação, teríamos em grande parte o problema resolvido, mas após umas décadas de TV não podemos ter esperança que esse seja o meio para fazer chegar os livros às pessoas e, no caso português, a imprensa escrita também não constitui grande ajuda. Não existe, por exemplo, uma revista dedicada aos livros que possua ampla projecção. Os jornais que existem e divulgam livros, fazem-nos para os umbigos dos críticos e das chamadas elites intelectuais. Aqueles que poucos hábitos de leitura têm ficam a ver navios. E os programas governamentais de apoio à leitura também não produzem grandes resultados no aumento de vendas de livros. No caso dos livros as novas tecnologias ainda não são concorrência, uma vez que a pirataria não consegue reproduzir a preços competitivos o valor do objecto e a sua manuseabilidade. Desta forma, cabe aos editores e livreiros criar as condições para que os livros se vendam.


Os Livreiros

Se entro numa livraria para comprar um livro de filosofia, movo-me com todo o à vontade para dispensar qualquer ajuda ou montra que mo apresente. Nessa área, que é a minha, sei o que quero. Mas o mesmo não acontece se procuro, por exemplo, saber mais um pouco de física. E se procuro saber mais um pouco de física, que não é a minha área de formação, por certo que não vou comprar um livro específico de física. Tenho de ter acesso, por exemplo, a um livro de introdução à física, sem a linguagem formal e técnica que uma ciência como a física exige em altas sofisticações. O mesmo acontece se pretendo comprar um livro de puericultura para obter uns conselhos práticos para educar o meu filho. Ao entrar na livraria, em princípio, não me dirijo às prateleiras dos livros das áreas que não são as do meu interesse. Mas aqui é que cabe a questão, não serei eu capaz de me interessar por física? Claro que sim, se os livros de introdução a essa ciência me mostrarem o quanto ela é importante na minha vida pessoal. Um livro de física é até muito mais importante na minha vida prática e pessoal do que um livro de magia. Com efeito, as pessoas compram mais livros de magia do que de física. Mas existe uma razão para que isto aconteça: é que os livros de magia entram-me pelos olhos dentro nas livrarias, ao passo que os livros de física que eu poderia ler, estão escondidos nas prateleiras de baixo, nas quais me tenho de curvar para os ver. Claro está que eu não posso procurar aquilo que não sei sequer que existe. Muitos leitores já devem estar a torcer o nariz, mas isto é a realidade que acontece em algumas livrarias, entre as quais, a Fnac. Tomando o exemplo da Fnac que melhor conheço e mais frequento, a da cidade onde vivo, o Funchal, quando me dirijo ao escaparate de divulgação científica, o que é que lá encontro? Livros técnicos de ciência, ao passo que os livros de divulgação científica como é o caso dos da Ciência Aberta da Gradiva estão escondidos. Admirado com esta realidade, quando questionei os responsáveis por tal, explicaram-me que tinham celebrado um protocolo com a universidade da Madeira e por essa razão tinham de expor os livros técnicos de ciência. Ora bem, os alunos universitários têm de comprar os livros técnicos porque os professores os recomendam. Por que razão então têm de os colocar no escaparate principal? Isto não faz sentido algum e só me prova que os livreiros são os primeiros agentes a não saber vender livros. Um consumidor que não saiba nada de ciência, ao olhar para aquele escaparate, jamais se vai interessar pela ciência, não sentindo qualquer proximidade com aqueles títulos. Mas não é isto que se passa com os livros de introdução à ciência que, entretanto, estão escondidos.
Um outro caso recente exemplifica a confusão que os próprios livreiros podem lançar nos consumidores de livros. Numa livraria observei que a filosofia estava classificada ao lado da religião, Filosofia / Religião. De imediato, numa tentativa sempre pedagógica, indaguei o responsável pelo serviço porque razão estava na prateleira a filosofia associada à religião. O responsável respondeu-me que historicamente os filósofos eram também religiosos. Ora o que expliquei ao responsável é que tal ideia é falsa e historicamente errada. Primeiro porque a filosofia surge exactamente com o propósito de questionar a verdade revelada pelos mitos divinos. Segundo porque até é verdade que uma boa parte dos filósofos estiveram ligados à instituição religiosa, principalmente na idade média, mas tal aconteceu porque era a única garantia que tinham para poder estudar. Além do mais, nesses mesmos períodos da história, qualquer estudioso, da química à física ou biologia, medicina, pintura, etc… estavam ligados à instituição religiosa, pelo que a livraria deveria, então, apresentar as classificações seguintes: Religião/Ciência, Religião/Literatura, Religião/Pintura, etc… O leitor desinformado tende a fazer confusões sobre uma área do saber como a filosofia, pressupondo que a filosofia é uma matéria entregue à religião, o que é falso. Felizmente este episódio acabou bem e o livreiro resolveu isolar a filosofia da religião. Outra questão prende-se com a arrumação dos livros. Por exemplo, recentemente a Bizâncio publicou a tradução do livro de Nigel Warburton, o que é a arte?. Em muitas livrarias é certo que vamos encontrar este livro na secção de artes, quando se trata de um livro da filosofia da arte, ainda por cima uma introdução a algumas das teorias contemporâneas da filosofia da arte. O livro organizado por Pedro Galvão, A ética do Aborto é encontrado em sociologia, quando, na verdade, se trata de um livro de filosofia moral ou ética aplicada. Nem sempre é fácil encontrar o livro de Peter Singer, Como havemos de viver (Dinalivro, 2005), arrumado nas secções de filosofia. Imagino que estes casos se passem de modo semelhante nas outras áreas do saber, muito embora eu esteja mais sensível ao caso da filosofia. É lamentável que isto aconteça quando estes livros se destinam a informar o leitor comum, não sendo requisito qualquer conhecimento prévio de filosofia. Mas o disparate ainda é maior quando observo que no escaparate principal das livrarias, em filosofia, encontro publicações altamente especializadas de filosofia que só interessam a quem sabe o que procura. Os escaparates destinam-se ao grande público e não aos públicos específicos. Isto é tanto mais razoável se pensarmos que em Portugal a venda de livros é um negócio exíguo. E ainda mais razoável é pensar que o dinheiro obtido pelas editoras com edições mais comerciais, poderia ser canalizado para sustentar publicações mais específicas que, dada a sua natureza, se vendem em menor número. Não se compreende então por que razão uma livraria tem o livro de Nigel Warburton escondido, mas exibe um qualquer livro de filosofia com um título cheio de pompa e circunstância que ninguém vai comprar. Só há uma explicação possível: os vendedores desconhecem o que estão a vender. Mas para conhecerem bastaria informar-se junto dos editores. Nem sequer exige muito esforço. Mas existe uma hipótese ainda mais subtil para este acontecimento e que desresponsabiliza parcialmente os livreiros, aspecto esse que se prende com o formalismo a que está voltado, desde sempre, o ensino da filosofia em Portugal. Qualquer livro com um título mais comum como “o que é a arte” ou, “como havemos de viver?” é, desde logo, classificado como sendo um livro de sociologia, por exemplo e nunca de filosofia. Um livro de filosofia teria de ter um título com, pelo menos, dois kilómetros e dificilmente decifrável pelo leigo. Como aqui defendo, nada mais disparatado.


