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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Editora Piaget com Grandes Noções da Filosofia

Se há dado que temos consumado é a divisão da filosofia a partir dos finais do século xix naquela que ficou entretanto conhecida por filosofia analítica por oposição à chamada filosofia continental. Não interessa aqui entrar de novo nesse debate já muito escrutinado. Se aplicássemos aqui vagamente as ideias de Kuhn relativamente à história da ciência, diríamos que provavelmente a filosofia atravessa a fase da “guerra” de paradigmas. Isto vem ao caso porque em regra esta divisão também acaba por se refletir e muito quando pegamos em livros de caráter mais geral, como dicionários, histórias da filosofia, etc… arrisco a afirmar que hoje em dia essas obras quando chegadas da tradição analítica falham menos que as da tradição continental. Isto é, as da tradição analítica são mais abrangentes. E a isto não está alheio o sucesso em matéria de investigação, se quisermos, do seu “paradigma”, para abusar dos termos de Kuhn. Este mote serve para a minha pequena apresentação deste extenso volume publicado pela Piaget no ano de 2003 e sendo o original em francês do ano anterior. Independentemente do conteúdo que não me é possível comentar de todo (é uma obra de consulta com mais de 1200 páginas na edição portuguesa), vale a pena apresentar em algumas palavras a sua organização.  Assim, para começar, as grandes noções mencionadas no título da obra, são as clássicas: consciência, direito, estado, história, imaginação, tempo, ciência, moral, metafísica, arte, linguagem, etc.. Cada tema corresponde a um capítulo e cada capítulo está organizado não só com a habitual exploração do subtema, como com os textos clássicos comentados. Para quem, como eu, está já acostumado com o modo de fazer filosofia da tradição analítica, não espere destes textos a clareza de exploração dos problemas no sistema de: problema, teorias, argumentos, objeções. Nem espere grandes análises aos problemas pelo binóculo da lógica. Não se segue daí, com efeito, que os textos fossem escritos por uma quantidade de discípulos de Nietzsche recorrendo a uma linguagem demasiado fechada e hermética. Aliás, por sinal, isto também acontece não raras vezes com filósofos da tradição analítica. Embora seja evidente que prezam muito mais a clareza da exposição nem todos, ainda assim, o conseguem fazer devido mais ao estilo da escrita do que à confusão argumentativa.

E a quem interessa este livro?
A todos, menos àqueles cujo contato com a filosofia passa apenas por uma ou duas pequenas introduções, já que no mercado português existe essa oferta.

Uma nota final
Pese embora o que comecei por esboçar neste pequeno texto de apresentação, não se pense que os autores presentes nesta coletânea revelam uma qualquer postura de ignorância relativamente aos cozinhados da tradição analítica. Nem pensar. Como se revela na leitura de pelo menos alguns dos artigos, são autores informados. Mas ao mesmo tempo é bem verdade que apenas pontualmente alguns estudos mais recentes sobre os problemas analisados são citados. E, na minha opinião, deviam ter maior lugar de destaque. Não dou aqui qualquer exemplo específico, já que esta circunstância está presente em todos os capítulos do livro. Alem de que as bibliografias citadas revelam esse mesmo esquecimento que, na minha opinião, empobrece a exploração dos problemas.

A edição portuguesa é de capa dura e num formato físico muito resistente. O que favorece a obra. Um belo livro de filosofia, portanto. 
Agradeço ao editor o envio desta obra para análise e opinião.


Autores Vários, As Grandes Noçõesda Filosofia, Ed Piaget, 2003, Tradução de Ana Rabaça, Coleção Pensamento e Filosofia (Direção de António Oliveira Cruz) 

