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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Kant e S Valentim

Ontem passou o dia de S.Valentim e muitos alunos e alunas estavam entusiasmados com a ideia de dar prendas aos seus namorados e namoradas. Inspirado no livro organizado por Alexander George, Que Diria Sócrates? (Gradiva) e dado que andamos a estudar e analisar a teoria de Kant sobre o que é ter uma vida boa, vou deixar aqui um problema:

“Vamos imaginar que um rapaz ama muito a sua namorada e não quer magoá-la. Vamos imaginar também que ele pode traí-la e tem 100% certeza que ela jamais saberá, logo nunca ficará magoada”.


Ainda assim será que é moralmente errado fazê-lo? Como é que Kant responderia a esta questão? E que razões apresenta Kant para a sua resposta?  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O que andamos a estudar?

Além dos habituais testes de conhecimentos, estamos nesta altura do ano a estudar duas teorias morais objetivistas, a deontológica de Kant e a consequencialista de Mill. Já sabemos que a primeira é deontológica pois é uma ética baseada nos princípios racionais, ao passo que a de Mill é baseada nas consequências da ação. Qualquer uma destas teorias procura responder ao problema de saber o que é uma ação moralmente correta. Inicialmente este é um problema embaraçoso, pois, ao contrário da novidade dos problemas que estudas nas disciplinas, saber o que é uma ação correta não é um problema novo para a maioria de nós. E é embaraçoso pois também achamos que até já temos boas respostas a esta questão. Na verdade talvez as nossas respostas contenham alguns problemas se pensarmos um pouco atentamente nelas. As nossas respostas mais imediatas a estes problemas envolvem contradições, já que em algumas alturas defendemos a posição X para logo numa outra altura, com as mesmas condições, defendermos a posição Y. (o dilema do elétrico é isso mesmo que nos mostra). Isto acontece porque provavelmente nunca pensamos seriamente no assunto. Pensar seriamente é pensar de modo sistemático e é aqui que a filosofia entra e as teorias podem ajudar a compreender melhor os problemas. Não é de esperar que as teorias nos resolvam os problemas mais quotidianos, do mesmo modo que aprender um teorema matemático não nos ajuda a lavar melhor a roupa ou aquecer o jantar. Mas em certo sentido é verdade que as teorias de muitos problemas tratados pelos filósofos dizem respeito aos problemas mais elementares e básicos da vida humana, como é este o de saber o que é certo e errado. Todas as áreas de atividade humanas procuram dar resposta a este problema, o de saber o que é o certo e o errado. As religiões são respostas de acordo com aquilo que Deus determina como sendo a ação certa e a ação errada. Os cientistas estão convencidos que algum dia vão encontrar no cérebro a localização exata que nos faz diferenciar o certo do errado. Os antropólogos procuram as respostas nas raízes etnográficas de um povo. E os filósofos procuram dar resposta ao problema com razões e argumentos. Portanto, ter a oportunidade de ouvir o que dizem os filósofos e discutir o que eles defendem é também a oportunidade de irmos um pouco além das nossas crenças.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mais um TPC

Recentemente leste na aula o texto sobre o caso da tortura. Resumidamente o caso colocava-se nestes termos: ou o Matos torturava o filho inocente de um terrorista para que o terrorista desse informações sobre uma bomba que iria matar centenas de pessoas, ou então não torturava o filho inocente e deixava que a bomba rebentasse matando centenas de vidas inocentes. Nas aulas tiramos duas conclusões: alguns alunos defenderam que o Matos não devia torturar (posição A) e outros que o Matos devia torturar (Posição B). Quando questionamos uns e outros concluímos que os que defendiam a posição A, invocavam como critério para a sua opção os princípios, ao passo que os que invocaram a posição B invocaram as consequências.
O que te proponho é que realizes um pequeno trabalho em que mostres por que razão não optaste por A ou B, isto é, que reveles quais as objecções que podem ser feitas a cada uma das posições morais.