Os editores

Esta é a outra face da mesma moeda, a política editorial dos próprios editores. Não faz sentido que os editores continuem a apostar em edições demasiado específicas quando não são acompanhadas por edições que divulguem as diversas áreas do saber. Sem dar os primeiros passos, como é que é possível dar os últimos? As edições especializadas tem de existir, mas que fazer com elas se não tivermos aquelas que transmitem o saber para os que nada sabem do assunto? Outro problema que aqui coloco prende-se com as opções de edição, muitas das vezes, erradas e comercialmente inviáveis. Porque é que traduzimos obras que já não estão no centro das discussões filosóficas, quando as que estão nem sequer se traduzem? O exemplo recente das Edições 70 é paradigmático, reeditando parte do seu fundo de catálogo de filosofia com obras que não traduzem os trabalhos mais interessantes na área. Claro está que não posso esquecer que a tradução dos clássicos é da maior importância. Sem o conhecimento dos clássicos é impossível compreender os contemporâneos. Mas o que se passa é que muitos editores publicam obras que são paralelas. Recentemente a Asa publicou um livro de inytrodução à filosofia de Stéphane Ferrett. Ora bem, este livro é escrito por um francês, para o público francês, para divulgar a filosofia anglo saxónica, uma vez que o autor doutorou-se em filosofia em Oxford e viu as necessidades de upgrades filosóficos na cultura francesa. Daqui não se entende a opção da Asa em traduzir do francês essa pequena obra, quando as temos às centenas directamente da fonte, com autores a escreverem em língua inglesa.