sábado, 15 de outubro de 2016

Filosofia da Religião, em antologia de luxo


Deus está filosoficamente vivo e bem vivo. Que o diga a filosofia analítica contemporânea que ressuscitou a filosofia da religião com um vigor nunca antes alcançado. Para muitas pessoas ligadas á filosofia isso é surpreendente, já que erradamente viam na abordagem analítica pouco mais que artifício e formalismo técnico de análise da linguagem. A prova de que as coisas não são bem assim é o volume que aqui apresento. É impressionante a qualidade intelectual do que se produziu nos últimos 50 anos sobre filosofia da religião. Filosofia das Religiões, Uma Antologia, é a tradução da edição de 2003 de Philosophy of Religion, An Anthology, da Blackwell, uma editora com grande tradição e empenho na edição deste tipo de obras. Aliás, editoras académicas em regra publicam com alguma regularidade obras do género. Estes volumes são uma espécie de best of de uma área de estudos, autor ou problema. São volumes extensos e que compilam textos dispersos, clássicos ou contemporâneos, mas, no caso da filosofia (e creio que nas outras áreas é o mesmo) que sejam relevantes no debate contemporâneo. Mas vamos ao interior. Deparamo-nos com duas pequenas dificuldades na edição portuguesa e que o editor pode melhorar em futuras edições. A primeira é que o índice vem no final. É um pouco discutível esta opção, mas num livro tão volumoso (a edição portuguesa é mais extensa que o original com mais de 800 páginas) e cuja finalidade é em grande parte a consulta, o índice no início facilita o manuseio e apresenta logo a tábua dos artigos. A segunda é que a edição portuguesa não apresenta no índice o nome do autor de cada artigo. Temos de abrir cada artigo na página correspondente para, aí sim, verificar quem é o autor do artigo. Isto dificulta bastante, pois a procura de um artigo pode também ser feita pelo autor e, como está, torna-se bastante menos prática essa busca. Não tenho o original para comparar, mas, à parte isto e uma pequena introdução dos autores compiladores, nada mais é apresentado. Creio que aqui segue o original, muito embora todas as antologias da Blackwell que possuo em língua inglesa apresentam um pequeno Index. Nesta edição portuguesa não aparece tal Index. Não posso confirmar se tal aparece na edição original, mas tratando-se de um livro de estudo e fortemente dirigido a um público académico, este tipo de ferramentas revela-se quase sempre de enorme utilidade, já que em tanta página os atalhos facilitam bastante.
O livro é organizado em 8 partes.
Parte 1: A identidade religiosa
Três artigos a abrir a antologia, que acabam por constituir uma apresentação do fenómeno religioso. O que faz com que uma crença religiosa seja religiosa e distinta de outras crenças? Quais as principais crenças religiosas?
Parte 2: Teísmo e atributos divinos
Nesta parte, que arranca com um famoso artigo de Richard Swinburne, “God” (1996), explora-se as principais características e atributos de Deus, entre outras como, as de omnipotência e omnisciência.
Parte 3: Explicações de religião
O início desta parte é empolgante. Em poucas páginas 3 autores disputam a partir de uma parábola, o estatuto da crença religiosa. São eles Anthony Flew, R. M. Hare e Basil Mitchell. E já que estamos na parte das explicações da religião ou religiões, então é ocasião para explorar o que tem a psicologia a dizer sobre o problema. A inclusão desta parte é interessante já que, na minha opinião pessoal, tornar-se-ia incompleta sem a apresentação desta abordagem pois parece que a crença religiosa tem uma forte componente psicológica. É aqui também, como de resto seria de esperar, que Freud é abordado, em pelo menos 2 artigos. Mas também é nesta parte que se aborda o relevante problema da ética da crença, com um artigo do já traduzido entre nós, William Clifford (Ética da Crença, Org. Desidério Murcho, Bizâncio, 2010). Mas também é nesta parte que temos a defesa da crença religiosa como apropriadamente básica, na conhecida formulação de Alvin Plantinga.
Parte 4: Argumentos teístas
Nesta parte discute-se a apresentam-se os principais argumentos de justificação da existência de Deus. A novidade aqui é que são apresentados, cada um deles, num artigo diferente. Duas entradas para Swinburne e Mackie com o argumento cosmológico. E, com uma falha da tradução, o argumento teleológico de David Hume (e não teológico). Ainda são explorados em artigos diferentes, o ontológico e do desígnio.
Parte 5: Religiões não teístas
Confesso que é para mim a parte mais estranha, já que não tenho grande conhecimento nesta matéria e ainda não explorei convenientemente os artigos aqui incluídos. Mas temos 4 artigos que apresentam perspetivas budistas, feministas, Darsana, Anviksiki, entre outras. A explorar.
Parte 6: Coisas más e coisas boas
Como seria de esperar, o problema do mal explorado em 8 artigos. Para citar os mais relevantes encontramos aqui artigos de William Rowe (do qual já temos traduzida a excelente Introdução à filosofia da Religião, Verbo, Trad. Vitor Guerreiro), Brian Davies e Peter Van Inwagen.
Parte 7: Os valores religiosos
Esta parte pode interessar aos professores do secundário já que a bibliografia para abordar este tema é, em regra, escassa e difusa, muitas das vezes mesmo inapropriada à finalidade que se destina. Há aqui, portanto, um recurso indesculpável. Encontramos os problemas comuns: o problema da tolerância religiosa, religião e moralidade, pluralismo religioso, etc. Encontramos também o artigo de Swinburne “A possibilidade da encarnação” que tem sido divulgado entre nós por Domingos Faria. Espaço ainda também para a famosa “aposta” de Pascal.
Parte 8: Identidade Pessoal e morte
Finalmente, um típico problema associado às religiões, o da morte e dos milagres. Dos 5 artigos incluídos, um é de um dos organizadores desta antologia, Taliaferro e foi incluído também o texto de David Hume sobre os milagres, incluído ao seu ensaio de Investigação Sobre o Entendimento Humano.
Conclusão da análise
A quem se destina esta antologia? Fortemente a estudantes universitários. Mas também a professores do ensino secundário e ainda a curiosos que gostem de aprender lendo. Para estes últimos o livro tem a vantagem de conter artigos de autores experientes numa escrita clara. Para além disso o mero curioso, leitor sem formação em filosofia, tem aqui uma rica apresentação do problema do fenómeno religioso, exposto sob muitas variantes.
Como é habitual neste tipo de artigos incluídos em antologias académicas, no final de cada artigo, em regra, é apresentada não só uma bibliografia geral, como uma recomendada para aprofundar o tema ou problema apresentado no artigo.
Uma nota final. Muitas vezes em países academicamente mais pequenos como Portugal, os problemas da religião são abordados apenas pela Religião católica e Cristã, o que acaba por afastar o interesse de muitas pessoas, já que se habituam a associar estes problemas apenas ao interesse das instituições religiosas. Independentemente do mérito ou desmérito do trabalho dessas instituições é fundamental perceber que a análise do fenómeno religioso está muito para além da instituição religiosa. Ele é um tema amplo de estudos filosóficos e científicos. A publicação e divulgação deste tipo de obras entre nós (principalmente entre nós) é um bom sinal para arrancar a filosofia desse espectro e devolvê-la ao exercício crítico que tão bem a caracteriza na busca da verdade.