Como começas já a ver esta é a oposição entre éticas deontológicas e éticas consequencialistas, duas respostas ao problema da fundamentação da moralidade, duas respostas objectivistas, claro. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Relativismo Cultural



          “Culturas diferentes têm códigos morais diferentes”- pareceu a muitos pensadores ser a chave para compreender a moralidade. A ideia de verdade universal em ética, afirmam, é um mito. Tudo quanto existe são os costumes de sociedades diferentes. Não se pode dizer que estes costumes estão “correctos” ou “incorrectos”, pois isso implicaria ter um padrão independente decerto e errado pelo qual poderíamos julgá-los. Mas tal padrão não existe; todos os padrões são determinados por uma cultura. (…) O relativismo cultural, como tem sido chamado, desafia nossa crença habitual na objectividade e universalidade da verdade moral. Afirma, com efeito, que não existe verdade universal em ética; existem apenas os vários códigos morais e nada mais.
            (…) À primeira vista (o relativismo moral) parece bastante plausível No entanto, como todas as teorias do género, pode ser avaliado mediante análise racional; e quando analisamos o relativismo cultural, descobrimos que não é tão plausível como inicialmente parecia ser.
            (…)”A noção de certo está nos hábitos da população. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Suponha que tomávamos isto a sério. Quais seriam algumas das consequências?
            1.Deixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos. Isto é claro, é um dos principais aspectos sublinhados pelo relativismo cultural. (…) O relativismo cultural iria impedir-nos de dizer que qualquer destas práticas estava errada. (Nem sequer poderíamos dizer que uma sociedade tolerante em ralação aos judeus é melhor que uma sociedade anti-semita, pois isso implicaria um tipo qualquer de padrão transcultural de comparação).
            2. Poderíamos decidir se as acções são certas ou erradas pela simples consulta dos padrões da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural não se limita a impedir-nos de criticar os códigos de outras sociedades; não nos permite igualmente criticar a nossa. Afinal de contas, se certo e errado são relativos à cultura, isto tem de ser verdade tanto relativamente à nossa própria cultura como relativamente às outras.
            3. A ideia de progresso moral é posta em dúvida. Pensamos habitualmente que pelo menos algumas das mudanças sociais são melhorias. (…) Ao longo da maior parte da história ocidental o lugar das mulheres na sociedade esteve severamente circunscrito. (…) Recentemente, muitas destas coisas mudaram, e a maioria das pessoas pensa que isto é um progresso. Mas se o relativismo cultural estiver correcto, poderemos legitimamente pensar que é um progresso? Progresso significa substituir uma maneira de fazer as coisas por uma maneira melhor. Mas qual é o padrão pelo qual avaliamos estas novas maneiras como melhores? Se as velhas maneiras estavam de acordo com os padrões culturais do seu tempo, então o relativismo cultural diria que é um erro julgá-las pelos padrões de uma época diferente.
            (…) Estas três consequências do relativismo cultural levaram muitos pensadores a rejeitá-lo frontalmente como implausível. Faz realmente sentido, afirmam, condenar certas práticas, como a escravatura, onde quer que ocorram. Faz sentido pensar que a nossa própria sociedade fez algum progresso cultural, embora deva admitir-se, simultaneamente, que é ainda imperfeita e necessita de reformas. Uma vez que o relativismo cultural supõe que estes juízos não fazem sentido, não pode estar correcto.
            (…) O ímpeto original do relativismo cultural resulta da observação de que as culturas diferem de forma dramática nas suas perspectivas do que é certo ou errado. Mas até que ponto diferem realmente? É evidente que há diferenças (…) mas quando examinamos o que parece ser uma diferença drástica, descobrimos com frequência que as culturas não diferem tanto quanto parece.
           


