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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O conhecimento como relação entre um sujeito e um objeto

A percepção é o modo como tomamos consciência dos objectos, em especial daquilo que nos é dado pelos sentidos. A pergunta que muitos filósofos colocam acerca da percepção é a seguinte: será que o facto de percepcionarmos objectos é suficiente para justificar a existência desses objectos fora da nossa consciência? A distinção entre aparência e realidade parece indicar que há diferença entre aquilo que as coisas são e a maneira como tomamos consciência delas, isto é, a maneira como as percepcionamos. O modo como funciona a percepção dá lugar a grandes disputas filosóficas e é um tema central nas discussões acerca da natureza do conhecimento. Há três grandes teorias da percepção, com diferentes implicações em termos epistemológicos: o realismo directo, o realismo representativo e o idealismoVer também realismo crítico e realismo ingénuo. (Aires Almeida)"

in. DEFnarede

sábado, 5 de dezembro de 2015

Consitência e Inconsistência



consistência/inconsistência
Duas ou mais proposições são consistentes se, e só se, podem ser simultaneamente verdadeiras; e são inconsistentes se, e só se, não podem ser simultaneamente verdadeiras. Por exemplo, as afirmações "Deus existe" e "Sócrates era um filósofo" são consistentes; e as afirmações "Deus existe" e "Deus não existe" são inconsistentes. Nem sempre é fácil saber quando duas proposições são consistentes ou inconsistentes. A mais leve complexidade lógica pode provocar enganos. Por exemplo, há razões para pensar que as afirmações "Todos os lobisomens são peludos" e "Nenhum lobisomem é peludo" não são inconsistentes; mas, intuitivamente, estas afirmações parecem inconsistentes. Note-se que aLÓGICA ARISTOTÉLICA não se aplica a proposições que contenham classes vazias, como "lobisomens"; se excluirmos as classes vazias, quaisquer duas proposições com a forma "Todo o A é B" e "Nenhum A é B" serão efectivamente inconsistentes (ver QUADRADO DE OPOSIÇÃO).
Outras vezes, é muito difícil saber se duas proposições são consistentes ou não. Por exemplo, em filosofia discute-se o chamado PROBLEMA DO MAL, que consiste em saber se as duas afirmações seguintes são consistentes: "Deus existe e é omnipotente, omnisciente e sumamente bom" e "Há mal no mundo".
Não se deve confundir inconsistência com CONTRADIÇÃO; todas as contradições são inconsistências, mas nem todas as inconsistências são contradições. Por exemplo, uma vez que há seres humanos, as afirmações "Todos os seres humanos são mortais" e "Nenhum ser humano é mortal" são inconsistentes, mas não são contraditórias entre si. Não se deve igualmente dizer que uma teoria ou proposição "é consistente com o mundo"; as teorias ou proposições só podem ser consistentes entre si e não com o mundo. Relativamente ao mundo, as teorias e proposições são verdadeiras ou falsas, consoante descrevem fielmente ou não o modo como as coisas são. DM


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Argumentos cogentes

Algumas vezes surgem confusões ligadas a esta noção da argumentação filosófica. Um argumento é cogente quando, além de válido e com premissas verdadeiras, persuade racionalmente, ou seja, é convincente.

A objeção mais habitual é que não faz sentido falar em tal coisa, pois em filosofia não há argumentos cogentes.

Claro que há! Um argumento é filosoficamente cogente se as premissas forem mais plausíveis do que a conclusão, isto é, se nos levarem a aceitar uma conclusão que desconhecíamos.   