Charles Taliaferro e Paul J. Griffiths, Filosofia das Religiões, Uma antologia, Tradução de Luís Couceiro Feio, Editora Piaget, 2006


Esta obra pode ser comprada AQUI
Agradeço à Editora Piaget o envio deste livros para análise e divulgação. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Boas introduções são necessárias


As boas introduções são um bem maior para entrar num domínio mais sofisticado. Sem elas é muito mais difícil trilhar caminhos futuros numa aprendizagem. Existem introduções muito elementares e básicas que servem de mapa para quem deseje, em pouco tempo, apanhar algumas pontas de uma determinada área. Essas, apesar de essenciais, muitas das vezes deixam escapar algumas subtilezas básicas sem as quais não se chega a compreender verdadeiramente a relevância de uma aprendizagem. Mas existem introduções que são um pouco mais sofisticadas sem deixar de lado esse caráter introdutório. Tanto servem aos neófitos como a estudantes, professores ou até estudantes de cursos universitários. É nesta última categoria que se insere a introdução de Stephen Hetherington, Realidade e Conhecimento, Uma Introdução à Metafísica e à Epistemologia, publicado pela Piaget e traduzido por Jorge Pinheiro no ano de 2007, sendo a tradução do original datado de 2003. Hetherington é um filósofo australiano. A Austrália é um bom país para a filosofia. Da última leva destaco relevantes filósofos como Peter Singer, David Oderberg ou David Chalmers e, claro, o próprio autor aqui destacado. Logo no título do livro vemos um pequeno apontamento na tradução, já que no original o título começa por ser qualquer coisa como: Reality? Knowledge? Philosophy!. E a pontuação, omitida na tradução portuguesa, não estará lá por acaso. Pesquisei e notei que o tradutor espanhol também não foi de todo fiel ao original. Felizmente este apontamento não prejudica, segundo a minha opinião, o conteúdo que se segue. Na verdade, tanto a metafísica como a epistemologia são já territórios filosóficos bastante amplos. Claro que vamos encontrar problemas relacionados com a filosofia moral ou o sentido da existência. Aqui são tratados pelo autor nos seus aspetos metafísicos mais gerais, bem como nas relações de proximidade com a filosofia do conhecimento que tomo como sinónimo de epistemologia.
O livro está organizado em 12 capítulos e como quase todas as introduções à filosofia, podem ser lidos ou consultados em separado, de acordo com os interesses e curiosidade do leitor. Além disso, como acontece em todas as boas introduções, está organizado como um manual de aprendizagem com pequenos questionários nos finais de capítulos e subcapítulos. Esses questionários são bastante úteis para estimular as aprendizagens. Para além disso, em todos os capítulos é apresentada uma bibliografia que funciona como atalho para uma exploração mais aprofundada.
Todos os capítulos apresentam várias teorias, por vezes bastante opostas, como ensaios de resposta aos problemas propostos.
Um pequeno itinerário do livro:
Capitulo I: a aprendizagem começa pelo famoso problema da conservação da identidade pessoal ao longo do tempo. O que é que faz com que uma pessoa seja a mesma ao longo do tempo? Que propriedades são constituintes dessa identidade?
Capitulo II: apresenta o problema do livre arbítrio. Como é que num universo causalmente determinado e explicado racionalmente pela causalidade, podemos afirmar que a nossa liberdade individual escapa a essa causalidade? Se escapa então pelo menos a nossa liberdade não está sujeita ao determinismo causal e se não escapa, então a liberdade individual não passa de uma ilusão da mente. E nesse caso, levantam-se outros e relevantes problemas, como o da responsabilidade individual pelas ações.
Capítulo III: neste capítulo é abordado mais um problema de compatibilidade, neste caso, entre a existência de um Deus sumamente bom e com poderes ilimitados e um mundo criado por Ele onde existe mal. Como resolver esta aparente incompatibilidade? A passagem de Sócrates, no seu diálogo com Eutifron, não escapa à análise do problema proposta por Hetherington.
Capítulo IV: O problema do sentido da existência? O que é que confere sentido à nossa existência? Propõe-se um encontro com as passagens mais clássicas para análise do problema, deste o mito de Sísifo até à máquina de experiências de Nozick.
Capítulo V: poderá a morte constituir uma ameaça assustadora ao sentido da vida? Como lidar com a finitude? Neste capítulo são explorados argumentos de autores contemporâneos como Jeff McMahan ou Thomas Nagel, mas também os clássicos Epicuro e Lucrecio.
Capítulo VI: como é que duas mesas brancas partilham de uma mesma propriedade como a brancura? Será que a “brancura” partilhada é uma propriedade independente dos objetos? Ou pertence aos objetos enquanto sua propriedade? Como definir o que é uma propriedade se tal for sequer possível? Existem propriedades que definam, por exemplo, o que é ser uma pessoa?
Capítulo VII: A toda a hora falamos em verdade por oposição a falsidade. Mas como é que é possível falar em tal coisa? O que é que caracteriza a verdade? Se houver múltiplos conceitos de verdade, então parece ser impreciso falar de tal coisa. Mas pelo contrário, se o conceito não é múltiplo, então o que o caracteriza? São aqui analisadas algumas das mais recentes teorias, de uma forma geral, mas correta e filosoficamente robusta, entre as quais, a teoria coerentista da verdade e a teoria da verdade como correspondência.
Capítulo VIII: quais são os critérios que nos permite defender que uma teoria está mais bem fundamentada que uma outra teoria rival? Um gato passa no outro lado da rua. Maria, que tem algumas dificuldades de visão e até cognitivas, mas não tem noção disso, formula a crença de que um gato passou no outro lado da rua. Joana, que tem uma visão e perceção sensorial apurada, mesmo que não saiba disso, vê um gato passar no outro lado da rua. Ambas têm a mesma crença. Mas como é que podemos confiar que uma crença é mais conhecimento que outra? Temos boas razões para confiar mais na crença de Joana do que na crença de Maria se as suas crenças fossem diferentes? Esta relação da confiança no conhecimento verdadeiro é explorada neste capítulo.
Capítulo IX: O que é que está na base do conhecimento? Isto é, o que é que fundamenta o conhecimento? Será que ao desejarmos explicar x entramos num movimento de regressão infinita de explicações? Neste capítulo, claramente debruçado sobre epistemologia, são analisados textos clássicos de Platão e Gettier.
Capítulo X: sabemos coisas porque as percecionamos sensorialmente. Mas a perceção sensorial é suficiente para um conhecimento sólido? O empirismo e David Hume em forte análise neste capítulo.
Capítulo XI: Depois do empirismo, o racionalismo. Será o conhecimento de verdades racionais, como as matemáticas, o fundamento de todo o conhecimento? Como é que é que podemos saber apenas pelo raciocínio determinadas verdades? Será fiável?
Capítulo XII: Depois da análise do empirismo e do racionalismo, faz todo o sentido a exploração do ceticismo. Neste capítulo explora-se a fase cética de Descartes e o ceticismo de Hume, assim como as várias respostas mais conhecidas ao ceticismo e à possibilidade do conhecimento.