Imagine-se uma cultura na qual as pessoas acreditam ser errado comer vacas. Pode até ser uma cultura pobre, na qual não há comida suficiente; mesmo assim, as vacas são intocáveis. Tal sociedade pareceria ter valores muito diferentes dos nossos. Mas será que tem? Ainda não perguntámos a razão pela qual estas pessoas se recusam a comer vacas. Suponha-se que é por acreditarem que depois da morte as almas dos seres humanos habitam os carpos dos animais, especialmente das vacas, podendo uma vaca ser a alma da avó de alguém. Vamos continuar a dizer que os valores deles são diferentes dos nossos? Não; a diferença está noutro lado. A diferença reside nos nossos sistemas de crenças, e não nos nossos valores. Concordamos que não devemos comer a nossa avó; limitamo-nos a discordar sobre se a vaca é (ou poderia ser) a nossa avó. (…) Não podemos, portanto, concluir que há um desacordo quanto aos valores, só porque os costumes diferem. Pode, pois, haver, menos desacordo quanto aos valores do que parece.
            (…) Há valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria de uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de quês estaria a dizer a verdade, pois poderia facialmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (…) A comunicação seria então extremamente difícil, se não mesmo impossível. (…) Pode, naturalmente, haver excepções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão excepções a uma regra que está em vigor na sociedade.
            (…) Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas as sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. (…) É um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.
            (…) Tudo isto constitui, na verdade, uma completa rejeição da teoria. No entanto, continua a ser uma ideia muito sedutora (…), a teoria deve ter alguma coisa a seu favor, pois a não ser assim porque razão se tornaria tão influente? Penso que, na verdade há alguma coisa correcta no relativismo cultural, e quero agora passar a dizer o que é. Há duas lições que devemos aprender com a teoria, ainda que acabemos por rejeitá-la.
            Primeiro, o relativismo cultural alerta-nos, de maneira correcta, para os perigos de pressupor que todas as nossas preferências estão fundadas numa espécie de padrão racional absoluto. Não estão. Muitas das nossas práticas (mas não todas) são particularidades exclusivas da nossa sociedade. (…) O relativismo cultural começa com a preciosa observação de que muitas das nossas práticas são apenas isto; produtos culturais.
            (…) A segunda lição relaciona-se com a necessidade de manter o espírito aberto. No processo de crescimento, cada um de nós adquiriu algumas convicções fortes; (…) podemos, ocasionalmente, ver essas convicções postas á prova. (…) O relativismo cultural, ao sublinhar que as nossas perspectivas morais podem reflectir preconceitos da nossa sociedade, fornece um antídoto para este tipo de dogmatismo.
            (…) Perceber isto pode levar-nos a uma maior abertura de espírito. Podemos compreender que os nossos sentimentos não são necessariamente percepções da verdade – podem não ser mais do que o resultado do condicionamento cultural. (…) Podemos ficar mais abertos à descoberta da verdade, seja ela qual for.
RACHELS, James, Elementos de Filosofia Moral, pp.33-54




Questões:
1- Em que consiste a tese do relativismo cultural?
2- Que argumentos apresenta o autor contra o relativismo cultural?
3- Que pensa o autor sobre as diferenças culturais que sustentam a defesa do relativismo cultural?
4- O autor sugere que há possibilidade de encontrar valores transubjectivos?
5- Que aspectos positivos descobre o autor do texto no relativismo cultural? 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Filosofia e Natal

As aulas terminam na quarta feira. Até lá temos já prontas as avaliações e sobra pelo menos uma aula para cada turma, à exceção do 10º20 que terá ainda duas aulas. É natural que após resolvidas todas as avaliações os alunos estejam já cansados e pouco dispostos a explorar as matérias dos programas de ensino. Mas há muitas formas de se estimular os alunos para uma aula. Assim, após considerar alguns aspetos preparei deste modo a última aula do período:

1.      No 10º 20 como temos ainda duas aulas, vamos apresentar um diálogo, quase em forma de teatro, sobre o livre-arbítrio. É uma excelente forma de consolidar conhecimentos e ao mesmo tempo de oferecer uma aula diferente.

2.      Em todas as outras turmas, bem como a última aula do 10º20 vamos tentar responder a um problema que estará relacionado com as matérias que vamos discutir já em Janeiro. Vamos tentar investigar se é ou não é moralmente errado mentir às crianças sobre o pai natal. Certamente alguns alunos vão defender que sim e outros que não. O que queremos é saber se temos boas razões de um lado e de outro. Esta questão aparece num livro de filosofia de que já vos falei (e que um ou dois alunos até acabaram por comprar) e depois revelarei as respostas de 2 filósofos profissionais a esta pergunta. Para já vamos nós mesmos tentar responder.

3.      Se ainda sobrar tempo vou apresentar alguns tópicos de um livro de filosofia e natal (que deixo a imagem mais abaixo)

Finalmente, são vocês, alunos, que vão avaliar se gostaram ou não destas aulas.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Questões para as próximas aulas. Vamos investigar?