Diz-nos a noção de validade que um argumento é dedutivamente válido se em nenhuma das circunstâncias de verdade possíveis as premissas do argumento não possam ser verdadeiras e a conclusão falsa.                                          
                                                                                                        

Eis um exemplo de dedução válida:
A neve é branca e a relva verde
A relva é verde
Logo, a neve é branca
Este é um argumento válido e com premissas verdadeiras. Significa isto que é sólido. Mas facilmente percebemos que a solidez não parece ser uma noção suficiente, apesar de necessária, para persuadir alguém com um argumento. Isto porque em filosofia temos premissas muito discutíveis. E, apesar de serem muito discutíveis, tal não significa que não nos possam fazer aceitar uma conclusão que, à partida, não estaríamos dispostos a aceitar, não fossem aquelas premissas. Se as premissas forem mais plausíveis que a conclusão, acabamos por aceitar uma conclusão que à partida não defenderíamos. Isto é a cogência.

O exemplo dado não é um exemplo de cogência, pois na cogência o que queremos mostrar é que alguém não pode defender uma tese partindo de determinadas premissas, ou seja, que aquilo que já aceita  as premissas  implica necessariamente a conclusão que não quer aceitar e que nós defendemos.

Assim, a definição de cogência é operacional para nos permitir compreender que não desejamos somente argumentos sólidos, mas, além disso, que convençam.

Podemos ter argumentos sólidos, mas que não são persuasivamente fortes, necessitando de explicações adicionais para que se tornem convincentes. E daí a cogência.

A cogência é igualmente aplicável a argumentos quer dedutivos quer indutivos. Nestes últimos, um argumento cogente não aponta necessariamente para uma conclusão verdadeira, mas é muitíssimo provável que o seja.

A cogência vai mais além da mera sintaxe do argumento e é uma noção interessante precisamente quando não sabemos determinar a verdade das proposições. Claro que não precisamos de saber se as premissas de um argumento são verdadeiras ou falsas para saber se é válido. Precisamos apenas de saber que, se as premissas forem verdadeiras em alguma simulação de verdade, a conclusão não poderá ser falsa nessa mesma circunstância. Para saber isso, podemos aplicar um inspetor de circunstâncias.
Mas, ainda assim, temos muitos argumentos perfeitamente válidos que não são persuasivos. Daí a importância da solidez. O problema é que nem sempre é fácil determinar a solidez de um argumento, pois nem sempre sabemos da verdade das premissas. Assim, falamos de cogência do argumento, isto é, da plausibilidade das premissas para apoiar determinada conclusão. 

Publicado originalmente AQUI

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Como usar Inspetores de circunstâncias

Ao longo da história da filosofia, a lógica tem sido usada como ferramenta fundamental que nos auxilia a distinguir argumentos válidos de inválidos. 

Referem-me com frequência que reduzir a filosofia à lógica retira àquela parte essencial do seu papel.
Acontece que não se reduz em momento algum a filosofia à lógica, mas analisa-se logicamente os argumentos, o que deve ser natural em grande parte do trabalho filosófico.

Como já foi explicado em posts anteriores, a lógica não capta, por si só, todas as subtilezas da argumentação, mas é uma ferramenta preciosa quando bem aplicada à argumentação.

É o caso dos inspetores de circunstâncias. Como o nome sugere, um inspetor de circunstâncias vai inspecionar as condições de verdade de um dado argumento dedutivo. A regra da validade dedutiva indica que um argumento é válido se for impossível uma circunstância em que a ou as premissas seja(m) verdadeira(s) e a conclusão falsa.

Tomemos um exemplo prático de um argumento:

Exemplo 1
A relva é amarela e as nuvens cor-de-rosa
Logo, a relva é amarela

Este argumento tem uma premissa apenas e uma conclusão. Sabemos que a premissa é falsa, a conclusão também e o argumento é válido. Intuitivamente sem recurso a um inspetor compreendemos a validade do argumento.

Exemplo 2
Se Deus existe, a vida faz sentido
A vida faz sentido
Logo, Deus existe

Que dizer deste argumento? Em princípio um crente aceitará a primeira premissa, mesmo que não seja estritamente necessário que a aceite para justificar a sua crença. Será o argumento dedutivamente válido? Tudo o que há a fazer é inspecionar as circunstâncias em que ocorre verdade e falsidade nas premissas do argumento. Temos de testar pelo inspetor todas as circunstâncias possíveis.