Quem quer que inicie o estudo de filosofia por este livro considere-se com sorte. O livro apresenta os problemas tal qual eles são hoje em dia explorados e na melhor tradição da boa filosofia, é escrito de uma forma muito clara, sem perder o norte do rigor que a filosofia exige.
Não recomendo este livro para estudantes do ensino secundário. Mas é altamente recomendável para professores de filosofia do ensino secundário. Isto porque por um lado muitos dos problemas coincidem com o programa ministrado no ensino em Portugal e depois porque podem aproveitar muitos exemplos e partes do livro para explorar nas aulas, uma vez que está engenhosamente bem escrito e apresenta exemplos muito interessantes para os alunos. Seleciono apenas uma pequena passagem que pode ser aproveitada para apresentar o problema do livre arbítrio nas aulas:
Cap. II:
“imagine-se que uma pedra parte a nossa janela. Que mais deve incluir esta história? Dada a forma do mundo físico, assim que a pedra se aproximou, a janela não teve hipóteses de sobreviver intacta: o seu estilhaçamento foi provocado pelo impacte da pedra. Assim, em alguma fase da história do mundo, a fractura da janela tornou-se inevitável. Isso foi assim apenas quando a chegada da pedra se tornou iminente? Ou, cem anos antes, o mundo já estava a caminhar inexoravelmente para esse momento em que a dita pedra partiu a janela? Algures no passado, algo ocorreu para que sucedesse a morte da janela.”
p. 31
Ou, no Cap. IX
“Se não sabemos em que consiste o conhecimento, talvez não saibamos qual das nossas opiniões é conhecimento. Um ponto de vista não é conhecimento apenas por ser opinião de alguém. Nem todas as opiniões pessoais profundas são conhecimento; e ser-se culturalmente respeitado não é garantia da opinião de alguém ser conhecimento. Nem uma opinião é conhecimento apenas porque queremos que seja ou porque acreditamos ou afirmamos que é. Nem todos os pontos de vista são especialmente conhecíveis. Que garantia temos de o nosso ponto de vista pessoal ser bom nesse aspecto?”
p. 135
Qualquer uma destas passagens é muito útil para, numa aula, lançar os problemas. Claro que dependendo das opções de cada professor, depois pode-se selecionar alguns pontos das teorias e argumentos dos filósofos que exploram ensaios de resposta aos problemas.
Hoje em dia temos no mercado português boas introduções. Deixo apenas a recomendação à Piaget que continue a publicar estes livros tão bem-vindos ao público de língua portuguesa. Sem este tipo de obras disponíveis, o acesso ao conhecimento é muitíssimo mais limitado.
Agradeço à Editora Piaget que gentilmente enviou este livro para a minha apreciação.

Para comprar o livro: AQUI

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Desidério Murcho, Todos os sonhos do mundo, 2016

Um livro de filosofia que atravessa áreas como epistemologia, moralidade, ciência, religião e metafísica. Pode funcionar como uma introdução à filosofia, mas é um pouco mais que isso já que leva a marca do autor em cada tese defendida. Para os leitores familiarizados com a filosofia escusado será indicar o interesse. Para o leitor menos habituado a lidar com a filosofia, este livro tem um poder decisivo, o de desfazer eventuais confusões entre aquilo que pensa que pode ser a verdade e a verdade. Atenção que não resolve qualquer problema mais imediato relacionado com a verdade, nem possui, enquanto livro de filosofia, essa intenção. A ideia aqui é apenas uma: mostrar como as questões funcionam quando queremos raciocinar ou pensar criticamente. E sabendo como elas funcionam, claro está, dispomo-nos a argumentar com maior rigor as nossas posições. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Capitalismo ou Socialismo? Qual o melhor ismo?