Como é normal, os alunos do secundário, durante a realização de um teste escrito deparam-se com muitas dificuldades filosóficas. Na turma 10º47, a Carina e a Margarida colocaram duas questões interessantes que serão motivo de investigação nas próximas aulas. Assim, preparem-se para estas perguntas:

- O que é um objeto? Um copo é um objeto? E um pensamento? E um valor? O que distingue o objeto copo do objeto valor, se é que há distinção?

- Será que precisamos de ver para acreditar que algo é verdadeiro?

E já sabem, nas próximas aulas vamos precisar muito de um equipamento que não pesa nada, as vossas cabeças a pensar? Ou será que o pensamento tem peso?


Divirtam-se. A pensar. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Argumentos a favor do libertismo

“O Libertismo é a perspetiva de que pelo menos algumas das nossas ações são livres porque não estão causalmente determinadas. Segundo esta teoria, as escolhas humanas não estão constrangidas da mesma forma que outros acontecimentos do mundo. Uma bola de bilhar, quando é atingida por outra bola de bilhar, tem de se mover numa certa direção a uma certa velocidade. Não tem escolha. As leis causais determinam rigorosamente o que irá acontecer. Contudo, uma decisão humana não é assim. Neste preciso momento, o leitor pode decidir continuar a ler ou parar de ler. Pode fazer qualquer uma destas coisas e nada o faz escolher uma delas [ou seja, nada o obriga a escolher uma delas]. (…)Esta forma de pensar foi defendida por diversos filósofos e propuseram-se vários argumentos a seu favor.O argumento da experiência. Podemos começar com a ideia de que sabemos que somos livres porque cada um de nós apercebe-se imediatamente de ser livre cada vez que faz uma escolha consciente. Pense novamente no que está a fazer neste momento: ler uma página que está diante de si. Pode continuar a ler ou parar de ler. O que irá fazer? Pense na sensação que tem agora, enquanto pondera estas opções. Não sente constrangimentos. Nada o impede de seguir numa direção nem o força a fazê-lo. A decisão é sua. A experiência de liberdade, poder-se-á dizer, é a melhor prova que podemos ter. (…)O argumento da responsabilidade. O pressuposto de que temos livre-arbítrio está profundamente enraizado nas nossas formas habituais de pensar. Ao reagir a outras pessoas, não conseguimos deixar de as ver como autoras das suas ações. Consideramo-las responsáveis, censurando-as caso se tenham comportado mal e admirando-as caso se tenham comportado bem. Para que estas reações estejam justificadas, parece necessário que as pessoas tenham livre-arbítrio.Outros sentimentos humanos importantes também pressupõem o livre-arbítrio. Alguém que conquista uma vitória ou tem sucesso num exame pode sentir-se orgulhoso, enquanto alguém que desiste ou faz batota pode sentir-se envergonhado. Porém, se as nossas ações se devem sempre a fatores que não controlamos, os sentimentos de orgulho e de vergonha são infundados. Estes sentimentos são uma parte inescapável da vida humana. Assim, mais uma vez, parece inescapável que nos concebamos como livres.”
James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.183-184 e 189-190.
No blog de Filosofia, Dúvida Metódica, os argumentos são formalizados deste modo:

Podemos resumir o argumento da experiência (por vezes designado argumento da introspecção) deste modo:

Se inúmeras pessoas têm a experiência ou sensação de ser livres, então a crença no livre-arbítrio é verdadeira.
Ora, inúmeras pessoas têm a experiência ou sensação de ser livres.
Logo, a crença no livre-arbítrio é verdadeira.

Podemos resumir o argumento da responsabilidade deste modo:

Se não existisse livre-arbítrio, então não teria sentido responsabilizar as pessoas.
Mas tem sentido responsabilizar as pessoas.
Logo, existe livre-arbítrio.



domingo, 24 de novembro de 2013

Dilema do Prisoneiro e egoísmo


Vamos imaginar que dois sujeitos, o Luís e o Aníbal são acusados injustamente de um crime grave. Um interrogador entra na cela do Luís e pede-lhe que confesse o crime. E diz que vai fazer o mesmo ao Aníbal.