Utilizando o dicionário, obtemos:
Deus existe – p
A vida faz sentido – q
(O dicionário consiste em traduzir cada uma das diferentes proposições que compõem o argumento em variáveis proposicionais, normalmente expressas em
p, q, r.)

De seguida, formalizamos o argumento:
Se p então q
q
Logo, p

O argumento na tabela, se usarmos corretamente simbologia lógica convencionada, deverá constar assim:
p → q, q ╞ p

(O símbolo   significa “logo”, é indicador de conclusão e designa-se martelo semântico.)

Para p e q existem quatro variações de verdade. Ou ambos são falsos, ou ambos são verdadeiros. Ou p é verdadeiro e qfalso, ou o contrário. Existem mais? Não.

Fazemos então uma tabela onde dispomos estas variações:
Verdade para p e verdade para q
1.ª premissa
2.ª premissa
Conclusão



p q
Se p então q
q
Logo, p
1.ª circunstância
2.ª circunstância
3.ª circunstância
4.ª circunstância
V V
V F
F V
F F
V
F
V
V
V
F
V
F
V
V
F
F

O que é que observamos no inspetor? Chama-se inspetor de circunstâncias, já que a tarefa é mesmo a de inspecionar no argumento o que acontece no caso de verdade ou no caso de falsidade. Assim, na primeira circunstância, em que p é verdadeiro e q é verdadeiro, a primeira premissa é verdadeira, a segunda também e a conclusão também. Ou seja, passa o teste da validade. Lemos então assim: se for verdade que Deus existe e se for verdade que a vida faz sentido, então também é verdade que Deus existe na conclusão e o argumento é dedutivamente válido.

Se olharmos para a 3.ª circunstância, o que é que acontece? Se for falso que Deus existe (p) mas verdadeiro que a vida tem sentido (q); e se afirmarmos na premissa a consequente (q) e na conclusão a antecedente (p), então, as premissas do argumento são ambas verdadeiras e a conclusão falsa.

Ora, se atendermos à regra da validade dedutiva, verificamos que esta é violada.

Falta ainda explicar um passo. Como é que sabemos os valores de verdade nas colunas das premissas e conclusão? Pelas regras simples da lógica proposicional. P e q isoladamente são proposições simples (melhor, são classes vazias que representam simbolicamente classes vazias de coisas ou estados do mundo). P e podem ser conectados logicamente. Há quatro modos principais de conectar proposições simples, tornando-as compostas: a condicional, a bicondicional, a conjunção e a disjunção. E também podemos negar as proposições (simples ou compostas), mas isso não irei adiantar para já, uma vez que o que pretendo mostrar é a utilidade dos inspetores.

Exemplos de proposições compostas:
Condicional
Bicondicional
Conjunção
Disjunção
Se Deus existe, a vida faz sentido
Deus existe se e somente se a vida faz sentido
Deus existe e a vida faz sentido
Deus existe ou a vida faz sentido

As frases apresentadas nesta grelha são modelos, pois depende muito de como falamos ou como escrevemos quando filosofamos. Tudo o que há a fazer é estudar pacientemente modelos mais típicos de apresentação das proposições na linguagem natural.

Conclusão: os inspetores são uma boa ferramenta para avaliar muitos argumentos. E se for ensinada de início, pode-se recorrer a esta ferramenta todo o ano. Isto se o manual que usamos a aplicar também.
Escreverei mais adiante um post a explicar modos eficazes de trabalhar com proposições. 