Qual a forma mais justa para distribuir os bens numa determinada sociedade? Será o socialismo uma boa resposta? Ou o capitalismo responde de forma mais eficaz ao problema? As respostas a este problema de filosofia política são ensaiadas nestes belíssimos livros da secção Política da Filosofia Aberta da Gradiva, publicados este ano.



domingo, 10 de abril de 2016

Como captamos o sentido da existência.... a correr

Correr está na moda. Mas talvez seja mais que uma mera moda. Provavelmente terá a ver com o sentido da existência. X pode ter valor instrumental ou valor intrínseco. Uma coisa tem valor instrumental se é um meio para atingir outra coisa com valor intrínseco. Por exemplo, ter saúde é instrumental uma vez que é uma condição necessária, mas não suficiente para ser feliz. Se isto for verdade, a felicidade possui valor por si mesma. Dizem os filósofos que a felicidade tem valor intrínseco. Mark Rowlands, professor de filosofia na Universidade de Miami, defende, neste ensaio que correr tem valor intrínseco. Mas Rowlands vai mais longe ao defender que algo com valor intrínseco tem também valor cognitivo. Traduzido do original inglês por Ana Pedroso Lima, está agora disponível mais este ensaio em língua portuguesa. Espero que deixe na corrida filosófica pelo menos tantas pessoas quanto aquelas que hoje em dia correm por prazer. Edição da Lua de Papel.


Mark Rowlands passou grande parte da sua vida a correr. É também um filósofo profissional. Para ele, cada corrida é um pretexto para filosofar. Correr aproxima-se muito do conceito de liberdade, tal como o defendia Jean-Paul Sartre; as lesões são pretexto para dissertar sobre a morte (e Heidegger); e quando se questiona sobre as razões por que corre está a seguir o trilho percorrido por Aristóteles, na sua insaciável procura da causa das coisas. Em Correr com a Matilha, o autor fala-nos das corridas mais significativas da sua vida . Dias inteiros a percorrer o País de Gales quando era miúdo, as maratonas ao longo das praias francesas ou nas montanhas da Irlanda, na companhia do seu lobo Brenin, ou, mais tarde, com a cadela Nina, nos pântanos da Flórida. A vida do autor de O Filósofo e o Lobo é pois memória e exercício filosófico. A meta é chegar sempre um pouco mais longe, aproximar-se do sentido da existência, desafiar a mortalidade. (Ou, mais prosaicamente, a crise da meia idade.) Obra absolutamente original, por vezes tocante, despertará no filósofo o desejo de correr; e ao corredor mostrará que pode chegar muito mais longe do que pensa – e não estamos apenas a falar de quilómetros.
"A mais original e didática obra de filosofia pop do ano."Financial Times  


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Peter Singer, O maior bem que podemos fazer

Será que a motivação para agir não é apenas uma resposta às nossas emoções inatas? Peter Singer pensa que a razão desempenha um papel fundamental nas nossas decisões. E também, claro, nas nossas decisões morais. A base do argumento de Singer neste livro é a seguinte: Se uma ação x produzir um maior bem para mais pessoas, então é uma ação moralmente correta. E a resposta de Singer surge sob a forma de um movimento humano, o altruísmo eficaz. De resto a ideia não é nova para o autor que já a explora desde pelo menos a década de 70. Peter Singer é senão “o”, pelo menos um dos filósofos mais populares da atualidade. É-o certamente pelos problemas que explora, mas muito mais pela forma como os pensa e pela clareza com que os transmite. E é também porque a sua filosofia é de tal modo pública que não falta quem o odeie. Mas é natural que uma filosofia tornada causa pública produza uma onda irracional de amores e ódios. Afinal, Sócrates foi condenado à morte exatamente pelas mesmas irracionalidades.

O maior bem que podemos fazer, é um dos últimos trabalhos do filósofo de origem australiana, mas há muitos radicado nos EUA, Princeton. As Edições 70 publicaram o livro em Portugal, numa belíssima edição que ao mesmo tempo renova a imagem do editor. Para muito melhor. A tradução é de Pedro Elói Duarte que já nos habituou a um bom trabalho e a edição é de Março de 2016, com prefácio à edição portuguesa de Pedro Galvão.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O melhor da filosofia em 2015 (Edições de Portugal)

O mercado de edição em filosofia em língua portuguesa é sempre modesto, principalmente no que respeita a obras de caráter introdutório às mais diversas áreas da filosofia. Por outro lado as exigências profissionais tornam o tempo para ler cada vez mais reduzido, sendo necessário muitas vezes roubar tempo à vida para concretizar algumas leituras. De seguida apresento a minha colheita do melhor que se publicou em Portugal durante 2015. É uma lista pessoal que, espero, possua alguma objetividade quanto ao seu interesse e relevância. 


João Carlos Silva, Por amor à sabedoria, Chiado Ed.