O caso “Mundo de Sofia”

Publicado em Portugal pela primeira vez em 1995, o Mundo de Sofia de Jostein Gaarder vai já, até 2006, na sua 27ª edição. É um caso raro de sucesso de vendas em Portugal e trata-se de um romance que expõe parte significativa da historiada filosofia. O que é que explica tal sucesso? O interesse espontâneo do público geral pela filosofia? Não é esta a explicação mais plausível. O Mundo de Sofia vende-se bem porque é um livro de introdução à filosofia (por sinal, já nem é o melhor disponível em língua portuguesa) que os professores de filosofia divulgam nas suas aulas no ensino secundário. Quererá isto dizer que se os professores de filosofia divulgassem outros livros, poderíamos ter mais sucesso nos livros de filosofia? A resposta é um redondinho sim. E também quer dizer que os professores devem e podem ser agentes importantes na divulgação de livros. Haverá sempre algum leitor que esteja a pensar que assim se transformavam os professores em vendedores de livros. Ora bem, tratando-se de livros de interesse científico e educacional, com uma forte vertente pedagógica, qual o problema? Será que também podemos acusar os professores de vendedores de giz, cadernos e esferográficas ou máquinas de calcular? De certeza que os alunos agradecem aos professores que lhes recomendem livros adequados para a sua idade e nível de compreensão de conhecimentos. Eu faço-o sistematicamente e observo que, indirectamente, vendo muitos livros. Que livros recomendo? Bem, posso satisfazer a curiosidade ao leitor. Divulgo livros como as introduções à filosofia escritas para gente jovem como as de Thomas Nagel e Nigel Warburton, publicados na Gradiva. Mas há outras igualmente interessantes como a de Daniel Kolak e Raymond Martin, sabedoria sem respostas, uma breve introdução à filosofia (Temas & Debates, 2002). Porquê estas e não outras? Porque respeitam dois critérios: não exigem conhecimentos prévios e introduzem os jovens no mundo dos problemas filosóficos de forma correcta e consistente. Mas recomendo livros de ciência, como alguns títulos da Ciência Aberta, mesmo pensando que devem ser os professores de física a recomendar os livros de física, ou de biologia a fazer o mesmo com os livros introdutórios da sua área. Este convívio com livros nas aulas produz muitos mais leitores do que possamos pensar. Mas é preciso lê-los para os saber divulgar. Era interessante a ideia dos livreiros e editores estabelecerem relações de proximidade com as escolas. A Coca Cola procura fazê-lo. As marcas de produtos tecnológicos como as Playstations fazem-no. E o sucesso das suas vendas deve-se a essa actuação. Não vejo razão para que tal não se possa fazer com os livros. As escolas é onde se formam os leitores. E não chega o formalismo com que se ensinam as obras para despertar interesse pelos livros. É preciso muito mais. É precisa uma estratégia de comercialização de livros que produza melhores resultados.

Conclusão

Os livros são objectos que não possuem qualquer privilégio. Como tudo no mundo, também os há bons, mais ou menos e maus e, pior que tudo, os muito maus. Mas é preciso fazer com que cheguem às pessoas. É preciso comercializá-los. A cultura não vive do ar, mas quando vendida em boas doses, é a actividade mais democrática que existe. Torna as pessoas mais exigentes e mais responsáveis, acima de tudo, mais actuantes. E esta razão, sendo simples, é suficiente para explicar o que é necessário fazer pelos livros.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A primeira aula de filosofia