Assim, há 4 resultados possíveis:

1.      Somente o Luís confessa o crime
2.      Somente o Aníbal confessa o crime
3.      Ambos confessam o crime
4.      Nenhum confessa o crime

Agora a proposta é a seguinte: Caso Luís confesse o crime (situação 1), o Luís sairá em liberdade e o Aníbal ficará preso 10 anos. Caso suceda a situação 2, acontece o inverso. Se suceder a situação 3 (ambos confessam), então ficarão ambos presos apenas 8 anos. Se suceder 4, isto é, se nenhum deles confessar, ambos continuarão presos apenas durante 6 meses.
Se analisares bem, claro que 4 é a melhor situação para ambos. Mas como é que Luís e Aníbal agiriam se fossem egoístas racionais? Acontece que se Luís for egoísta racional vai confessar o crime. E o mesmo sucede com Aníbal se for egoísta racional.
O que nos mostra esta experiência mental, é que em certas circunstâncias as pessoas retiram maiores benefícios se não agirem de acordo com o egoísmo racional.

(parte deste texto é inspirado na explicação do manual, Razões de Ser, Porto Ed)

sábado, 23 de novembro de 2013

Dilema do determinismo

Podemos afirmar que a teoria do determinismo começa com um dilema. Um dilema é quando estamos perante dois caminhos sem saber qual devemos escolher. O dilema do livre-arbítrio pode apresentar-se da seguinte forma:

Se o determinismo causal é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio.
Por outro lado, se o determinismo é falso, então as nossas ações são aleatórias, consequência do acaso.

Mas se as nossas ações são aleatórias, então, não resultam das nossas deliberações.
Logo, em qualquer dos casos, quer o determinismo seja verdadeiro, quer seja falso, parece que não temos livre-arbítrio.
E agora?

Agora resta-nos estudar as 3 respostas ao problema e analisá-las cuidadosamente. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dia Mundial da Filosofia


Determinado pela UNESCO, hoje comemora-se o dia mundial da filosofia. A filosofia é considerada por esta organização como património da humanidade. Mas o melhor que podemos fazer pelo património é preservá-lo. Só há uma forma de preservar este património, fazendo filosofia. Por essa razão deixo aqui uma questão para pensar:

Será que se existisse uma teoria sobre tudo, essa teoria poderia predizer as nossas ações e comportamentos e, nesse caso, não teríamos livre arbítrio?


Há uma resposta a este problema num livro de filosofia que levarei para as aulas e lerei a todos os alunos. 

Na nossa escola fizemos diversas atividades, nomeadamente o video que está a rodar com alguns livros de filosofia escolhidos pelos professores, assim como cartazes e placards com explicações de alguns problemas da filosofia. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Libertismo


Alguns alunos pensam que o libertismo defende que todas as ações são livres. Tal não é verdade. Senão vejamos: estudaste já que a negação de uma proposição tem de inverter o seu valor de verdade, ou seja, se a proposição a negar for falsa, a sua negação é verdadeira e se a proposição a negar for verdadeira, a proposição negada é falsa.
Agora vejamos o que defendem os deterministas radicais:
Todas as ações estão determinadas

Se negássemos esta afirmação por “Nenhumas ações estão determinadas”, é fácil de ver que ambas podem ser falsas ao mesmo tempo, pelo que a negação que os libertistas fazem do determinismo radical não pode ser “nenhumas ações são determinadas”, mas antes: “algumas ações não são determinadas”. E é exatamente isto que defendem os libertistas. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Determinismo radical no Sims

Na verdade nunca joguei o Sims, mas sabendo mais ou menos do que que se trata, fiz uma analogia na aula entre o determinismo radical e o jogo Sims. Se o determinismo radical for verdadeiro, comportamo-nos como se fossemos personagens do Sims que pensam que são livres, mas na verdade todas as suas ações estão causalmente determinadas. Claro que não devemos de todo levar esta analogia a sério, pois o determinismo que falamos no problema do livre arbítrio é a causalidade científica.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Peter Singer: O "porquê" e o "como" do altruísmo eficaz

Nas aulas falamos que uma das teorias que procuram explicar a motivação para a ação é o egoísmo psicológico. Duas objeções principais foram apontadas ao egoísmo, a primeira que refere que o prazer que obtemos de praticar determinadas ações é apenas o efeito e não a causa de uma ação. Outra das objeções são as ações que parecem ser verdadeiramente altruístas e não egoístas. Uma das boas formas de compreender o altruísmo é assistir a este pequena palestra do filósofo altruísta Peter Singer. Vale bem a pena.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Como fazer filosofia

Vale a pena ler o texto de Nigel Warburton que publicamos no nosso manual on-line. Nesse texto Warburton explica como se faz filosofia, em discussão e não somente a decorar as ideias dos filósofos. Vale a pena ler, pensar e aprender.