Pedro Galvão, Ética com razões, FFMS


Nigel Warburton, Liberdade de Expressão, Uma breve introdução, Gradiva


Paul Boghossian, O medo do conhecimento, Contra o relativismo e o construtivismo, Gradiva


Stewart Shapiro, Filosofia da matemática, Ed 70


Sofia Miguens e Susana Cadilha, John McDowell, Uma análise a partir da filosofia moral, Colibri


Simon Blackburn, Vaidade e ganância no século xxi, Os usos e abusos do amor próprio, Temas e Debates


Michael Sandel, O que o dinheiro não pode comprar, Os limites dos mercados, Ed. Presença


Amedeo Balbi, Rossano Piccioni, Cosmicomix, A descoberta do big bang, Gradiva

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Filosofia para os mais pequenos

De todos os livros de divulgação da filosofia a tenra idade, destaco dois, um deles, publicado este ano pela Edicare. O livro da Edicare é da responsabilidade de Carme MartinVíctor Escandell. Não é propriamente um livro que incita a filosofar, mas uma pequena enciclopédia da história da filosofia contada de modo divertido. Destaque para as ilustrações, pois o livro resulta muito bem para os mais novos.



O segundo livro é um pouco diferente, já que é escrito por um filósofo profissional e com muita experiência na divulgação da filosofia, o inglês Stephen Law. Já tinha feito referência a este livro, publicado em 2010, pela Leya. 


sábado, 12 de setembro de 2015

Por amor à sabedoria, João Carlos Silva

Por regra não associamos os livros à personalidade dos seus autores, até porque a maioria dos autores são - enquanto pessoas - desconhecidos para os seus leitores. Não é o caso de João Carlos Silva. Conheço a pessoa uma vez tratar-se de um colega professor de filosofia e com quem vou mantendo contacto ao longo dos últimos anos. Ora, tratando-se de um livro de filosofia, conhecer a pessoa, aqui, parece ser uma vantagem prévia. E por quê? Porque, neste caso, posso atestar que o autor é culto, interessado e prima pela honestidade e verdade. Assim, é de esperar que em mais este seu livro (já publicou pelo menos outro) esses valores norteiem a sua escrita. E o valor da verdade é central quando queremos fazer ciência ou filosofia. Deixo aqui o link para saber mais do livro lendo, por exemplo, a sinopse. 


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Livros Novos

Este mês saíram no mercado português duas traduções com interesse.



Stewart Shapiro, Filosofia da Matemática, Ed 70, Trad. Augusto J. Franco Oliveira

"Este é um livro de filosofia, sobre matemática. Há, primeiro, questões de metafísica: de que trata a matemática? Tem um conteúdo? Qual é esse conteúdo? O que são números, conjuntos, pontos, linhas, funções, e por aí adiante? E depois há questões semânticas: o que significam as proposições matemáticas? Qual a natureza da verdade matemática? E de epistemologia: como se conhece a matemática? Qual a sua metodologia? Está envolvida a observação, ou trata-se de um exercício puramente mental? Como são adjudicadas as disputas entre matemáticos? O que é uma demonstração? As demonstrações são absolutamente certas, imunes à dúvida racional? O que é a lógica da matemática? Há verdades matemáticas incognoscíveis?
O filósofo da matemática tem de dizer algo sobre a própria matemática, algo sobre o matemático humano, e algo sobre o mundo onde a matemática é aplicada. Uma tarefa de vulto."



Nigel Warburton, Liberdade de Expressão, Uma Breve Introdução, Gradiva, Trad. Vitor Guerreiro
Um livro dezenas de vezes citado aqui no blogue.


"A liberdade de expressão deve ter limites ou, pelo contrário, ser total? Este é um livro essencial de análise dessa questão.

Acessível. Actual. Interessante. Esta obra analisa os principais argumentos a favor e contra o direito a manter a liberdade de expressão. «Desprezo o que dizes mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo.» A afirmação, atribuída a Voltaire, é frequentemente citada pelos defensores da liberdade de expressão. Porém, é difícil encontrar alguém preparado para defender toda a expressão em qualquer circunstância.

Num contexto em que cada vez mais o cidadão comum tem à sua disposição veículos de transmissão de opinião e de acesso à informação, este é um tema desafiante. Até onde pode ir a liberdade de expressão? Como se define? Será independente do contexto? O livro analisa temas que vão do Holocausto à pornografia. Apresentando argumentos filosóficos e casos de estudo actuais, combina áreas tradicionais de debate com novas áreas ou novos desafios à liberdade de expressão, decorrentes, por exemplo, da tecnologia digital e da internet. 

A liberdade de expressão é considerada um direito fundamental, estando no coração da democracia e sendo a sua protecção vista como marca das sociedades civilizadas. Mas o tema nada tem de simples. 
O autor analisa nesta obra importantes questões que a sociedade moderna enfrenta sobre o valor e os limites à liberdade de expressão. Onde deve ser desenhada a linha? O que veio a Internet mudar?
Este pequeno, mas entusiasmante livro, que às vezes assume um tom às vezes provocador, destina-se a um público vasto, onde se inserem leitores generalistas, mas também estudantes e professores, de filosofia e não só."