sábado, 17 de outubro de 2015

Validade, solidez e cogência



Argumentamos para resolver problemas insuscetíveis de serem resolvidos empiricamente. Por essa razão a argumentação é central quando estudamos filosofia. Os bons argumentos reúnem 3 condições principais:
São válidos: se um argumento é válido isso significa que numa circunstância de verdade em que as premissas são todas verdadeiras, é impossível a conclusão ser falsa. Pode-se também dizer que a verdade da conclusão num argumento válido, implica a verdade da ou das premissas (um argumento pode ter uma ou mais premissas, mas só uma conclusão).
São sólidos: não queremos saber de falsidades, mas de verdades. A validade diz respeito à estrutura lógica do argumento. Assim, para um argumento ser bom, obviamente além de válido, convém que efetivamente as premissas sejam verdadeiras (e, por consequência, dado que é válido, a conclusão também). Chama-se sólido a um argumento válido com premissas verdadeiras.
São cogentes: Não basta que um argumento para ser bom seja sólido. É necessário que as premissas sejam mais credíveis (também se diz aceitáveis) que a própria conclusão. Quem aceita as premissas de um argumento sólido (e, claro, válido) aceita a conclusão. É a este efeito que se chama persuasão racional ou também honestidade intelectual.
Nota final
Obviamente os argumentos cogentes são muito difíceis de encontrar. Um argumento não é na maioria das vezes por si só, isoladamente, cogente. Isto acontece porque nos argumentos filosóficos raramente sabemos se as premissas são efetivamente verdadeiras ou falsas. É por isso que filosofamos. Filosofar é, neste sentido, encadear outros argumentos que justifiquem premissas. Podemos escrever um livro inteiro a justificar a verdade de uma premissa com recurso a argumentos. E por isso é que a filosofia é para muitas pessoas difícil, pois temos de seguir atentamente esse encadeamento de argumentos como se seguíssemos a construção de um puzzle. No caso da filosofia o puzzle é mental, já que as peças são as partes de um todo que é um raciocínio encadeado com outros raciocínios. 
Um pequeno exemplo
Assistimos hoje em dia a inúmeras discussões sobre a moralidade das touradas. Ocorre ocasionalmente o seguinte argumento:
“Os animais não humanos não têm quaisquer direitos morais, pois também não têm deveres. E só tem direitos quem tem deveres. Como os animais não têm deveres, logo, não têm direitos
Podemos recorrer a um argumento válido, sólido e cogente para refutar este argumento:
(P1) Se só possuísse direitos morais quem tem deveres morais, então os bebés não teriam direitos, pois não têm quaisquer deveres.
(P2) Ora, os bebés possuem direitos, mas não têm deveres morais
(c) Logo, é falso que só possui direitos quem tem deveres.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Indução, causalidade e os ovos de Hume




MULHER: Doutor, doutor. Tem de me ajudar. O meu marido pensa que é uma galinha.
MÉDICO: Isso é terrível. Há quanto tempo é que ele pensa desse modo?
MULHER: Que me lembre, sempre pensou.
 MÉDICO: Então, por que não veio ter comigo mais cedo?
 MULHER: Eu teria vindo, mas precisávamos dos ovos. 

 Se o médico respondesse que também precisava ovos, estaríamos perante algo análogo ao problema da indução.

 MULHER: Professor, professor. Tem de me ajudar. O meu marido usa um argumento indutivo para justificar o uso de argumentos indutivos.PROFESSOR HUME: Isso é terrível. Há quanto tempo é que ele age desse modo? MULHER: Que me lembre, sempre agiu.
HUME: Então, por que não veio ter comigo mais cedo?  MULHER: Eu teria vindo, mas precisávamos (das conclusões) dos argumentos indutivos.  HUME: Creio que também eu preciso deles. 

 John Allen Paulos, Penso, logo rio, Ed. Inquérito, 1988, Trad. Luís Serrão, p.71

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A razão dos argumentos

                                                                    (Foto de Rolando Almeida, at.Escola Jaime Moniz, Funchal)