Fica o aperitivo:
A filosofia ocidental tem as suas origens na conversação, na discussão cara-a-cara sobre a realidade, o nosso lugar no cosmos e sobre como devemos viver. Começou com um sentimento de mistério, espanto e confusão e com o poderoso desejo de alcançar além das meras aparências para descobrir a verdade ou, se não isso, pelo menos algum tipo de sabedoria ou equilíbrio.

Somos responsáveis pelo que fazemos?

Fica aqui a apresentação que serviu de mote a uma das nossas aulas sobre o livre arbítrio. Trata-se de uma inspiração do filósofo inglês Julian Baggini


Peter van Inwagen sobre o problema do livre arbítrio

Vale a pena ver este vídeo do filósofo Peter Van Inwagen sobre o problema do livre arbítrio. Vimos em algumas aulas este vídeo. A entrevista foi feita pelo professor Aires Almeida.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Crença, o que significa em filosofia?

No sentido comum crença significa a pressuposição que algum deus existe ou não. Dizemos: “acredito em Deus” ou “não acredito em Deus”.
Em sentido filosófico, crença implica a atitude proposicional perante o mundo, isto é, a expressão por proposições do que acreditamos sobre o mundo. Expressões como as seguintes expressam crenças:

O planeta terra é redondo
Existem unicórnios
A aula de filosofia é na sala A
Paris é a capital de França
Funchal é a capital da ilha da Madeira

As crenças são expressas em proposições, razão pela qual dizemos que afirmar “Funchal é a capital da ilha da Madeira” é uma proposição verdadeira ou falsa. Não esqueçamos que uma proposição é o conteúdo do que pensamos e que expressamos numa frase declarativa com sentido e tem valor de verdade (pode ser verdadeira ou falsa).

Compreender o que é uma crença é relevante pois é a primeira condição para que haja conhecimento, isto é, para que possamos afirmar que sabemos algo. Claro que a crença, para ser conhecimento, tem de ser verdadeira e precisa de ser justificada, mas sem crença não há, sequer, conhecimento.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Clorofila e resultados dos testes de filosofia

Nesta semana entreguei e fizemos a correção do primeiro teste de filosofia. Alguns alunos deslizaram e não conseguiram classificações positivas. O objetivo é que todos alcancem resultados positivos. Assim, funciona como uma ida ao médico. Quando estamos doentes vamos ao médico. Perante os sintomas o médico diagnostica a doença e aposta numa receita. A aposta da receita é o resultado do conhecimento do médico. E a receita nem sempre resulta. Mas nenhum médico deixa o paciente sem receita. Analogamente o professor tem de passar uma receita para alcançar o êxito. Há múltiplos fatores que concorrem para o resultado num teste, incluindo o fator sorte. Mas mesmo na invariabilidade toda, há alguns pontos que são seguros. Assim, estar atento nas aulas e participar ativamente nas mesmas, bem como ler e estudar são pontos mais seguros do que confiar na sorte cega. Certamente nenhum aluno consegue alcançar classificações altas confiando apenas na sorte.
Nas aulas tracei três pontos que devem ser seguidos por todos alunos para alcançar o êxito. Os dois primeiros são fáceis de conseguir e o último é o mais complicado. Os primeiros são:
1)      Atenção nas aulas
2)      Dedicar pelo menos uma hora de estudo por semana à disciplina
O último é o tal mais complicado:
3)      Mudar a nossa atitude perante o mundo e a própria vida
O ponto 3) é o mais difícil porque o mais certo é que vai chocar com as nossas crenças mais básicas que adquirimos ao longo da nossa vida. O exemplo que dei nas aulas é o que a seguir sintetizo.
Vamos supor que a Joana está no café a beber uma chávena de chá. De repente e sem intenção esbarra com um movimento do braço na chávena e ela cai da mesa e parte. O problema da Joana passa a ser a chávena partida e a chatice de ter de pagar outro chá. Se a Joana mudar o foco da suas crenças pode fazer uma questão mais elaborada: mas por que raio a chávena caiu para o chão? Afinal, porque caem os objetos sempre na direção do chão? Se a Joana quiser a resposta a este problema pode começar a estudar um pouco mais de física, conhecer Newton e saber como funciona a gravidade. E o mesmo acontece com a filosofia. O luís deu um pontapé ao João. O Francisco acha que o Luís fez justiça e a Maria acha que não. E discutem entre si as razões que cada um apresenta para conceber se o Luís foi justo ou não. Mas se quer o Francisco, quer a Maria forem curiosos, vão querer saber o que é que fundamenta as suas razões, isto é, vão querer saber o que é a justiça. E para saber isso vão estudar filosofia. É por isso que o terceiro ponto é o mais complicado, pois exige uma mudança do nosso comportamento no modo como olhamos para o mundo e confiamos nas nossas crenças.
Todos nós possuímos crenças em relação aos problemas básicos, mas nem todos temos curiosidade para ir mais além. Quando vamos mais além, somos movidos pela chave do sucesso, a saber, a paixão que nos move em direção ao conhecimento e à filosofia.