Ambos os textos de sinopse são retirados dos sites das editoras. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Aristóteles em português

Um grupo de estudiosos da obra de Aristóteles tem traduzido e disponibilizado para o português, com traduções de qualidade, um conjunto muito interessante das suas obras. Este é mais um volume que apresentamos. As traduções são coordenadas por António Pedro Mesquista, professor de filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. As traduções entretanto lançadas podem ser descarregadas no site dedicado ao projeto, AQUI.


sábado, 9 de maio de 2015

Medo do conhecimento

O relativismo pós moderno invadiu a cultura e os departamentos universitários. A ideia base (grosso modo) consiste em presumir que qualquer ideia é verdadeira, dependendo dos contextos racionais nos quais ela se possa inscrever. Curiosamente a filosofia, pelo menos aquela que se tem praticado nos meios anglo-saxónicos e a que mais desenvolvimento filosófico tem proporcionado nas últimas décadas (por muito que isto desagrade aos mais conservadores), a filosofia analítica, tem resistido a esta investida relativista. É este debate que, de forma clara, este livro nos traz. Uma leitura que tem tanto de interessante como de relevante. Tem também a vantagem de explicar que o relativismo não é o que muitas vezes se fala, pelo menos o relativismo epistemológico.
Desengane-se quem pensar que vai encontrar neste livro um ataque pessoal a quem é relativista ou não pensa o mesmo que o autor do texto, como muitas vezes tem acontecido nas redes sociais e blogosfera. Trata-se de um texto adulto e maduro, como todos os bons textos, onde o interesse é discutir ideias e não perfis pessoais dos seus autores. O autor agradece cuidadosamente a quem, como Rorty, foi capaz de despertar o interesse para a discussão de alguns argumentos. Numa discussão com interesse intelectual é perfeitamente natural que se aprecie o argumento X sem, com efeito, ter de concordar com a conclusão. Alguém pode discordar das conclusões dos argumentos de Plantinga ou Swinburne (também com um livro incluído nesta coleção) sem, no entanto, deixar de apreciar a sofisticação dos seus argumentos. Logo, quem espera deste livro um “dizer mal de x”, mais vale procurar informação em outros livros que não este. Aqui apresenta-se uma boa discussão, concorde-se ou não com as conclusões.
Mais informações AQUI. A edição é de Abril de 2015. 

Boa leitura

terça-feira, 24 de março de 2015

O que o dinheiro não pode comprar, Michael Sandel


Acabo de saber que está publicado pela Presença o livro do filósofo político de Harvard, Michael Sandel, O que o dinheiro não pode comprar. Mais uma leitura a seguir com atenção para quem se interessa por estes problemas da filosofia política. Recordo que pela mesma editora temos já publicado o excelente Justiça


Devemos recompensar monetariamente as crianças por lerem livros ou terem boas notas? Deveremos permitir que as empresas paguem para obterem o direito de poluírem a atmosfera? É ético aceitar ser pago para tatuar o nosso corpo com mensagens publicitárias?

Vivemos numa época em que quase tudo pode ser comprado e vendido. Nas últimas décadas, os valores do mercado infiltraram-se em quase todos os aspetos da nossa vida - saúde, educação, justiça, governo e até família -, e deixámos de ter uma economia de mercado para passarmos a ter uma sociedade de mercado. Mas que preço pagamos por vivermos numa sociedade em que tudo está à venda? 

Em O Que o Dinheiro Não Pode Comprar, o autor procura lançar o debate, de forma a repensar o papel e o alcance dos mercados nas nossas práticas sociais, nas relações humanas e na vida quotidiana. E, acima de tudo, Michael J.Sandel procura responder à questão fundamental: como podemos proteger aquilo que é verdadeiramente importante?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Revisão por pares

Não sei se é possível traduzir por “revisão por pares” a expressão em língua inglesa “peer review”. Para quem não sabe explico aqui rapidamente. Este processo, conhecido por revisão por pares (para todos os efeitos vou usar a expressão portuguesa), é o mais utilizado ao nível académico para aceitação de artigos. O autor submete o seu artigo a uma revista da especialidade. O artigo é anonimizado e depois é avaliado por especialistas da área que o aprovam ou rejeitam. Procura-se, deste modo, garantir rigor nas publicações e nas descobertas propostas pelos autores dos artigos. Como seria de esperar também este método de avaliação de artigos falha. E não falha somente em áreas como a filosofia. Em termos proporcionais, falha até muito mais em ciências como a matemática ou a física. É isso mesmo que nos revela Jorge Buescu no primeiro capítulo de Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática (Gradiva, 2014). O processo atinge dimensões astronómicas quando surgiu a internet. A internet democratiza o conhecimento, pois hoje em dia até numa universidade pobre se tem acesso aos melhores artigos científicos e filosóficos da atualidade. E com a expansão da internet os artigos passaram a estar disponíveis em modelo Open Access. Este modelo permite que os artigos estejam disponíveis de forma gratuita para que todos, mesmo aqueles que menos dinheiro têm, possam acedê-los. O problema é que alguém tem de os pagar. Então quem os paga? Os autores ou as instituições que os representam. Um autor para publicar um artigo numa revista da especialidade pode chegar a pagar milhares de euros. Repare-se que são especialistas que vão ter de ler aturadamente o artigo. O reverso do modelo são as revistas predadoras que procuram apenas extorquir dinheiro aos autores.
O mais interessante em todo este processo é que na filosofia as coisas não são diferentes do que se passa, por exemplo, na matemática. As revistas predadoras de OA abriram portas a toneladas de artigos que não passa de lixo científico. E isto na matemática. Ou seja, onde pensamos que o crivo do rigor é exímio é ao mesmo tempo onde há mais charlatanice. Dá que pensar?