Por que razão argumentamos? A resposta é que os argumentos são uma técnica para defender teorias. Raciocinar é uma condição necessária para argumentar, mas nem sempre um raciocínio é um argumento, pois podemos raciocinar sem querer convencer alguém de uma teoria. Quando usamos um argumento queremos dar razões para alguém aceitar a nossa tese.
A filosofia é um saber a priori. Significa isso que não recorre à experiência para testar teorias. As teorias testam-se com argumentos. E como na filosofia a experiência não constitui prova de fogo, então é natural que os filósofos disputem constantemente as conclusões das suas teorias.
Há quem pense que estar sempre em desacordo não é lá uma grande vantagem. Bem pelo contrário. Questionar permanentemente as teorias uns dos outros traz grandes benefícios aos seres humanos. Sem esta capacidade crítica (de permanente questionar), a evolução do pensamento seria muito mais difícil, ou pelo menos imaginamos que sim, pois não estamos de momento a ver como evoluiria o pensamento, a ciência e todo o conhecimento sem esta capacidade em permanente exercício.
Por outro lado, é claro que estar sempre a levantar problemas parece uma grande chatice, pois, tal como na vida, gostamos sempre mais de regressar ao nosso lugar de conforto, ao mais fácil e óbvio da vida. Neste aspeto estudar filosofia não nos dá paz. Não! Estudar filosofia não é violento. Não é nada disso que queria dizer. O que quis dizer é que estudar filosofia não é estudar teorias perfeitas e acabadas, mas antes colocar-nos numa situação de perplexidade (ficarmos sem resposta) perante os problemas. Mas é isto que torna esta disciplina tão fascinante, senão pensem: se estamos perante problemas sem solução, por que não tentarmos nós mesmo resolvê-los?
Duas conclusões:
1ª a filosofia não se estuda os outros (filósofos) para bilhardar* o que eles pensam, mas antes para discutir o que eles pensam.
2º Para conseguir o expresso na linha anterior, temos de dominar bem a argumentação.



*termo muito usado na ilha da Madeira e que significa Cuscar. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Como é que ensinamos a lógica informal no Como Pensar Tudo Isto?



Este é o resultado da nossa proposta para ensinar lógica informal no nosso manual. Só nos resta esperar após este esforço que vá de encontro às necessidades tanto de alunos como de professores pois esse foi sempre o nosso foco. Ver AQUI


quarta-feira, 26 de março de 2014

Como Pensar Tudo Isto? Novo manual para o 11º ano

Apresentamos a capa do manual de Filosofia para o 11º ano que preparamos para ensinar filosofia, para alunos e professores. Vamos dando conta do que temos em termos de conteúdo. Numa primeira abordagem pública da face do manual, procuramos ser informais, mas sérios e ir ao encontro dos alunos, mas também dos professores. Esperamos que seja do vosso agrado e estamos convencidos que sim, até porque as nossas decisões são o produto da colaboração de muitos professores. Mais informações na nossa edição on line: CLICAR AQUI.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Sobre o ensino da lógica e ensino da filosofia

Apesar de antigo, esta introdução de Salmon esclarece muitas dúvidas quanto ao papel da lógica no ensino da Filosofia. Vale a pena ler este pequeno texto que recolhi do livro, principalmente para ajudar a compreender o falso estigma de que não se pode reduzir o ensino da Filosofia ao ensino da lógica. Acrecento que não se deve reduzir o ensino da Filosofia a um complete desprezo pelo ensino e prática da lógica.


Deve estar evidente, agora, que, a Lógica não visa descrever os modos de pensar. Mas seria sua tarefa o estabelecimento de regras segundo as quais se deveria pensar? A Lógica não nos oferece um conjunto de regras para guiar-nos ao raciocinar, ao resolver problemas e ao obter conclusões? A Lógica não nos indica os passos a dar ao inferir? A resposta afirmativa a tais questões é muito comum. Diz-se, mesmo, que as pessoas de raciocínio eficaz possuem um "espírito lógico" e que raciocinam "logicamente".