nci_classroom_2_imagelarge Ouço dizer muitas coisas sobre uma primeira aula. Entre as mais convencionais é que nesta aula as regras devem ser desde logo claras. De acordo. As regras são iguais para todos e é conveniente que se perca algum tempo a explicitá-las. Depois existem outras formalidades que podem ser cumpridas na primeira aula, como as habituais apresentações e enunciação de critérios de avaliação da disciplina. Alguns professores começam logo na primeira aula a fazer uma abordagem ao programa da disciplina. Ontem dei uma primeira aula a uma turma de filosofia do 10º ano ( o ano lectivo na Madeira iniciou esta semana). Alguns destes alunos têm somente 14 anos e frequentam pela primeira vez o ensino secundário. Após o cumprimento de algumas formalidades, comecei por questionar os alunos sobre as suas expectativas quanto à filosofia. É natural que na primeira aula algum silêncio se possa fazer sentir, mas aproveitei o tempo para dar uns lamirés sobre o assunto. Devo dizer que não sou muito formal nem na primeira aula. Tenho lido algumas recomendações no sentido, por exemplo, do professor não se “armar” em engraçadinho. Correcto, mas não dispenso algum humor e boa disposição. Há sempre um ponto de equilíbrio que qualquer professor com bom senso sabe encontrar.

Mas gosto de “entrar a matar” na primeira aula. “Entrar a matar” significa aqui começar logo por mostrar como se discute um problema, ainda que de modo muito prematuro já que os alunos não estão, nesta altura, munidos das ferramentas nem da informação para pensar filosoficamente. Ocorreu-me fazer logo a distinção entre problemas filosóficos e não filosóficos. Peguei num problema da ética aplicada como exemplo, o do aborto. Perguntei aos alunos se lhes parecia certo ou errado uma mulher grávida recorrer ao aborto para interromper uma gravidez. Uma aluna respondeu de imediato que era errado. Questionei a razão que a leva a pensar tal coisa? Respondeu que se está a matar um ser humano. Estamos já no centro do problema, mesmo que com pouquíssima informação para a saber pensar. Ok, próximo passo, definir conceitos. Perguntei à turma como é que se define um ser humano. Entre algumas respostas, surgiu a mais habitual: “é um ser que raciocina”. De imediato perguntei se um feto humano raciocina? Gerou-se o impasse: os alunos estavam neste momento à procura de uma resposta para a minha questão, numa palavra, os jovens de 14 e 15 anos estavam a pensar pela sua cabeça. Meia hora da primeira aula foi passada nesta discussão. Claro que ainda há um trabalho prévio a fazer que iniciarei já amanhã, na segunda aula. Perderei também algum tempo – não muito – para ajudar os alunos a orientar o seu estudo em casa. Mas desta meia hora retiro uma conclusão: os alunos do ensino básico estão também preparados para aprender a filosofar. E há uma outra conclusão também a retirar daqui: não existe razão alguma para pensar que: 1) a filosofia não é atractiva para os estudantes; 2) a disciplina é difícil. Nenhum aluno desta turma achou muito complicado participar numa discussão racional. Alguns alunos provavelmente levaram para casa o pensamento de que têm de rever as suas posições face a um determinado problema. Não interessa: cada um colocará as questões necessárias exigentes para compreender o problema. E não me posso queixar que os alunos tenham achado a filosofia uma seca, pois sei que não é essa a sua opinião.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Mentiras e insultos

Discutir O que é moralmente menos aceitável: mentir cordialmente a uma pessoa, ou insultar honestamente?

Gostaria de discutir com outros leitores este problema.

sábado, 19 de setembro de 2009

Ensino profissional e CEFs, a verdade!