Uma boa estratégia para passar a investigar as questões básicas filosofando é recordarmos as perguntas que fazíamos quando fomos crianças. O exemplo que vos dei foi a pergunta do João Francisco, o meu filho, de 5 anos, quando ainda ontem me perguntou: “pai, por que é que as plantas precisam de água?”. Esta é uma questão científica, mas não tarda nada e o João vai fazer questões filosóficas. Todas as pessoas fazem. Mas nem todas são levadas pelo impulso da curiosidade. Saber o que aconteceu à curiosidade, o que a matou, é já um outro problema. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O que vamos estudar? Filosofia da ação e livre arbítrio

Neste momento estudamos a ação. Não estamos propriamente a fazer filosofia da ação, mas antes a tentar arranjar uma boa definição de ação que nos permita avançar com alguma segurança para a discussão do problema seguinte, o problema do livre arbítrio.
Assim, começamos por distinguir ações de meros acontecimentos, mesmo que nos tenhamos deparado com algumas situações em que é difícil determinar se estamos perante uma ação ou perante um acontecimento.
De uma forma geral definimos ação como um acontecimento que um agente faz, com intenção. Para determinarmos como saber se uma ação é intencional estabelecemos que tem de obedecer pelo menos a uma descrição verdadeira, isto é, que possamos evidenciar pelo menos uma crença e um desejo de agir, se quisermos, temos de enunciar um motivo. Assim, sabemos que respirar não pode ser uma ação, mas estudar filosofia é uma ação.

Vamos então supor que a Maria está a tocar piano. É simples perceber que tocar piano, ou pelo menos colocar os dedos sobre o piano, é uma ação que a Maria realiza. Vamos imaginar ainda que a Maria acordou os vizinhos com o som produzido pelo seu piano. Será que a Maria praticou uma ou duas ações? O que pensas disto?


Definir a ação vai-nos permitir entrar no problema do livre arbítrio. Se o universo é fisicamente determinado, será que somos livres quando agimos, ou a nossa ação não passa de uma ilusão?
Vamos estudar três respostas a este problema, duas delas incompatibilistas (que defendem que o livre arbítrio é incompatível com o determinismo) e uma delas compatibilista (que defende que o livre arbítrio é compatível com o determinismo)

Incompatibilistas:

·         Determinismo radical
·         Libertismo

Compatibilistas:

·         Determinismo moderado


Estudaremos cada uma destas teorias nas aulas, bem como a sua discussão. 
O vídeo que te é proposto neste post é do filme The Matrix. Nele coloca-se uma situação interessante relacionada com o livre arbítrio. Se puderes ver o filme todo, é interessante. 

sábado, 2 de novembro de 2013

Então e a filosofia não depende da opinião de cada um?