Jorge Buescu é um matemático português e com vários livros publicados entre os quais parte são de divulgação científica. 
O filósofo inglês Nigel Warburton defende neste pequeno texto que é preferível um editor competente a um peer review incompetente. Não me parece de todo convincente pois num caso e no outro (editor ou peer review) o que se pretende é a competência e charlatanice na era da internet é coisa que não falta pelos mais variados motivos sendo que os ligados ao lucro fácil são aqueles que alcançam maior expressão. 
Em Portugal a publicação em filosofia com maior expressão em sistema de OA é a Disputatio, International Journal of Philosophy, publicada pelo LanCog

Um dos testes interessantes a aplicar nestas revistas em sistema OA é replicar o caso Bricmont, Sokal, tão bem exposto em Imposturas Intelectuais. Consiste em enviar textos para estas revistas, com erros grosseiros propositados e sujeitá-los à avaliação por pares. Jorge Buescu retrata bem esta situação e experiência no livro. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ensinar filosofia? O que dizem os filósofos.

Acaba de me chegar mais um volume publicado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com o título Ensinar Filosofia? O que dizem os filósofos, coordenado por Maria Vaz Pinto e Maria Luísa Ferreira. O volume está organizado por filósofos de todas as épocas, desde Platão, Derrida ou Searle. Cada autor contribui com um texto de um filósofo e a devida contextualização. O volume é interessante pois confronta posições muito diversas sobre o ensino da filosofia. Pode ser encomendado no próprio centro que o publica ou diretamente na livraria do centro, em Lisboa. Especialmente interessante para professores de filosofia do ensino secundário.

“A obra Ensinar Filosofia? O que dizem os filósofos integra-se no Projecto O Ensino / Aprendizagem da Filosofia(PTDC/FIL-FIL/102893/2008) coordenado por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, em que participam investigadores de várias nacionalidades, abrangendo quatro áreas principais, com objectivos distintos: 1. A Didáctica da Filosofia: a filosofia ensina-se e aprende-se. 2. O que os filósofos pensaram sobre o ensino da Filosofia. 3. Os programas de Filosofia em Portugal. 4. Novas metodologias do ensino da Filosofia.  Relativamente à área temática - a Didáctica da Filosofia -, foi publicado Ensinar e Aprender Filosofia num Mundo em Rede (Lisboa, CFUL, 2012), que reúne um conjunto de textos elaborados quer por membros do Projecto quer por especialistas convidados. Este primeiro volume centra-se sobre questões fulcrais da didáctica da Filosofia e sobre a especificidade da mesma, abrindo-se de modo particular à discussão de novas metodologias acessíveis ao ensino / aprendizagem da filosofia na era digital. O presente livro - Ensinar Filosofia? O que dizem os filósofos - é coordenado por Maria José Vaz Pinto e Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Recorrendo a diferentes pensadores e pensadoras ao longo dos tempos, é seu objectivo mostrar que o ensino da filosofia é um problema eminentemente filosófico.”


Mais informações, clicar na imagem do livro. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Aborto, eutanásia e direitos morais dos animais: ética com razões

O problema moral do aborto, da eutanásia e dos direitos dos animais são os três tópicos principais abordados neste novo livro de Pedro Galvão. É claramente um livro de autor e não uma mera exposição introdutória aos problemas uma vez que, nele, o autor defende as suas próprias posições filosóficas sobre cada um dos problemas. Mas ao mesmo tempo é uma bem-vinda introdução a estes problemas, já que está escrito de forma clara e acessível ao leitor comum não especialista nos assuntos. Para além disso custa pouco mais que 3€. Não há desculpas para não estarmos um pouco mais informados sobre estes problemas que afetam de forma direta as nossas escolhas éticas. De salientar que nenhuma defesa própria do autor exclui a apresentação das teses contrárias deixando desse modo a liberdade ao leitor de poder pensar pela sua própria cabeça. E quando assim é, estamos perante um belo livro de filosofia e ética aplicada. De destacar também que a leitura deste livro de menos de 100 páginas permite ao leitor acompanhar a discussão mais atual na literatura filosófica sobre os problemas nele abordados.
A edição é da FFMS, Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pode ser adquirida na cadeia de supermercados Pingo Doce ou encomendada diretamente no site da fundação com portes pagos. Também se encontra nas livrarias habituais. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Mais uma tradução de Simon Blackburn

Uma nova tradução de Simon Blackburn acaba de ser publicada em Portugal. Trata-se de Vaidade e Ganância no século xxi, Os usos e abusos do amor-próprio. A edição é da Temas & Debates.
Para já aqui fica a sinopse do livro:

Toda a gente odeia o narcisismo, especialmente nos outros. O vaidoso pode mostrar-se aborrecido ou absurdo, e ofende o próximo sem se aperceber disso ou, pelo contrário, orgulhosamente consciente do seu comportamento. Mas serão o narcisismo e a vaidade realmente tão maus como parecem? Neste livro, Simon Blackburn defende que o narcisismo, a vaidade, o orgulho e o amor-próprio são mais complexos do que aparentam e possuem inúmeras facetas boas e más. Baseando-se na filosofia, psicologia, literatura, história e cultura popular, Blackburn propõe uma análise do amor-próprio, desde o mito de Narciso e da narrativa cristã da expulsão do Éden até à atual indústria do amor-próprio. Em última análise, mostra porque é o amor-próprio uma parte necessária e saudável da nossa vida. Mas também sugere que perdemos a capacidade de distinguir entre - e, pior do que isso, de equilibrar - as boas e as más formas de amor-próprio.



De Simon Blackburn temos já publicadas em Portugal duas obras com muito interesse para o ensino da filosofia. Ambas publicadas pela Gradiva, são elas Pense, Um Introdução á Filosofia e o Dicionário de Filosofia, da coleção Filosofia Aberta.
Mais informações sobre este filósofo AQUI