Idiocracy_PosterB Hoje em dia está na moda no sistema educativo português os cursos CEF (de educação e formação), também conhecidos por cursos profissionais. Não sei se há muitos leitores deste blog que sejam engenheiros, médicos ou gestores. Mas esta minha pergunta é-lhes dirigida: metiam os vossos filhos a estudar nestes cursos? Por quê? Recordo no ano passado estar à conversa com um director de cursos profissionais e quando este elogiava o ensino profissional, interrompi-o subitamente com a pergunta “colocavas os teus filhos a estudar no profissional?”. Após um pequenino momento de silêncio a resposta foi que não, já que desejava que os seus filhos seguissem a universidade. Ripostei que mesmo com o profissional podiam candidatar-se à universidade e até com a probabilidade de o fazer com melhores classificações. A verdade velada é que este director de cursos profissionais não quer os filhos neste tipo de cursos pois sabe da sua falta de qualidade científica em relação aos cursos de formação geral do ensino regular. Quando faço estas observações em regra as pessoas pensam que sou contra a existência de ensino profissional. Mas não sou. O que defendo é que os cursos profissionais não têm de ser diminuídos de formação científica em relação aos cursos do regular. Quem destrói o ensino profissional não sou eu, mas o próprio sistema de ensino que transforma o profissional num tipo de ensino vazio de conteúdos academicamente relevantes e indiscutivelmente importantes para a formação de qualquer pessoa. e como assim é, as pessoas sabem que o profissional é dirigido aos mais aleijadinhos, aos filhos dos intelectualmente incapacitados (julga a ideologia reinante) ou pouco ambiciosos na vida. Ora isto é tudo aquilo que um sistema de ensino deveria evitar pressupor, a de que há seres humanos que não precisam de saber pitada de ciência, de filosofia, de artes, música, etc. para serem felizes. Isto sim é um sistema de ensino elitista no fraco sentido, e marcadamente ideológico contribuindo de forma significativa para a reprodução do estatuto social das classes mais favorecidas. É tudo aquilo que não deve ser um sistema de ensino numa sociedade livre. Ensino profissional sim, mas com rigor e excelência.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bem vindo à barafunda

burocracia Ora bem, o ano lectivo começa por estas bandas na segunda feira. Soube hoje ao fim da manhã o meu horário. Ao fim de 13 anos a ensinar soube que vou ser professor de Cidadania e Mundo Actual a uma turma CEF do 3º ciclo (ou 2º, nem sei bem), vou ensinar Psicologia B e, imagine-se, nem contava, Filosofia a uma turma do 10º. Continuo delegado de disciplina e acumulo funções de director de turma, e tenho no horário horas infinitas para reuniões em regra bastante produtivas em termos de ensino.

Bem, mas não me posso alongar no post, já que tenho de preparar aulas de 3 níveis de ensino, mais uma reunião de grupo e uma outra de Director de Turma (incluindo recortar fotografias e colar nos cartões dos alunos). Só me está aqui a dar comichão uma perguntinha que gostaria que os colegas leitores me ajudassem a responder: é a isto que se chama qualidade do ensino? É que não estou a topar onde é que está a qualidade do ensino nesta coisa toda? Chamar-lhe-ia antes, sei lá, um ensino sem rei nem rock. Mas certamente tenho aqui a dar uma palavra de profundo agradecimento a toda a impostura política que anda em volta do ensino. E tenho uma certeza: este blog já anda pobrezito, mas vai ficar ainda mais pobrezito ao longo deste ano. Raios partam.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Arranca o ano lectivo

Escola Arranca hoje oficialmente (na Madeira arranca uma semana mais tarde) o ano lectivo 2009/10. A palavra a dar neste momento é de felicidades a toda a comunidade escolar. Mas não posso esquecer algumas dificuldades (parte delas expostas na minha série de pequenos artigos Como Ensino Filosofia?) com que professores se deparam logo à partida. Uma delas diz respeito aos horários e o caso do grupo de filosofia não é isolado. Numa boa parte dos casos as escolas entregam os horários aos professores com apenas alguns dias de antecedência. À excepção dos professores de quadro de escola que podem escolher níveis de ensino e parte dos horários, todos os outros, mesmo os de quadro de zona pedagógica, ficam quase até ao dia de início do ano sem ter ideia do que vão ensinar. Assim, um professor, contratado ou de QZP pode saber 3 dias antes do arranque que vai ensinar Cidadania e Mundo Actual ou até Psicologia e pode não ter leccionado essas disciplinas em anos anteriores. Significa isto que o professor tem 3 dias para se inteirar do programa da disciplina (no caso dos profissionais numa boa parte dos casos é o professor quem decide sobre os conteúdos e tem 3 dias para elaborar um programa de raiz), preparar a avaliação, etc. O resultado disto é um início de ano atrapalhado sem que o professor tenha muito claro o que vai ensinar. O caso dos professores contratados ainda me parece mais grave, já que podem andar um ano inteiro a preparar materiais e um programa que no ano seguinte nem sequer dão continuidade. Este aspecto, apesar de me parecer central na organização do ano lectivo, não foi, com efeito, alterado pela maioria das escolas. Mas é um problema que afecta grandemente a qualidade do ensino e das aulas. Todos os anos conheço professores que ainda não têm sequer o manual da disciplina já lá vai o ano com 2 ou 3 semanas de avanço.