Existe uma ideia que tem tanto de comum como de errada de que a filosofia não se define, pois depende da opinião de cada pessoa. Se o Asdrúbal passar uma rasteira ao Aníbal, algumas pessoas vão pensar que o Asdrúbal foi injusto com o Aníbal e outras vão ainda pensar que o Asdrúbal fez muito bem e foi muito justo, pois o Aníbal andava a merecê-las. Segue-se daí que não exista um conceito de justiça que esteja para além da opinião das pessoas? Claro que não.
Se alguém te dissesse que é cientista e tem uma opinião para resolver um problema, provavelmente acharias estranho, pois sabes bem que as teorias dos cientistas não resultam das opiniões pessoais dos cientistas, mas são o resultado da sua investigação sistemática e do seu estudo com a equipa de cientistas. E o mesmo acontece com a filosofia. O que os filósofos fazem é muito mais do que dar a sua opinião sobre um problema. O que eles fazem é tentar avançar teorias que resolvam problemas. Ora, isto é muitíssimo mais do que dar a sua opinião. Claro que muitas das teorias dos filósofos e dos cientistas para resolver problemas partem das suas próprias opiniões sobre os problemas. Mas fazer teorias é muito mais elaborado que dar opiniões. A diferença é que quase sempre damos opiniões sem estudar, mas não podemos fazer teorias minimamente aceitáveis sem estudar. É talvez por isso que, em ciência, por exemplo, se nos perguntam se deixarmos cair um livro e uma bola de papel ao mesmo tempo, qual é o que cai primeiro, dizemos que é o livro pois é mais pesado. Se fizermos a experiência, o que verificamos é que a nossa opinião estava errada. E o mesmo sucede na filosofia. Se nos perguntarem se os animais têm direitos como têm os seres humanos, dizemos que não. Mas se investigarmos um pouco, estudando cuidadosamente algumas teorias dos filósofos, começamos a pensar que a nossa opinião possa estar errada, pois há boas teorias que nos dão boas razões para pensar o contrário do que era a nossa opinião.
Desfazer esta confusão é essencial senão os alunos que iniciam o seu estudo de filosofia no 10º ano pensam que vão para as aulas apenas dar a sua opinião pessoal sobre os problemas.
A diferença principal que nos interessa aqui saber entre filosofia e ciência, é que ao passo que uma boa teoria em ciência gera consenso na comunidade de cientistas, isso é mais difícil acontecer na filosofia. Em regra temos várias teorias que se disputam entre si. Mas isto não acontece porque os filósofos sejam tipos teimosos e que lhes apetece passar o tempo a contradizer os outros filósofos. Isto acontece porque os problemas da filosofia são difíceis de resolver. É difícil saber, por exemplo, qual a coisa certa a fazer do ponto de vista moral, ou saber se é possível ter uma boa definição de arte, ou saber se os números possuem uma existência real como pensamos que possuem quase todos os outros objectos.
Isto por si só exige um estudo muito sério das teorias dos filósofos e ao mesmo tempo, devagar, começamos também nós próprios a tentar resolver esses problemas. Esta é a natureza da filosofia. Mas para a fazer é preciso muito mais do que nos sentar numa cadeira numa aula de filosofia e dizer a primeira coisa que nos apatece sobre os problemas. Para isso não precisávamos das aulas de filosofia, pois é isso mesmo que fazemos todos os dias na mesa do café com os amigos. Quando estamos a conversar passamos em revista muitos dos problemas da filosofia, isto porque eles são fundamentais para a vida dos seres humanos. Assim, damos opiniões sobre justiça e injustiça, o certo e o errado, o belo e o feio, a existência de divindades, etc. pelo contrário muito raramente falamos da lei da gravidade, ou da massa dos objectos, etc. isto porque a ciência anda à nossa volta, mas não são problemas que preocupem as pessoas no seu dia a dia. Talvez isso seja assim porque não sabemos fazer ciência. Mas sabemos mais ou menos argumentar. E por isso achamos que isso basta para fazer filosofia, como se saber fazer contas bastasse para fazer de nós matemáticos. Tal como em matemática é interessante fazermos exercícios, também o mesmo acontece na filosofia.
Em conclusão: é por isso que a definição de filosofia não depende da opinião de cada um, mas do estudo sistemático e atento da própria filosofia e das teorias dos filósofos. De resto, como aprendeste nas aulas de filosofia podemos não conseguir uma definição explícita (por meio de condições necessárias e suficientes) de filosofia, mas também não temos definições explícitas da maioria das coisas à nossa volta. Daí não se segue que:
a)      Não podemos definir implicitamente a filosofia, fazendo-a, por exemplo.
b)      Não a possamos caracterizar em 2 ou 3 minutos.

Segue-se daqui que é errado pressupor que a filosofia depende da opinião de cada um.