Sherlock Holmes é um bom exemplo de pessoa com so­berbos podêres de raciocínio. Sua habilidade ao inferir e chegar a conclusões é notável. Não obstante, a sua habilidade não depende da utilização de um conjunto de regras que norteiam o seu pensamento. Holmes é muito mais capaz de fazer inferên­cias do que o seu amigo Watson. Holmes está disposto a transmitir seus métodos ao amigo, e Watson é um homem inte­ligente. Infelizmente, contudo, não há regras que Holmes possa transmitir a Watson capacitando-o a realizar os mesmos feitos do detetive. As habilidades de Holmes defluem de fatôres como a sua aguda curiosidade, a sua grande inteligência, a sua fértil imaginação, seus podêres de percepção, a grande massa de infor­mações acumulada e a sua extrema sagacidade. Nenhurn con­junto de regras pode substituir essas capacidades.
Se existissem regras para inferir, elas seriam regras para descobrir. Na realidade, o pensamento efetivo exige um constante jôgo de imaginação e de pensamento. Prender-se a regras rígidas ou a métodos bem delineados equivale a bloquear o pensamento. As idéias mais frutíferas são, com freqüência, justamente aquelas que as regras seriam incapazes de sugerir. É claro que as pessoas podem melhorar as suas capacidades de raciocínio pela educação, através da prática, mediante um treinamento intensivo; isso tudo, porém, está longe de ser equivalente à adoção de um conjunto de regras de pensamento. Seja como fôr, ao discutirmos as específicas regras da Lógica veremos que elas não poderiam ser encaradas como adequados métodos de pensar. As regras da Lógica, se fossem aceitas como orientadoras dos modos de pensar, transforrnar-se-iam numa verdadeira camisa-de-fôrça.
O que acabamos de dizer pode causar certo desapontamento.
Frisamos, de modo enfático, o lado negativo, esclarecendo aquilo que a Lógica não pode fazer. A Lógica não nos dá uma descri­ção dos reais processos de pensamento - êsses problemas pertencem ao domínio da Psicologia. A Lógica não nos dá regras para inferir - essas questões cabem no âmbito da desco­berta. Mas, então, para que serve a Lógica? A Lógica oferece­nos métodos de crítica para avaliação coerente das inferências. E nesse sentido, talvez, que a Lógica está qualificada para dizer-nos de que modo deveríamos pensar. Completada uma inferência, é possível transformá-la num argumento, e a Lógica pode ser utilizada a fim de determinar se o argumento é correto ou não. A Lógica não nos ensina como inferir; indica-nos, porém, que inferências podemos aceitar. Procede ilogicamente a pessoa que aceita inferências incorretas.
Para poder apreciar o valor dos métodos lógicos, é preciso ter esperanças realistas quanto ao seu uso. Quem espera que um martelo possa efetuar o trabalho de uma chave de fenda está fadado a sofrer grandes desilusões; quem sabe servir-se de um martelo conhece a sua utilidade. A Lógica interessa-se pela justificação, não pela descoberta. A Lógica fornece métodos para a análise do discurso, e essa análise é indispensável para exprimir de modo inteligível o pensamento e para a boa compre­ensão daquilo que se comunica e se aprende.
Wesley C. Salmon, Lógica, Zahar Editores, 1971, Trad. L. Hegenberg e O. Mota, pp.28,29

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Entrevistamos Harry Gensler

O meu colega de projeto, Domingos Faria, entrevistou o filósofo Harry Gensler sobre o ensino da lógica e a sua importância para o ensino da filosofia. A entrevista pode ser lida AQUI.




Harry Gensler é um filósofo contemporâneo especialista sobretudo em lógica, ética e filosofia da religião. Ensina lógica há mais de três décadas, tendo inventado um método muito simples para testar a validade silogística (o teste estrela), bem como concebeu um método bastante acessível para se fazerem derivações que funciona em lógica proposicional, de predicados, modal, deôntica, epistémica, etc. Além disso, desenvolveu um programa de computador muito popular para se aprender lógica chamado LogiCola

Entre os seus principais livros, podemos encontrar:
The A to Z of Logic (2010)
Introduction to Logic (2010)
Ethics: A Contemporary Introduction (2011)
Ethics and the Golden Rule (2013)


Devido à sua experiência em lógica, decidimos falar com este filósofo para nos esclarecer sobre alguns pormenores no ensino da lógica no Ensino Secundário.