Este é um problema que devia ser corrigido, a bem de professores, alunos e da qualidade do ensino em geral.

domingo, 13 de setembro de 2009

Sentido de urgência aplicado ao sistema de ensino.

untitled105 Recomendado pela minha esposa, que é gestora, peguei no livro Sentido de Urgência (Actual Editora, 2009) de John P. Kotter, um prestigiado especialista em liderança e professor do Harvard Business School. No livro o autor começa por explicar a diferença entre complacência e sentido de urgência dentro das organizações. A escola é também uma organização, no sentido técnico da gestão. A meio termo entre a complacência e o sentido de urgência temos, segundo o autor, o falso sentido de urgência. O falso sentido de urgência, grosso modo, é quando temos muita coisa para fazer dentro da organização, mas todo esse trabalho é produtivamente ilusório, já que não produz qualquer urgência dentro da organização, o que implicaria mudança. Este quadro parece-me assentar bem no que é hoje em dia a tarefa de um professor dentro das escolas portuguesas, isto é, vive-se um clima de falso sentido de urgência, com dezenas de tarefas improdutivas para executar, ao passo que se despreza o sentido de urgência, precisamente aquele que constituiria o motor de inovação do ensino. Ainda vou no segundo capítulo do livro, mas não consigo desprender-me de um paralelo que página a página vou fazendo com as escolas e o sistema de ensino. Vamos ver o que dizem os capítulos seguintes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Moralidade e limpeza da escola

O leitor e colega Daniel enviou um link para um video que dá que pensar. Nele vemos jovens estudantes que após as aulas, limpam a escola e a sala de aulas. Para nós esta realidade é estranha, mas pensemos lá um pouco. Como pais investimos muito a ensinar os nossos filhos a arrumar e limpar aquilo que sujam e desarrumam. Mas fora de casa, esse hábito não é continuado e rapidamente os mais pequenos aprendem que podem sujar à vontade que há sempre quem limpe por eles. Será que o hábito dos japoneses é moralmente aceitável ou condenável? Será que se também na escola ensinarmos as crianças, desde pequeninas, a arrumar e limpar o que sujam não estamos a responsabilizá-los e a respeitar os outros? Fica o video.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pais avaliam escolas no i: Ensino está demasiado fácil

O ensino nas escolas está demasiado fácil e os últimos quatro anos acentuaram o problema. Para a maioria dos 45 pais ouvidos pelo i, os problemas pioraram com a crispação entre professores e Governo, que criou instabilidade nas escolas. E dão exemplos "O estatuto do aluno é um desastre e uma ofensa aos alunos cumpridores. Valores e atitudes como o trabalho, o mérito, a assiduidade, o comportamento, a aprendizagem, o conhecimento, foram postos em causa e de repente considerados antiquados e conservadores", diz Manuel Marques, economista nas Caldas da Rainha, pai de um aluno matriculado no 8º ano. "O estatuto do aluno privilegia o facilitismo e desresponsabiliza os alunos", acrescenta Maria José Viseu, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE). "Esta norma de os alunos não poderem reprovar até ao 10º ano é um verdadeiro disparate. Desmotivador para alunos, pais e professores. O que sente um professor quando no 9º ano encontra um aluno que nem sabe conjugar os verbos?", questiona Maria Castelo Branco, 53 anos, mãe do Gonçalo, que vai frequentar o 10º ano. "A exigência académica é cada vez menor", remata Teresa dos Santos Paiva, mãe de um aluno do 10º ano e de duas filhas gémeas no 6º ano, que logo a seguir dispara contra um regime de faltas pouco rigoroso e que iliba os mais faltosos: "Os mais espertos olham para o regime de faltas como uma brincadeira. De que serve dizer-se que os alunos não podem faltar se sabem que estudam um pouco, fazem um teste de recuperação e já está, voltam a ficar sem faltas ou com elas todas justificadas?" LER O RESTO

 

 

Afinal parece que há mais pessoas quem pensam que uma boa reforma de ensino começa pela reforma curricular bem feita, isto é, dotar os programas de conteúdos claros, plausíveis e rigorosos, isto mesmo antes de qualquer estatuto do aluno ou reforma de corte nos vencimentos dos profissionais da educação. Recentemente quando defendi isto no blog SIMPLEX, Porfírio Silva acusou-me de ter a verdade na mão. Não estou certo se a acusação resultou do tom como o disse ou do que disse. Mas fico mais descansado de saber que há mais pessoas a partilhar da mesma ideia. É confortável, pelo menos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ciber anonimato e palermice


No blog De Rerum Natura, ocasionalmente relança-se a discussão sobre o anonimato, isto é, os leitores que não assinam com a verdadeira identidade nas caixas de comentários. Este não é um problema inteiramente novo. Quando o telefone se massificou em casa das pessoas, choviam os telefonemas anónimos com toda a espécie de gozo e brincadeira. A maioria dos anónimos nas caixas de comentários dos blogs têm essa mesma atitude, ataques pessoais, gozo pelo trabalho dos outros e tentativa de bloquear o trabalho das pessoas. Alguns defensores do anonimato cibernético defendem que não vale de nada assinar já que na internet a identidade é residual. Isso não é bem assim. Depende do compromisso que se vai tendo dentro da rede. Por exemplo, a minha identidade do Google facilmente prova que tenho uma identidade uniforme e verdadeira. Pelo menos é fácil perceber que sou tratado na maioria das circunstâncias por Rolando Almeida. Se eu quiser privacidade posso ficar em casa. Por exemplo, a partir da minha identidade do Google qualquer pessoa conectada à rede fica a saber que tenho um blog de filosofia, que sou assistente editorial de uma revista de filosofia, que participo em mais outro blog, que sou professor do ensino secundário, que trabalho na ilha da Madeira. Com um pouco mais de esforço pode até saber há quantos anos trabalho, qual a minha graduação nas listas de professores, etc. E pode ir mais longe: pode saber se sou devedor ao fisco, se tenho antecedentes criminais, etc. Tudo isto porque exponho a minha identidade. Mas a minha opção não se encontra entre expor a identidade e o anonimato. Ela encontra-se entre expor ou não expor a identidade. E esta é a confusão elementar proposta pelos defensores do anonimato.

Quem não quer expor a sua identidade, ou quer preservá-la o mais possível, só tem de proceder de um modo muito simples: não aparece.

Claro que os defensores do anonimato apresentam as razões em sua defesa. Só não me parecem ser razões plausíveis ou fortes.

Mas o indício mais forte das intenções da generalidade do anonimato tem um apoio forte da experiência para as compreender. É que a esmagadora maioria dos anónimos que escrevem nas caixas dos comentários o fazem para poderem, sem receios, fazer ataques pessoais, insultos, etc.

Ainda há uma outra questão que creio ser de interesse considerar. Por suposto, creio que verdadeiro, a maioria dos frequentadores de blogs como o Rerum Natura são pessoas com alguma formação e interesse. Não estou a ver que a maioria dos trabalhadores das minas ou da construção civil visitem o blog, ainda que tal fosse desejável. E é notável verificar como as supostas elites de conhecimento se comportam nas caixas de comentários como as do Rerum Natura. Esse comportamento não seria de esperar de pessoas com mais interesses de conhecimento criado. Talvez isto signifique uma certa desorientação de muitas pessoas que estudam, que tiram habilitações, etc. Não me estou a referir ao insulto em si, já que esse nem sequer me inquieta por aí além. O mais admirável é o insulto gratuito, sem direcção, irracional. Insulta-se porque não se concorda com o que é afirmado. O insulto anónimo surge no lugar onde deviam estar os argumentos. E, por essa razão também, os defensores do anonimato deixam cair por terra a sua defesa.

E depois a mais velha questão que consiste em perceber por que razão as pessoas que defendem o anonimato na internet quando a usam para expor as suas ideias, não fazem na vida extra internet? Está ainda por explicar porque é que a realidade fora da internet é mais real que a realidade da internet. E por que razão na vida fora da net as pessoas se identificam com o nome verdadeiro e não o fazem na internet? É também possível, cá fora, alguém estar à janela ou escondido a insultar um grupo de pessoas (com o inconveniente de que se for apanhado habilita-se a levar duas rabanadas na testa). Talvez seja isto que os anónimos temem. O anonimato na internet faz sentido em algumas ocasiões. Noutras, como a participação em blogs de discussão, é pura palermice.